Paisagens da China e do Japão

Chapter 9

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A neve, que constitue uma calamidade em tantas regiões, entra aqui no rol das coisas deleitosas. Tanto é assim, que as mulheres, cujos nomes são sempre mimosos como ellas, lembrando flores ou outras gentilezas, se apropriam do termo com frequencia:--_Yuki-San_, a Senhora Neve, ou com mais cortezia, _Ó Yuki-San_, a Nobre Senhora Neve, é nome muito em uso. A nevada, sem que prejudique o povo na vida e no conforto, vem branquear as serranias, os campos e as estradas, esplendida apothéose de alvuras e purezas; rendilha as arvores de crystalinos ornamentos, ostentando-se como uma florescencia immensa, uniforme, que brotasse dos restolhos, da herva, dos bambus, dos cedros, dos pinheiros; sobre os telhados das casas e dos templos, sobre os dorsos das grandes raposas de granito que d'estes se avisinham, sobre as lanternas de pedra dos jardins, demora-se em fofos floccos, que dão ás coisas proximas, realces seductores; por onde a agua corre e se despenha, o frio congela as gottas, adormece-as, transforma-as em recortadas estalactites, que um raio de sol mais quente virá em breve desfazer.

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No vocabulario japonez, tam amorosamente naturalista, ha um termo de que agora me recordo, que não tem, como muitos, synonimo em linguas europeas; é _yukimi_. _Yukimi_ quer dizer:--excursão ou banquete preparado para ir vêr cair a neve.--Nas _chayas_, em certos sitios pittorescos, exemplo--as collinas de Kioto,--combinam-se reuniões; vêem os rapazes, vêem as _gueshas_ com as guitarras, começa a festa ruidosa, interrompida a espaços pela contemplação muda do espectaculo que se offerece; no entretanto, a neve vae caindo n'uma chuva continua de folhepos, ligeiramente sussurante, de um ruge-ruge de sedas que arrastassem, vestindo o solo, as arvores, o colmo das choupanas, poisando mesmo nos vestidos e nas mãos brancas como a neve das moças irriquietas...

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Outro assumpto: a historia da arte.

No Japão, não ha nem houve nunca, sabios; é medida, penso eu, de hygiene nacional, consequencia de antigos habitos de limpeza das creadas, que os sacodem do solo como sacodem as teias de aranha das paredes. No respeitante a historia, é evidente que o officio de historiador, com a secura e a frieza que lhe suppomos inherentes, não existe. A historia japoneza é feita pelo povo, incluindo a collaboração preciosa das velhas, das raparigas, dos garotos; emana das tradições, da lenda e da intuição sentimental das massas. Recorda por este facto os evangelhos biblicos, escriptos pelos rudes discipulos de Christo, pobres e simples pescadores alheios ao convivio dos classicos, sem sciencia e sem arte, mas abrazados em poesia, em crenças, em amor. Na historia japoneza, palpita, como nas paginas da Biblia, a alma da tribu, propensa, pela tendencia geral da gente rustica, ao milagre, á maravilha, ao inverosimil; convindo apenas não esquecer que o japonez, menos idealista do que o hebreu, não vae mui alto no mundo das chimeras, voeja terra a terra, aprazendo-se em entretecer de graciosas fabulações as aventuras dos seus homens illustres. A historia da arte, para este povo feito todo de artistas, sempre sob o arrebatamento das bellezas naturaes do seu paiz, é um dos capitulos preferidos, por onde mais rodopia sem freio a phantasia; e é d'este capitulo da arte que eu destaco algumas graciosas lendas que se seguem.

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O bonzo Chyo Densu, que viveu pela primeira metade do nosso seculo XV, foi um grande pintor em coisas religiosas.

Sendo noviço n'um templo da Kioto, Tofukuji, conta-se que já se dava á pintura com paixão, incorrendo por esta fórma no desagrado do superior Daidô, que o ia asperamente reprehendendo. Certo dia, acabava elle de pintar um retrato de Buddha, quando sente passos de Daidô, que se approxima do seu poiso; rapidamente, esconde o desenho entre os joelhos; o vulto entra na cella, esbrugando as suas contas, resmungando; do resplandor do deus subito irradiam chammas de apothéose, que innundam de luz a casa toda; a falta do noviço estava assim conhecida; mas tambem perdoada, pois Daidô humilhou-se a este avizo do céo, e nunca mais atormentou o seu discipulo.

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Já no fim da existencia, dignou-se uma vez o Shogun recompensal-o dos seus muitos serviços, dizendo-lhe que pedisse o que quizesse.--De nada careço n'este mundo, retorquiu Chyo Densu, tendo em cada dia um _kimono_ lavado para vestir e uma tijela com arroz; só vos supplico, senhor, que por vossa ordem terminante sejam cortadas cerces todas as cerejeiras do jardim d'este templo, para que de futuro se não torne um logar de folia e desacato.»--Foi-lhe o desejo satisfeito; e em Tofukuji, ainda até hoje, nem um só pé de cerejeira floresce.

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Tadahira, do nosso seculo X, pintou certo dia um cuco sobre o panno de um leque. Tam perfeito era o cuco, tam inspirado de verdade foi o pincel que o desenhou, que em todas as vezes que alguem abria o leque, o cuco, assim exposto á luz do dia e á paizagem, acordava, soltava o pio habitual dos cucos. Maravilha!...

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Maruyama Okio, nome moderno, pois é do seculo XVIII, foi pintor muito celebre, a ultima gloria talvez da escola classica, convencional, mas cheio de amoroso realismo nas suas concepções. Um seu cliente fizera-lhe encommenda de desenhar um urso bravo. O consciencioso Okio pede a certo aldeão do seu conhecimento que o avise de quando algum appareça pela serra; o aviso vem ligeiro, pois abundam taes bichos no Japão, e eil o que parte, com a tinta, com os pinceis e com o mais de que carece. Levado pelos campos, depara com o animal dormindo junto a uma arvore. Mãos á obra, e em curto espaço conclue o seu trabalho e se retira; mas dentro em pouco rasgava a tela, desgostoso, depois de a ter mostrado a um caçador de officio, em ursos entendido, o qual lhe observou que achava bello o quadro, mas falho de verdade após um exame attento, pois não traduzia a imagem a vaga ondulação que é propria ao arfar do corpo que respira. O melhor da passagem foi ter, annos corridos, contado o aldeão ao bom Okio que o tal urso da serra se quedava dias e dias junto á arvore; até que se deu fé, entre curiosos, que o bicho não dormia, mas se achava alli caido morto...

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Sonhou um dia o Shogun, Generalissimo do imperio, que um padre lhe apparecia e lhe dizia estas palavras:--«Eu sou o defunto superior do templo de Kurama; e rogo-vos, senhor, que ordeneis a Kano Motonoba de pintar o meu retrato, para ser collocado no templo onde passei meus longos dias de existencia.»--Acordando, mandou chamar o grande artista, fez-lhe a encommenda, e soube então que elle tivera igual visão durante a mesma noite.

O peor é que Kano não conhecera o reverendo, nem lhe constava que existisse um só retrato para modelo. A tarefa era ingrata. O pintor passou então dias sem conto, tendo na frente a tela nua, pincel em punho e tinta preparada, immovel, perplexo, desesperado de jamais poder realisar o seu intento. Foi em um d'aquelles dias que uma aranha desceu do alto do tecto lentamente até poisar na tela, onde teceu a sua teia, que era nada menos que o esboço do frade a traços rapidos; Kano limitou-se a completar a obra em seus faceis detalhes.

Outra difficuldade se levanta: Kano desenhára um retrato gigante, em uma grande tela, não reflectindo a principio que nunca poderia conseguir que passasse pela porta do seu modesto albergue. Quando concluido e como o problema se apresentasse irresoluvel, eis sopra de repente uma rajada em furia, que deita a terra uma parede do albergue, e leva em triumpho, pelos ares, o primoroso quadro até ao templo de Kurama, onde até hoje está, e os visitantes o admiram.

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Sesshiu, um nome glorioso entre a pleiade dos pintores do Dai-Nippon, entrára como noviço aos treze annos no templo de Hofukuji. Sabe-se que, durante a sua aprendizagem, mais se applicava á arte do que ás praticas devotas. Uma vez, por uma offensa d'este genero, foi posto em penitencia junto a uma columna do templo, durante longas horas, com as mãos atraz das costas, fortemente amarradas. Quando o superior vinha soltal-o,--imagine-se o espanto do sujeito!--eis que surde de junto dos pés do pobre moço um bando de ratinhos, que se escapam espavoridos pela casa. Qual era a explicação de tam estupendo caso? Eu lhes conto: o penitente, choroso e inactivo, fôra entretendo o tempo a pintar sobre o sobrado poeirento aquelles galantes animaes, servindo-se das proprias lagrimas como tinta, e do dedo grande do pé nu, como pincel; logicamente, os ratos salvavam das iras do velhote as preciosas vidas com que o artista acabava de dotal-os.

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Esta é uma velha lenda classica da religião de Shinto.

O templo shintoista de Shimo-Gamo, em Kioto, é dedicado á deusa Tamayeri-hime. Esta menina, antes de dar pretexto aos fieis para ser adorada, achava-se uma vez dedilhando sentidas melodias na guitarra, á beira do rio Seminogarva, quando avistou boiando á tona de agua uma feicha vermelha, encimada de lindas pennas de certa ave das selvas. Colheu-a e levou-a para casa, collocando-a junto do seu leito. Acto continuo, succedeu a maravilha de dar á luz um filho. Seus paes, descrentes de artes milagrosas, e a despeito dos mil protestos de innocencia que ella lhes fez, singelamente, não acreditaram no milagre, accusando-a da falta que mais póde envergonhar uma mulher honesta.

Passados annos, Taketsumi-no-Mikoto, o pae da desolada, resolveu aclarar este mysterio. Em tal designio, offereceu um banquete a todos os visinhos; e quando estavam todos reunidos, dirigindo-se ao neto, e entregando-lhe uma taça cheia de _saké_, que é o vinho do paiz, disse-lhe isto.--«Leva-a a teu pae»--A creança, obedecendo, saiu para a rua e poz-se a contemplar o céo, e ia murmurando uma oração; de subito, transforma-se n'um raio, que corisca, subindo ás regiões celestes, acompanhado pela mãe, para a qual começou assim a glorificação.

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Encontrei-me, em pleno dia, n'um luxuoso bairro indigena, que me disseram chamar-se a _Cidade-Nocturna_, pois só com a noite acorda, e só na noite vive, deslumbrante de galas, de lumes, de harmonias, de povo alegre que transita, para cair em repouso ao alvorecer da madrugada.

Áquella hora, a estranha cidade, esbrazeando a um sol de intensidades tropicaes, do mez de Agosto, modorrava; torpida quietação; raros vultos se viam,--mendigos, vadios, párias da vida,--cosidos com as nesgas de sombra dos edificios e das arvores que ajardinam ao centro as avenidas.

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Fixei casualmente a attenção n'um edificio mais pomposo, de vastas dimensões, todo de madeira nova, alto de quatro ou cinco andares, rodeado de varandas, d'onde pendiam a arejar ricas colchas de seda e mantos de matiz; não sei que caravançará de mysteriosos habitos, aquelle, silencioso tambem áquella hora, mas dando de si a idéa de conter nos seus arcanos uma legião do moradores.

Ao centro d'este edificio erguia-se em triumpho um amplo portal, de madeiras lustrosas; seguia-se-lhe um vestibulo; depois alguns degraus de escada, acharoados; e ao fundo, muito ao fundo, havia passadiças cobertas de esteiras muito limpas, corrediças entreabertas patenteando, n'uma meia penumbra, confusos verdes de jardim.

Junto ao portal, dois moços de serviço, quasi nus, dormiam sobre um banco, como dois cães de guarda cançados da vigilia. Notei que vultos de mulher, de quando em quando, passavam, perpassavam, longe, no ultimo plano; languidas, vagarosas, com os penteados desfeitos, arrastando amplas tunicas de seda estampadas de entrelaçamentos de flôres. Uma d'ellas, por desenfado, avançou té ao portal, ergueu os braços alto, enfiou os alvos dedos de ociosa pela juba negra dos cabellos; e assim, n'aquella posição, poz-se a fitar o azul do céo que uma ave cruzava em vôo rapido. Gentilissima, esplendida no vestido, miudas fórmas graciosas, da côr do jaspe os pés descalços em habito de humildade, e um olhar de dezoito annos quando muito, pueril, coando a expressão intima de um ser affeito á passibilidade e inconsciente das coisas d'este mundo. De dentro, uma voz de velha, azeda e imperativa, chamou-a pelo nome:--«_Mitsu-Riyo!_»--E eu fui seguindo o meu caminho, acordando de subito para um enternecimento doloroso, que me é peculiar em presença de certos relances da existencia, um pequenino nada ás vezes, confuso e passageiro... _Mitsu-Riyo_ quer dizer, litteralmente:--_Mel que se offerece_--a quem? á turba, a toda a gente.

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No Japão, uma vez em cada anno é a festa das meninas, e uma outra vez em cada anno é a festa dos rapazes.

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Na primeira, como de justiça, e em attenção ao sexo, tudo se passa entre a familia, de paredes a dentro; e o profano nada logra devassar dos jubilos d'aquellas presumidas, vestidinhas com mil esmeros e attenções, em extasis em frente do altar que se arma em casa em honra d'ellas, aonde se dispõe, além de coisas santas, a collecção de bonecas e brinquedos, a serie em miniatura do espelho, da caixa de costura, do brazeiro, das chavenas, da chaleira, de tudo mais onde mais tarde os seus dedos mimosos poisarão, no placido exercicio dos seus deveres de esposa e mãe por sua vez.

A festa dos rapazes é publica, ostensiva. É certo que no lar se agrupam os trophéos de armas e allegorias de guerreiros, e brinquedos condizentes com a turbulencia innata nos garotos; mas no que mais se empenha o cuidado da familia é n'um curioso emblema que enfeita a cidade inteira, offerecendo aos passeantes um estranho quadro de festa e alegria. Cada qual que tem filhos--e quem ha que os não tenha?--espeta a prumo ao pé da sua casa uma vara de bambu de grande comprimento, tendo amarrado na ponta um enorme peixe de papel, soberbamente pintado de negro ou de vermelho, escamudo, com ampla cauda e esbogalhados olhos; cada qual amarra um peixe, ou dois, ou tres, ou quatro, conforme o numero de filhos; e ha casaes tam abençoados dos deuses e tam cumpridores do seu dever, que amarram sete peixes, oito peixes, um cardume!...

Qualquer curioso em coisas de estatistica poderia, sobre uma eminencia da cidade, registar pelo numero dos peixes o numero de filhos varões n'aquelle sitio; mais ainda: os ventres benemeritos que mais soldados dão ao exercito imperial.

Ha uma lenda adoravel n'esta usança. Os peixes figuram carpas, no Japão abundantissimas; a carpa, sabe-se, vive nos rios, e apraz-se teimando a nadar contra a corrente, subindo da fóz té ás origens; aquelles peixes de papel, enfunados pelas brisas fuscas que reinam em geral n'aquella epocha, que é em maio, perfilando-se contra o vento, dão uma perfeita imagem do phenomeno. Assim o homem, no curso da existencia, deve adquirir a rude teimosia de resistir, de passar para além da corrente dos revezes, dos desalentos, das intrigas, té alcançar o lago bonançoso da paz da consciencia e da abastança ganhas com o seu trabalho intelligente. A festa é ao mesmo tempo um aviso aos tenros nipponicos de agora, ranhosos, rabujentos, dependurados da teta maternal, ou, mais crescidos, caçando as cigarras poisadas sobre as arvores, lambendo doçarias e soletrando o _i-ro-ha_ pelas escolas, mas que amanhã constituirão a massa activa e dirigente d'esta tribu inchada de orgulhos patrioticos, e abrazada em ambição.

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Se um dia me sobrarem ocios e pachorra juntamente, hei-de ainda escrever um longo capitulo inspirado na mulher japoneza, tal como eu a comprehendo, ou antes, tal como a não comprehendo. Não agora. Agora intento apenas fallar d'ella em breves phrases, ao capricho das rapidas idéas que me occorrem.

Qual é o seu destino? O enlevo do lar. Seria pois, como quem diz, um canario cantador, gentil e inutil, saltitante, papeando ao sol e enchendo a casa toda de alegria, se não se devesse incluir em tal enlevo, dois meritos ainda: o delicado instincto da ordem, da limpeza, e um fundo de carinho maternal, tam amoroso, que talvez não tenha egual no mundo inteiro. De sorte que, sem missão activa propriamente, parece vir ao mundo destinada a uma doce passibilidade feita de cuidados e sorrisos, para tornar feliz o esposo, e preparar para a vida um outro homem, o seu filho. Sem iniciativa propria no ramerrão da existencia quotidiana, simples nos habitos, nas occupações e nos desejos, a sua condição mantem-lhe, e mesmo lhe exaggera, os attributos peculiares do sexo,--delicadezas phisicas fixadas no requinte, e um discorrer ingenuo de creança.

É uma escrava do homem? É difficil dizel-o, n'este mundo, que é todo escravidão. Sim, será talvez; e recorda-se este velho preceito de moral, ainda não esquecido:--«Obedece a teu pae, mais tarde a teu marido, mais tarde a teu filho primogenito.»--No entretanto, bem chimericas algumas devem ser as que supportam... pois para que lhes servem a ellas, as _musumés_, o sorriso perenne dos labios, o mimo dos gestos, das feições, do garridismo do seu trajo, a alma de graças que têem nas pontas dos dedinhos, que tudo aformoseam onde tocam, senão para trazerem submisso ao jugo dos seus desejos e caprichos o bruto seu senhor (porque os homens são brutos em todo o planeta) e folgarem como princezinhas voluntarias?... Que se julgam felizes, ellas, esta Senhora Ameixeeira, esta Senhora Crysanthemo, esta Senhora Primavera, não ha duvida, concluindo por este mesmo sorriso dos labios frescos durante todo o dia--e possivelmente toda a noite--pela alegria fervilhante dos olhitos, pela serena ondulação da mimica, já surprehendendo-as nos mil misteres caseiros, já pela rua, caminho dos bazares, dos templos, dos theatros, dos campos floridos...

É certo todavia que uma grande dissemilhança afasta a mulher japoneza, da mulher occidental, pelo menos d'aquella que a importação despeja dos paquetes e vem pisar a terra de Nippon; a ponto, persuado-me, que um sabio zoologo qualquer, que descesse do planeta Marte a estas paragens, jamais ousaria classifical-as como exemplares da mesma fauna.

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Vede esta femeasita minuscula, toda ella pieguices de roupas e maneiras, fragil, sem musculos, com mãos e pulsos de creança, impropria para o esforço e para a lucta; passa a vida de joelhos, sobre macias almofadas, brincando com bonecas como se fôssem filhos seus, ou brincando com seus filhos como se fôssem as bonecas; se sae de casa, vae arrastando os pésitos em passos indecisos, preguiçosos, borboleta bohemia, sem rumo e sem intento; sabe cuidar dos seus cabellos, pintar a bocca de escarlate, dedilhar no _shamicen_, compôr ramos de flôres, servir o chá nipponico, lêr historias de raposas fabulosas e de macacos legendarios...

Agora comparae esta chimera humana com as rudes viageiras que o mar aqui arroja, bravos exemplares do feminismo em moda, fontes de musculos, de animo atrevido, usando monoculo, bengala e collarinho; deixam ás amas os filhos, se é que os têem, para correrem as cidades a passos de gigante, ou, mais velozes ainda, manejando com mão firme a bicycleta; umas são jornalistas, outras são missionarias, outras são medicas, outras são sabias, outras são coisa nenhuma. Não ha comparação possivel entre as duas. A europea offusca a japoneza pelos seus meritos triumphantes. A esta, humilde e timida, só restaria acaso uma desforra:--era entreabrir o _kimono_ de seda na parte junto ao peito, patentear lhe o par de maminhas brancas e roliças, com os bicos côr de rosa macerados pelos dentinhos do garoto que lhe brinca no collo, nu em pêlo...

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Uma amavel senhora, cujas cartas vem de quando em quando amenizar a solidão do meu viver, dizia-me ainda ha pouco coisa parecida com o seguinte, a proposito de dois livros que escrevi (que ella leu, a bondosa), e da subsequente prolongada preguiça litteraria em que fiquei:--«Você deu ao publico as suas illusões; o publico espera agora as suas desillusões.»--Não sei ao certo o que então lhe retorqui; mas eis o que me occorre responder-lhe, ao escrever a ultima pagina d'este livro:

Vá de barato que a gente publique as suas illusões; melhor fôra calar-se, todavia. Mas para as desillusões não ha, supponho eu, publicidade ademissivel; soffrem-se no silencio intimo, e manda o orgulho proprio, além de outros motivos, que a gente as não divulgue. No entretanto, para o paiz japonez, com o qual ia especialmente contender a gentil observação que referi,--um nadinha maliciosa, querendo aparentar estimulo apenas ás minhas actividades em lethargo,--para o paiz japonez, devo confessar que me encontro ainda no periodo do enlevo e dos feitiços. Não ha terra, que eu conheça,--e tantas tenho conhecido!--mais deslumbrante do que esta nos aspectos; não ha povo mais interessante do que este, pelo feitio moral, pelos costumes, pela alma artistica; não ha mulheres mais mimosas do que estas _musumés_; e não ha no mundo inteiro gente mais feliz do que esta gente japoneza; é dizer tudo. O que o tempo e a experiencia me têem dado a conhecer, é a convicção profunda da incompatibilidade absoluta entre tudo isto e o europeu; o Japão é dos japonezes e só dos japonezes, o europeu, como um pingo de azeite dentro de agua; conserva-se aqui sempre isolado, não se assimilla ao meio. Porquê? por dissemelhanças irreconciliaveis do sentir, da educação, dos habitos, por essa invencivel barreira que se define em tres palavras, a--differença de raças.

Minha senhora: para poder assim synthetisar-se um sentimento como eu acabo de fazer, para adivinhar o encanto no que nos é vedado, para dizer que é grato o aroma de um ramalhete de flôres que nos mostrassem dentro de uma redoma de crystal, não é fácil tarefa; tem de elevar-se a alma a um extremo altruismo estetico, paradoxal até, não por virtude nem sciencia, mas derivado de condições tristes da vida, e quando se é já tam pobre em esperanças e desejos, que o individuo rasteja como um pária moral, alheio a tudo.

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Tal pária, n'um ponto, n'um só ponto, é grande como um Deus: vê o mundo do alto, parecem-lhe os homens formigueiros, segue com a vista as formigas nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres; em tal estado de desinteresse e independencia, custa pouco então apontar com o dedo para a tribu que mais bem dotada parece na partilha das graças, dizer--é esta, o Dai-Nippon.

Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa, as illusões d'este paiz... e a sua estima, e esta não é uma illusão.

1901

ISSUMBOSHI[2]

(CONTO JAPONEZ)

A A. A. Ferreira d'Almeida.

Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam na provincia de Settsu, em Naniwa, como então se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois sósinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente os desejassem. Ora, a prole é a grande preoccupação da familia japoneza; considera-se mesmo incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle que a não teve, e assim se vê privado de legar o seu nome, e os encargos do culto devido aos ascendentes, ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe apenas o triste expediente da adopção de um filho estranho, que, com a herança do appellido de familia, assuma os encargos da supposta primogenitude.

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