Paisagens da China e do Japão

Chapter 8

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Mendigavam? menos possivel ainda que assim fosse. A taes horas, dormem todos, incluindo os mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos das grandes lórchas juntas em magotes, desenhando-se vagamente junto ás margens os barquitos em cardumes, presos ás varas de bambú encravadas no lodo. Apenas de espaço a espaço algum raro _tanka_ atravessava d'um lado para outro, chape-chape, remos movidos lentamente pelas mãos das raparigas somnarentas, fartas da lida do dia,--coisa de ir levar ao seu albergue algum retardatario, de volta do jogo ou das orgias.--Não era dos nocturnos viajeiros, e menos dos pobres tankareiras, que o bando de leprosos lograria um punhado de sapecas, que compensasse o esforço da vigilia. Nem a sua miseria, realmente, era tal, que os levasse a tão duros extremos. É certo que o leproso se encontra excluido dos povoados. Em paragens mais rusticas, matam-n'o á pedrada, se o encontram; em Macau, porém, a brandura dos costumes regeita em regra esta medida, tenha embora o miseravel de viver pelos esteiros, em barcos podres, ou sobre os lodos, escondido das gentes como um bicho peçonhento. No entretanto, o esteiro fornece-lhe peixes vis, e caranguejos, e molluscos, e vermes; os cäes vadios encontram de quando em quando, nos despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso tambem o encontra, como elles. Na altivez da sua pasmosa abjecção, o leproso não vem expôr-se ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem, acoita-se no antro, come immundicies, bebe agua pôdre; e os fados são-lhe bastante complacentes em geral, para matal-os da molestia antes que arrebentem pela fome...

* * * * *

Averiguou-se finalmente o que fazia aquelle bando de leprosos.

Aquelles infimos párias passavam a existencia isoladamente, cioso cada qual do seu covil, dos seus farrapos, devorando sem partilha o que o acaso lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente, pela visinhança dos antros, sobre a mesma vasa que se alastra na margem fronteira á de Macau, e a fatalidade commum estabelecia de direito affinidades, allianças tacitas de tribu, entre elles; mas, como não carecessem uns dos outros para soffrerem, para odiarem a natureza creadora, para jazerem no ninho da trapagem, para morrerem, não se procuravam. Na imaginação immersa em trevas de cada um, rustica, pouco elastica, e cultivada em ascos, em maldições, em misanthropias rancorosas, nunca por certo passara a phantasia de vir insinuar-se na turba, partilhar das suas distracções, relancear os festins, percorrer os bazares, invadir os templos e os theatros. Mas na torva e lenta elaboração do pensamento, durante os longos dias, os longos mezes, os longos annos de isolamento e de ocio, um desejo se fôra pouco a pouco avolumando, definindo, convertido finalmente em tortura, amargurando como uma dôr constante e implacavel:--era a mulher, o desejo, a tortura da mulher.--Prazeres do mundo não se queriam, nem mesmo se lhes imaginavam os feitiços; era-se superior a essa chimera. Mas, no ambiente acariciador da vida, em presença das arvores fructificando, das flores perfumadas, dos animaes requestando-se, os hymnos da terra, da creação em galas, do amor dos sexos, vinham tambem echoar n'aquelles cerebros, electrisar aquelles nervos; a visão da mulher, durante as mornas monotonias sem termo, aparecia como um apetite crescente, como uma fome de carne; e os miseraveis, allucinados pela obsecação de todos os momentos, estremeciam, erguiam-se de subito do seu leito de trapos, arquejantes, o sangue a escaldar-lhes as frontes, o olhar em fogo...

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Então, tacitamente, impôz-se a cada qual a necessidade de fraternisar com o seu visinho, de agremiar-se em bando. A união faz a força. Procuraram-se, intenderam-se. Medonhos conciliabulos se passaram, a coberto das trevas, pelas noites longas, sobre os lodos. Segredava-se, aventurava-se um plano, discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a phrase rouca golfava dos labios, eloquente, persuasiva, os membros disformes erguiam-se na sombra em gestos tragicos. E assim se escolheu o barco menos podre, se nomeou a companha, o capitão, se esperou por uma noite mais escura, azada aos seus intentos. Assim tiveram inicio e proseguiram os estranhos cruzeiros, á aventura. Eil-os, o bando immundo dos gafados, á capa, pairando ou remando a medo, de manso, de manso, silenciosamente, e prescrutando as trevas. Se ia passando algum _tanka_, os ouvidos subtis e os olhos experimentados, estudavam, presumiam, adivinhavam. Quando era chegado o bom momento, então,--oh delirio supremo!--n'um impeto de remadas e desejos, o barco voava, dava a abordagem, os milhafres caiam sobre as victimas indefesas. Habeis no ataque, com as mãos sem dedos suffocavam os gritos das mulheres, a murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro, distinguiam das velhas as moças, apartavam dos ossos duros a carne fofa e tenra; e com fome de hyenas, as boccas pestilentas comiam, devoravam com beijos as pobres raparigas, que em vão se debatiam na lucta tremenda d'uns instantes...

Após, o barco dos leprosos seguia serenamente a atracar á margem chineza, e elles dispersavam, mudos, quasi felizes, indifferentes por momentos ao prurido das chagas; e semanas depois reuniam-se novamente. No _tanka_, as moças ficavam-se chorando, arrepelando-se de horror, de desespero, de vergonha por sua mofina sorte; e tanto mais mofina, que é assim, por um beijo, segundo a voz do povo, que a lepra se propaga, se multiplica de corpo para corpo.

1900.

UM PINTOR DE GATOS

A D. Miguel de Mello.[1]

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Era uma vez, em mui remotos tempos, uma familia de boa gente lavradora, vivendo em certa aldeia do Japão. Marido, mulher e um rancho de filhos; gente pobre, é claro; e ajunte-se que a mui ardua fadiga se dava o camponez, para que não faltasse em cada dia, a cada uma das vorazes boquinhas dos garotos, a tigela de arroz do almoço e do jantar. O mais velho dos rapazes, já aos quatorze annos, robusto quasi como um homem, começava a ajudar o pae, nas varzeas e nos campos, o pobre pae, a quem as forças minguavam; e os outros, cada um conforme a sua idade, iam fazendo tambem o que podiam; até a irman pequena,--uma migalha de gente, coitadita!--lá ia alliviando a atarefada mãe na lida do casebre.

Só o mais novo dos rapazes em nada se empregava que prestasse; era um inutil; não que elle fôsse falto de juizo; pelo contrario, excedia em esperteza qualquer dos irmãos ou das irmans; mas era enfezadito, debil de musculo; e bem cedo os paes se convenceram de que aquelles braços tenros não haviam nascido para a enxada.--«Faça-se d'elle um bonzo»,--combinaram; e foi n'esta intenção que um bello dia decidiram leval-o ao templo do logar, e á presença do velho sacerdote, que era como quem diz--o prior d'aquella freguezia.--O pae fallou e expoz a questão, em quanto que a mãe approvava com a cabeça; o reverendo, que em breve trecho descobrira rara sagacidade na creança, consentiu em tomal-a por pupillo, pensando talvez intimamente que alli o acaso lhe trazia um digno successor, quando a hora lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.

E ficou tudo resolvido.

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O noviço mostrou-se, desde os primeiros dias, submisso, intelligente e piedoso; e tambem--valha a verdade--não lhe iam mal a rude tunica amarella e a cabecita rapada á navalha, de preceito; mas como não ha formosa sem senão, segundo um proverbio portuguez (e a philosophia dos proverbios se applica á humanidade inteira), tinha um defeito o rapazito: pintar gatos. Expliquemos o caso, que é curioso: nas horas de sueto ou nas horas de estudo, no templo, na cella, no jardim, em toda a parte onde estivesse, punha-se a pintar gatos; e tão bem os pintava,--faça-se-lhe justiça n'este ponto,--que nenhum pintor até então pintou gatos melhor do que o fradinho. As paginas dos livros sagrados do convento, as paredes, os biombos, os pilares, as arvores, os rochedos,--forte mania de creança!--tudo servia, tudo era tela para exercer a sua pecha. Por onde elle passava, por onde se quedasse dois minutos, era logo a successão interminavel de desenhos, eram as curvas caprichosas dos travessos felinos, de todos os tamanhos, em todas as posturas, creio que até enjaneirados, os olhos redondos, esbrazeando as duas orelhas espetadas, o côtosito alçado e petulante (os gatos japonezes não têem rabo), a garra atrevida posta em guarda... Está-se a adivinhar com que azedume o reverendo acolhia taes desmandos; vezes sem conto reprehendeu o _artista_ (como por ironia lhe chamava), tentando dissuadil-o d'aquella triste balda, que nem lhe permittia estudar com attenção os velhos alfarrabios do buddhismo, de tam necessaria sciencia ao seu santo mister. Intento inutil: não por maldade, por instincto, quanto mais lhe prohibiam a proeza, mais ia pintando gatos o teimoso. Até que finalmente, em certa occasião, o reverendo perdeu de todo a paciencia e gritou ao moço incorregivel:--«Vae-te embora! Foge da minha vista!... Bom padre, nunca serás seguramente; serás talvez um bom pintor.»--A ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar os seus poucos haveres, pôz a trouxinha ás costas, e fez uma mesura ao padre mestre.

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Eil-o na rua, escorraçado, em bem angustiosas condições. Que fazer? Tremeu de voltar ao lar domestico, onde o pae, mui certamente, o puniria da sua teimosia. Lembrou-se então que a quatro leguas de distancia havia uma outra aldeia, com um templo cheio de bonsos, e para lá se encaminhou, disposto a pedir abrigo e protecção aos padres. Era notorio que o tal templo desde alguns mezes se achava abandonado, por n'elle ter entrado um demonio, um espirito malfazejo, como tantos que abundavam então pelo Japão; muitos guerreiros animosos se tinham decidido a ir lá dentro, mas nem um só voltou; porem estas noticias, que iam ja apavorando aldeias e cidades em redor, nunca haviam chegado aos ouvidos do pequeno.

Era já noite escura quando alcançou a aldeia; o povo dormia nas choupanas; ao fundo da rua principal, e sobre um dorso de collina, de entre a rama das mattas erguia-se o templo magestoso, e uma luz interior bruxoleava, luz de esperança para a misera creança. Luz de esperança parecia: mas o povo bem a tinha por feiticeira do diabo, que assim manhosamente ia attrahindo algum caminheiro solitario em busca de poisada. Bate ao portal uma primeira vez, bate segunda vez, bate terceira, sem que ninguem acuda ao chamamento. Por fim percebe que basta empurral-o para abril-o; e então, por um leve impulso dos seus braços, achou livre o ingresso, e assim entrou, largando dos pés nús as suas sandalias poeirentas.

Nos aposentos interiores ardia uma lampada com effeito; mas nem um bonzo só, de tantos que alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu esperal-os. O tempo ia passando, e os seus olhos curiosos de garoto entretinham-se em devassar o aspecto do sitio onde se achava. Notou com espanto que abundava o lixo, e pelo tecto as aranhas iam tecendo sem cerimonia as suas longas teias; era estranho que, sendo em regra os templos, mimos de limpeza e de cuidados, aquelle se encontrasse em tal desleixo, como se fôsse coisa abandonada. É que, provavelmente, aos santos bonzos faltava o auxilio d'um acolyto, a quem, como de praxe, cabe o dever de todas as manhãs lavar, varrer e sacudir o pó, arte exercida no Japão com especial disvelo; e concluiu logicamente que bom acolhimento lhe fariam, no proprio interesse da communidade.

Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o olhar n'um movel que o captiva, que é um grande biombo que tem em sua frente, com as duas faces brancas; passára-lhe na mente o irresistivel desejo de encher aquellas faces de gatos, de cem gatos, de mil gatos, lindos, felpudos, assanhados, com as bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma subita alegria illuminava-lhe o rosto sonhador... Pensado e resolvido. Cerca encontrou a classica escrivaninha japoneza,--a caixa com os pinceis, com a gota de agua n'um deposito metalico, com o pedaço de tinta negra e com a loisa onde esta se prepara.--Mãos á obra. O pincel voava em curvas humoristicas; a mãosinha inspirada corria, pullava de alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo a impressão propria com habilidades prodigiosas. Assim fôram apparecendo, sobre aquella tela improvisada, ranchos e ranchos de gatos adoraveis; e tantos gatos desenhou, e tantas horas correram, sem que os bonzos voltassem do passeio, que o pobre garotito sentiu-se de repente cheio de somno e de fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se fechou; estendeu-se sobre a esteira, e em breve adormeceu.

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Lá pela noite velha, um barulho inaudito, como se uma terrivel lucta se travasse entre mysteriosos combatentes, despertou a creança. Os gritos, os gemidos, o ruido dos corpos que caiam, vinham de perto, do aposento visinho onde estivera; tremiam as paredes, o chão, a casa toda; a pelleja durou até á madrugada. Como elle soffria de pavor! Caido sobre a esteira, immovel, parecia coisa morta, sustendo o proprio folego, para que a sua presença não fôsse presentida...

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Já com a manhã clara e sol bem alto, ergueu-se então, e animou-se a espreitar um pouco para fóra, por uma fenda da parede. Foi medonho o que viu. No chão grandes poças de sangue se alastravam; e mesmo ao meio da casa, jazia morta, esphacelada, uma enorme ratazana,--maior do que uma vacca!... Mas quem matára o monstro, se ninguem parecia ter entrado? Reparou por acaso no biombo, onde horas antes pintára tantos gatos; lá os viu, mas com os focinhos lambusados de sangue e as patinhas igualmente; eram elles que tinham dado cabo do demonio...

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O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, um grande artista. Ainda hoje se ademiram muitos gatos pintados pelo seu pincel inimitavel.

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O chronista de quem extrahi esta legenda, nada conclue, como moralidade, da historia que narrou. Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o permittem. Em primeiro logar, pouco propenso a crêr em coisas do diabo, embora mesmo no Japão, concluo que, se a rata do convento era tam grande, é que a despensa se achava provida com um enorme arsenal de gulodices; o que, a despeito de tanto que se diz dos frades de outras terras, dos frades portuguezes por exemplo, faz honra á sobridade de habitos dos maganos, pois não consta que jamais os presuntos e a marmellada de reserva nutrissem uma rata lambareira até attingir igual tamanho. Concluo ao mesmo tempo, humilhado, confundido, que os pintores do meu paiz estão bem longe do traço creador dos pintores do Dai-Nippon. Por ultimo (e talvez esta final conclusão seja a mais util), vejo que ás vezes as nossas qualidades, de que os outros se riem e escarnecem, são as que mais nos valem n'este mundo.

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1901.

IMPRESSÕES RAPIDAS

A S. Peres Rodrigues.

Era uma noite de luar do mez de abril, esplendida. Eu seguia pelo caminho de Suwayama, na parte mais elevada da cidade. De um lado alinham-se as casinhas japonezas, entre ellas as mais famosas _chayas_ de Kobe, _Tokiwa_ e outras, onde os japonezes vêem folgar; do outro lado, é a rampa ingreme, coberta de pinheiros, e sóbe a collina inculta, em corcovas accidentadas, onde assenta um templo notavel.

Nas _chayas_, segundo o costume, havia festa. As corrediças de papel estavam fechadas; mas a luz interior coava-se para fóra vivamente, desenhando alguns vultos dos convivas em sombrinhas deliciosas; eram os vultos d'elles, dos amigos reunidos, certamente banqueteando-se sobre a esteira, e eram os vultos d'ellas, das _gueshas_, que lhes iriam vasando o vinho nas taçasinhas de fina porcellana, e cantando balladas ao som do _shamicen_. Musica, cantigas, gargalhadas, chegavam-me aos ouvidos n'um vago sussurro de alegria.

Na minha frente iam seguindo uns cinco sujeitos europeus, gente de distincta sociedade, a julgar pelo esmero do trajo e da linguagem, e pelo aroma dos soberbos charutos que fumavam. Iam fallando inglez. Dois discutiam finança:--o Japão atravessava uma crise economica terrivel; os cofres do governo, segundo as apparencias, exhauriam-se; o trafego em marasmo; duas grandes fabricas de Osaka, constava, suspendiam o trabalho...--Os tres outros palestravam de politica:--primeiro foi o Transvaal, e fez-se a conta de quantos boers haviam já caido sob o chuveiro das balas inglezas; depois saltou-se ao Extremo-Oriente; a Russia ameaçava o imperio japonez; apparecesse um pretexto, o mais leve, o mais futil, e era a guerra; discutiam-se as probabilidades da victoria, presumiam-se os estragos, o numero de victimas no primeiro embate das esquadras...--Teriam talvez muita razão, todos os cinco; mas ia-me parecendo aquella gente um bando de mochos agoirentos, folgando com a ruina, dando-se bem com o fetido dos mortos. Para elles não nascera, imaginava eu, aquella lua esplendida, que ia alumiando o espaço todo e espargindo sobre a terra uma chuva de prata; nem era para elles que os pinheiros de Suwayama se enchiam agora de rebentos viçosos; nem para os seus pulmões que o ar vinha oloroso de florescencias multiplices, distantes. Suppunha-os, coitados, dyspepticos, biliosos, misanthropos, perseguidos nos fofos leitos por cruciantes pesadelos.

N'aquelle ponto, as _gueshas_ de Suwayama entoavam uma cantiga popular, que assim começa:--«_Haru wa, ureshiki_...»--cujas primeiras estrophes se podem traduzir, pouco bem, por estas duas quadras:

Na primavera, enlevae-vos Nas cerejeiras em flor. No v'rão, folgae nas ribeiras, Quando se abraza em calor.

No outono, vêde a folhagem, Toda escarlate, voando. No inverno, espreite-se a neve, Bebendo vinho e cantando.

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Quando eu escrevi a _Primavera_, e a offereci a um delicado amigo, prometti a mim mesmo, e creio que tambem a elle prometti, completar com pachorra e vagar, os aspectos das estações, aos quaes o tempo, o sol, a cor do ceu, n'este paiz deslumbrante de scenarios, imprimem mais intensivamente, mais emotivamente do que em outro logar, feições differentes e imprevistas. Por preguiça ou outras causas, não cumpri a promessa, com o que,--valha a verdade,--nada se perdeu que falta faça; mas, succedendo agora que tenho de reunir em volume umas impressões dispersas, que intitulei _Paizagens_, pareceu-me indispensavel, por um melindre de consciencia litteraria, voltar ao assumpto, concluil-o. Pede-me pressa um editor bondoso. Tomo o negocio de empreitada; reuno as ligeiras notas soltas que encontro em esquecidos papeis velhos.

Antes assim. Impressões do acaso, apontamentos rapidos, vão-me parecendo preferiveis a um longo estudo que intentasse das mutações de scena que hoje, amanhã, meus olhos relanceam; e não perco o ensejo, por natural intuito de desculpar-me perante quem me lêr, de traduzir aqui uma deliciosa pagina de um livro francez, tambem sobre o Japão, escripto ha poucos annos.--«As circumstancias concorrem mais para a inspiração, do que todos os esforços do homem, e a experiencia quotidiana é a grande instigadora das imaginações. Vêde em litteratura: de ordinario, tanto mais breve é um trabalho, ou, se é extenso, tanto mais é feito de pedaços, de fragmentos escriptos primitivamente ao acaso dos tempos, tanto melhor elle é; um longo livro de historia, um longo romance, um longo tratado de philosophia ou de moral, jamais valerão um conjuncto de memorias, uma curta novella, um jornal intimo ou um caderno de pensamentos, e jamais um poeta epico alcançará o viço de vida que dá ao improviso feliz tamanho encanto; porventura, o homem sensato deveria decidir-se a não publicar senão volumes de paginas destacadas.»

Pretendo ser sensato uma vez na minha vida.

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Verão.

Um calor de fornalha. Na Africa, na China, não é mais suffocante. O enervamento é enorme. Desfalece-se de preguiça, de langor.

No entretanto, é no estio que o Japão alcança a sua genuina feição typica, pela natureza e pelo povo, descripta pela lenda, pintada pela arte e como os estranhos a imaginam.

A terra é toda verde. Crescem as mattas, trepa a herva, viceja o mar de arroz nas varzeas alagadas. Nos jardins, floresce a _asagao_, a caprichosa trepadeira, cujas flores, as frescas campanulas de todas as cores imaginaveis, duram o espaço de uma madrugada; nas aguas, floresce o lotus.

O vestuario attinge a maior simplicidade; um unico _kimono_ de algodão azul e branco, amarrado na cintura, é tudo... e ás vezes nem é tanto. O europeu, quando ainda estranho ao meio, encara então surpreso este Japão nu ou quasi nu, passeando sem cerimonia as suas pernas, os seus braços, os seus collos, os seus seios e ainda mais,--exposição paradoxal de grotescos e de encantos...

A casa, durante o dia, tambem se despe; despe-se das suas paredes de papel, ficam o telhado e quatro ripas; patenteam-se aos olhos de toda a gente, o lar, a vida intima.

É a epocha das peregrinações, das excursões aos templos, aos logares frescos, onde ha brisas, onde ha sombras, onde ha aguas. Trepa-se ao Fujiyama, a montanha sagrada. Busca-se o abrigo de um pinheiro, para petiscar, para folgar em companhia; e os corpos estendem-se na relva, como repetis. As _musumés_ vão molhar os pésitos nas areias das praias, para colherem algas e mariscos. As ribeiras convidam: n'umas, entre juncos, é a caça nocturna aos pyrilampos; n'outras,--o Sunsidagawa em Tokio, o Iodogawa em Osaka,--em noites calmas, é a flotilha immensa dos barcos de prazer, todos elles sanefas multicores, lanternas, balões, galhardetes, harmonias de instrumentos, festins, rapazes, raparigas, amores...

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Outono.

Em novembro floresce a chrysanthema, a flor heraldica. Estupenda coisa. Não me parece flor; antes um monstro, com a sua enorme cabelleira de mil petalas, contorcidas como tentaculos de um polypo, em colorações indefiniveis. Alinhadas nos jardins, sob tendas de abrigo, as chrysanthemas lembram mulheres, lembram-me cortezãs de Ioshiwara, quando ellas vestem os ricos mantos polychromos, quando ellas enfeitam os cabellos com diademas de espavento, e vêem postar-se em filas, princezas pompejantes do vicio, encantadoras e perversas...

No outono, a folhagem do arvoredo perde naturalmente o verde, e cobre-se das cores mais vivas e mais estranhas, o amarello, o vermelho, o roxo, em cambiantes varios. A paizagem offerece então um luxo de tintas innarravel; momentaneo, porque as brisas vêem breve despir os troncos, e juncar de folhas mortas os campos e os caminhos. A delicada arvore que aqui chamam _momiji_, de graciosas folhas digitadas, torna-se toda em purpura, como em fogo; ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em magotes, que vem rir, que vem beber, que vem folgar, arrebatado pela scena, que é sem rival em maravilhas.

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O inverno.

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Mas ha inverno no Japão? Julgo que sim, pois gela a agua nos charcos e ribeiros, cae profusa a neve, alvejam no horisonte as serras, como embrulhadas em lençoes. No entretanto, ainda ao sol de dezembro desabrocha a chrysanthema, e já em janeiro as ameixeeiras, nuas de folhas, começam a florir. Seja pois um inverno de flores. É certo que essa grande desolação das longas invernias dos climas temperados é desconhecida em solo japonez. A paizagem é sempre alegre; o ceu é sempre azul; os pinheiros, que são as arvores que mais abundam, sempre verdes. Se então se prolongam mais as palestras em roda do brazeiro, chegando os deditos ao calor, tomando chá, o povo não cessa de affluir aos theatros, aos bazares, aos templos, aos jardins; apenas, por cuidado ou garridismo, as _Musumés_ cobrem com um manto de delicada cor as cabecinhas petulantes, deixando vêr do rosto apenas uma nesga da fronte e os olhos negros, humidos de amor e de mysterio... deve ser antes garridismo, pois ficam d'este modo mais seductoras do que nunca.