Part 2
São mal delineados, nebulosos, os contornos biographicos do Camões. Não se sabe ao certo quando nasceu, porque n'estas imagens e personificações da vida nacional, é bem que nos possamos illudir, suppondo que andaram largos tempos voejando antes que começassem a luzir. Ignora-se a terra em que nasceu. Em Lisboa? Em Coimbra? Em Santarem? Ninguem o pode á justa discriminar. E é bem que assim acontecesse, para que nenhuma povoação se possa gloriar, de que o poeta lhe pertence a melhor titulo do que a toda a patria, que illustrou. Perguntam-nos onde o Camões viu a primeira luz? Respondemos e basta: Em Portugal. Que nos importa discernir se era vulgar ou generoso o sangue do poeta? Os monarchas da intelligencia não carecem de tronco e dynastia. Não tem pelo espirito nem antecessores nem descendentes. Não releva o inquirirmos d'onde veem, já que sabemos aonde vão. Nascem da humanidade e vão para a gloria. Nascem do pó terreno e mundanal e caminham luminosos á divina immortalidade. Sabemos do Camões que foi soldado valentissimo entre os mais esforçados e briosos; sabemos que foi a mais subida intelligencia em nossa terra, o primeiro épico moderno. Sabemos que alcançou conciliar em harmonica união as graças e formosuras da mais solta e inventiva imaginação, com as doutrinas mais severas da sciencia no seu tempo. Sabemos que em Africa militou, para que seguisse em tudo as mesmas sendas, por onde a gloria portugueza transitara. Sabemos que invejas, e malquerenças, e damnadas tenções, como elle diz, lhe mesclaram na vida aos jubilos e aos extasis da nativa inspiração, as tristezas e os opprobrios da existencia amargurada. Sabemos que amou extremosamente. E como poderia esta alma de eleição clausurar-se na solidão do sentimento, sem repartir o estro e a paixão entre a patria e a mulher? Sabemos que padeceu asperos desterros e carceres de affronta e provação. E como poderia esta luz intensissima do engenho ferir, sem os offender e offuscar, os olhos dos seus ingratos contemporaneos, que não buscassem afrouxal-a e desluzil-a, já que não a podiam apagar? Sabemos que na India provou a forte espada nos recontros e a estoica impavidez nos lances das armadas e nos perigos das tormentas. Sabemos que a pobresa foi a socia inseparavel do seu viver aventureiro. E que genio já houve em Portugal antigamente, que não tivesse a penuria por contrapeso aos thesouros immortaes da sua gloria? Sabemos que na China exerceu modesto officio, e que a fortuna ao Camões lhe destinou que para não perecer á fome, rebaixasse o divino talento de poeta ao prosaico e rude officio de exactor. Sabemos que a patria o desamparou nos annos derradeiros, atirando-lhe á mão, quasi estendida á caridade, a esmola do poder. Sabemos que morreu, quando a patria descaía no sepulchro, porque elle era a voz da patria, o ultimo suspiro da nação agonisante, e era bem que se extinguisse, quando Portugal jazia amortalhado no manto de cavalleiro, tendo em redor do seu esquife as figuras sinistras e irónicas dos seus desapiedados conquistadores. Sabemos que os seus ossos jazeram até hontem esquecidos n'um desvão do convento de Sant'Anna, até hontem, em que por nobre e patriotica impulsão da nossa Academia, lhe pagámos--inanimado--na solemne apotheose, o que--vivo--os seus contemporaneos lhe negaram em pão e em conforto. Sabemos que deixou o seu nome intimamente vinculado ao nome e á propria existencia da nação. Sabemos que os _Lusiadas_ os entalhou o brio portuguez com a espada nas mais distantes e ingratas regiões, e os imprimiu com o rasto das suas quilhas temerarias na face do Oceano e no dorso das tempestades, e o Camões os trasladou a versos immortaes, diffundindo no mundo pelo genio o que Portugal já tinha divulgado pelo immenso pregão do seu valor.
O Camões é a patria coroada de poeticos laureis. Os _Lusiadas_ são a estatua da nação, cinzelada pelo escopro do maior engenho portuguez. Glorifiquemos, pois, cada vez mais a epopéa e o cantor. Veneremos com elle o nosso passado glorioso. Mas como estes destemidos argonautas, que elle celebrou, os quaes se não ficavam inertes e parados após as mais felizes singraduras, nem cifravam a sua honra em descobrir apenas o cabo de Boa Esperança, volvamos o sentimento nacional aos tempos que já foram, e o espirito moderno ás eras do porvir: ao passado, para que d'elle possamos aprender o amor da patria, a tenaz perseverança nas empresas mais difficeis; ao futuro, para que honrando o poeta nas suas mais largas e videntes aspirações, possamos completar as nossas glorias pelo caminho que a fortuna nos consente e nos deixou. Fizemos a epopéa sublime, traduzida pelo Camões na divina linguagem do seu estro. Façamos hoje a epopéa mais modesta da liberdade, da sciencia e do trabalho.