Part 10
O bonzo do meu escripto chama-se Pomada, e pomadistas os seus sectarios. _Pomada e pomadista_ são locuções familiares da nossa terra: é o nome local do charlatão e do charlatanismo.
FIM DO SEGREDO DO BONZO
O ANNEL DE POLYCRATES
A
Lá vai o Xavier.
Z
Conhece o Xavier?
A
Ha que annos! Era um nababo, rico, podre de rico, mas prodigo...
Z
Que rico? que prodigo?
A
Rico e prodigo, digo-lhe eu. Bebia perolas diluidas em nectar. Comia linguas de rouxinol. Nunca usou papel mata-borrão, por achal-o vulgar e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita de pó de diamante. E mulheres! Nem toda a pompa de Salomão póde dar idéa do que éra o Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha grega, a tez romana, a exhuberancia turca, todas as perfeições de uma raça, todas as prendas de um clima, tudo era admittido no harem do Xavier. Um dia enamorou-se loucamente de uma senhora de alto cothurno, e enviou-lhe de mimo tres estrellas do Cruzeiro, que então contava sete, e não pense que o portador foi ahi qualquer pé rapado. Não, senhor. O portador foi um dos archanjos de Milton, que o Xavier chamou na occasião em que elle cortava o azul para levar a admiração dos homens ao seu velho pai inglez. Era assim o Xavier. Capeava os cigarros com um papel de crystal, obra finissima, e, para accendel-os, trazia comsigo uma caixinha de raios do sol. As colxas da cama eram nuvens purpureas, e assim tambem a esteira que forrava o sophá de repouso, a poltrona da secretaria e a rede. Sabe quem lhe fazia o café, de manhã? A Aurora, com aquelles mesmos dedos côr de rosa, que Homero lhe poz. Pobre Xavier! Tudo o que o capricho e a riqueza pódem dar, o raro, o exquisito, o maravilhoso, o indescriptivel, o inimaginavel, tudo teve e devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom coração. Ah! fortuna, fortuna! Onde estão agora as perolas, os diamantes, as estrellas, as nuvens purpureas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por agua abaixo; o nectar virou zurrapa, os cochins são a pedra dura da rua, não manda estrellas ás senhoras, nem tem archanjos ás suas ordens...
Z
Você está enganado. O Xavier? Esse Xavier, ha de ser outro. O Xavier nababo! Mas o Xavier que alli vai nunca teve mais de duzentos mil réis mensaes; é um homem poupado, sobrio, deita-se com as gallinhas, accorda com os gallos, e não escreve cartas a namoradas, porque não as tem. Se alguma expede aos amigos é pelo carreio. Não é mendigo, nunca foi nababo.
A
Creio; esse é o Xavier exterior. Mas nem só de pão vive o homem. Você falla de Martha, eu fallo-lhe de Maria; fallo do Xavier especulativo...
Z
Ah!--Mas ainda assim, não acho explicação; não me consta nada d'elle. Que livro, que poema, que quadro...
A
Desde quando o conhece?
Z
Ha uns quinze annos.
A
Upa! Conheço-o ha muito mais tempo, desde que elle estreou na rua do Ouvidor, em pleno marquez de Paraná. Era um endiabrado, um derramado, planeava todas as cousas possiveis, e até contrarias, um livro, um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma historia, um libello politico, uma viagem á Europa, outra ao sertão de Minas, outra á lua, em certo balão que inventara, uma candidatura politica, e archeologia, e philosophia, e theatro, etc., etc., etc. Era um sacco de espantos[1]. Quem conversava com elle sentia vertigens. Imagine uma cachoeira de idéas e imagens, qual mais original, qual mais bella, ás vezes extravagante, ás vezes sublime. Note que elle tinha a convicção dos seus mesmos inventos. Um dia, por exemplo, acordou com o plano de arrazar o morro do Castello, a troco das riquezas que os jesuitas alli deixaram, segundo o povo crê. Calculou-as logo em mil contos, inventariou-as com muito cuidado, separou o que era moeda, mil contos, do que eram obras de arte e pedrarias; descreveu minuciosamente os objectos, deu-me dous tocheiros de ouro.
Z
Realmente...
A
Ah! impagavel. Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do conego Benigno, e resolveu ir logo ao sertão da Bahia, procurar a cidade mysteriosa. Expoz-me o plano, descreveu-me a architectura provavel da cidade, os templos, os palacios, genero etrusco, os ritos, os vasos, as roupas, os costumes...
Z
Era então doudo?
A
Originalão apenas. Odeio os carneiros de Panurgio, dizia elle, citando Rabelais: _Comme vous sçaves estre du mouton le naturel, tousjours suivre le premier, quelque part qu'il aille._ Comparava a trivialidade a uma mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes comer um máu bife em mesa separada.
Z
Entretanto, gostava da sociedade.
A
Gostava da sociedade, mas não amava os socios. Um amigo nosso, o Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que é que elle respondeu? Respondeu com um apologo, em que cada socio figurava ser uma cuia d'agua, e a sociedade uma banheira.--Ora, eu não posso lavar-me em cuias d'agua, foi a sua conclusão.
Z
Nada modesto. Que lhe disse o Pires?
A
O Pires achou o apologo tão bonito que o metteu n'uma comedia, d'ahi a tempos. Engraçado é que o Xavier ouviu o apologo no theatro, e applaudiu-o muito, com enthusiasmo; esquecera-se da paternidade; mas a voz do sangue... Isto leva-me á explicação da actual miseria do Xavier.
Z
É verdade, não sei como se possa explicar que um nababo...
A
Explica-se facilmente. Elle espalhava idéas á direita e á esquerda, como o céu chove, por uma necessidade physica, e ainda por duas razões. A primeira é que era impaciente, não soffria a gestação indispensavel á obra escripta. A segunda é que varria com os olhos uma linha tão vasta de cousas, que mal poderia fixar-se em qualquer dellas. Se não tivesse o verbo fluente, morreria de congestão mental; a palavra era um derivativo. As paginas que então fallava, os capitulos que lhe borbotavam da bocca, só precisavam de uma arte de os imprimir no ar, e depois no papel, para serem paginas e capitulos excellentes, alguns admiraveis. Nem tudo era limpido; mas a porção limpida superava a porção turva, como a vigilia de Homero paga os seus cochillos. Espalhava tudo, ao acaso, ás mãos cheias, sem ver onde as sementes iam cahir; algumas pegavam logo...
Z
Como a das cuias.
A
Como a das cuias. Mas, o semeador tinha a paixão das cousas bellas, e, uma vez que a arvore fosse pomposa e verde, não lhe perguntava nunca pela semente sua mãe. Viveu assim longos annos, despendendo á tôa, sem calculo, sem fructo, de noite e de dia, na rua e em casa, um verdadeiro prodigo. Com tal regimen, que era a ausencia de regimen, não admira que ficasse pobre e miseravel. Meu amigo, a imaginação e o espirito têm limites; a não ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens, nada conheço inexgotavel debaixo do sol, O Xavier não só perdeu as idéas que tinha, mas até exhauriu a faculdade de as crear; ficou o que sabemos. Que moeda rara se lhe vê hoje nas mãos? que sestercio de Horacio? que drachma de Pericles? Nada. Gasta o seu logar-commum, rafado das mãos dos outros, come á mesa redonda, fez-se trival, chôcho...
Z
Cuia, emfim.
A
Justamente: cuia.
Z
Pois muito me conta. Não sabia nada disso. Fico inteirado; adeus.
A
Vai a negocio?
Z
Vou a um negocio.
A
Dá-me dez minutos?
Z
Dou-lhe quinze.
V
Quero referir-lhe a passagem mais interessante da vida do Xavier. Aceite o meu braço, e vamos andando. Vai para a Praça? Vamos juntos. Um caso interessantissimo. Foi alli por 1869 ou 70, não me recordo; elle mesmo é que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o cerebro gasto, chupado, esteril, sem a sombra de um conceito, de uma imagem, nada. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora,--«uma bonita rosa»; fallava do luar saudoso, do sacerdocio da imprensa, dos jantares opiparos, sem accrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa chaparia de algibebe. Começára a ficar hypocondriaco; e, um dia, estando á janella, triste, desabusado das cousas, vendo-se chegado a nada, aconteceu passar na rua um taful a cavallo. De repente, o cavallo corcoveou, e o taful veiu quasi ao chão; mas sustentou-se, e metteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, elle teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavallo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a arte do cavalleiro. Então o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavalleiro não tivesse animo nenhum; não quiz cahir diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavallo. E d'ahi veiu uma idéa: comparou a vida a um cavallo chucro ou manhoso; e accrescentou sentenciosamente: Quem não fôr cavalleiro, que o pareça. Realmente, não era uma idéa extraordinaria; mas a penuria do Xavier tocara a tal extremo, que esse crystal pareceu-lhe um diamante. Elle repetiu-a dez ou doze vezes, formulou-a de varios modos, ora na ordem natural, pondo primeiro a definição, depois o complemento; ora dando-lhe a marcha inversa, trocando palavras, medindo-as, etc.; e tão alegre, tão alegre como casa de pobre em dia de perú. De noite, sonhou que effectivamente montava um cavallo manhoso, que este pinoteava com elle e o sacudia a um brejo. Accordou triste; a manhã, que era de domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; metteu-se a lêr e a scismar. Então lembrou-se... Conhece o caso do annel de Polycrates?
Z
Francamente, não.
A
Nem eu; mas aqui vai o que me disse o Xavier. Potycrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que começou a receiar alguma viravolta da Fortuna, e, para applacal-a antecipadamente, determinou fazer um grande sacrificio: deitar ao mar o annel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna andava tão apostada em cumulal-o de obsequios, que o annel foi engulido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou á posse do annel. Não affirmo nada a respeito d'esta anedocta; foi elle quem me contou, citando Plinio, citando...
Z
Não ponha mais na carta. O Xavier naturalmente comparou a vida, não a um cavallo, mas...
A
Nada d'isso. Não é capaz de adivinhar o plano estrambotico do pobre diabo. Experimentemos a fortuna, disse elle; vejamos se a minha idéa, lançada ao mar, póde tornar ao meu poder, como o annel de Polycrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo será tal, que nunca mais lhe ponha a mão.
Z
Ora essa!
A
Não é estrambotico? Polycrates experimentára a felicidade; o Xavier quiz tentar o caiporismo; intenções diversas, acção indentica. Saiu de casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assumpto, e acabou dizendo o que era a vida, um cavallo chucro ou manhoso, e quem não fôr cavalleiro que o pareça. Dita assim, esta phrase era talvez fria; por isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o desconsolo dos annos, o mallogro dos esforços, ou antes os effeitos da imprevidencia, e quando o peixe ficou de bocca aberta, digo, quando a commoção do amigo chegou ao cume, foi que elle lhe atirou o annel, e fugiu a metter-se em casa. Isto que lhe conto é natural, crê-se, não é impossivel; mas agora começa a juntar-se á realidade uma alta dóse de imaginação. Seja o que fôr, repito o que elle me disse. Cerca de tres semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no _Leão de Ouro_ ou no _Globo_, não me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma phrase sua, talvez com a troca de um adjectivo. «Meu pobre annel, disse elle, eis-te emfim no peixe de Polycrates.» Mas a idéa bateu as azas e voou, sem que elle pudesse guardal-a na memoria. Resignou-se. Dias depois, foi convidado a um baile: era um antigo companheiro dos tempos de rapaz, que celebrava a sua recente distincção nobiliaria. O Xavier aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem que foi, porque entre o sorvete e o chá ouviu de um grupo de pessoas que louvavam a carreira de barão, a sua vida prospera, rigida, modelo, ouviu comparar o barão a um cavalleiro emerito. Pasmo dos ouvintes, porque o barão não montava a cavallo. Mas o panegyrista explicou que a vida não é mais do que um cavallo chucro ou manhoso, sobre o qual ou se ha de ser cavalleiro ou parecel-o, e o barão era-o excellente. «--Entra, meu querido annel, disse o Xavier, entra no dedo de Polycrates.» Mas de novo a idéa bateu as azas, sem querer ouvil-o. Dias depois...
Z
Adivinho o resto: uma serie de encontros e fugas do mesmo genero.
A
Justo.
Z
Mas, emfim, apanhou-o um dia.
A
Um dia só, e foi então que me contou o caso digno de memoria. Tão contente que elle estava n'esse dia! Jurou-me que ia escrever, a proposito d'isto, um conto fantastico, á maneira de Edgard Poe, uma pagina fulgurante, pontuada de mysterios,--são as suas proprias expressões;--e pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. Fui; o annel fugira-lhe outra vez. «Meu caro A, disse-me elle, com um sorriso fino e sarcastico; tens em mim o Polycrates do caiporismo; nomeio-te meu ministro honorario e gratuito.» D'ahi em diante foi sempre mesma coisa. Quando elle suppunha pôr a mão em cima da idéa, ella batia as azas, plas, plas, plas, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho. Outro peixe a engolia e trazia, e sempre o mesmo desenlace. Mas dos casos que elle me contou n'aquelle dia, quero dizer-lhe tres...
Z
Não posso; lá se vão os quinze minutos.
A
Conto-lhe só tres. Um dia, o Xavier chegou a crer que podia emfim agarrar a fugitiva, e fincal-a perpetuamente no cerebro. Abriu um jornal de opposição, e leu estupefacto estas palavras: «O ministerio parece ignorar que a politica é, como a vida, um cavallo chucro ou manhoso, e, não podendo ser bom cavalleiro, porque nunca o foi, devia ao menos parecer que o é.» Ah! emfim! exclamou o Xavier, cá estás engastado no bucho do peixe; já me não podes fugir.» Mas, em vão! a idéa fugia-lhe, sem deixar outro vestigio mais do que uma confusa reminiscencia. Sombrio, desesperado, começou a andar, a andar, até que a noite caiu; passando por um theatro, entrou; muita gente, muitas luzes, muita alegria; o coração aquietou-se-lhe. Cumulo de beneficios: era uma comedia do Pires, uma comedia nova. Sentou-se ao pé do autor, applaudiu a obra com enthusiasmo, com sincero amor de artista e de irmão. No segundo acto, scena VIII, estremeceu. «D. Eugenia, diz o galan a uma senhora, o cavallo póde ser comparado á vida, que é também um cavallo chucro ou manhoso; quem não for bom cavalleiro, deve cuidar de parecer que o é.» O autor, com o olhar timido, espiava no rosto do Xavier o effeito d'aquella reflexão, emquanto o Xavier repetia a mesma supplica das outras vezes;--«Meu querido annel...
Z
_Et nunc et semper..._ Venha o ultimo encontro, que são horas.
A
O ultimo foi primeiro. Já lhe disse que o Xavier transmittira a idéa a um amigo. Uma semana depois da comedia cae o amigo doente, com tal gravidade que em quatro dias estava á morte. O Xavier corre a vel-o; e o infeliz ainda o pôde conhecer, estender-lhe a mão fria e tremula, cravar-lhe um longo olhar baço da ultima hora, e, com a voz sumida, echo do sepulchro, soluçar-lhe: «Cá voou, meu caro Xavier, o cavallo chucro ou manhoso da vida deitou-me ao chão: se fui mau cavalleiro, não sei; mas forcejei por parecel-o bom.» Não se ria; elle contou-me isto com lagrimas. Contou-me tambem que a idéa ainda esvoaçou alguns minutos sobre o cadaver, faiscando as bellas azas de christal, que elle cria ser diamante; depois estalou um risinho de escarneo, ingrato e parricida, e fugiu como das outras vezes, mettendo-se no cerebro de alguns sujeitos, amigos da casa, que alli estavam, tranzidos de dor, e recolheram com saudade esse pio legado do defuncto. Adeus.
[1]Em algumas linhas escriptas para dar o ultimo adeus a Arthur de Oliveira, meu triste amigo, disse que era elle o original deste personagem. Menos a vaidade, que não tinha, e salvo alguns rasgos mais accentuados, este Xavier era o Arthur. Para completal-o darei aqui mesmo aquellas linhas impressas na _Estação_ de 31 de Agosto ultimo:
"Quem não tratou de perto este rapaz, morto a 21 do mez corrente, mal poderá entender a admiração e saudade que elle deixou.
"Conheci-o desde que chegou do Rio Grande do Sul, com dezesete ou dezoito annos de edade; e podem crer que era então o que foi aos trinta. Aos trinta lera muito, vivera muito; mas toda aquella pujança de espirito, todo esse raro temperamento litterario que lhe admiravamos, veiu com a flor da adolescencia; desabrochara com os primeiros dias. Era a mesma torrente de ideias, a mesma fulguração de imagens. Ha algumas semanas, em escripto que viu a luz na _Gazeta de Noticias_, defini a alma de um personagem com esta especie de hebraismo:--chamei-lhe um sacco de espantos. Esse personagem (posso agora dizel-o) era, em algumas partes, o nosso mesmo Arthur, com a sua poderosa loquella e extraordinaria fantazia. Um sacco de espantos. Mas, se o da minha invenção morreu exhausto de espirito, não aconteceu o mesmo a Arthur de Oliveira, que pôde alguma vez ficar prostrado, mas não exhauriu nunca a força genial que possuia.
"Um organismo daquelles era naturalmente irrequieto. Minas o viu, pouco depois, no collegio dos padres do Caráça, começando os estudos, que interrompeu logo, para continual-os na Europa. Na Europa travou relações litterarias de muito peso; Theophilo Gauthier, entre outros, queria-lhe muito, apreciava-lhe a alta comprehensao artistica, a natureza impetuosa e luminosa, os deslumbramentos subitos de raio. _Venez, père de la foudre!_ dizia-lhe elle, mal o Arthur assomava á porta. E o Arthur, assim definido familiarmente pelo grande artista, entrava no templo, palpitante da divindade, admirativo como tinha de ser até á morte. Sim, até á morte. Gauthier foi uma das religiões que o consolaram. Sete dias antes de o perdermos, isto é, a 14 deste mez, prostrado na cama, roido pelo dente cruel da tisica, escrevia-me elle a proposito de um prato do jantar. "O verde das couves espanejava-se em uma onda de pirão, cor de ouro. A palheta de Ruysdael, pelo incendido do ouro, não hesitaria um só instante, em assignar esse pirão _mirabolante_, como diria o grande e divino Theo..." Grande e divino! Vêde bem que esta admiração é de um moribundo, refere-se a um morto, e falla na intimidade da correspondencia particular. Onde outra mais sincera?
"Não escrevo uma biographia. A vida delle não é das que se escrevem; é das que são vividas, sentidas, amadas, sem jamais poderem converter-se á narração; tal qual os romances psychologicos, em que a urdidura dos factos é breve ou nenhuma. Ultimamente, exercia o professorado no Collegio de Pedro II; mas a doença tomou-o entre as suas tenazes, para não o deixar mais.
"Não o deixou mais: comeu-lhe a seiva toda; desfibrou-o com a paciencia dos grandes operarios. Elle, como vimos, prestes a tropeçar na cova, regalava-se ainda das reminiscencias litterarias, evocava a palheta de Ruysdael, olhando para a vida que lhe ia sobreviver, a vida da arte que elle amou com fé religiosa, sem proveito para si, sem calculo, sem odios, sem invejas, sem desfallecimento. A doença fel-o padecer muito; teve instantes de dôr cruel, não raro de desespero e de lagrimas; mas, em podendo, reagia. Encararia alguma vez o enigma da morte? Poucas horas antes de morrer (perdôem-me esta recordação pessoal; é necessaria), poucas horas antes de morrer, lia um livro meu, o das _Memorias Posthumas de Braz Cubas_, e dizia-me que interpretava agora melhor algumas de suas passagens. Talvez as que entendiam com a occasião... E dizia-me aquillo serenamente, com uma força de animo rara, uma resignação de granito. Foi ao sair de uma dessas visitas, que escrevi estes versos, recordando os arrojos d'elle comparados com o actual estado. Não lh'os mostrei; e dou-os aqui para os seus amigos:
"Sabes tu de um poeta enorme, Que andar não usa No chão, e cuja extranha musa, Que nunca dorme,
"Calça o pé melindroso e leve, Como uma pluma, De folha e flôr, de sol e neve, Cristal e espuma;
"E mergulha, como Leandro, A fórma rara No Pó, no Sena, em Guanabara, E no Scamandro;
"Ouve a Tupan e escuta a Momo, Sem controversia, E tanto adoro o estudo, como Adora a inercia;
"Ora do fuste, ora da ogiva Sair parece; Ora o Deus do occidente esquece Pelo deus Siva;
"Gosta do estrepito infinito, Gosta das longas Solidões em que se ouve o grito Das arapongas;
"E se ama o rapido besouro, Que zumbe, zumbe, E a mariposa que succumbe Na flamma de ouro,
"Vagalumes e borboletas Da côr da chamma, Roxas, brancas, rajadas, pretas, Não menos ama
"Os hippopotamos tranquillos, E os elephantes, E mais os bufalos nadantes, E os crocodillos,
"Como as girafas e as pantheras, Onças, condores, Toda a casta de bestas feras E voadores.
"Se não sabes quem elle seja, Trepa de um salto, Azul acima, onde mais alto A aguia negreja;
"Onde morre o clamor iniquo Dos violentos; Onde não chega o riso obliquo Dos fraudulentos.
"Então olha, de cima posto, Para o oceano; Verás n'um longo rosto humano Teu mesmo rosto;
"E has de rir, não do riso antigo, Potente e largo, Riso de eterno moço amigo; Mas de outro amargo,
"Como o riso de um deus enfermo, Que se aborrece Da divindade, e que apetece Tambem um termo...
"Os amigos delle apreciarão o sentido desses versos. O publico, em geral, nada tem com um homem que passou pela terra sem o convidar para cousa nenhuma, um forte engenho que apenas soube amar a arte, como tantos christãos obscuros amaram a Egreja, e amar tambem aos seus amigos, porque era meigo, generoso e bom."
FIM DO ANNEL DE POLYCRATES
O EMPRESTIMO
Vou divulgar uma anecdota, mas uma anecdota no genuino sentido do vocabulo, que o vulgo ampliou ás historietas de pura invenção. Esta é verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem tão bem como eu. Nem ella andou recondita, senão por falta de um espirito repousado, que lhe achasse a philosophia. Como deveis saber, ha em todas as cousas um sentido philosophico. Carlyle descobriu o dos colletes, ou, mais propriamente, o do vestuario; e ninguem ignora que os numeros, muito antes da loteria do Ypiranga, formavam o systema de Pythagoras. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de emprestimo; ides ver se me engano.
E, para começar, emendemos Seneca. Cada dia, ao parecer d'aquelle moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas porque não accrescentou elle, que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição, uma pasta de ministro, um Banco, uma corôa de visconde, um baculo pastoral. Aos cincoenta annos, vamos achal-o simples apontador de alfandega, ou sacristão da roça. Tudo isso que se passou em trinta annos, póde algum Balzac mette-lo em trezentas paginas; porque não hade a vida, que foi a mestra de Balzac, apertal-o em trinta ou sessenta minutos?
Tinham batido quatro horas no cartorio do tabellião Vaz Nunes, á rua do Rosario. Os escreventes deram ainda as ultimas pennadas: depois limparam as pennas de ganço na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado; fecharam as gavetas, concertaram os papeis, arrumaram os autos e os livros, lavaram as mãos; alguns que mudavam de paletot á entrada, despiram o do trabalho e enfiaram o da rua; todos sahiram. Vaz Nunes ficou só.
Este honesto tabellião era um dos homens mais perspicazes do seculo. Está morto: podemos elogial-o á vontade. Tinha um olhar de lanceta, cortante e agudo. Elle adivinhava o caracter das pessoas que o buscavam para escripturar os seus accordos e resoluções; conhecia a alma de um testador muito antes de acabar o testamento; farejava as manhas secretas e os pensamentos reservados. Usava oculos, como todos os tabelliães de theatro; mas, não sendo myope, olhava por cima d'elles, quando queria ver, e através d'elles, se pretendia não ser visto. Finorio como elle só, diziam os escreventes. Em todo o caso, circumspecto. Tinha cincoenta annos, era viuvo, sem filhos, e, para fallar como alguns outros serventuarios, roia muito caladinho os seus duzentos contos de reis.