Chapter 6
O proprio japonez é uma caricatura. Não se espantem da asserção os que tiverem a pachorra de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon, formou n'um estado de alma galhofeiro esta terra, sem systema, sem programma estudado e sem pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos comicos caprichos que a phantasia lhe ditava e a mão omnipotente ia executando, ferramenta do officio em acção, escopro ou broxa, afeiçoando, retocando, caricaturizando, o que do chaos ia surdindo á flôr das aguas. Depois, concluida a obra, devia ter soltado uma gargalhada retumbante!...
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Ora desde remotas eras até hoje, pratica-se no Japão um exercicio de lucta, um _sport_ (como se diz agora) muito em voga, e do especial agrado d'esta gente; é o espectaculo favorito durante determinadas epochas do anno. Limita-se no campo um espaço com esteiras e bambus, e ao centro dispõe-se uma pequena elevação em forma circular; içam-se galhardetes e bandeiras, rufa o tambor, e o povo afflue por centenas de curiosos, compra o seu bilhete e toma poiso; dois homens, quasi nús, combatem corpo a corpo, como na arena grega, até que um d'elles derruba o companheiro e é proclamado vencedor. Estes luctadores de profissão são escolhidos d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e é na provincia de Tosa que especialmente se recrutam. Não são homens, são caricaturas de homens, são monstros, enormes, valendo cada um em peso e em dimensões por seis japonezitos ordinarios. Não se imagina, nem podem descrever-se, as caras, os carões de taes sujeitos; são mascaras disformes, caraças imberbes, olhinhos ferinos repuchados para a testa, queixada vigorosa e dentuça arreganhada, orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e um risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de creança e de riso de demonio; nem ha palavras que expliquem a amplidão dos vultos, a obesidade das carnes, o braço roliço quasi feminino, os seios erectos, o enorme ventre impando, lenta a marcha e ondulante, de urso da Siberia em liberdade. Asseguram estudiosos que estes monstros de Tosa são os ultimos restos, preciosos modelos vivos, da raça prehistorica japoneza... Pode assim ser; no japonezito de hoje, embora geralmente franzino, miudinho, delicado, não repugna acreditar que alguma coisa haja de commum com os luctadores de Tosa: como que laivos de familia, a vaga semelhança com um avô... a não querermos mais longe ainda ir procurar-lhe affinidades, n'um remoto parentesco com a deusa O-Fuku-san, que continua a rir-se para mim, e eu a rir-me para ella...
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Relanceêmos a chusma, nos theatros, nas feiras, nas romarias, nos bazares? Pode dizer-se, em geral, que o typo do japonez, da sua femea, e mais accentuadamente ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos anões, ou nos albinos, ou nos côxos, ou nos corcundas, ou nos leprosos, ou nos que têem um lobinho, ou nos que têem o nariz roido, em todos aquelles em fim em que um defeito, uma tara, sobresae, é caricatural supinamente, comico a ponto de nos fazer morrer de rir ás gargalhadas!... Ah, maganões! vocês, quando nos deram as imagens dos seus deuses, dos seus genios do lar: uns pansudos, como odres; outros esqueleticos, macrabos; uns pachorrentamente joviaes, outros terriveis, despedindo raios sobre a terra; vocês retrataram-se a si mesmos, segurando com uma das mãos o pincel e com a outra o espelhinho onde se viam, maganões!... Especialisando, da multidão das ruas, essa figurinha em miniatura que tão irresistivelmente captiva as attenções do estrangeiro, toda ella matizes, perfumes, frescura, gentileza, a figurinha da _musumé_, da rapariga, podemos ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura mais travessa, a chimera humana mais deliciosa, em que jámais olhos de viajante se poisaram!...
Profundar o enygma do feitio moral da tribu é impossivel. Apenas conhecemos vagamente que a vida intima desliza serena e pueril, sem ralhos, sem exasperos, em culturas de arbustos, em contemplações dos astros, em banhos quentes, em esmeros junto do espelho, em brinquedos com as creanças, em debandadas pelos campos, em libações de chá, em jantarinhos de arroz e fatias de nabos em salmoira, em sonecas tranquillas debaixo do verde mosquiteiro protector... Mas d'esta mesma gente expludem tambem por vezes os grandes dramas: crudelissimos assassinios, por cegueira de ciumes; suicidios duplos, por desespero de amor,--elle e ella cingidos n'um derradeiro abraço;--e essa horrivel sede de sangue, o homem transformado em fera, trucidando tudo vivo que encontra, estado de loucura conhecido entre os estrangeiros do Oriente pela denominação de _amock_, palavra malaia ou javaneza.
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A tribu parece ter sido feita de encommenda para o paiz exotico que lhe foi dado em patrimonio. Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor se comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, com as suas delicadezas, com as suas graciosidades, com os seus caprichos, com os seus disparates; manifestações multiplices de um caracter particularissimo de origem, mas no qual a influencia muito especial do meio laborou tambem intensamente.
Comparando os aspectos normaes, comezinhos, que se desdobram por este mundo fóra, com outros aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com a disposição commum das coisas, pergunto eu se o termo--disparate,--se o termo--caricatura,--são permittidos, julgando a obra da omnipotente creação? Haverá, por exemplo, um ilheo disparatado, um pinheiro caricatural? Se permittidos são, se ha tal ilheo, se ha tal pinheiro, então não se pode imaginar coisa mais disparatada, mais caricatural, do que este archipelago, já disparatado de nascença, emergindo a pique e como por encanto, do seio das aguas mais profundas do oceano, tenue, rendilhado como uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos por mysteriosas commoções vulcanicas, zurzido por tremendos cyclones, invadido por vezes pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera geologica emfim, que pode ámanhã desapparecer no abysmo, sem que por tal se espantem muito os sabios!... Tal é o imperio do Japão.
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A paisagem extravagante, inverosimil, inacreditavel, das porcellanas e charões, hoje divulgada em toda a parte, é com effeito a paizagem real d'este Japão. Collinas, penedias, verdes planices, lagos, cascatas, torrentes espumantes, ribeiras dormentes, valles profundos, mares interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos de ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n'um relance.
Demorêmo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas especies enormes) vestem as encostas, trepam pelas ribanceiras acima, até irem coroar os ultimos pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna dão allucinações áquelle que se aventura em devassar o seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de _momiji_; em novembro, a sua tenue folhagem digitada passa do verde claro ao escarlate; o scenario adquire assim deliciosos exotismos ultra-terrestres, como se a gente se achasse de repente pisando o solo de Marte ou de Saturno. A semente do acaso caiu sobre uma pedra á flôr das aguas; germinou o pinheiro, a rede das raizes abraça-se ao granito, e ergue-se desamparado o tronco, torcido, contorcido pelos annos e pelas intemperies, reflectindo no espelho glauco a sua eterna cabelleira de verdura; ha arvores, enobrecidas ou pela vetustez ou pela forma estranha, celebres como heroes, que são visitadas por uma multidão de peregrinos. As ameixieiras, as cerejeiras, abundam; pela primavera, cobrem-se de florescencias pasmosas, luxuriantes, como nunca se viu em parte alguma; mas não dão fructo, as trapaceiras.
Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. Trepa, por onde pode, a _asagao_; e abre á alvorada, por curtas horas, as suas frescas campanulas, de qualquer côr, porque as variedades não se contam, são milhares. Desabrocha a peonia, enorme, paradoxal. E enfileiram as chrysanthemas, a flôr nacional, sob tendas que as abrigam do sol, podendo lembrar cortezãs em exposição nos bairros de prazer, pela extravagancia das côres e dos feitios, que recordam a confusão polychroma dos vestidos e dos penteados das mulheres; mas que realmente se assemelham a enormes actineas, monstros dos mares, multiplicando-se em mil tentaculos contorcidos, brancos, amarellos, rosados ou sanguineos.
Agora a fauna. Pelo espaço, negrejam bandos de corvos, os _karasu_, escarninhos, voando e rindo ás gargalhadas. Enormes borboletas pretas, nunca vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, é incessante o ruido das cigarras, dos grilos, de outros bichos. Noites ha, pelo estio, junto ás ribeiras, em que uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades, motiva festas ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam peixes de oiro, com os olhos a estoirarem, com as caudas esfarrapadas e rojantes, como se fôssem longos capotes de mendigos. Junto da casa de papel toma o sol, cantarola o gallo anão, do tamanho d'uma pomba; e á porta assoma o gato indigena, esqueletico, rabugento, sem rabo... porque todos os gatos no Japão nascem sem rabo; ou é o cão que ladra, o _chin_, verdadeira caricatura de cão, com os olhos esbogalhados a saltarem-lhe das orbitas, sem nariz, a cauda em pluma, parente degenerado de qualquer monstro de epochas remotas, hoje extincto.
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De sorte que todo este Nippon,--arte, povo, paizagem, planta e bicho,--é uma deliciosa mascarada. Como fazer sentir isto a quem o não conhece, depois de ter escripto o que escrevi, e de concluir que nada escrevi do que me vae no pensamento? Olhem: fixem um espelho espherico, ou cylindrico; o aspecto das formas reflectidas é uma interminavel surpreza hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas; pois tal é o aspecto do Japão...
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Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os effeitos, por exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale pela mais possante picareta demolidora das instituições, dos thronos e das crenças, rasgando a estrada nova por onde investem os partidos avançados.
Estando isto assente, imaginem agora um paquete, despejando em qualquer caes japonez um bando de loiros estrangeiros. Elles todos, os lorpas, têem nos rostos essa feição anodina das cabeças, que é uma das formas de belleza mais frequentes nas raças europeas; e a julgar pelo olho azul, de porcellana, sem expressão, sem alma, póde admittir-se que lá dentro da casca não ha senão pevides em guisa de miolos.
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Mãos rudes, vermelhas, cabelludas, pés enormes;--estigmas de um temperamento avesso a coisas de arte e a todas as delicadezas do sentir.--Emparelham pelas manifestações do gosto: vestidos todos de alvadio, côco no cocuruto da cabeça, sapatos amarellos e ramosinho na carcela. Como entidades prestantes, embora talvez não prestem para nada, uns são sabios, outros são navegadores, outros são diplomatas, outros possuem manhas maravilhosas de balcão; mas--coitados!--em todos se acoberta o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, nascidos da podridão da descrença, do egoismo, da inveja, da cubiça e da misanthropia; e na face e nos gestos alguma coisa já assoma do mal de que enfermaram. Alguns dão o braço a outros sujeitos sem bigode, com grandes mãos vermelhas igualmente, e enormes pés calçando sapatos amarellos; usam bengala, collarinho alto de bretanha, gravata, tunicas em forma de campanula, uma alcofa á cabeça, cheia de hervas, de aves e de fitas:--são as damas--.
Os pobres forasteiros vêem-se assim de improviso e de surpreza no meio exotico entre todos, requintadamente artistico, caricatural e sorridente, que é todo este Japão. Dominados pelos aspectos, allucinados pela iniciação imposta, riem tambem, e julgam tambem sentir a graciosidade indigena e a gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as estradas e os trilhos das montanhas, seguem em caravanas numerosas a visitar os logares celebres, encorporam-se nas romarias, entram nos templos e entram nos theatros, bebem chá japonez, e até, burlescamente ajoelhados, engolem o arroz cosido e deliciam-se no peixe cru que as creadinhas vão servindo.
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Oh, a paisagem japoneza! Como ella é encantadora e fresca, estranha, paradisiaca!... e como aqui o pensamento se dilata, n'um longo divagar sereno e amoroso, tão distincto das preocupações sombrias que alem, na Europa, azedam a existencia!... Mas não sei quê da alma asiatica, subtilmente motejador e sarcastico, subtilmente intolerante, paira aqui, emana da coloração e da forma das coisas, do grito dos animaes, do gesto e voz da gente; não se define, mas existe, hostilisando em tudo o pobre intruso. É como que uma exhortação continua e impertinente do Buddha e dos deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:--«Vae-te, volta á terra dos loiros; contempla os teus deuses, visita os teus templos, recrea-te nos teus salões, bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz este solo, que não é teu, que te detesta; e onde, para assimilares a harmonia da creação e o sentimento nacional, precisas de uma fluidez de espirito e de uma serenidade de consciencia, que te faltam!...»--
Cedo ou tarde, ámanhã, em dois mezes, em dois annos, o homem loiro enfastia-se, compenetra-se da fatalidade dos destinos, que crearam o Japão para os japonezes. Uns desertam, e fazem n'isso muito bem; outros ficam. Nos que ficam, o desgosto pela terra do exilio enraiza, alastra como uma lepra corrosiva.
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O desgosto, nas mulheres, crystallisa brevemente em odio, um odio desesperado, sem treguas; explicavel pela maior vibratilidade dos nervos no sexo, pela vida ociosa, e tambem, e principalmente, pelo penoso confronto com a mulher indigena, cujo fresco perfil e requintado tacto femenil são uma provocação terrivel aos seus meritos. A mascarada eterna japoneza, a despreocupação, o riso chronico, os traços caricaturaes de todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos gaiatos,--«ijin, ijin!» estrangeiro, estrangeiro!--tudo irrita, bellisca redunda por fim n'um supplicio insuportavel, que nêm respeita o lar, entrando mesmo pelas janellas dentro como um exame de mosquitos. Triste lar, tantas vezes!... Junto da familia do sr. Fulano, seja qual for a sua nacionalidade e situação, contae como provavel um hospede permanente,--o aborrecimento.--A embriaguez, a dissipação, a quebra fraudulenta, o roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio, todos os desmandos de uma sociedade incongruente, succedem-se nas pequenas colonias europeas do Japão com uma triste frequencia, eloquentissima!...
1900.
DOIS CEMITERIOS JAPONEZES
A V. Almeida d'Eça
Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e de Anno-Bom, encontrei-me um bello dia, sem bem saber porque, vagabundeando no cemiterio dos europeus em Kobe, o velho. O velho, porque ha um cemiterio novo que se estreou ha pouco tempo, e onde até agora se reuniu coisa de meia duzia de inquilinos; está este situado longe da cidade, n'um declive de collina, amplo, com bellos horisontes em redor. O velho, de acanhadas dimensões, enchera-se de moradores em uns trinta annos de exercicio, e foi por tal razão posto de parte.
O velho cemiterio fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca dos edificios da alfandega, quando começa um bairro sujo, de fabricas, de armazens, que povôa uma misera ralé de carregadores e de mendigos. Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depositos de mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, com pouca luz, humido e ermo, é bem triste este canto; até, se não me illudo, os vetustos pinheiros que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e estorcimentos convulsos das ramadas, alguma coisa da desolação que aqui impera sobre tudo.
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Hoje, que é um domingo, acolá, a curtos passos, sobre a relva do parque publico, a chusma dos caixeiros--inglezes, americanos, allemães,--a chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, berra, corre, esbraceja, espernea, joga o _tennis_, o _fout-ball_. Mais alem, pelas ruas de trafego indigena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo em barda, entre japonezes e estrangeiros. D'estes ultimos, são especialmente as damas que mais se alvoroçam com a proximidade do _christmas day_, e que afanosamente percorrem a cidade, em carruagens, em _jinrikshas_, a pé--a pés... e que pés!...--enfiando pelas lojas, mercadejando bonecas, quinquilherias, guloseimas, as mil e mil frivolidades que vão constituir os fructos d'essas estupendas arvores de Natal, préstes a surgirem nos salões. Pobre natal! N'estes paizes exoticos, de ganho e de aventura, as festas particulares da familia europea perdem em regra a sua feição de severidade tocante e amorosa, para se transformarem n'um simples _sport_, irritante, massador,--fallo por mim,--mero pretexto para ostentações, dissipações e mexericos, a caterva de todos os symptomas da morbidez do exilio. Para o povo japonez, o impulso é bem outro: o dia de anno novo é a festa principal de cada anno, a unica para muitos; religiosa, emocionando a alma indigena, levando a turba aos templos a dar graças aos deuses pelas prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas: intima, de familia, preceituando o doce dever das saudações aos parentes e aos amigos; ninguem trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a casa toda; por isto, com louvavel antecipação se compram nos bazares os pequeninos nadas que vão ornar o lar, e os bolos de arroz, e o córte de fazenda, e a flôr para o cabello, coisas de que não prescinde a mais modesta familia de lavrador ou de operario, n'aquelle dia abençoado.
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No sitio onde me encontro a quietação é plena, em contraste com o que palpita lá por fóra. É positivo que os mortos não festejam o Natal... nem eu tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos annos de bohemia, sem lar e sem familia. Pesa aqui, no cemiterio, mais duramente por certo do que em outro logar, a aspereza de um triste dia de inverno, sem sol, sombrio e humido; paira no ar uma poeira levissima de neve, que mal se vê, mas fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando em quando, uma rajada fresca sacode a rama dos pinheiros, corta o silencio então um vago murmurio de folhagem,--da folhagem sem duvida, mas que acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos uns com os outros, de cova para cova...--
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Vou vagueando, com passos e em espirito. Estou só, ou quasi só; ha pouco dei fé, por entre as sepulturas, de uma velha japoneza, guarda do cemiterio, que ia apanhando do chão alguns cavacos. Vou lendo os epitaphios, estudando a botanica tumular nos arbustos plantados e nos musgos espontaneos, lançando um olhar condoïdo ás corôas murchas, que aqui e ali se encostam ao marmore das lapidas, pobres corôas queimadas pelo sol, rasgadas pelo vento, roïdas pelos vermes, polluidas pelo pó, e em pó se desfazendo... N'este gremio de mortos abundam os padres e os missionarios de todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos dos mares do Japão, capitães, tripulantes de barcos; gente de negocio; e a mais uns pobres nomes obscuros de mulheres e de creanças, sem titulos nem historia. Aqui deparo agora com um nome de portuguez, Felisberto da Cunha, da Figueira, que morreu com quarenta annos, e a esposa (uma japoneza) lhe mandou erigir o mausuleo.
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De trilha em trilha e de tumulo em tumulo, eis-me em frente do monumento tumular dos marinheiros francezes assassinados em Sakai. Lugubre historia; e aqui, n'este Japão da grande hospitalidade e da notoria cortezia, impressiona por estranha e quasi inverosimil. Pois foi bem verdadeira. Ha mais de trinta annos, por um dia de março, uma lancha a vapor da corveta _Dupleix_ aguardava na praia de Sakai a volta de alguns officiaes, que haviam descido á terra e seguido para Osaka; passa casualmente um troço de tropas do Mikado, _samurais_ da provincia de Tosa; e sem provocação, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os marinheiros, matam onze. São os onze tumulos d'estes martyres, d'estes miseros camaradas (porque eu sou como elles marinheiro), que agora contemplo.
Sobre tres degraus de pedra alça-se uma alta cruz; e aos lados, cinco por banda, e o aspirante á frente, como se estivessem na tolda da corveta em formatura, estão os onze corpos, estão as onze lages, aquelles desfeitos em pó seguramente, estas ennegrecidas pelo tempo e pela lepra dos lichens resequidos... pois não se esqueça que ha mais de trinta invernos vae durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o seguinte:--«_À la memoire des onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai le 8 mars 1868. Requiescant in pace._»--_Massacrés!_ massacrados! Como isto é destonante n'este solo, no _Dai-Nippon_ das paizagens amorosas e do sorriso perenne nos rostos dos que passam!...
Vou lendo seguidamente as inscripções dos tumulos:--«_Ci git Guillon, Charles Pierre, aspirant de 1^{ère} classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.--Ci git Boulard, Vincent, matelot de 3^{ème} classe, agé de 21 ans. Priez pour lui.--Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3^{eme} classe, agé de 25 ans. Priez pour lui.--Ci git Condette, François Désire, matelot de 3^{ème} classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.--Ci git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.^r m.^{tre} de manoeuv.^{re} de 1^{ere} classe, agé de 29 ans. Priez pour lui.--Ci git Savie, Jacques, matelot de 3^{eme} classe, agé 23 ans. Priez pour lui.--Ci git Humet, Arséne Florimont, matelot de 3^{eme} classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.--Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3^{eme} classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.--Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3^{eme} classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.--Ci git Modest, Pierre Marie, matelot de 2^e classe, agé de 26 ans. Priez pour lui.--Ci git Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3^{eme} classe, agé de 24 ans. Priez pour lui._»--A ladainha é longa, como vêem; e bem commovedora, quando se attenta nas idades. Onze rapazes; quadra de illusões, de amores, de esperanças. O mais velho do grupo teria hoje os seus sessenta e dois annos, se fosse vivo; de sorte que todos estes pobres moços poderiam muito bem gozar ainda agora da doce alegria de viver, se o destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria provavelmente a sua farda de capitão de mar e guerra, chapada de veneras; e os marujos estariam talvez com a sua baixa, na aldeia patria, em descanço, a vêrem o mar por um oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara cafila de soldados japonezes!...