Paisagens da China e do Japão

Chapter 5

Chapter 53,720 wordsPublic domain

Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta, extrahir-lhe o lobinho; muita gente do povo, é notorio, considera este achaque como um valioso talisman para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos, braços nús, dedos palpando, lancetas e tenazes em acção; e o velho estendido sobre o solo, um segura-lhe uma perna, um outro a outra, outro prende-lhe os braços, outro delicadamente ampara-lhe a cabeça; e sairam-se do caso com limpeza, não causando a menor dôr ao paciente. Depois, fôram guardar o lobinho n'um estojo.

Quando, sereno já o tempo, rompeu a madrugada, uma bella madrugada côr de rosa, e os pardaes começaram a papear nas ramarias, desappareceu então a malta dos demonios. O velho desceu á sua aldeia. Entrou em casa muito contente, ainda um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho é claro, com a sua face muito lisa, sem o minimo defeito. O caso maravilhou com razão a companheira, e a gente conhecida. Ia-se servindo o chá pela familia e pelos curiosos que accorriam, sobre a esteira, junto do brazeiro; e era uma chuva de exclamações e de perguntas, que obrigaram o velho a explicar, nos seus detalhes surprehendentes, as peripecias da estranha noite que passára na montanha.

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Ora, havia entre os visinhos presentes um outro velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face esquerda por signal. Muito calado, assim com ares de não prestar ouvidos á palestra, ia em mente, o finorio, retendo todas as minucias. Não partilhando das crendices da gentalha, pelo contrario, desejoso de vêr-se livre do tortulho, ia já estudando a maneira de entregar-se nas mãos de tão sabios curandeiros. Eil-o pois, por uma noite escura, caminho da montanha; seguidamente, eil-o abrigado sob o mesmo tronco de arvore, á espreita dos diabos. Não faltaram. Começou a bambochata,--risota, dança, vinho.--Juntou-se então aos demonios, a medo, um outro figurão.--«Olá, cá está de novo o velho! voltou, e vem dançar!»--Dançou, effectivamente, e sem ser muito rogado; mas era um desastrado; e tão mal desempenhou o seu papel, tão falto de geito e de pilheria, que os demonios, tomando-o sempre pelo conviva primitivo, zangaram-se e disseram-lhe:--«Enganaste-nos, brejeiro! és um grande desgeitoso; devolvemos-te o penhor que nos deixaste e aconselhamos-te a que não pises mais este logar.»--Um da chusma foi buscar o lobinho, e zaz! pespegou com elle na face direita do sujeito. Saira de casa com um, e voltou com dois, um lobinho em cada face. Pode imaginar-se o desapontamento do sujeito e a hilaridade dos visinhos. Parece que, na aldeia, durante semanas e semanas, paralysou todo o trabalho; os velhos, as velhas, as raparigas, os garotos, não faziam senão rir, rir a bandeiras despregadas,--e o caso não era para menos!--

1899.

PAU-MAN-CHEN

A Antonio Baldaque da Silva.

Scena domestica. Lá está o meu cosinheiro a _bater cabeça_, como se diz n'este Macau; lá está elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe preste! Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez que é, serenamente aggressivo em tudo ao europeu; e passou a entregar-se a esta outra occupação não menos meritoria.

Sendo seus os aposentos inferiores, é ali rei, ou pelo menos mandarim; faz o que quer. Os altares aos deuses anicham-se pelas paredes, aos cantos do sobrado, sobre as mesas; e até junto ao fogão, onde se guisa o meu jantar, se presta culto a supinas divindades. Mysteriosos ritos. São papeis encarnados, contendo cabalisticos dizeres; são figuras de horriveis monstros, coloridas pelas tintas mais surprehendentes, nas disposições mais grotescas, despertando quasi o riso, despertando quasi o medo, a quem não vive em graça em tal Olympo. Alli o cosinheiro, em humildes genuflexões de crente, vem depôr suas offertas, minhas offertas, pois sou eu que pago a festa,--offertas de laranjas, de doces, de chá, de porco assado e de outras iguarias.--Alli ardem lumes mysticos; e frequentemente, pela noite, como agora, se queimam pivetes, cirios rubros, rezinas e papeis, de tudo emanando um fumo atróz, que invade em torvelino a casa toda, que chega sem respeito ao sitio onde me encontro, e me soffoca. Paciencia! _Paciencia_ é o unico codigo de conducta para o aventureiro que escolheu para exilio um canto exotico, longe, muito longe do torrão onde nasceu, e no qual a civilisação disparatada, a feição propria das gentes com quem lida, hão-de fatalmente apresentar-se, dominantes.

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Os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime protecção, posto que indirectamente, me confio, são muitos, um enxame. É todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo, amalgamados em crendices; legiões de espiritos. Naturalmente, ha uns mais preferidos, que se invocam no lar com mais piedoso amor; n'este numero, segundo informações recentes que colhi, deve contar-se Pau-Man-Chen; e é a sua historia maravilhosa que me proponho narrar, como puder.

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O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma face branca e tem uma face preta. Na China não ha effectivamente ninguem que não o adore, que não lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas puras, e com o outro mira a terra profunda até aos antros lobregos dos demonios, adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-Man-Chen tem uma face branca e tem outra face preta...

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Ha não sei quantos mil annos, morreu não sei aonde, uma mulher casada. O marido, não resta duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou depositar o caixão n'um solitario templo. Mal imaginava elle que a defunta seguia gravida no esquife; e mal imaginava que o menino, que se occultava no seu ventre, ia votado a altos destinos...

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Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio, que começou sendo notado, com justo sobresalto do dono da quitanda, o caso que vou expôr. Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, quando pela manhã se dava balanço ás contas e ao dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos, com a competente mancha prateada, que são nada menos do que a moeda corrente entre as almas do outro mundo, nas suas transacções... Era prova clarissima de que andava por alli coisa sobrenatural,--bruxaria, visita de phantasmas, ou outro mysterio parecido.--Estudou-se o caso attentamente e com bem justificaveis ancias de terror; observaram-se os freguezes, um por um. Chegou-se por fim á conclusão de que, em tal enigma, andava por certo envolvido aquelle vulto de mulher de maneiras suspeitosas, trazendo uma creança no regaço, e chegando-se todas as noites ao balcão para comprar um bolo, que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres, que largava das mãos lividas, cadavericas, não havia nada que dizer-se; eram excellentes; mas quem ignora que de noite todos os bruxedos são possiveis, e é a luz fraca do dia que seguidamente os desmascara?... O patrão (os tendeiros do mundo inteiro, e desde seculos sem conto, são homens de raro engenho), o patrão, certa noite, conseguiu sem ser sentido, atar um longo fio á ponta da cabaia da fregueza; e quando ella se ausentou, pôz-se a largar o fio, á medida dos seus passos. No dia seguinte, facilmente o finorio percorreu a linha de trajecto da mysteriosa caminheira; e foi assim esbarrar, no termo do passeio, com o caixão da defunta, de que atraz se fez mensão. Do caso, sem detenças, correu a dar parte ao viuvo, de quem era conhecido.

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Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do esquife, e abrem-n'o, ao pasmo de todos. Scena extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos, fetidos, pasto de vermes,--quem já, dos que me lêem, poisou os olhos no espectaculo d'uma tumba escancarada?--lá está estendida a esposa, e lá está um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma existencia sobrenatural embora; mas como ninguem d'ella cuidasse, alli ficou jazendo para sempre. As attenções, os carinhos, convergem para o menino; o pae estende-lhe os braços, arranca-o á desolação d'aquelle leito, chama-o á vida, á sociedade, ao mundo.

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A lenda popular completa esta curiosa historia pela maneira que vae vêr-se. A defunta, alli amortalhada, alli estendida sobre as tabuas, foi mãe, não sei por que milagre--não se discutem milagres.--O resto explica-se melhor: o mysterio psychico da maternidade, isso que nas mães se patenteia como uma força immensa, sem limites no affecto, sem barreiras nos zelos, capaz de todos os arrojos, poude aninhar-se n'aquelle corpo inerte, e imprimir vontade áquelle feixe de ossos. Aos primeiros vagidos da creança, o cadaver pôz-se a contemplar os proprios seios murchos, pendentes, vazios de seiva, roïdos pelos bichos. O cadaver moveu-se então, galvanisado pelo amor--qualquer cadaver de mãe, n'aquellas condições, faria o mesmo;--começou a dar pontapés no impossivel; partiu a murros as paredes do seu carcere; e apertando de encontro aos ossos o filhito, e embrulhando-se discretamente na mortalha, foi a correr comprar um bolo á venda proxima. A creança assim foi medrando, passando os dias n'aquelle estranho berço. Foi por isso que ficou com uma face branca, a que voltava para a luz e para o ceu, e com uma face preta, a que poisava na sombra, de encontro á terra negra. De então lhe veio o duplo condão de conhecer o bem e de conhecer o mal, de vêr com um olho os deuses, e com um olho os demonios. Pelo correr dos annos, foi mandarim de modestos logarejos, pois lhe sobrava asco pelas riquezas, pelo fausto e pelos altos cargos. Os nobres senhores, o proprio imperador que muito o honrava, tremiam do seu juizo. Lia nas consciencias e lia nos destinos. Distinguia na turba os humildes, os bons, os opprimidos; e tambem os impostores, os verdugos, os infames. Premiava as virtudes, azorragava os vicios. Os desmandos da côrte, a rapina dos ministros, os mexericos das concubinas, fôram por elle desmascarados e punidos. Assim viveu por longos tempos este grotesco e sublime figurão; assim passou por todo o imperio, para gloria da China e para consolação dos offendidos. O povo punha de parte os labores e vinha prostrar-se em saudações á borda das estradas, ao vêl-o atravessar cidades e campinas, galgar os montes e descer os valles, sempre incansavel, seguindo a largos passos, como se fosse um procurador atarefado com demandas. Fluctuava-lhe ao vento a longa cabaia esfarrapada, suja de lama e de poeira dos caminhos; a mão adunca brandia um baculo nodoso; as pupillas chammejavam iracundas; o corpo ossudo definia-se, na magestade façanhuda dos gestos arrogantes, nos compridos bigodes de asiatico, pendentes como franjas, na barba aberta em leque, chegando-lhe á barriga, e na disformidade do rosto pintado a duas côres, branca uma face e outra face preta. Um bello dia safou-se d'este mundo; mas lá anda no outro, certamente, espreitando cá para baixo, e não largando de mão o seu fadario.

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1899

A CARICATURA NO JAPÃO

A Camillo Pessanha e João Vasco.

Grande coisa, meus senhores, é ter engenho!.. Eu não me gabo muito d'esta prenda, confesso-o francamente; mas tive ha pouco azo de julgar pela propria consciencia--mercê d'um rasgo excepcional do meu bestunto--quanto vale uma boa idea; e conclui que a felicidade humana seria coisa facil, se uma impulsão sagaz do espirito fôsse guiando sempre os nossos passos n'este mundo. E assim fica satisfatoriamente justificada, penso eu, a exclamação com que enceto estas divagações, escriptas por uma noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na cidade de Kobe, no Japão.

Vamos ao facto. Ah, pobre espirito enferrujado pelos azedumes da existencia, gasto pela longa fricção das coisas e dos homens, soffrendo pela dôr do passado, pela insipidez do presente e pelas tristes promessas do futuro! como tu, meu pobre espirito, cahiras na quasi insania, consciente, e por isso mesmo mais penosa, d'aquelles para quem, por mal dos seus peccados, a vida se vae tornando toda um immenso enfado... Morbidez de temperamento? incompetencia ingenita para a lucta? fadiga, após os mil baldões da sorte? pouco importa; não vale a pena agora desenredar esta meada. Passava, e passo ainda, longas horas do dia junto da minha secretaria; é este o meu officio. Alguem, que entrasse, via-me grave, correcto, rodeado de livros e papeis, e até, presumo,--perdôem-me a vaidade--talvez me atribuisse uns certos ares de sabio, em cuja mente magnos problemas se iam sublimando. Só, bem só, entre quatro paredes discretas, desfallecia; o olhar vago fixava-se no nada, todo o meu ser se inutilizava, perdia-se em abstracções, desinteressado da realidade, de mim mesmo, morto,--porque ha para alguns uma morte percursora d'aquella que roe na tumba a febra e põe a nú os ossos brancos do esqueleto.--E vae então, um bello dia, achando-me casualmente n'um bazar de Osaka, compro uma figurinha de barro da deusa O Fuku-san, que colloquei sobre a mesma secretaria referida.

Ora aqui está, no fim de contas, em que consiste o meu rasgo genial; e vou dizer porquê. O barro é trabalhado por dedos tam amorosos de artista,--um obscurissimo artista certamente;--a pasta impregnou-se com tanta obediencia da feição predominante da alma japoneza,--naturalismo humoristico, caricatural;--que a deusasinha patusca que aqui tenho a meu lado, uma bugiganga de tres pollegadas de altura, quanto muito, é toda ella uma gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que a tristeza, borboleta negra das trevas, foge espavorida da minha convivencia; poiso os olhos na deusa, e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o homem mais divertido d'este mundo.

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Antes de ir mais longe na palestra, justo é que me detenha e diga em poucas phrases quem é O Fuku-san. Divindade popular, patrona da boa fortuna e da alegria, representa na genesis japonica um papel de subida importancia incontestavel. Izagani e Izanami, os deuses iniciaes e creadores, formaram o Japão e tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do sol, e outros filhos, todos com maravilhosos attributos. Amaterasu residia no ceu, alumiando a terra; delicioso officio; mas tamanhas affrontas soffreu de um seu irmão, o deus da lua por signal, que se amuou e decidiu esconder-se, escolhendo para retiro uma caverna, aonde se metteu, vedando a entrada com uma enorme pedra; a terra, é obvio, achou-se ás escuras de repente. Os deuses, apavorados,--o caso não era para menos,--recolheram-se em conselho, e resolveram o seguinte, depois de larga discussão: fôram postar-se todos bem junto da caverna; Takadjira, o deus de enormes braços, ficou junto da entrada, fazendo sentinella; O Fuku-san, a mais divertida das patuscas, poz-se a cantar modinhas; ou, quando não cantava, tocava n'uma gaita de bambu; ou, quando não tocava, bailava minuetes, acompanhando a dança de mil tregeitos faceciosos. Tanta pilheria teve a figurona, que a deusa Amaterasu, no seu antro, começou a interessar-se na galhofa, a rir ás furtadellas,--ou não fosse ella japoneza!--e arredou um pouco, para o lado, o pedregulho, alongou um nada a cabecita para fóra, e assim se pôz a gozar melhor da brincadeira. Então Takadjira, n'um relance--zás!--caiu-lhe em cima, lançou-lhe os longos braços ao pescoço, puxou-a para si, foi á força poisal-a no seu throno... e a terra de novo continuou a ser alumiada pelo sol!

A arte popular veste a deusa O Fuku-san em bellos trajos da côrte, dos velhos tempos, setins rojantes, brancos e escarlates, e molda-a nos ultra-comicos contornos d'uma japonezita enormemente obesa, toda ella refolhos de gordura, banhas de pescoço, de collo, de seios, de barriga, redondezas pasmosas de quadris, e mãos e pés papudos. A cara, a immensa caraça, de lua cheia, é um poema completo de monstruosidade triumphal e hilariante: faces prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos; um narizito que mal se vê, rombo, abatatado, como que calcado para dentro, a golpes de martello; á fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se dois bandós de cabellos de azeviche; fôram rapadas á navalha as sobrancelhas, segundo o uso classico; os olhinhos piscos, matreiros e gaiatos, reluzem pelas fendas estreitas das palpebras carnudas; e a bocca, a boquinha, em forma de cereja, acarminada, sorri em curvas, em prégas, em covinhas impagaveis... Mas não ha palavras que descrevam, nem de longe, a expressão de toda a figurinha--porque vae alem da nossa comprehensão de occidentaes,--no que d'ella irradia de jocosidade perenne, de beatifico comprazimento, de vagos tiques de inconsciencia infantil, de imbecilidade, de malicia, de perversão; um indefinivel conjuncto de não sei que de imminentemente pueril, satanico e grotesco, todavia gracioso, que é no fim de contas uma das feições mais caracteristicas e mais emocionantes da arte inteira japoneza.

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Ensina-se nos livros que por meados do nosso seculo XII, o pintor Kakuyu, que era bonzo buddhista, iniciou no Japão a pintura caricatural. Pois seja assim; concedo ao frade o merito de ter traduzido pelo pincel, por vez primeira, o humorismo d'esta gente. Mas tal humorismo, como feição moral, nasceu com o mesmo povo, é-lhe um fector do sentimento; e cada japonez é, e foi, e será, um caricaturista. Quando se estuda a lenda indigena japoneza, no vasto reportorio das suas fabulas, que eu penso representarem sempre o mais remoto documento do feitio estetico, da individualidade psychica, d'uma qualquer grande familia humana, depara-se na scena com a mais curiosa fauna fallante--macacos, caranguejos, raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios bichos;--no apologo grego, por exemplo, os brutos são doutores, discursam como philosophos e como moralistas; no apologo japonez, menos profundo, mas talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em mascarar-se vestindo _kimonos_ e enfiando as patas nas sandalias, faz caretas, galhofa, dança e ri, em desenvolturas caricaturaes da mais desopilante troça a todos os ridiculos.

Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam, e attingem uma feição independente, inconfundivel, a caricatura, como que traduzindo uma recordação da lenda, vem desempenhar um papel importantissimo, não só na pintura, mas nas multiplices affirmações do engenho--esculptura, ornamentação da porcellana, da faiança, dos charões, dos bronzes, em tudo.--Graças ao pincel e graças ao buril, as rãs decidem-se a vir tocar guitarra para a rua; os pardaes offerecem banquetes aos seus intimos, servidos em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de rapozas, levando a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz, que a espera no seu lar; pelo dorso de Hotei, deus da bondade, vão trepando os garotos, e um mais atrevido vae poisar-se-lhe em cima da careca; os guerreiros cobrem os rostos com mascaras de um comico façanhudo indescriptivel. Hokusai, o grande mestre da escola vulgar em pintura, delicia-se em desenhar cegonhas d'um só traço repentino, maravilhosos gatafunhos, palpitantes de observação e de verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama, a montanha sagrada, contorna-a vista atravez de uma rede, que um pescador tira do mar; e atravez de uma teia de aranha; e entre o A das pernas nuas d'um operario tanoeiro, que do alto de uma dorna ajusta á força de malho as aduellas; e reflectida no chá da taça que um esfarrapado mendigo leva á bocca. Hokusai, em 1804, durante certa festividade n'um templo, manda estender no solo uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza; vem mais um barril com agua, outro barril com tinta preta, uns oitenta litros d'ella, e mais duas enormes vassouras e tres vassouras mais pequenas; entra o mestre, empunha uma vassoura embebida na tinta, traça sobre o papel curvas gigantes; no fim de alguns minutos termina a sua obra, que só é comprehendida quando alguns dos milhares dos assistentes se lembram de galgar ao telhado do templo: a distancia e do alto, o immenso quadro representa um admiravel busto de Daruma, o grande apostolo buddhista. Por aquella mesma epocha, Hokusai pintava sobre um bago de arroz um grupo de aves, encantador, mas só distincto com a ajuda de uma lupa.

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É esta caricatura, melhor será talvez dizer--este humorismo, que o japonez exerce com habilidade unica, magistralmente, prodigiosamente; é por ella, é por elle, pelo segredo dos exaggeros, pelo arrojo da execução, que alcança intenções flagrantes no traço, uma alma quasi na paizagem, um conceito na arvore, no ramo em flôr, no simples contorno de um rochedo... Na pintura japoneza, por exemplo, um pargo, um caranguejo, uma lagosta, o figurão zoologico mais lorpa que possa imaginar-se, vivem na tela, isto é, accusam uma vontade, uma intenção, um sentimento, como a fome, como o medo, como o cio. Não se diga que é a fiel reproducção do modelo que dá isto,--a photographia d'um caranguejo não palpitaria de vida;--é pelo contrario o exaggero propositado de certas linhas, o exercicio de uma arte mysteriosa, que naturalmente se inspira no perfeito conhecimento estructural e sentimental do bicho, animalizando de certo modo o artista e humanizando o bruto, e permittindo caprichos descommunaes que o observador não descrimina, que o levam a exclamar, não sei por que remotas reminiscencias ancestraes de subito recordadas:--«aquelle linguado acha-se triste... aquelle camarão arde em ciumes... aquella lombriga está-se a rir...--»

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O humorismo japonez não se limita ás artes; divulga-se nos costumes do povo, nos seus habitos; quando nos intromettemos na intimidade indigena, ainda o espectaculo de inesperados disparates, de requintadas extravagancias, vem ferir a nossa pupilla e prolongar-nos o espanto. Eu não pretendo escrever aqui um tratado dos exotismos d'esta gente, aponto ao acaso alguns dos que me occorrem.

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Pois não são disparatadas, caricaturaes, estas mangas prodigiosamente amplas dos vestidos, e na propria fazenda a estupenda polychromia dos matizes? E estas peanhas de madeira, á laia de calçado, onde se poisam os pés nús dos japonezes? E estes penteados enormes das mulheres, transformando-lhes as cabeças em estupendos monumentos ambulantes? E o _obi_, a cinta de seda que cinge as ancas da _musumé_ em voltas sobrepostas e rematadas n'um laço colossal? E o costume das casadas, quando em signal de desapêgo ás vaidades d'este mundo, se desfeam rapando as sobrancelhas á navalha, e envernizando de preto a fila dos dentinhos? A casa de papel, o jardim de Lilliput, a vida passada de joelhos sobre a esteira, a refeição servida em taçasinhas e apprehendida nas pontas dos pausinhos, a arte domestica da preparação do chá e dos ramos de flores, a dança, a musica, a cama improvisada a um canto com duas colchas de seda e uma boceta de charão por travesseiro, as mil saudações trocadas entre duas pessoas que se encontram, todos os aspectos da vida indigena emfim, intimos, sociaes, são surprezas, extravagancias, excepções unicas, simples pretextos para brincadeira, como se o japonez tivesse vindo ao mundo para se rir de tudo em que se occupa, e para se rir de si primeiro do que de tudo... Chega-se sem muita difficuldade a comprehender porque, nas relações de convivio de um para outro, de preferencia á palavra, de preferencia ao gesto, uma maneira ha mais eloquente de traduzir o pensamento:--a gargalhada!...

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