Paisagens da China e do Japão

Chapter 4

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A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli, d'alem... Junto ao portal, condensa-se o formigueiro humano, em centenas, em legiões de cabecinhas; a pouco e pouco, sedas roçando sedas, risos correspondendo a risos, vae-se entrando, ao som d'um continuo ruido de sóccos e sandalias, que se arrastam pelo lagedo resonante. Na escuridão da noite, o recinto define-se a principio como um negrume vago, complicado de sombras de arvoredo, cheio de gente e de myriades de luzinhas bruxoleantes. Depois os olhos habituam-se. Vae por ahi fóra, direitinha ao templo, a grande rua principal, bordada de arvores varias, lageada; pelos lados espraia-se o labyrintho das passagens, por entre os alinhamentos das barracas, das tendas, das quitandas, armadas de improviso, estiradas pelo chão; e é, á luz frouxa das lampadas, a exposição phantastica das côres, chispando em disparates como n'um campo immenso de kaleidoscopo, correspondendo ás mil industrias que se estendem... Roupas, perfumarias, livrinhos, bocetas, charões, porcellanas, cachimbos, ferramentas, utensilios domesticos, bolos, brinquedos, flores, plantas, tudo: a industria inteira do Japão, se condensa, coalha em museu. Alem algumas _chayas_ vendem refrescos; as creadinhas convidam a turba a que se acerque. Mais longe, são os theatros populares, um cobre por entrada:--cães sabios, athletas, abortos, serpentes, panoramas;--ou a sala do _hanashi_, da palestra, onde um patusco entretem os freguezes, contando-lhes historias. N'um espaço mais livre, um sujeito com um graphophone, um dentista, um inventor de remedios milagrosos, discursam, explicam, prophetizam.

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O formigueiro humano ondula, alastra se, sem designio, á aventura. As sociedades occidentaes nada nos offerecem de parecido. Isto, aqui, é a multidão, sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como nol a apresentam todas as grandes tribus do Oriente; é o cardume de gente, retida na praça publica como o sargaço em mares tranquillos; aqui, quadro requintadamente gentil e sorridente, inconfundivel, mas que ainda nos recorda as agglomerações da plebe nos templos de Cantão ou nos bazares de Aden, ou do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando em espirito vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos vividos, embora fugidios, da Jerusalem biblica, nos seus magotes de homens vestidos de tunicas rojantes, vagueando, palestrando de manso, alongando os braços nús em gestos calmos e solemnes.

Querer inventariar os typos, fôra insania,--é a massa inteira popular despreoccupada, risonha, gosando de viver.--Passam familias,--o pae, a mãe, um filho preso ao seio e os outros pela mão;--ranchos de soldados e ranchos de marujos; ranchos de raparigas; moços, alguns indo caminho do bairro dos prazeres, Fukuwara, que está perto; peregrinos; mendigos; vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos assopram nas trombetas que compraram, ou mordem em bolos ou em fructos. Aquella _musumé_ fresca, vestida apenas do seu _kimono_ de verão, azul e branco, já vae de volta; e leva dependurada das mãositas uma gaiola em miniatura, cheia de reluzentes pyrilampos. Uma velha rejubila com o vaso de bellos lirios que mercou. É aqui em Nanko, no mercado especial das plantas, que se revela bem o mimo d'esta gente em jardinagem,--delicados arbustos, havendo merecido longos disvelos de cultura, selecção graciosa de florescencias;--e é de ver-se o afan na escolha, o brilho dos olhitos cubiçosos, dos grupos em roda da exposição dos pinheirinhos, das cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos, dos lirios, da wisteria.--O espirito simples, o desejo facil de contentar, a puerilidade quasi infantil, estampa-se em todos esses rostos, e dom gentil da mão industriosa, resalta de todos os artigos. Quem tiver duas moedas de cobre na bolsinha--e todos as terão,--póde comprar um objecto de arte; compra-o sem duvida, e no jubilo da face transparece a alegria plena d'uma alma satisfeita. D'essa manifesta innocencia de sentimentos, d'essa psychologia alheia de complicações e de tormentos, deve em rigor deprehender-se uma superioridade de raça, uma animalidade esplendida e exhuberante, muito distanciando-se da vibratilidade morbida das raças exhaustas do Ocidente; e é isto que vagamente se adivinha na esbelteza dos vultos que vão passando, na flexibilidade harmonica das curvas, no jogo pathetico da mimica, na confiança serena com que o pé dominador poisa no chão. Feliz povo! Feliz povo de hontem, de hoje, e possivelmente de amanhã... Não é outra a conclusão sincera do nosso exame passageiro.

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No entretanto, a um canto, no estabulo garrido, boceja o cavallo branco sagrado de Kusunoki Masashige. Por velha sympathia, procuro-o sempre, e passo quasi horas inteiras, a vêl-o, a namoral-o. Quantos annos terá de sacerdocio? Dez annos? Quinze annos?... Não lhe despertam zanga nem prazer as minhas visitas repetidas. Cabeça baixa, o olho azul mortiço, parece nada querer, nada sentir, nada soffrer e nada desejar. É quasi de papelão, á força de insipidez, o garranito. Ao burburinho, á luz, ás côres, ás musicas distantes, é insensivel. Ao bello verde do arvoredo é insensivel; pelos modos, não se recorda já das paizagens por onde espinoteou... O seu olho azul-celeste, vitreo, provavelmente myope, relancea com a mesma apathica frieza, as mil scenas do acaso; á gente que o encara,--ralé da praça publica, garotos, cavalheiros, acaso um general, acaso um conde, acaso um inglez de nobres pergaminhos,--vota a mesma indifferença irreverente que ás moscas importunas que poisam, por enxames, sem que o commovam, na mucosa descorada da sua pobre focinheira. Só uma vez, presumo, o vi enternecido: relinchava uma egua algures, longe sem duvida; levemente se lhe agitaram as orelhas, como se uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo bestunto lhe corrêra; e pareceu-me então vêr o seu olho azul-celeste arrazar-se de lagrimas, pareceu-me... Ás vezes, avança de bom grado a lingua, a ir lamber as mãos das raparigas; por capricho talvez, e por habito, porque são aquellas mãos que costumam offerecer-lhe, como obulo piedoso, os feijões cosidos comprados á velhita que por ali anda, proximo do estabulo...

Eis todo o seu romance.

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E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais curioso, quizer ainda arrancar-me o segredo d'esta minha estranha sympathia pelos cavallos sagrados dos templos de shinto,--tanto mais estranha sympathia, quanto é certo que não me accusa a consciencia de jámais ter pertencido a qualquer sociedade protectora de animaes,--aqui lhe offereço, a esse alguem, a seguinte estupenda confidencia. No Japão, se não erra o meu juizo, só os cavallos dos templos são tristes. Elles, e eu. Ha entre nós mysteriosas analogias; não gracejo. Após longos estudos da propria carcassa, acabo de concluir--imaginem o quê!...--que tambem sou albino. Não pela anomalia congenita da falta de pigmento corante da pelle, dos cabellos e dos olhos, concordo; albino psychico porem--não sei se me faço perceber...--albino na alma dolente, na vibratilidade exangue, na apathia da vida, após os mil baldões da sorte, e desfeita no ar a ultima bola de sabão das minhas illusões. Do meu poiso, que comparo sem grande esforço ao estabulo de Nanko, assisto ao contorno das scenas e ao perpassar da turba; mas alheado de tudo, e esquecido até das saudades da paizagem serena onde vivi os meus primeiros annos. Alvoroços de affectos? amores? fazem favor de me dizer para onde fugiram essas chimeras aladas da minha pobre juventude?... Quando muito, como o cavallo de Nanko, mas ainda mais desinteressado do que elle, porque me sinto naturalmente excluido do quinhãosito de feijões que pode seduzil-o, quando muito, se deviso essas _musumés_, com as suas mãositas muito alvas, muito mimosas, tenho por essas mãos, vagas ternuras: aqui, n'este meio onde me vejo, são-me ellas o emblema dos carinhos do sexo delicado; e incutem no meu espirito uma noção de paz possivel,--aqui, algures, não sei onde,--no lar da familia, quando abençoado pelos fados...

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1899.

A PRIMEIRA FORMIGA

A Sebastião Garcez.

Á parte esta dedicatoria especial, é ás formigas e aos sabios--Deus não permitta que ellas, ou que elles, tomem a mal o parallelo--que eu offereço as revelações que vão seguir-se, nas quaes se explica, após longos preambulos, como é que a primeira formiga veiu ao mundo.

Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun, as terras andavam divididas pelas mãos de muitos monarchas irrequietos, envolvidos em continuas batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, digno de particular ensinamento. Acontecia que uma certa deusa do Olympo--Lei-San era o seu nome--nunca ia dar o seu (passeio pelas nuvens, imagino) sem se esmerar em demorados arrebiques, em meticulosas pinturas de cutis, das sobrancelhas e dos labios. Pieguices do sexo, desculpaveis, e até de certo modo meritorias; mas o caso motivou, certo dia, um risinho malicioso da sua serva mais querida, e ainda por cima este commento pouco respeitoso:--«A deusa tem pelos modos algum defeito no seu rosto, e cuida de escondel-o á força de cosmeticos...»--Vão lá chasquear impunemente dos encantos d'uma dama! e quando ella fôr divina... É certo que tão cheia de cholera ficou a divindade, que vestiu a deliquente d'uma pelle diabo que encontrou a geito, pelle horrivel, cara azul, ruiva a guedelha, dois dentes curvos surdindo da bocca para fóra, e mãos e pés disformes; e assim, n'esse bonito estado, a escorraçou do ceu, aos beliscões, e a enviou ao mundo em expiação. Chamava-se Tchong-Mou-In, a penitente.

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Tai-Sun, empenhado em pellejas, e mortificado por innumeras derrotas, teve uma noite um sonho radioso, difficil de explicar. Consultado sobre o caso um lettrado favorito, anão por signal e muito feio, mas um poço de sciencia, elle disse ao soberano, após magnos processos de magia, que o sonho revelava que os deuses lhe haviam destinado certa dama por esposa, forte de genio e habilissima na guerra, a quem mais tarde se deveria a salvação do estado.

O anão dispunha-se a proseguir, depois de curta pausa; mas não quiz mais ouvir o imperador; e eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas de comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a sua bella, conforme as indicações do anãosinho. Atravessa povoados, galga montanhas, desce valles; vôa, não corre, sua magestade; vôa nas azas da esperança, pula-lhe o coração em mil anhelos; e assim foi dar com Tchong-Mou-In.

Imagina-se a scena. Não ha palavras que descrevam o desapontamento do monarcha. Tremulo de indignação, rompeu logo em iras e em blasphemias; pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas a exercer; e d'um gesto esporeou a alimaria, no intuito de regressar ao seu palacio. Ah! mas o soberano não contava que a dama, que a principio o recebera com doces humildades de etiqueta, que a dama, expulsa embora do ceu e do convivio dos seus deuses, ainda d'elles auferia benevolentes protecções. A dama, n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando os dentes e estendendo solemne a mão papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia do cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios. Gritou-lhe que havia de casar com ella, se não quizesse alli ficar eternamente quedo; gritou-lhe que havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu braço de mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de confiar altas emprezas. Emfim, para encurtar razões, e apressar o fim da historia, direi que o imperador desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o asco e o medo, e tudo prometteu. Não tardou que aquelle monstro feminino lhe entrasse pela casa, rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias, transportando ella propria ás costas o enxoval--dois cabazes, uma thesoira, um espelho, um pente, uma vassoura, uma bacia de lavar o rosto,--utensilios que, desde então até hoje, como que ficaram consagrados, symbolisando do lar domestico o nucleo indispensavel.

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Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio á convivencia da esposa, prolongando-lhe por esta forma uma castidade fastidiosa, com que ella provavelmente, não contava. Paciencia. Por vezes, na fria intimidade dos salões, procurou desprestigial-a aos olhos dos vassallos. Diz-se que um dia, reunidas a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, sobre qual das duas, em escripta, mais habil se mostrava; e para isto se combinou contar quantos caracteres eram ellas capazes de escrever no tempo necessario para arder de um pivete perfumado, que alguem foi collocar sobre uma urna proxima. Do lado da favorita, cuja cultura litteraria é primorosa, estão o imperador (o basbaque!) e dois validos; do lado da soberana, apostam tres lettrados, e um d'elles é o anão. Eil-a, a amante, interessada vivamente no certamen, toda olhos, toda attenção, toda adoraveis fernesis dos seus bellos dedinhos côr de leite, que empunham o fino pincel, e correm febrilmente sobre o papel que lhe trouxeram. A soberana, o mostrengo (perdôe-se-me o qualificativo que me occorre), face azul pousada nas manapulas, dedos disformes enfiando pela trunfa ruiva, olho impassivel e matreiro, relanceia, aparvalhada e immovel, a scena, e os espectadores. Sobresaltam-se os lettrados, que adivinham, n'uma eminente surriada, o desprestigio proprio no conceito do monarcha.--«Senhora, segredam, por piedade, decida-se a escrever...»--A bruta não os escuta. Repetem se, multiplicam-se as instancias; até que finalmente, attendendo a tantas supplicas, diz ella:--«Vão buscar aos meus aposentos um pincel.»--Voam escudeiros, volvem breve:--«Não se encontra, Senhora!»--Ella indica que está junto d'um armario. Os vassallos replicam:--«Perdão, não está; o que está é uma vassoura...»--Então berra a soberana:--«Pois é isso mesmo, seus patetas!»--E tomando da vassoura, e ensopando-a n'uma mixordia de tinta, de que mandou encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando o pivete ia chegando já ao termo, com a vassoura lambusou um enorme papel, d'um gesto apenas; e por milagre,--que só assim se explica tal portento--appareceram nitidos, sublimes, mil e mil caracteres da mais adoravel forma caligraphica.

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Na guerra, dirigindo ella mesma, em pessoa, a turba dos guerreiros, foi colhendo victorias e engrandecendo os seus dominios. Nos ardis, um primor.

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Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, para um banquete de monarchas, com os quaes andavam de guerrea porfiosa, um dos nobres apresentou aos convivas um enorme macaco que possuia, mono astuto nos seus modos de selvagem, e eximio n'um jogo então em moda, semelhante ao gamão dos nossos tempos.--«Senhora, ides jogar tres partidas com este mono; se a ultima ganhardes, são vossas, nossas terras; se a perderdes... percebeis-me?»--Trava-se o jogo em que a imperatriz não era forte, pouco affeita a prendas de salão, e sendo notorio que nos ceus, onde passara a juventude, o jogo é prohibido. Coragem!... Primeira partida: ganha o mono. Segunda partida: ganha o mono. Tchong Mou-In desfalece em intimas angustias, julga-se perdida, quando então se lembra de invocar os deuses. A sua divina ama, que nunca a abandonára, despede do ceu um aviso visivel só para ella:--Toma este fructo; esconde-o na manga da cabaia, de modo que apenas o macaco dê fé d'elle, e joga resoluta.--Terceira partida: o mono dando vista do acepipe, banana ou coisa parecida, estremece de desejos; o trazeiro, onde parece residir a alma dos macacos, pula-lhe em sobresaltos, em anhelos, sobre o assento da cadeira; e com a dentuça arreganhada, o olho em braza, em arco as espessas sobrancelhas, o bestunto por certo desvairado, balbucia gritinhos repetidos--eh, eh! eh, eh!--que irritam os convivas. A mãosita felpuda ainda vae mexendo as pedras, por habito, por dever, mas sem arte, sem intuito; e a razão foge-lhe, abandona-o--tão imperativa é a lambarice n'estes figurões da fauna comica!--E perde a partida decisiva!

Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias um companheiro de desterro, dos raros com quem logro palestrar:--Ora vêja você quantos macacos ha por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na carcella, quando não é uma commenda, astutos no gamão e n'outras prendas varias, quasi attingindo as alturas da audacia e do triumpho; n'um momento fatal, uma banana qualquer, mostrada a geito, desnortea-os, allucina-os, aniquilla-os... E que, por mais que façam, são macacos, embora a cauda se não vêja, de certo occulta nas ceroulas, e ninguem ha que possa purgal-os, expurgal-os, do sangue dos avós...

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Continuo.

Uma das mais bellas façanhas que illustram a gloriosa mulher, se mulher é, de quem me occupo, é a seguinte. Travava-se então renhida a lucta pelas armas, entre varios soberanos, já com enfado de vencedores e de vencidos. Tai-Sun ia levando a melhor nas investidas. Eis que os reis desbaratados, unidos em conluio, julgam ir pôr termo a tão irritante situação, e muito em seu proveito, propondo ao imperador um curioso problema.--Não nos façaes a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada d'um annel; notae que tem dois furos esta perola, communicando entre si interiormente por um labyrintho de nove canaesinhos; se conseguis apresental-a enfiada n'uma linha, juramos-vos a paz e a entrega por inteiro de tudo que hoje é nosso.

Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em caso tão difficil!... Os conselheiros ficaram-se calados, macambuzios, e nada aconselharam. Foi então impingindo esta questão á esposa, elle, que a não beijava, nem lhe queria, mas que em assumptos escabrosos só n'ella tinha fé. Tchong-Mou-In recolhe-se, implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe então do ceu uma formiga, a primeira formiga que veiu a este mundo; e manda a verdade que se diga que essa formiga prehistorica era um nadinha differente das formigas contemporaneas, menos esbelta nas formas, mais bojuda. Tchong-Mou-In comprehende o precioso auxilio: ata uma linha a meio corpo do bichinho, leva-o assim junto da perola, junto d'um dos seus furos, por onde se vê forçado a enfiar, não tardando que surda pelo outro, arrastando a competente linha atraz de si. É a gloria!...

E não reparam hoje na delicadeza da formiga, leve a cintura, como a cintura d'uma dama espartilhada? D'antes não era assim. Consigna-se o facto como indicando ainda ás gerações presentes uma maravilhosa herança atavica, a impressão do nó com que a linha se prendia e apertava a primeira formiga, a formiga lendaria, a mãe de todas as formigas que hoje passeiam sobre a terra.

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Nada mais sobre o insecto. Poucas palavras apenas pelo que respeita á soberana. Lei-San, a sua divina protectora, perdoou-lhe finalmente o passado sorriso de motejo, que valia uma injuria; despiu-a da pelle monstruosa que lhe dera, por expiação do seu peccado, restituiu-lhe a peregrina belleza que lhe era propria... O imperador, antes que a consorte volvesse aos seus labores divinos, poude vêl-a, e por longos annos, no completo esplendor dos seus enlevos. O imperador, que já lhe tributava incondicional veneração, graças aos seus prodigios, que tanta ventura lhe trouxeram, e prosperidade ao imperio, poude então tambem amal-a, amal-a apaixonadamente, embevecido em tanta graça, em tanta formosura. Imagine quem quizer como áquelles amorosos as horas iriam correndo encantadoras, na serenidade mysteriosa do palacio, cingido por muralhas de marmore, e rodeado de jardins, e no afan de festejarem aquella lua de mel, tardia embora, que lhes apparecia no horisonte!...

1899.

OS DIABOS E OS VELHOS

A Nuno Queriol

Falla a lenda japoneza.

Era uma vez um velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face por signal. Certo dia, achava-se elle na montanha, a cortar lenha--era esta a sua humilde profissão,--quando o surprehendeu uma terrivel tempestade, chuva a potes, ventania desabalada, o raio faiscando nas alturas; tão terrivel, que se viu obrigado a ficar por aquelles sitios e a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, era difficil problema; um grande tronco de arvore, escavado pelos seculos, offereceu-lhe a unica guarida.

No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o velho passando tristes horas. Alta noite, principiou a dar razão d'um estranho vozear, longe a principio, mas pouco a pouco avisinhando-se-lhe--«Olá, resmungou, tanta gente por aqui, e eu que contava achar-me só?...»--E pôz-se a espreitar, curiosamente, sem sombra de receio.

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O que o velho então viu, muito a custo, á luz fugidia dos relampagos, mal póde imaginar-se. Uma numerosa sociedade approximava-se; mas nunca ao velho apparecera tão estranha sociedade como aquella. Era um bando immenso de patuscos, de diabos incontestavelmente, medonhos nos aspectos: uns, encarnados, vestidos de _kimonos_ verdes; outros, negros, vestidos de _kimonos_ encarnados; a um faltava um olho; a outros o nariz; alguns não tinham bocca. Pozeram-se a accender uma fogueira enorme, com palha, com folhas, com cavacos que encontraram; e as chammas sinistramente os patentearam. Acocorados em torno da fogueira, em duas filas, bebendo _saké_ em amigavel reinação, pareciam mesmo gente, os taes demonios. A vasilha ia passando á roda, de garra em garra, entre os convivas; e tantas voltas deu, e renovada tantas vezes foi, que jâ não tinham conto as bebedeiras. Um dos mais jovens assistentes ergueu-se como poude, e começou uma cantiga, dançando ao mesmo tempo; os outros imitaram-n'o. Era então extremamente emocionante a vista da paizagem: a fogueira, ateada pelas rajadas successivas, alastrava-se e subia, furiosa, até ás nuvens, em turbilhões de fumo e labaredas, e ia alumiando diabolicamente a scena inteira--ramarias de bambus e de pinheiros, profundezas de bosques, penedos gottejantes, torrentes espumosas, e ainda a turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas atrozes--Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; outros iam gravemente alçando a perna e ensaiando minuetes; outros, immoveis, ou antes querendo assim quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de borrachos; e de colina em colina os echos repetiam os torvos descantes em falsete, de mistura com as lamentações das arvores açoitadas pelo vento, e a salva de artilharia dos trovões. Berrava uma vóz esganiçada: «Que grande reinação! mas bem quizera vêr mais alguma novidade!...»--

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Mettido no seu esconderijo, o rachador de lenha passou por todos os tormentos que o espanto, o susto e o desamparo juntos produzem no animo d'um velho. Por fim, passadas horas, ia já folgando na festa--ou não fosse elle japonez!--e tal poder teve sobre elle a bambochata, que lhe venceu escrupulos e temores, e o levou a esta resolução formal.--«Matem-me embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo tambem ir pandigar!»--Surdindo então da tóca, barrete enfiado até ás orelhas, machadinha suspensa da cintura, ei-lo a reunir-se á malta, a dar as boas-noites e a ensaiar passos de dança. Foi agora a vez de se espantarem os demonios; mas tão comico era o velho, no seu pobre corpinho corcovado, avançando em meneios, e recuando após, e virando-se para a direita em cortezias, e voltando-se para a esquerda em reverencias, e traçando no ar, com o pé descalço, estupendas parabolas coreographicas, que desataram todos em risóta, gritando:--«Viva o velho! muito bem! que bem dança o velho!»--E proseguiram depois, n'este proposito:--«Queremos que tomes sempre parte em nossas festas, por seres mui reinadio; mas, como póde acontecer que não pretendas voltar mais, vaes deixar-nos um penhor de que acederás a este convite.»--

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