Paisagens da China e do Japão

Chapter 3

Chapter 33,821 wordsPublic domain

Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso material o Japão anda a galope. Lembraram-se ha pouco estes senhores de constituir uma empreza para a distribuição da agua aos domicilios, em Kobe. A idea não é nova: já Yokohama, Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam de instituições da mesma especie. O que é lastima,--se vale a pena a gente prender-se em ninharias,--é que assim, alcançado pelo turbilhão reformador, que vae dando cabo de todo o pittoresco d'este povo, tenda a desapparecer o poço... o poço classico dos velhos tempos, com a borda circular talhada n'uma só pedra, o alpendre gracioso sustido por dois madeiros, os baldes suspensos das duas pontas da corda de cairo, que enfia no tosco gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica, ou a um canto do jardim, ou n'uma vereda accessivel a um bando de visinhos; e cerca as vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da mais graciosa e original tanoaria, de que as creadas, meias-nuas, se vão servindo nas lavagens, demorando-as para alongar tagarelices, proprias do sexo e ainda mais das japonezas; eis o poço, correspondendo a um quadro muito caracteristico da vida intima; o poço, que os adoraveis pinceis dos mestres da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes, emaranhando-os na rama das trepadeiras, das _asagao_, cujas bellas campanulas de côres variadas abrem com o nascer do sol e fenecem logo após...

Para o caso de Kobe, dirigiram-se logo desde o inicio as picaretas e as enxadas para a montanha de _Nunobiki_, onde a agua jorrava em manancial sem fim; e, á força de braços e de dynamite, no intuito de encaminhar a torrente aos reservatorios da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo as arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que todo o enlevo do sitio desappareceu, a paisagem tornou-se em ruinas. Rigorosamente fallando, a cascata acabava de existir. A _cháya_, tal como a gente a conhecêra no seu rustico pittoresco, forçada pelas escavações a mudar de poiso, acabava de existir. E as raparigas? logicamente, tinham de desapparecer tambem. Com effeito, a Semente casou com um japonez e safou-se... e faço votos para que o seu nome lhe seja de bom agoiro, dispondo os fados a concederem aos conjuges uma prole feliz e numerosa; e a Primavera morreu; morreu, por mofina coincidencia, quando a outra Primavera ia renascer, dar viço e flôres ás arvores, não ás da cascata, mercê da nova empreza. Morreu tisica; a sua cascata, onde nascêra, onde vivêra vinte annos, com a sua eterna penumbra crepuscular, com as suas rochas eternamente gottejantes, com o seu ambiente eternamente humido, roêra-lhe os pulmões...

[Figura]

Pobre Primavera... Mas não morreu talvez, pensem bem n'isto que lhes digo; embora ninguem mais lograsse vel-a, embora as amigas tivessem acompanhado ao cemiterio o seu corpinho inerte... O seu retrato já corre mundo, em photographia, vendido pelas lojas, perpetuando-lhe o rostinho. E nada mais possivel do que o facto de andar ganhando cobres pelas feiras, hoje, amanhã, d'aqui a quarenta annos, um sujeito qualquer ajoujado com um graphophone, um _phone_ qualquer americano... Estão imaginando a patuscada:--Cylindro apropriado; dá-se corda... A plebe ouve pouco mais ou menos o seguinte:--«Grande companhia de graphophones de Nova-York e de Paris! Scena da famosa cascata de _Nunobiki_, no Japão!»--E a plebe continua de ouvir: é agora o murmurio continuo, soluçante, de agua despenhando-se de rocha em rocha; trina um passaro vagabundo; um francez bate as palmas, pede cerveja; um inglez pede whisky; um nipponico pede chá; a vóz da Senhora Primavera vibra distincta, fresca, doce; Primavera desfaz-se em desculpas, em risinhos, diz que já vae, não tarda; mas o inglez tem pressa, renova o seu pedido com azedume: e o instrumento é então perfeito--oh, maravilhas da sciencia!--que se ouve até o ciciar d'um beijo, que é naturalmente do francez...

1899.

NILGUYO

_Mukashi_, _mukasi_ (nos velhos tempos, nos velhos tempos, como diriam estes bons japonezes, e conforme reza a lenda, interpretada pelo Nihon no _Mukashibanashi_ (Antigas Legendas do Japão), viveu um homem, um simples, de indole bondosa, de quem se poderia dizer que passára a mocidade em desejos de matrimonio; mas como desejos e realização d'elles são duas coisas mui differentes, attingiu o pobre a meia idade sem ter levado a effeito essa firma...--_commercial_ não é talvez o termo proprio,--em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham entre si, da vida, alegrias e tristezas.

As alegrias d'elle consistiam principalmente em entregar-se á pesca, pesca á linha durante os longos ocios; tristezas, sentia-as sobretudo, mais mordentes, ao recolher á noite a casa, derreado, cambaleando de somno e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse á porta, e em saudações o convidasse a entrar, nem mãos prestimosas que lhe tomassem do peixe e o amanhassem, e fossem depois leval-o ao fogo do brazeiro. Em toda a parte, e especialmente no Japão, estes sentimentos intimos d'alma,--jubilos de pescador á linha e desalentos de solteiro,--são bem justificaveis. Com effeito, para um temperamento vagabundo e impressionavel aos enlevos da paizagem, como se dá com todo o japonez, quantos encantos não vão proporcionando a linha e o anzol, induzindo-nos sem esforço a longos passeios de bohemio, penedos e praias fóra, contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em face dos scenarios serenos, todos verde, frescuras, espelhos de aguas e murmurios... e como as horas vôam, acocorado o corpo sobre a rocha, a mão ora affeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se em commovente espectactiva, ora colhendo o peixe a estrebuchar; e o espirito voando, como as horas, alheio ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando no reino das chimeras... Mas á noite, após um dia inteiro de labuta, é que o corpo se doe e falham os joelhos; e deve então saber tão bem chegar a gente ao lar de esteiras e papel, e vir á entrada ajoelhar-se em cortezias a figura gentil d'uma esposinha fresca, envolvida em sedas e perfumes, com as mãositas rosadas em posição submissa, as mãositas tão habeis em córarem nas brazas as trutas saborosas...

Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a tradição não tomou conta do nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte, quando... zaz! um grande safanão na linha lhe fez logo imaginar que alguma coisa fóra do commum viera de colher. Por pouco se lhe não vão, linha, e anzol, e peixe ao mesmo tempo; então, com muitas manhas que são proprias da arte, poz-se a cançar a presa, já alongando o braço e deixando-a debater-se a seu capricho, já aproveitando o repoiso para traze-la á praia; até que emfim, azado o instante, puxou com força, e veio cair-lhe o peixe aos pés.

O peixe? o peixão!... Era uma _Ninguyo_, uma sereia; nem mais nem menos; face de mulher, d'uma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo, alongado, escamoso, agitando barbatanas e terminando em amplo rabo, que então desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara formosura,--disse-o eu, e não me engano:--esse contorno doce de oval, de _urizanegao_, de pevide de melão, tão querido em esthetica japoneza; os bastos cabellos negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos de velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contracções de angustia; chorava certamente pela dôr, pois lhe rasgava a carne o traiçoeiro anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de vêr-se assim arrebatada do seu meio habitual, expiando um peccado de lambarice, indefeza, nua deante d'um estrangeiro!...

* * * * *

O pescador porém era d'uma indole bondosa, como ficou notado um pouco atraz; e vae-se agora ver como o provou. Comprehende-se, é claro, o seu primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a cabeça, a esbugalhar os olhos, e gaguejava não sei que exclamações... Podera não! Acalmado, sacou cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e tomando nas mãos o estranho ser, poz-se a scismar maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando, se elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil templos do paiz; e alinhando a sua barraca com as outras, onde se exhibem salamandras, crocodilos, creanças sem pés e sem mãos, cães sabios e muitas outras coisas, que abundantissima chuva de sapecas lhe não cahiria em cima, quer dizer, dentro das mangas do _kimono_!...--"Meus senhores, entrem todos! Quem não tem cabeça, não paga nada! Ora aqui está uma sereia authentica..."--e já ia estudando o discurso que faria, soberbo, dominador, impondo-se á plebe embasbacada. Ou então, outra ideia: se elle comesse a carne da sereia, cosinhadinha, feita em postas... e sabem todos que a carne da sereia tem virtude de conservar perpetuas a vida e a juventude a quem d'ella provou... Mas a sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a lembrança de reter n'uma tina, em exposição, ou peor ainda, de levar á degolla aquelle pobre bicho, que sobre as suas mãos se lamentava e desfazia em prantos, como se fôra uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e com um nobre gesto e decidido esforço, atirou a sereia ás vagas, d'onde viera, e onde mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias, após um acenar de rabo, que poderia ser um adeus, um adeus e um agradecimento.

O nosso pescador voltou á sua faina. Consta que, n'aquelle dia memoravel, o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que o mar dá. Á tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos labios um sorriso, que provinha da boa pesca que fizera, e tambem da boa acção que praticara.

[Figura]

* * * * *

Quando pela noite, na cosinha, mangas do _kimono_ arregaçadas até acima dos sovacos, avental sobre as pernas, celha ao lado, se dispunha a preparar a sua ceia, ouviu que de fóra, e junto á porta, uma fallinha mansa lhe ia dizendo:--"Dá licença! dá licença?"...--Corre o homem a abrir a corrediça, ainda com a faca da cosinha, e um carapau na dextra adunca; e á luz frouxa d'um luar de quarto minguante, poude distinguir um vulto de mulher em nada extraordinario, porém doce e cortez, que lhe confessou ser uma viajante extraviada do caminho, sem casa e sem abrigo, e lhe pedia poisada só para aquella noite.--«Entre depressa, menina, acode-lhe o sujeito, e venha partilhar do pouco que aqui tenho».--Então, dando-lhe entrada, conduzindo-a ao aposento das visitas, fel-a descançar sobre a esteira, e junto do brazeiro, foi-lhe servido o chá tradicional.--«Muito obrigada.»--O homem rogou-lhe seguidamente que esperasse pela ceia, uma ceia de peixe por signal, que elle ia amanhar sem perda de um minuto.--«Permitte-me que eu ganhe o direito ao meu quinhão, ajudando-o n'essa lida?»--Disse que não redondamente, que nunca consentiria que os seus hospedes trabalhassem na cosinha. Em replicas e treplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a vida toda, além, da banda do oceano (talvez filha de gente embarcadiça? pescadora?) e que ella conhecia as melhores receitas de cosinhar o peixe, no que até muitas vezes, por passatempo, se occupava; e tanto ella teimou,--sabem todos o que são teimas de mulheres!--que sempre foi levando a sua ávante.

O que é certo, é que nunca o pobre solteirão se lambera com tão deliciosas petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a chuchar ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que lhe ficava, era de não lhe ser servida uma ceia egual, todas as noites. A companheira observou então modestamente, a meias fallas, que lhe parecia não ir além dos seus poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor a sua phrase, accrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar... Comprehendida finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ella consentir em ser a esposa do sujeito.

Antes, porém, impôz as suas condições.--«_Danna_, meu dono, eu tenho, como disse, passado a vida pelo mar, e não posso prescindir do meu banho de agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto?»--Elle acenou que sim.--«E jura-me (agora vão ouvir os pudores da pequerrucha...) que me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem sequer espreitar-me?»--Elle jurou que sim; e deu-se por feliz (já se ia babando pela moça, o maganão!) de, por tão pouco preço, ver-se possuidor de tal thesoiro.

Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos mezes. O peixe, o prato querido dos nipponicos, foi sêmpre excellentemente preparado pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O pargo, em fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias com arroz, uma delicia! O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas assadas sobre o lume, sem egual! E até uma certa caldeirada, assim como quem diz á moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume e pelas banhas, que alguem olhava por elle com disvelo...

* * * * *

Mas o banho? Melhor fôra não fallarmos n'elle...

Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella passava a manhã inteira preparando-o, afinando o appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira, espelhinho em frente, e em torno os cofresinhos mysteriosos, era a interminavel tarefa de fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora avermelhando os labios, ora compondo o penteado. O esposo chegára mesmo a esta conclusão não muito lisongeira:--que a companheira mais queria á agua salgada do que a elle;--mas perdoava-lhe,--outros ha que bem menos innocentes caprichos vão perdoando...--e nunca a sombra sequer d'um arrependimento viera turvar a paz do seu viver.

Uma bella tarde,--tarde de banho por signal--chegou o homem a casa, e, como se diz em portuguez... cheio de fome.--«Tardará muito para a ceia? resmungava. Irá o banho em meio ou em principio?» A esposa, é claro, achava-se invisivel, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas japonezas são casas de papel, e uma fenda, um rasgão, convida-nos a enfiar os olhos para dentro. O caso é que elle espreitou. Surpresa! Horror!... Não é uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor dizendo--que nadava, em demoradas circumvoluções de regalo ao longo da tina, agitando mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho canções do mar, canções das praias...

Pobre marido!--«Ah! canta-me assim, exclamou elle, canta-me assim, grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com peixes,--lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...--Melhor fôra, sem duvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas, feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com appetite os teus guisados, intrujona...»

A porta, abriu-se então e appareceu a esposa. Chorava, cahiam-lhe as lagrimas a punhos; chorava mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma resolução fatal. Fallou assim, ajoelhando:--«_Danna_, meu dono, foi a sua benevolencia para mim, um dia, extrema, tirando-me das aguas, podendo fazer da minha vida o que quizesse, e salvando-m'a. Trouxe-me aqui um dever de gratidão: julguei com a minha presença poder amenisar a sua soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha gratidão será eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha forma verdadeira, um bicho, um monstro que mette medo a toda a gente, comprehendo que a missão que tomei chegou ao termo. Estala-me o coração, mas pouco importa!... _Danna_, meu dono, adeus. Do ceu lhe chovam bençãos...»--E correu para a praia e desappareceu nas ondas.

Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu para sempre uma companheira carinhosa; e, como das nupcias com a sereia lhe resultava o dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martyrio...

A fabula, segundo observa, e com criterio, o auctor japonez que consultei a tal respeito, offerece duas lições de alta moral. Uma é esta: a mulher que pretenda conservar um bom marido, deve captival-o pela barriga, isto é, pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado que o estomago é o orgão mais sensivel, e porventura o mais grato, do homem, o rei da creação. A outra lição é a seguinte: o marido que deseje manter a harmonia do seu lar, nunca interfira na toilette intima da consorte; porque, isto de damas,--com sua licença,--todas lá têem o seu rabo, ou escama, ou barbatana, coisa emfim que melhor é não seja conhecida, em proveito dos dois, e em conformidade com o codigo inedito do amor, capitulo _Illusões_, artigo... esqueceu-me agora o artigo, meus senhores.

1899.

O CAVALLO BRANCO DE NANKO

A Carlos Campos

Isto aconteceu ha cerca de mil annos, em terras japonezas: um cavallo, que o grande artista Kanaoka desenhára n'um biombo do templo de Ninnadji, perto de Kioto, era uma tão bella creação, cheia de verdade e palpitante de vida, que todas as noites se escapava do papel para ir galopar pelos campos em roda, culturas fóra, devastando a esmo as sementeiras; e o caso dava-se, claramente, com magno espanto e raiva dos camponios, que o perseguiam á pedrada. Estes camponios, impressionados pelas fórmas incomparaveis do animal, persuadiram-se por fim de que elle não podia ser outro senão o cavallo de Kanaoka; e a persuação converteu-se um dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as patas do travesso, humidas ainda da lama fresca dos caminhos. Sem mais cerimonias, arremetteram contra a tela e esfuracaram-lhe os olhos; e consta que nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.

[Figura]

Ainda outro cavallo de Kanaoka, que era mestre no genero, cavallo desenhado n'uma parede interior do palacio imperial, tinha o vezo de ir devorar pelos jardins as flores tenras do açafrão; e só cessou a brincadeira quando alguem se lembrou de retocar a obra, amarrando o patife á parede com um pedaço de corda pintada para o effeito.

* * * * *

Ora bem. De muitas maravilhas é sem duvida capaz a mão inspirada d'um artista!... Esses dois cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de tinta e de algumas curvas humoristicas de pincel, mas em todo o caso ungidos do sopro sublime do eximio mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram e felizes tempos eram. Arte creadora, arte radiosa das epochas passadas, porque não vaes tu regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas d'este mundo?...

N'estes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japão, e não cessando de divagar no mesmo assumpto de cavallos, confesso francamente a quem me lêr, que nada me mortifica tanto como o espectaculo dos cavallos sagrados dos templos shintoistas. Ora aqui estão umas cavalgaduras bem authenticas, bem vivas, bem reaes, de carne e osso; e que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional--mas não são,--por certo muito invejariam as simples creações no papel da mão de Kanaoka. N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem n'um banho perenne de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda a condição dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas linhas melancholicas que escrevo.

[Figura]

Se pretendo ser de certo modo comprehendido nas divagações que vão seguir-se--e é obvio que pretendo,--convem que me detenha um pouco, fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo, da palavra _shinto_ (a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarchal, das epochas remotas no Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de Buddha que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado. O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as forças da creação, pelas divindades protectoras, pelos genios, pelos nobres, pelos heroes e pelos sabios. O templo de shinto é o recinto consagrado a uma d'essas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo _torii_, o grande arco de pedra ou de madeira avisinhando do logar, e como que indicando o caminho ao peregrino. _Torii_ quer dizer _descanço dos passaros_; e assim ficamos já com uma noção primeira e delicadissima na essencia, aprendendo que no campo sagrado tudo é paz, tudo é remanso, pois que até aos pardaes, cançados dos vôos doidos que fizeram á aventura, se offerece um poleiro protector onde descancem. Ao _torii_ succedem-se o amplo portal e o vasto espaço murado; e lá dentro, symbolos, alfaias d'uma religião toda de amor, são a paisagem graciosa, os jardins verdes, os bosques frescos, as rochas musgosas, os lagos quietos; aqui é a cisterna destinada ás abluções preliminares dos crentes; alli são as monumentaes lanternas de granito, esverdeadas pelos annos; além o nicho escarlate votado a Inari, raposa, Deus do arroz, não sei que mais, em todo o caso coisa muito santa; depois as construcções ligeiras, de madeira nua, dispersas, e onde em dias festivos as donzellas do culto dançam ao som de estranhos ritornellos, ou silenciosos officiantes abençoam as multidões, agitando sobre as cabeças reverentes um penacho de papel branco, emblema de pureza.

[Figura]

Nos templos mais faustuosos, não faltará outro accessorio: o nicho garrido, a pequenina estrebaria, onde o cavallo sagrado mastiga eternamente a insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do templo, tem o seu cavallo de estado; é justo. É geralmente um cavallito albino, de pello branco e olho azul celeste, talvez porque se ligue uma certa idéa de candura a tal enfermidade. O deus serve-se d'elle como entende; alguem, a quem pergunto informações do cargo, diz-me que é o _Ó tsukae mono_... assim como quem diz: _o nobre moço de recados_. Admittamos pois que faz em regra os recados do deus, o que é já muito, e um alto mister, e por isso é sagrado e tem honras de santo; e em lances difficeis, mais distinctos serão ainda os seus serviços. Ardeu ha mezes um dos mais famosos templos do Japão, em Yamada; não sei que coisas do culto foram depois encontradas ao abrigo e longe do sinistro;--foi o cavallo que as transportou para lá.--É voz do povo que em Osaka, em dois templos de shinto, desappareceram os cavallos quando rebentou a ultima guerra com a China;--está-se mesmo a perceber que as almas d'esses deuses montaram nos ginetes para irem aos campos do inimigo, abençoar as tropas de Nippon.--Taes casos, porém, são raros, são rarissimos, n'esta epocha positivista, tão escassa de milagres; e os cavallos brancos sagrados vivem e morrem amarrados á mangedoira, passeando uma só vez em cada anno, no dia da festa do templo, encorporados então triumphalmente á procissão, que percorre as ruas da cidade. É o encerro absoluto, é a constante immobilidade tediosa, sem mesmo as furtivas escapadelas dos cavallos pintados de Kanaoka. A palha abunda-lhes; acercam-se d'elles as creanças e as mulheres, que os adoram, e compram á velha, que por alli está cerca do estabulo, montinhos de feijões cozidos, que offerecem sobre as palmas das mãos rosadas, aos focinhos nostalgicos dos rocins.

* * * * *

Eu conheço uns poucos d'esses brutos, mas tenho mais intimas relações com o de Nanko, um templo aqui em Kobe, celebre, dedicado á memoria de Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro e patriota.

No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa, perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante do povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel, a noção que haja formado d'este povo, um dos mais interessantes, e o mais sympathico talvez, do mundo inteiro.

[Figura]