Papeis Avulsos

Part 1

Chapter 13,884 wordsPublic domain

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MACHADO DE ASSIS

PAPEIS AVULSOS

O ALIENISTA--THEORIA DO MEDALHÃO A CHINELA TURCA NA ARCA--D. BENEDICTA--O SEGREDO DO BONZO O ANNEL DE POLYCRATES O EMPRESTIMO--A SERENISSA REPUBLICA O ESPELHO UMA VISITA DE ALCIBIADES--VERBA TESTAMENTARIA

RIO DE JANEIRO

Typographia e Lithographia a vapor, Encadernação e Livraria

LOMBAERTS & C.

7--_Rua dos Ourives_--7

1882

OBRAS DO AUTOR

Memorias Posthumas de Braz Cubas Papeis Avulsos Helena Yayá Garcia Ressurreição A mão e a luva Historias da meia noite Contos Fluminenses Americanas Phalenas Chrysalidas Tu só, tu, puro amor

ADVERTENCIA

Este titulo de _Papeis avulsos_ parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor colligiu varios escriptos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são elles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pae fez sentar á mesma mesa.

Quanto ao genero delles, não sei que diga que não seja inutil. O livro está nas mãos do leitor. Direi sómente, que se ha aqui paginas que parecem meros contos, e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outros podem achar nellas algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalyptica, accrescentava (XVII, 9): "E aqui ha sentido, que tem sabedoria." Menos a sabedoria, cubro-me com aquella palavra. Quanto a Diderot, ninguem ignora que elle, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse tambem. E eis a razão do encyclopedista: é que quando se faz um conto, o espirito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba sem a gente dar por isso.

Deste modo, venha donde vier o reproche[1], espero que dahia mesmo virá a absolvição.

Machado de Assis

Outubro de 1882.

[1]Cerca de dous annos para cá, recebi duas cartas anonymas, escriptas por pessôa intelligente e sympathica, em que me foi notado o uso do vocabulo _reproche._ Não sabendo como responda ao meu estimavel correspondente, aproveito esta occasião.

_Reproche_ não é gallicismo. Nem _reproche_ nem _reprochar._ Moraes cita, para o verbo, este trecho dos _Ined._ II fl. 259: "hum non tinha que _reprochar_ ao outro;" e aponta os logares de Fernando de Lucena, Nunes de Leão e D. Francisco Manoel de Mello, em que se encontra o substantivo _reproche._ Os hespanhoes tambem os possuem.

Resta a questão de euphonia. _Reproche_ não parece mal soante. Tem contra si o desuso. Em todo caso, o vocabulo que lhe está mais proximo no sentido, _exprobração_, acho que é insupportavel. Dahi a minha insistencia em preferir o outro, devendo notar-se que não o vou buscar para dar ao estylo um verniz de extranheza, mas quando a ideia o traz comsigo.

O ALIENISTA

I

DE COMO ITAGUAHY GANHOU UMA CASA DE ORATES

As chronicas da villa de ltaguahy dizem que em tempos remotos vivera alli um certo medico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos medicos do Brazil, de Portugal e das Hespanhas. Estudara em Coimbra e Padua. Aos trinta e quatro annos regressou ao Brazil, não podendo el-rei alcançar delle que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou era Lisboa, expedindo os negocios da monarchia.

--A sciencia, disse elle a Sua Magestade, é o meu emprego unico; ltaguahy é o meu universo.

Dito isto, metteu-se em ltaguahy, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da sciencia, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os theoremas com cataplasmas. Aos quarenta annos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco annos, viuva de um juiz de fóra, e não bonita nem sympathica. Um dos tios delle, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lh'o. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições physiologicas e anatomicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excellente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e intelligentes. Se além dessas prendas,--unicas dignas da preoecupação de um sabio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimal-o, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da sciencia na contemplação exclusiva, miuda e vulgar da consorte.

D. Evarista mentiu ás esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A indole natural da sciencia é a longanimidade; o nosso medico esperou tres annos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da materia, releu todos os escriptores arabes e outros, que trouxera para Itaguahy, enviou consultas ás universidades italianas e allemãs, e acabou por aconselhar á mulher um regimen alimenticio especial. A illustre dama, nutrida exclusivamente com a bella carne de porco de Itaguahy, não attendeu ás admoestações do esposo; e á sua resistencia,--explicavel, mas inqualificavel,--devemos a total extincção da dynastia dos Bacamartes.

Mas a sciencia tem o ineffavel dom de curar todas as magoas; o nosso medico mergulhou inteiramente no estudo e na pratica da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a attenção,--o recanto psychico, o exame da pathologia cerebral. Não havia na colonia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante materia, mal explorada, ou quasi inexplorada. Simão Bacamarte comprehendeu que a sciencia lusitana, e particularmente a brazileira, podia cobrir-se de «louros immarcessiveis,»--expressão usada por elle mesmo, mas em um arroubo de intimidade domestica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.

--A saude da alma, bradou elle, é a occupação mais digna do medico.

--Do verdadeiro medico, emendou Crispim Soares, boticario da villa, e um dos seus amigos e comensaes.

A vereança de Itaguahy, entre outros peccados de que é arguida pelos chronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na propria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do beneficio da vida; os mansos andavam á solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença á camara para agasalhar e tratar no edificio que ia construir todos os loucos de Itaguahy e das demais villas e cidades, mediante um estipendio, que a camara lhe daria quando a familia do enfermo o não podesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a villa, e encontrou grande resistencia, tão certo é que difficilmente se desarraigam habitos absurdos, ou ainda máus. A idéa de metter os loucos na mesma casa, vivendo em commum, pareceu em si mesma um symptoma de demencia, e não faltou quem o insinuasse á propria mulher do medico.

--Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigario do logar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juizo.

D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse-lhe «que estava com desejos», um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a elle lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquelle grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redarguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dalli foi á camara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquencia, que a maioria resolveu autorisal-o ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doudos pobres. A materia do imposto não foi facil achal-a, tudo estava tributado em Itaguahy. Depois de longos estudos, assentou-se em permittir o uso de dous pennachos nos cavallos dos enterros. Quem quizesse emplumar os cavallos de um coche mortuario pagaria dois tostões á camara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do fallecimento e a da ultima benção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos calculos arithmeticos do rendimento possivel da nova taxa: e um dos vereadores, que não acreditava na empreza do medico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inutil.

--Os calculos não são precisos, disse elle, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora metter todos os doudos dentro da mesma casa?

Enganava-se o digno magistrado; o medico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na rua Nova, a mais bella rua de Itaguahy naquelle tempo, tinha cincoenta janellas por lado, um pateo no centro, e numerosos cubiculos para os hospedes. Como fosse grande arabista, achou no Koran que Mahomet declara veneraveis os doudos, pela consideração de que Allah lhes tira o juizo para que não pequem. A idéa pareceu-lbe bonita e profunda, e elle a fez gravar no frontespicio da casa; mas, como tinha medo ao vigario, e por tabella ao bispo, attribuiu o pensamento a Benedicto VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquelle pontifice eminente.

A Casa Verde foi o nome dado ao asylo, por allusão á côr das janellas, que pela primeira vez appareciam verdes em Itaguahy. Inaugurou-se com immensa pompa; de todas as villas e povoações proximas, e até remotas, e da propria cidade do Rio de Janeito, correu gente para assistir ás ceremonias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram occasião de ver o carinho paternal e a caridade christã com que elles iam ser tratados. D. Evarista, contentissima com a gloria do marido, vestira-se luxuosamente, cobriu-se de joias, flôres e sedas. Ella foi uma verdadeira rainha naquelles dias memoraveis; ninguem deixou de ir visital-a duas e trez vezes, apezar dos costumes caseiros e recatados do seculo, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto,--e este facto é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo,--porquanto viam nella a feliz esposa de um alto espirito, de um varão illustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.

Ao cabo de sete dias expiraram as festas publicas; Itaguahy tinha finalmente uma casa de Orates.

II

TORRENTE DE LOUCOS

Tres dias depois, n'uma expansão intima com o boticario Crispim Soares, desvendou o alienista o mysterio do seu coração.

--A caridade, Sr. Soares, entra de certo no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das cousas, que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos Corinthios: «Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada.» O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos grãos, classificar-lbe os casos, descobrir emfim a causa do phenomeno e o remedio universal. Este é o mysterio do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço á humanidade.

--Um excellente serviço, corrigiu o boticario.

--Sem este asylo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; elle dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.

--Muito maior, accrescentou o outro.

E tinham razão. De todas as villas e arraiaes visinhos affluiam loucos á Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaniacos, era toda a familia dos desherdados do espirito. Ao cabo de quatro mezes, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubiculos: mandou-se annexar uma galeria de mais trinte e sete. O padre Lopes confessou que não imaginara a existencia de tantos doudos no mundo, e menos ainda o inexplicavel de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e villão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente, um discurso academico, ornado de tropos, de antitheses, de apostrophes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cicero, Apuleo e Tertuliano. O vigario não queria acabar do crer. Que! um rapaz que elle vira, tres mezes antes, jogando peteca na rua!

--Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendissima está vendo. Isto é todos os dias.

--Quanto a mim, tornou o vigario, só se póde explicar pela confusão das linguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escriptura; provavelmente, confundidas antigamente as linguas, é facil trocal-as agora, desde que a razão não trabalhe...

--Essa póde ser, com effeito, a explicação divina do phenomeno, concordou o alienista, depois de reflectir um instante, mas não é impossivel que haja tambem alguma razão humana, e puramente scientifica, e disso trato...

--Vá que seja, e fico ancioso. Realmente!

Os loucos por amor eram tres ou quatro, mas só dous espantavam pelo curioso do delirio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco annos, suppunha-se estrella d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha sahido para elle recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, á roda das salas ou do pateo, ao longo dos corredores, á procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e sahiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade. O ciume satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquella ancia de ir ao fim do mundo á cata dos fugitivos.

A mania das grandezas tinha exemplares notaveis. O mais notavel era um pobre diabo, filho de um algibebe, que narrava ás paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:

--Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou David, David engendrou a purpura, a purpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquez, o marquez engendrou o conde, que sou eu.

Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:

--Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.

Outro da mesma especie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não fallo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e promettia o reino dos céos a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrellas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus. Assim o escrevia elle no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse scientifico.

Que, na verdade, a paciencia do alienista era ainda mais extraordinaria do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte começou por organisar um pessoal de administração; e, aceitando essa idéa ao boticario Crispim Soares, aceitou-lhe tambem dous sobrinhos, a quem incumbiu da execução de um regimento que lhes deu, approvado pela camara, da distribuição da comida e da roupa, e assim tambem da escripta, etc. Era o melhor que podia fazer, para sómente cuidar do seu officio.--A Casa Verde, disse elle ao vigario, é agora uma especie de mundo, em que ha o governo temporal e o governo _espiritual._ E o padre Lopes ria deste pio trocado,--e accrescentava,--com o unico fim de dizer tambem uma chalaça:--Deixe estar, deixe estar, que hei de mandal-o denunciar ao papa.

Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principaes: os furiosos e os mansos; dahi passou ás sub-classes, monomanias, delirios, allucinações diversas. Isto feito, começou um estudo aturado e continuo; analysava os habitos de cada louco, as horas do accesso, as aversões, as sympathias, as palavras, os gestos, as tendencias; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circumstancias da revelação morbida, accidentes da infancia e da mocidade, doenças de outra especie, antecedentes na familia, uma devassa, emfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um phenomeno extraordinario. Ao mesmo tempo estudava o melhor regimen, as substancias medicamentosas, os meios curativos e os meios palliativos, não só os que vinham nos seus amados arabes, como os que elle mesmo descobria, á força de sagacidade e paciencia. Ora, todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.

III

DEUS SABE O QUE FAZ!

A illustre dama, no fim de dous mezes, achou-se a mais desgraçada das mulheres; cahiu em profunda melancholia, ficou amarella, magra, comia pouco e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque respeitava nelle o seu marido e senhor, mas padecia calada, e definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como lhe perguntasse o marido o que é que tinha, respondeu tristemente que nada; depois atreveu-se um pouco, e foi ao ponto de dizer que se considerava tão viuva como dantes. E accrescentou:

--Quem diria nunca que meia duzia de lunaticos...

Não acabou a phrase; ou antes, acabou-a levantando os olhos ao tecto,--os olhos, que eram a sua feição mais insinuante,--negros, grandes, lavados de uma luz humida, como os da aurora. Quanto ao gesto, era o mesmo que empregara no dia em que Simão Bacamarte a pediu era casamento. Não dizem as chronicas se D. Evarista brandiu aquella arma com o perverso intuito de degolar de uma vez a sciencia, out pelo menos, decepar-lhe as mãos; mas a conjectura é verosimil. Em todo caso, o alienista, não lhe attribuiu outra intenção. E não se irritou o grande homem, não ficou sequer consternado. O metal de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem a menor prega veiu quebrar a superficie da fronte quieta como a agua de Botafogo. Talvez um sorriso lhe descerrou os labios, por entre os quaes filtrou esta palavra macia como o oleo do _Cantico_:

--Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro.

D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro, que posto não fosse sequer uma pallida sombra do que hoje é, todavia era alguma cousa mais do que Itaguahy. Ver o Rio de Janeiro, para ella, equivalia ao sonho do hebreu captivo. Agora, principalmente, que o marido assentára de vez naquella povoação interior, agora é que ella perdera as ultimas esperanças de respirar os ares da nossa boa cidade; e justamente agora é que elle a convidava a realisar os seus desejos de menina e moça. D. Evarista não pôde dissimular o gosto de semelhante proposta. Simão Bacamarte pegou-lhe na mão e sorriu,--um sorriso tanto ou quanto philosophico, além de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento:--«Não ha remedio certo para as dôres da alma; esta senhora definha, porque lhe parece que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se.» E porque era homem estudioso tomou nota da observação.

Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao marido, que, se elle não ia, ella não iria tambem, porque não havia de metter-se sózinha pelas estradas.

--Irá com sua tia, redarguiu o alienista.

Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quizera pedil-o nem insinual-o, em primeiro logar porque seria impôr grandes despezas ao marido, em segundo logar porque era melhor, mais methodico e racional que a proposta viesse delle.

--Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista sem convicção.

--Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda hontem o escripturario prestou-me contas. Queres ver?

E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via-lactea de algarismos. E depois levou-a ás arcas, onde estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulencia. Emquanto ella comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais perfida das allusões.

--Quem diria que meia duzia de lunaticos...

D. Evarista comprehendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:

--Deus sabe o que faz!

Tres mezes depois effectuava-se a jornada. D. Evarista, a tia, a mulher do boticario, um sobrinho deste, um padre que o alienista conhecera em Lisboa, e que de aventura achava-se em Itaguahy, cinco ou seis pagens, quatro mucamas, tal foi a comitiva que a população viu dalli sahir em certa manhã do mez de maio. As despedidas foram tristes para todos, menos para o alienista. Comquanto as lagrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, não chegaram a abalal-o. Homem de sciencia, e só de sciencia, nada o consternava fóra da sciencia; e se alguma cousa o preoccupava naquella occasião, se elle deixava correr pela multidão um olhar inquieto e policial, não era outra cousa mais do que a idéa de que algum demente podia achar-se alli misturado com a gente de juizo.

--Adeus! soluçaram emfim as damas e o boticario.

E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horisonte adiante, deixando ao cavallo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do genio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lagrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras.

IV

UMA THEORIA NOVA

Ao passo que D. Evarista, em lagrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa idéa arrojada e nova, propria a alargar as bases da psychologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde, era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assumptos, e virgulando as fallas de um olhar que mettia medo aos mais heroicos.

Um dia de manhã,--eram passadas tres semanas,--estando Crispim Soares occupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.

--Trata-se de negocio importante, segundo elle me disse, aecrescentou o portador.

Crispim empallideceu. Que negocio importante podia ser, se não alguma triste noticia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este topico deve ficar claramente definido, visto insistirem nelle os chronistas: Crispim amava a mulher, e, desde trinta annos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monologos que elle fazia agora, e que os famulos lhe ouviam muita vez:--«Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesaria? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miseravel. Dizes _amen_ a tudo, não é? ahi tens o lucro, biltre!--E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o effeito do recado é um nada. Tão depressa elle o recebeu como abriu mão das drogas e voou á Casa Verde.

Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria propria de um sabio, uma alegria abotoada de circumspecção até o pescoço.

--Estou muito contente, disse elle.

--Noticias do nosso povo? perguntou o boticario com a voz tremula.

O alienista fez um gesto magnifico, e respondeu: