Chapter 7
A gente póde recompôr em pensamento a scena da praia de Sakai. Uns bellos loiros, rosados como pecegos, robustos como jovens Hercules. Riem, brincam, cantam, pisando a fôfa areia. É um bando de irmãos, todos da mesma idade, tratando-se por tu, passando de mão em mão a bolsa de tabaco, e até de bocca para bocca o cachimbo de gesso fumegante.--«Olha, Jacques! Repara, Gabriel!»--E batem palmadas nas costas uns dos outros, e brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes gestos rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os contorcidos pinheiros que rendilham o horisonte, para as ameixeeiras em pasmosas florescencias, para as casinhas de madeira e de papel, para as _musumés_ em sedas, seductoras... exoticos, captivantes aspectos de um paiz maravilhoso, que abre agora as suas portas á curiosidade do mundo occidental, deslumbrando a imaginação juvenil d'estes pobres francezes, habituados á monotonia do azul das longas viagens fadigosas. Consta que os garotitos de Sakai iam affluindo á praia, e quedavam-se em volta dos marujos, bocca aberta, espantados dos seus modos, do uniforme, das suas feições de raça branca; e que estes com as creanças partilharam algum pão das suas provisões. De repente, surde de algures um bando petulante, irrequieto, multicôr pelas bandeiras desfraldadas e pelas sedas das cabaias, e reluzente pelas armas que empunha; são _samurais_ do imperio; o quadro é deveras interessante; os marujitos, surpresos e attentos, são todos olhos... olhos que em breve se cerram, quando os corpos caem inertes sobre a areia, após uma descarga de metralha... Ah! barbara cafila de soldados japonezes!...
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No meu espirito vagabundo, depois da ferocissima scena de matança, é agora a sorte d'estes _samurais_ que relembro, e me commove. Commovem-me assassinos? Sim; os annos fôram correndo sobre os factos e esfriaram os rancores. Póde hoje memorar-se, sem asco, com sympathia, mesmo nos seus transes sanguinarios, a breve lucta de resistencia que o velho Nippon feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aquelles que vinham despertal-o do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados todos, pertencendo á nobre casta dos guerreiros, seria realmente excepção estranha se não fulgurassem no seu animo, remindo-os do opprobrio, as virtudes da casta--a extrema dedicação aos chefes, o sacrificio de si proprios pela patria, e o amor por essa patria guindado á intensidade de paixão, mais alto ainda, aos paroxismos do delirio.--
A historia plenamente nos explica o odio que a massa dos guerreiros ia nutrindo então pelos estranhos. O shogun, generalissimo do imperador, com residencia em Yedo, assignára por conta propria tratados de amisade e de commercio com a America e com a Europa, e os estrangeiros, em Yokohama, pisavam já afoitamente o solo japonez. O shogun violava por este modo o dogma sagrado do imperio, que era o isolamento absoluto, a exclusão do homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse pelo mundo, o goso eterno e sem partilha, deliciosamente egoista, do paiz maravilhoso que os deuses haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do insolito desacato chegou até Kioto, a cidade santa, onde vivia a côrte, em torno do Soberano, a mais accesa colera explodiu, e todas as energias se ligaram para humilhar o shogun e varrer para sempre da patria os teimosos intrusos.--«Morte aos barbaros!»--foi o grito do soberano, da côrte, dos senhores feudaes.--«Morte aos barbaros!»--foi o credo que incutiram ás legiões á pressa reunidas, que corriam a expulsar, a massacrar, a exterminar, os estrangeiros. O shogun, supremo em mando até então, estava perdido, debaixo de seus pés tremia a terra, rugia o vulcão politico que em breve ia esmagal-o; mas, pela fatalidade dos tempos, as energias e as cubiças dos intrusos haviam de vencer, de impôr os seus designios; e a rhetorica dos diplomatas, prudentemente sublinhada pela metralha dos canhões, tinha de ser ouvida. Os dias iam passando, e o solemne decreto de exterminio não podia ser cumprido; apenas, de quando em quando, um ou outro _samurai_ lograva decepar alguma cabeça loira de inglez, merecendo dos seus chefes fartos applausos pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes comprehenderam que a lucta era impossivel, que o mysterio nipponico findára; e o Japão foi descerrando pouco a pouco as suas portas, entrando em negociacões com os diplomatas estrangeiros, não já pela iniciativa incompetente do shogun, mas pela propria iniciativa do soberano. O shogun, por inutil, foi deposto; como se não conformasse com a vontade imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou para Yedo. Estes acontecimentos succediam-se em tropel; a grande maioria da nação não podia aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano; a grande maioria da nação ia odiando o shogun e repetindo o seu credo--«Morte aos barbaros!»--sem se aperceber que a situação mudára, que a côrte já tratava com as potencias, e que a aggressão aos europeus, havia pouco meritoria, era agora condemnada e prejudicava fortemente a marcha da politica imperial.
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Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando os marinheiros francezes que encontravam, julgavam ter cumprido um dever grato ao soberano e util para a patria. Illudiam-se. A resposta ás energicas reclamações das auctoridades francezas foi a condemnação á morte de todos os culpados, que eram vinte. Como guerreiros, não bandidos, foi-lhes concedido como graça o _hara-kiri_, isto é, a morte honrosa, devendo cada qual rasgar a propria carne a punhaladas.
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Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um templo de Sakai, e em 16 de março teve logar o supplicio. Passou-se então um espectaculo tremendo, não de tristeza, antes uma festa de sangue, de morte, que excede a comprehensão dos homens europeus. Enchia o recinto do templo a multidão dos officiaes do imperio, das auctoridades francezas, das testemunhas, dos amigos, dos bonzos, dos curiosos, vistosa em côres, em bellos uniformes, em garbo e fidalguia; e, um por um, por seu turno, veio apparecendo cada condemnado, todo vestido de lucto, de alvas vestes, ajoelhou no solo, curvou-se em reverencias, saudou a multidão, recebeu solemnemente o curto sabre de etiqueta, cravou-o até aos copos nas entranhas, rasgou as carnes com mão firme, tingiram-se as vestes de escarlate, jorrou o sangue sob uma urna proxima, a fronte crispou-se pela dôr, a côr fugiu da tez, o corpo pendeu inerte, para a frente...
Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de vinte e cinco annos, escreveu no seu ultimo momento de vida uma curta poesia, que era assim:--«Condemnam me; não discuto a minha morte; servirá ella de pretexto á justiça do futuro, que decidirá se, para honra da patria, devem ser expulsos os barbaros.»--Nishimura Saheji Minamoto no Ujiatsu, de vinte e quatro annos, escreveu o seguinte:--«Não me pesa o morrer, a vida passa como o orvalho desapparece com o vento; uma coisa me afflige:--o futuro da patria»--Ikegami Iasakichi Fujiwara no Mitsunori, de trinta e oito annos, escreveu o seguinte:--«É preciso alumiar o espirito da nação; para isto abandono o corpo ao meu paiz;»--este, quando as entranhas lhe caíram, fez menção de atiral-as á cara dos francezes. Oishi Jinkichi Fujiwara no Yoshinobu, de trinta e oito annos, escreveu o seguinte:--«Façamos hoje o sacrificio da vida, com o maior respeito, pois somos todos filhos d'este paiz dos deuses.»--Sugimoto Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e quatro annos, escreveu o seguinte:--«Sinto o coração feliz pela agonia que soffro, ao dar a vida pela patria;» este, por um gesto respeitoso, offereceu as entranhas aos francezes. Katsugase Saburoku Taira no Ioshihaya, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:--«Ninguem póde abalar no animo d'um _samurai_ o sentimento que tributa ao seu senhor.»--Iamamoto Tetsusuka Minamoto no Toshiwo, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:--«Muitos condemnam a alma do _samurai_; pensarão de outro modo aquelles que bem a conhecem.»--Morishita Mokichi Fujiwara no Shigemasa, de trinta e nove annos, escreveu o seguinte:--«Abramos o caminho aos ignorantes, a fim de alumiar o mundo.»--Kitashiro Kensuke Minamoto no Katayoshi, de trinta e seis annos, escreveu o seguinte:--«Para legar o seu nome á posteridade ha um meio: o sacrificio da vida.»--Inada Kwannoyo Fujiwara no Norashige, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:--«Os japonezes não temem de perder a vida; tambem a cerejeira, rainha das arvores pelas suas flôres, perde um dia essas flôres.»--Yanagase Tsuneshichi Fujiwara no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos, escreveu o seguinte:--«Sacrifiquemos aqui as nossas vidas, e mostremos aos estrangeiros o que vale a nobre coragem japoneza.»--Contando bem, são onze já. Parou aqui a scena, porque o commandante do _Dupleix_, notando já onze mortos para expiação dos onze crimes, deu-se por satisfeito, pediu que cessasse aquelle espectaculo assombroso. Dos _samurais_ perdoados, um suicidou-se em breve trecho, dando de barato a graça pela honra de morrer com os seus; os outros dispersaram-se; vive um ainda hoje, presumo que em Nagoya, um interessante velhinho, que reconta de bom grado as peripecias d'aquelle horrivel drama.
Os onze _samurais_ foram alli mesmo enterrados, no cemiterio, junto ao templo. Ainda ha pouco lá estive. O templo é um placido retiro de sombra e de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo vendaval quasi o desfez em pó.
Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, onde uma arvore sagrada, um enorme sagueiro, occupa o espaço todo, lançando em volta as suas palmas verdes. A lenda dá-lhe mui longos annos de existencia, e reza que ha quasi quatro seculos o shogun Nobunaga tanto se agradou d'aquella arvore, que mandou arrancal-a e transportar para um dos seus jardins; mas tanto se mirrava o sagueiro, e tanto se lamentava noite e dia, que não houve remedio senão trazel-o de novo ao velho poiso.
Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As sepulturas, apresentando a fórma de cubos de granito, aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade commovente; por entre as pedras, tufam e florescem as azaleas e verdejam os musgos, e mãos piedosas vêem depôr ramos de flôres e de verdura. Entre estas sepulturas contam-se as dos onze _samurais_. Mais adeante, as urnas de charão que serviram ao supplicio, alinham-se n'um altar, e ainda se distinguem manchas negras, do sangue derramado.
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Como eu dizia ha pouco, os annos passaram sobre os factos e esfriaram os rancores. N'estes dois cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem já existe sequer o pó dos ossos, existem só legendas. Em Kobe, as onze sepulturas evocam no espirito esse periodo de frenesi da Europa, de curiosidade, de cubiça, em face da morna inercia d'este canto do mundo; e as esquadras que o devassam, que o visam com os canhões; e os diplomatas que intrigam, que teimam, conduzindo o finalmente, á força, ao convivio das nações; e, como peripecias infimas, quasi olvidadas e não pesando na marcha progressiva dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns humildes obreiros d'essa empreza... Em Sakai, as onze sepulturas rememoram a desesperada resistencia d'uma tribu feliz, contra aquelles que vinham arrancal-a aos seus sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda e a crença, e bradar-lhe que ser-se assim ditoso, já não é permittido. Pobres mortos! abraço com um mesmo olhar d'alma, enternecido, as vinte e duas campas...
1900.
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O ESPELHO DE MATSUYAMA
Ás Filhas de Carlos Campos
Viveu ha muito tempo no Japão um feliz casal de gente rustica, modelo de virtudes conjugaes; eram elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto. O povo varreu já da memoria os nomes d'essa gente; não admira, quando se pense que tantos seculos passaram. Indica-se apenas o logar, _Matsuyama_, que quer dizer _Montanha dos pinheiros_, na provincia de Echigo. Esta ligeira indicação basta para que imaginemos o scenario: serranias, pinheiraes, succedendo-se a serranias, pinheiraes; a terra, a rocha, fôfas de musgos, de fetos, de herva brava; covôes, precipicios, cachoeiras, por onde a agua golfa, espuma e rumoreja; pios de corvos e hymnos de cigarras; raros caminhos serpeando, calcados pelas sandalias dos que passam; e aqui, e alem, alguma humilde cabana de aldeões, de barro e colmo, aonde a vida intima, após as horas de labuta, desliza em longos repousos sobre a esteira, em simplicidades primitivas, em face da grande paz da scena agreste, e do azul sem fim dos largos horisontes. N'uma d'essas cabanas vivia o casal a que alludi.
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Ora, aconteceu uma vez que negocios muito graves chamaram o marido á faustuosa cidade, á capital de todo o imperio. Figure-se o alvoroço e o reboliço na choupana. Em coisas de viagem, a experiencia da esposa resumia-se ao trilho que seguíra raras vezes, em duas horas de caminho, do seu lar ao logarejo mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos, acudiam-lhe ao espirito não sei que perigos e trabalhos, maleficios dos genios das florestas, mil revezes a que se ia expôr o companheiro... Por outro lado, envaidava-se com a idéa de ser elle o primeiro do logar que ia vêr por seus olhos a mansão da côrte e do soberano, e contemplar as grandes maravilhas que lá por certo havia. Ella ficava; ella tinha a sua pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora mordida de saudades, devia resignar-se aos deveres do seu mister, e aos anceios d'aquella dura ausencia.
E que terna que foi a despedida!... Beijos e abraços não se deram, porque os japonezes não dão nem beijos nem abraços; lagrimas não correram, porque os japonezes nunca choram; mas fôram tantas as mesuras e tantos os sorrisos, e tam longa a ultima palestra, elle promettendo voltar breve, ella prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um regalo contemplar casal tam meigo e tam feliz!...
E lá foi o marido.
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Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões, annuncia-se agora o regresso do sujeito. É vêl-a então, a cirandeira, ora varrendo, ora lavando ora arrumando, dispondo a choça em festa para a ditosa hora da chegada. É a pequenita certamente que mais cuidados lhe merece: o _kimonosinho_ de crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a flôr para o cabello, tudo novo, tudo fresco, tudo lindo, se põe de parte, se examina; e os dedos finos da maman, em curvas adoraveis, saltam, vôam, aqui alizam pregas, alli compõem laços, com habilidades unicas, prodigiosas; convem saber que não ha mãos mais bonitas e mais destras do que as mãos das japonezas, nem mães mais carinhosas do que estas mamans do Dai-Nippon. Ella propria, a maman, tambem cuida de si, não se furta aos adornos, não por arte talvez, por instinto do sexo; e eil-a enfiando os pés nús em grandes soccos novos, de charão negro e luzente, e estreando um _kimono_ catita, azul e branco. E lá vão ellas, as duas, certo dia, trilhos fóra, tic-tac, tic-tac, ao encontro do homem.
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Ai, que jubilos, ao toparem com elle são e salvo, todo chibante, bamboleando-se no seu passo vagaroso, para mais prolongar tam doce transe!...--«Bons dias, senhor marido! Bons dias, senhor meu pae!»--e os corpos agaxam-se em mesuras, e as cabecitas vão quasi tocar o chão do campo. E como a pequerrucha bate as palmas, e se lhe accendem os olhitos, quando elle logo alli lhe quer vasar no regaço a caixa de bonecos que comprára, carretas de madeira, raposas de pellucia, uma viola, minusculos apparelhos de cosinha e muitas outras maravilhas!... Elle promette entreter dias inteiros, só com a narração do que seus olhos viram: theatros regorgitando de _musumés_, vestidas como deusas; principes em comitivas resplendentes, passeando em liteiras de charão, e o povo prostrado a adoral-os pelas ruas; serenatas nos rios, barcos vogando a transbordarem de mulheres e enfeitados com balões, gemem as cordas das violas e estalejam nos ares foguetes de mil côres; templos gigantes e enormes sinos badalando; palacios cheios de luxo; jardins cheios de flôres; e por toda a parte a immensa multidão, de velhos, de rapazes, de meninos, feliz, risonha, pachorrenta; e a immensa industria dos bazares, charões, oiros, sedas, porcellanas, adornos sem conta nem medida, tudo digno de ir adornar mansões de fadas, no mundo das chimeras!...
O marido passou depois ás mãositas da esposa, tremulas de emoção, um bello cofre de madeira branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe isto:--«Não me esqueci de ti, como estás vendo; trago-te uma coisa muito linda, que tu de certo não conheces, um espelho, um _kagami_, como lhe chamam na cidade.»--Ella então, abrindo o cofre, observou a offerta; era um grande disco de metal, com o seu cabo, tendo uma face prateada, com relevos de folhagem de bambu e vôos de cegonhas, e a outra face limpida e brilhante como um puro crystal.
É bom saber-se que, sendo a industria do vidro recentissima no Japão, só ha mui pouco tempo aqui se conheceram os espelhinhos reles da industria occidental; nos velhos tempos, os espelhos do paiz eram metalicos, de preciosa liga e artistico trabalho, objectos caros excluidos, do lar dos aldeões; de sorte que é presumivel, dada a simplicidade de alma da pobre gente rustica de então, que as bellas ignorassem que eram bellas, por nem no espelho da agua das ribeiras se mirarem. Mas vamos nós á historia, excluindo divagações que pouco interessam.
Dizia o marido á companheira:--«Olha bem para a face brilhante d'este espelho e conta-me o que vês.»--Ella era toda olhos, toda surpresas, toda extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma mulher muito gentil, com um oval de enfeitiçar, com uns olhinhos negros muito doces, com uma rubra boquinha de cubiça. Disse mais que essa mulher não cessava de fital-a; e se ria, a mulher ria; e se fallava, os labios da mulher acompanhavam-n'a no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um _kimono_ azul e branco, igual ao seu, que ella trazia... O marido sorria-se, já com uns ares de doutor, que da viagem lhe provinham; e foi benevolamente convencendo-a de que essa mulher era ella mesma, e que o espelho, por um mysterio que elle não sabia explicar, apenas reproduzia a sua imagem, os seus encantos proprios; lá na cidade, muitas raparigas possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se viam e reviam, ora compondo as voltas do cabello, ora pintando os labios de escarlate, ora por mero passatempo de se acharem bonitas, as garridas. A esposa ficou então louquinha com o presente; e... diga-se toda a verdade: cheia de orgulho de si mesma, por se vêr tam catita, tam fresca, apetecivel. Fôram semanas e semanas votadas a esse enlevo, a mirar-se, a namorar-se--quem não lhe relevará essa vaidade?--até que finalmente convenceu-se de que um espelho era joia preciosa de mais para servir todos os dias, alli na choça núa, na solidão dos bosques; assim se explica o caso de ter elle ido parar dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com as velhas reliquias da familia.
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E vão passando os dias, os mezes e os annos. A felicidade bafeja constantemente aquelle lar. A grande alegria do casal é a filha, que cresce em mimos, tornando-se a verdadeira imagem da maman, e como ella submissa, e como ella affectuosa, e como ella activa na labuta. Vaidades de mulher, que tanto prejudicam no futuro as raparigas, não as tinha; e deve aqui prestar-se inteiro applauso á previdencia da maman, que em lembrança dos seus caprichos de outro tempo, passageiros, nunca á mocinha confiou o espelho, velha joia sem uso, esquecida na gaveta.
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E vão passando os dias, os mezes e os annos. Muitos annos. A mãe, uma velhinha com a alvura da neve por côr dos seus cabellos, jaz prostrada na cama, sem forças, moribunda; a filha, junto d'ella, multiplica-se em cuidados, anima a triste enferma.
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A custo, diz a velha:--«Sinto que morro, vae-me fugindo a luz dos olhos. Vou deixar-te, e o nosso velho amigo. É isto que me pesa; cheguei a persuadir-me de que este nosso bem não tinha fim. Por ti, tam só que ficas, receio muito, filha: o mundo é um grande mar, cheio de escolhos e de perigos...»--E deteve-se e pôz-se a meditar por muito tempo, passando pela fronte os dedos descarnados; então, um pensamento lhe acudiu, uma d'essas travessuras de velha que só redundam para o bem, e proseguiu d'esta maneira:--«Olha, tenho uma idéa: toma este espelho, este objecto milagroso que veio de muito longe; e jura-me que uma vez em cada dia e uma vez em cada noite, o irás vêr. Eu te apparecerei então, no mesmo espelho; e assim, na minha companhia, terás mais animo na vida, mais força nas angustias, mais tento com as indecisões da juventude e com os males que te rodeem.»--E a filha jurou isto; e a velha deixou-se morrer serenamente, resignada, sorrindo á paizagem verde, sorrindo ao sol festivo, que investia em faixas de ouro pela casa...
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A _musumé_ cumpriu attentamente o juramento. Por esta forma percorreu a via da existencia, tranquilla, sempre assistida pela mãe, que nunca cessou de apparecer-lhe, quando, nas mãos piedosas sustinha o espelho milagroso. Não era da moribunda, livida, prostrada em agonia, desfallecendo pouco a pouco, a doce apparição; era a maman gentil, de outros tempos, cheia de louçanias e sorrisos. Achava-se com ella n'um placido convivio sem reservas, com ella palestrava, a ella confiava os seus segredos, os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face pura bebia conforto e recompensas.
O velho algumas vezes surprehendeu a filha com o espelho entre as mãos, sorrindo, murmurando singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o caso; e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a moça lhe fez uma pergunta, por onde avaliou a chimera amorosa com que ella ia embalando o pensamento.--«Repare, senhor meu pae: não vê no espelho a minha mãe?...»--O que o velho via claramente, era a imagem da filha, que alli tinha junto de si em carne e osso,--e que carne! e que osso!--palpitante de vida e gentileza... mas julgou mais prudente conserval-a sob o prestigio da illusão; e, franzindo muito o rosto, de rude pergaminho, sem que se percebesse se ria ou se chorava, ou se ria e chorava ao mesmo tempo, fez côro com ella, assegurando que sim, que via a santa mãe, e tam bella, e tam fresca, como no dia do noivado...
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1900.
AMÔRES...
A J. Godinho de Campos
Uma impressão de Macau.
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O que faria aquelle bando de leprosos, que a policia da colonia surprehendeu e agarrou? O que faria aquelle bando de leprosos, além no meio do rio, sobre um miseravel barco, pela noite velha, tenebrosa e fria, ora pairando e deslisando ao grado da corrente, ora remando manso, de margem para margem, em vigia?...
Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos de longe uma impressão de robustez de musculos, de gente affeita á enxada e á vida de lavoira. Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete de peçonha do seu sangue; eram indiscriptiveis seres inuteis, abjectos, quasi sem mãos, quasi sem pés, porque os dedos lhes iam caindo podres aos pedaços; rostos medonhos lavrados pelo mal, sem narizes, com os beiços roidos, com as faces chagadas; ainda mais sinistros pela infamia estampada nas feições e nos olhares, denunciando perversidades de alma de infimo quilate, por certo derivadas da suprema degradação do seu viver. Vestiam farrapos immundos, sem fórma definida e sem côr reconhecivel; e escondiam as frontes, talvez envergonhadas, sob as abas enormes dos chapeus de rota, em uso nas aldeias.
Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle paradeiro, não era admissivel esta supposição; nem no misero barco, onde se amontoavam alguns trapos, se deu fé de anzoes ou de outras artes de pescar.