Paisagens da China e do Japão

Chapter 2

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Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, ó pobre humanidade, ó pobre familia minha, ainda mais nos teus regosijos e nas tuas esperanças, do que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para este bando chinez com quem me encontro agora, que explosão de bençãos lhe estimula a sentimentalidade? que altos beneficios commemora? O bando abençoa a sua eterna existencia de miseria, a miseria passada, a presente e a que fatalmente vae seguir-se-lhe. Abençoa a labuta sem treguas, em busca do punhado de arroz de cada dia; ora exercida no lar immundo, sem sombra de conforto; ora exercida pelos campos, nas varzeas, nas collinas, no amanho da terra, sob a oppressão constante dos raios do sol que escalda, ou dos frios que paralysam; ora exercida nos barcos, que se cruzam na podridão dos estuarios, ou pairam sobre a onda adormecida durante as calmas torpidas, ou se desfazem no escarceo, quando os tufões rugem em furia. O bando abençôa a fatalidade da sua condição social, o problema espantoso, paradoxal, do seu feitio de ser, que em todas as depravações, em todas as iniquidades imaginaveis, parece ir buscar as leis unicas por que se rege. O bando abençôa ainda as calamidades tremendas, que n'estes ultimos tempos, como uma maldição divina, teem pairado sobre a immensa patria:--nas provincias do sul, nos seus centros mais populosos, é a peste, a peste negra, roubando em cada lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a mãe, ou mesmo todos juntos, e vestindo de lucto, de tristes roupas alvas, os parentes, e ameaçando estabelecer-se definitivamente, enraizar como uma arvore de peçonha, d'onde emanará a cada instante o veneno subtil, destruidor das turbas; e, para cumulo de infortunio e de descredito, um visinho, um povo irmão, o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, morde e come pedaços do seu torrão sagrado, envergonha-a, offerece-a ao escarneo do mundo na miserrima condição da sua plebe e na opulenta infamia dos seus nobres, desprestigiada emfim, indefeza á cubiça das gentes, aos homens loiros da Europa, que não tardarão em vir espezinhal-a.--Embora! esqueçam-se hoje as miserias, vista-se o povo em gala, chovam bençãos sobre o anno que começa. E amanhã, decorridas algumas horas de folgança, recomecem, prosigam,--pouco importa!--os turvos dias de amargura, a fatalidade da existencia no antro, a dura labuta no campo e no barco, a faina eterna, a orgia torpe dos maridos, a escravidão das esposas, a venda das filhas a quem mais der, os horrores da prostituição, as vergastadas nas creadinhas, as extorções dos mandarins, as torturas nos carceres, a morte lenta nos patibulos, a obra de destruição das epidemias e do opio, as humilhações perante o vencedor, as exigencias do Occidente, as arrogancias dos homens loiros...

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Para o anno novo, tudo se prepara com antecedencia, em prodigiosa azafama; é para todos uma occupação incessante e desusada, durante as ultimas semanas do anno que vae findar. Lavam-se os covis, lavam-se as podres mobilias. É o pó d'um anno que se sacode, é a lama d'um anno que se deita fóra, é o piolho e é a pulga d'um anno que se afogam na onda das barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a idéa de limpeza preoccupou os espiritos durante um só instante. Tudo é providencial neste mundo, ao que parece. Na chafurda typica d'estas povoações chinezas, tão frequentemente visitadas por todas as pragas--cholera, peste, lepra,--embebidas no lodo dos canaes, no ambiente das emanações dos estrumes pachorrentamente acogulados e dos despejos que apodrecem pelas ruas, custa a crêr como a gentalha pollula, e como os consorcios fructificam em ninhadas de garotos; e parece á gente que um sopro qualquer destruidor, de calamidade immensa, irá em breve prostrar esses enxames, sem que deixe de pé um só vivente nos albergues. Puro engano: as povoações eternizam-se. No parecer de alguns investigadores, que taes exotismos interessam, se os miasmas putridos convidam as epidemias a entrar e a vindimar providencialmente as muitas vidas que superabundam, estes mesmos miasmas, sobrecarregados de vapores de ammoniaco, de exhalações corrosivas de fermentos, se encarregam de ferir tambem mortalmente os virus morbidos, poupando o resto do povo. Chegamos ao facecioso paradoxo de ser na China a immundicie o purificador por excellencia, um como que elixir de longa vida, indispensavel a todas as familias, feito da mais estupenda alchimia de dejectos.

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Conceda-se pois, por excepção, a este bom povo celestial, o capricho de lavar uma vez cada anno o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de collar pelas paredes, pelas portas, pelas janellas, papeis de bella côr escarlate, com negras inscripções cabalisticas, que são votos de ventura e de riqueza, que são preces aos deuses. E chega a occasião de se adornarem os altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se dispõem em vasos gentis com agua e seixos alvos, e assim vão enfeitar os aposentos, levando o viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das alcovas. No meio do complicado rito das usanças, algumas praticas enternecedoras, de ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo nas enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de pequeninos peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gotta de agua do improvisado captiveiro; o povo compra-as, e vae lançal-as em seguida nas ribeiras, gosando na acção do resgate, por certo grata aos deuses, e que redundará em beneficios...

A PRIMAVERA

A Camillo Pessanha

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Ha alguns dias, na cidade de Kobe,--poderia precisar o dia, e quasi a hora, se tamanho rigorismo me exigissem,--irrompeu a Primavera. Irrompeu: não ha sombra de exagero no vocabulo. Irrompeu, surgiu d'um pulo, fez explosão. N'este paiz do Sol Nascente, onde o sol, e com elle todas as grandes forças naturaes, são ainda uns selvagens--se assim posso expressar-me--uns selvagens sem freio, sem noção das conveniencias, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, n'uma côrte qualquer da nossa Europa; n'este paiz do Sol Nascente, ia eu dizendo, a creação inteira apostou, parece, em offerecer em cada dia uma surpresa, toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essencia da alma das creanças e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, emfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei das transições.

Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica de neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio torrido, em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim corre o tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um tufão arranca os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e alem um rio transborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e uma convulsão subterranea abala o solo...

O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas, soffre os choques d'esta natureza, por demais subversiva para o seu espirito triste, meditativo e attribulado. Offerece-se-lhe um de dois caminhos a seguir: ou communga na vida japoneza, inicia-se nos seus segredos intimos, ama-a nas suas modalidades, e assim a existencia se lhe gasta, se consome rapida, esgazeada em admirações, doidejando em vertigens; ou se retrae, se isola, odeia a natureza que não comprehende, odeia o exilio, vive de saudades da patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos clubs cosmopolitas da colonia forasteira. Não é preciso mais para justificar o tique de loucura, facilmente perceptivel, da enorme maioria d'estes expatriados, homens e mulheres, após curta residencia no paiz japonez.

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Ora pois,--dada esta concisa explicação á gente incredula,--ha alguns dias, na cidade de Kobe, irrompeu a Primavera.

Pela noite velha, fóra chegando uma brisa como que amorosa, acariciadora, perfumada. No silencio das trevas, as carpas acordaram, n'um charco fronteiro ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam desusados ruidos, saltando fora d'agua, ardendo em cios, endemoninhadas. Quando rompeu o dia, e appareceu o sol, não se descreve o enlevo do bafo morno, embalsamado, genesiaco, que enchia o espaço. O ceu tinha azues novos; cirros de paz pairavam nas alturas. A paizagem esverdeára; esverdeára da herva nova, que surgia, e das arvores velhas, que se coloriam. A nossa observação educa-se n'este meio em especialidades de minucia, abundando por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas, de todas as fórmas, de todas as grandezas; estas arvores nunca se desfolham, mas no inverno descoloram-se, empallidecem como mulheres chloroticas, chegam a lembrar enfermos, chegam a lembrar coisas mortas; depois, a primavera excita-lhes a seiva, um verde intenso assoma-lhes ás folhas, a vida recomeça, doida, vão desabrochar flores em fúria!...

Já as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia; os negros troncos rugosos e lavrados pela lepra dos lichens, sem uma folha sequer, cobrem-se agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas de mil e mil florinhas presas aos galhos por minusculos penduculos. Vistas de longe, nos sitios onde abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores seccas, envolvidas pelo fumo e pelas chammas d'uma queimada devoradora. Em breve serão os pecegueiros a florirem. Depois as cerejeiras. Depois as pereiras. Todas as arvores. Todas em apotheoses de coloridos. Chalaça tudo, em todo o caso--estas arvores não dão fructos, não dão ameixas, não dão pecegos, não dão cerejas, não dão peras; ou, se os dão, não prestam. Esgotam os ardores da seiva na superabundancia das petalas das flores enormes, enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem, em meras orgias de cores, para a incrivel hilaridade do scenario, para a supina gargalhada primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os mil motivos de debandada para os campos, d'estes bons japonezes, cabaça ao hombro, _musumé_ ao lado, alma descuidosa aberta aos esplendores.

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São estas florescencias paradoxaes, tão caracteristicas do solo nipponico, que encaminham a cada momento o pincel indigena para requintes de matizes que a esthetica occidental não comprehende; ellas que inspiram aos artistas esses tão frequentes fundos de paizagem salpicados de brancos e vermelhos, a reminiscencia do instante em que as flores se desfolharam e cairam do alto, n'um chuveiro de petalas.

De parceria com as arvores, são as hervas, as plantas, os arbustos, que se vestem de folhas e se enfeitam de flores. Já ao longo dos muros espreitam, por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae vicejar de musgos, fetos, de relvas, de bambus e de humildes gramineas; e matizar-se de brancos, de azues, de amarellos, de escarlates, de roxos, de mil côres, de mil flores sem nome, apenas conhecidas dos insectos, que são botanicos emeritos e sabem de cór e salteado onde as corollas lhes offerecem os manjares mais capitosos. Já desabrocham os junquilhos, as camelias. Vão desabrochar a wistaria, as azaleas, os lirios, os iris, os narcisos, os convolvulos, as peonias, a legião vegetal.

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As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe, vão vêr-se ao pittoresco oiteiro de Okamoto, ou a Suma, no dominio d'um templo famoso. Os pecegueiros vão vêr-se a Momoyama, em Osaka, que as florinhas côr de rosa incendeiam por curtos dias. As cerejeiras, particularmente queridas dos japonezes, vão vêr-se a um ou dois templos em Osaka; ou á formosissima collina de Arashiyama, em Kioto, marginando a ribeira de Hozukawa, caudalosa e rumorejante; ou, no mesmo Kioto, ao parque de Maruiyama, onde uma só arvore, a vetusta _cerejeira da noite de Guion_, de delicados ramos em pendor, tem merecido os enthusiasmos e as estrophes de não sei quantas gerações de amorosos e de poetas, que junto d'ella poisam, dia ou noite, embevecidos no extasis do espectaculo; ou ainda a Yoshino, o logar por excellencia preferido, sitio montanhoso e agreste, de difficil accesso, mas por isto mesmo frequentado pelos grandes fanaticos da natureza em pompas; Yoshino, com a sua sentida lenda d'um monarcha fugitivo, e com o peregrino enlevo das suas mil--conta justa, affirmam,--das suas mil cerejeiras, muitas vezes macrobias, offerecendo aqui, acolá, além, n'um valle, sobre uma ponte, á borda d'um precipicio, as scenas mais surprehendentes, mais arrebatadoras, parecendo as arvores em flor, flocos de nuvens brancas a rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o _fugi_, vê-se em Nara, a velha cidade classica; os ramos trepadores enrolando-se em torno dos troncos das chryptomerias gigantes, e os longos cachos brancos e os longos cachos roxos pendentes ao capricho das brisas.

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Romarias indescriptiveis de graça pagã, de vida exuberante, estas romarias, reunindo se ao quadro bello da natureza, de uma magestade commovente e estonteadora, a kermesse hilariante do povo em festa. Barracas embandeiradas expondo mil artigos; poisos improvisados para a refeição frugal; os homens em bandos a folgarem; as creanças aos saltos, ás gargalhadas, vestidas a primor, de sedas de mil tons; mulheres de todas as condições, graves mamans deliciosas, meninas recatadas em mimos de flor de estufa, petulantes cantadeiras das ruas, camponezas em roupas escarlates, _gueshas_ em requintes de luxo e de encantos, ovantes como idolos, todas ellas comesticos, todas ellas aromas, todas ellas sedas rojantes, todas ellas mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao recolher da festa, a onda humana é curiosissima: cada qual empunhando uma haste florida, cada qual com seu embrulho para o presente de estylo aos amigos que não foram; as mulheres commentando as scenas em gestos e em risinhos; as creanças abarrotando de fructas e de bolos, cançadas, somnolentas, rabujando; os homens em galhofa, pouco firmes, com as frontes e as palpebras encarnadas, que é como se lhes accusa o peccadilho de terem bebido um pouco mais do que convinha...

N'esta contemplação dos scenarios está a alma do indigena. Eu vou reproduzir-lhes uma local, que ha dias appareceu n'um jornal da terra, e que define bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente unica:--«em Himeji já se deu fé este anno de duas flores de cerejeira...» _duas_, é sobretudo delicioso!... O homem do Occidente pensa, o japonez vê; eis a enorme distincção que os separa. O prazer dos olhos é a alegre preocupação de todos; vive-se no presente, para gosar do momento de hoje, para sorrir ás coisas; e pode ser que seja esta a maneira mais coherente do ser humano prestar culto aos seus deuses, ao Creador, que lhe impoz na terra uma missão.

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N'aquella primeira manhã primaveral, debandaram dos bosques mais cedo, em magotes alegres, em serenos vôos altos em busca de aventuras, chocarreando, atirando aos ventos as suas gargalhadas de mofa, os corvos, nos quaes tão bem encaixa, sem eu saber porque, o nome japonez, de _karuçu_. A pardalada papeava amores, e safava-se resolutamente dos povoados em demanda dos campos. Uma borboleta amarella,--ia apostar que a primeira da estação,--atravessou n'um vôo o meu jardim. Sobre cada flôr poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou vespa, ou besoiro, ou moscardo, vindos não sei como, por feitiço, pois havia longos mezes que ninguem lhes punha a vista em cima; e não tarda que chegue a immensa corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas, mosquitos, tira-olhos, os pandigos do ar, todos bulicio, côres e vida!... Pelos corregos, pelas regueiras, ao longo das ruas e caminhos, surdiam pela vez primeira das tocas os sapos, rouquejando; e dois a dois, graves... mas não estou agora para contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos, os sapos, graves, dois a dois...

Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada em aromas, pintava-se uma alegria nova, uma recrudescencia de actividade animal. As raparigas passavam mais lepidas, em _kimonos_ alegres, claros, descalças sobre os sóccos pela primeira vez depois do inverno, os seus pés muito brancos, muito mimosos, após o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei além, n'aquella esquina, uma _musumé_, que vendia ovos, e um vendilhão ambulante de cestos e vassouras; haviam poisado no chão a sua industria, conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade de expressão; elle agarrava-a pelos pulsos, brutalmente; e ella, a rir, a julgar pelo brilho dos olhos e pelo rostinho alvoroçado de desejos... dava-se-lhe, em promessas.

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Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar pelos campos, como os pardaes,--já não digo: (ir vender cestos e vassouras) pelas ruas...--que eu me engravatei cuidadamente e fui bater á porta d'um amigo. Tratava-se d'uma festa de creanças, o que é dizer, d'uma estopada para adultos. Effectivamente, exhibia-se, em frente d'uma duzia de meninos e de outra duzia de pessoas circumspectas, um graphophone americano; graphophone, ou coisa parecida; um _phone_ qualquer em todo o caso; que isto de _phones_, para quem cursou aulas de physica ha perto de trinta annos, é de uma complicação tal, que nunca a gente chega, por mais que se applique, a fallar com segurança do assumpto.

Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima impressão, que a festa me deixou. Ratice minha, sem duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro apropriado para o caso e dava-se corda ao instrumento... mas a quem estou ensinando o padre-nosso!... Então, um americano fanhoso, imbirrante, assim com ares de bebedo e ademanes de exhibidor de saltimbancos, a ponto de se lhe presumir a casaca no fio e cheia de nodoas e a gravata branca em uso ha mais de seis semanas, fallava ao publico, annunciava a casa constructora em Nova York, e o que em seguida iria ouvir-se. Eram cançonetas chulas, solos de flauta, estrondos de orchestra, devaneios em viola, discursos grotescos; e tudo aquillo, e as vozes do publico que ria, que vociferava, que dava palmas, que pedia _bis_, creanças berrando, damas mal suffocando o riso, cavalheiros atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente, saía da caixa enfeitiçada e enchia a sala onde me achava, como se uma multidão de patuscos, vindos da America, vindos do inferno, a tivesse invadido de surpresa.

Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldiçoava, n'aquella hora, estas invenções da epocha, estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces que passam, reminiscencias, saudades, tudo o que é doce ao espirito... porque,--affirmo-o tanto quanto as palavras me podem traduzir o pensamento,--porque, no fim de contas, ficou-me uma desconsoladora noção de desprestigio da existencia, e de troça ás leis do mundo, á lei da successão dos factos no tempo; e vi em pensamento um bando de velhinhos alchimistas largarem as retortas, por um momento, e virem bradar á creação, fitando o ceu ás gargalhadas:--«não tenhas imposturas, sabemos tanto, fazemos tanto como tu!...»--Já não bastava a photographia, esta artimanha irreverente, que vae implicar com os ausentes, com os defuntos, com o mundo distante, dando-nos em troca da sentida recordação, que guardavamos, o phantasma, em contornos, do que fugiu dos nossos olhos. Agora é o graphophone, que eterniza os sons, a voz dos de longe, a voz dos que morreram. Morte, ausencia, já não tem razão de existir nos diccionarios. Para o caso a que me refiro, cá continua o americano imbirrante a vomitar os seus discursos, os musicos a tocarem, os cantores a cantarem, o publico a rir, a chorar, a applaudir, a chalaçar. Passaram-se assim as scenas ha dois annos, ha cinco annos, ha dez annos. Estará a estas horas o americano morto, coisa de alguma bebedeira mais forte, que o prostou? a creança, que chorava, dormirá tambem n'um tumulo, coitadita? a dama, que ria, estará doida, n'um asylo? o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo uma sentença? Nada importa. A machina chama-os, reune-os, ressuscita-os, renova-os para a pandiga d'um momento da existencia; o passado é presente; e a machina agita-os, empurra-os para o interior das nossas casas, para nos divertirmos á custa d'elles mesmos...

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Primavera? ia eu pensando com os meus botões. Primavera? ri a natureza? florescem as arvores? cantam amores os passaros? é uma realidade? Ah! talvez não, que hoje, a um phenomeno substitue-se quasi sempre uma industria; e espectaculos do Pae do Ceu fôram já quasi todos supprimidos, porque iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que passa, regista cem descobertas, tendente cada qual a apagar do nosso espirito a lenda do mysterio, do incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a machinas, a engenhos mais ou menos complicados. Doce Primavera, que me enfeitiça? Troça. Aqui anda machina, apostára! Quem me assegura, que isto não foi primavera servida a meus avós ha mais de um seculo, gravada n'um cylindro, e impingida depois como nova, de quando em quando, aos patetas, que a applaudem?...

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E a proposito da Primavera que irrompia, duas palavras sobre outra Primavera, que morria, ahi pela mesma epocha.

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Não haverá ninguem, imagino, que, tendo passado em Kobe, não conheça _Nunobiki_, a cascata. É que o sitio, pela sua fama merecida, é o passeio obrigado de todos os que chegam, embora se demorem duas horas. Não ha conductor de carro, guia de viajeiros, um qualquer alcoviteiro que ande á cata de gente que desembarca dos paquetes, que se esqueça de indicar, como primeira diversão, a ida á queda de agua. Lá vão todos. Lá fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes, depois, como residente, residente em ocios, attrahido pelos scenarios apraziveis. Lá em riba, muito em riba da montanha, e salpicada de espumas e acalentada em rumorejos, na penumbra do ermo apertado entre penedos a prumo, cobertos de ramaria silvestre, era a casa de chá, a _cháya_ tradicional, offerecendo repoiso por alguns minutos e uma bebida ao forasteiro extasiado, sem fallar nos sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam largamente as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha alguns annos, disseram-me, eram tres as raparigas, tres irmans,--as tres graças;--mas eu conheci só duas, tendo casado a outra com um titular europeu, conforme ouvi. Eu conheci só duas: O-Tane San, a Senhora Semente, e O-Haru San, a Senhora Primavera. Como se fica presumindo, eram as japonezas mais populares de Kobe inteiro; das quaes, talvez não erre, acreditando que os muitos milhares de forasteiros, que n'estes ultimos seis annos visitaram o Japão, guardam uma reminiscencia, uma saudade... Duas fadas dos bosques, a enfeitiçarem os incautos? Não tanto: quando muito, duas sereias de agua doce, simplesmente meigas, simplesmente gentis, vendendo graciosamente uma chavena de chá, sem assucar, á moda japoneza, e dando de graça um sorriso, tão doce, que tirava ao chá o travor proprio, mesmo para o paladar mais exigente. Eu preferia á Semente, a Primavera. Era mais fresca,--fresca como o seu lindo nome,--e mais avelludado o olhar negro, e mais esmerada nos _kimonos_ de seda e na curva em azas de borboleta dos cabellos. Com ella palestrava, com ella ria, ria sobretudo, que o riso é a linguagem mais em uso n'esta terra; e, tomando-lhe das mãos, perguntava-lhe quem fôra o delicado, inglez, russo, coreano, hottentote, que lhe offerecêra aquelle annel com uma saphira, que enfiava tão bem no seu dedo côr de rosa...