Chapter 11
O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate anachronico da situação em que se via, incutiu-lhe no animo não sei que horrivel oppressão de angustia e de pavor. Patria? sim, a mesma areia inerte e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos, aspectos familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros aspectos, outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava já na lenda. Em nada o captivava aquella terra. O anceio de fugir, de volver ao esplendor do seu palacio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das mil graças da princeza multiplicava-lhe o desejo de abandonar para sempre o solo onde nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemiterio, esse no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais povoado de freguezes; e ia partir, deixar em paz a aldeia morta...
Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princeza. Porque? Talvez leviandade, talvez mofino séstro, que tantas vezes guia o homem a seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, que continha nada menos do que a essencia dos longos annos corridos, e ao mesmo tempo descontados na existencia de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado á razão, ao sentimento da desobediencia em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era tarde. De prompto, as proprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu; a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo logar nas paginas do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o afastava dos seus contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabellos, a barba, branquejaram como linho, sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pelle do corpo, os ossos romperam para fóra, as costas dobraram-se n'um arco, viu-se como um macrobio não sei quantas vezes secular, como um esqueleto em férias, fugido do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em nada...
1900.
INDICE
As Borboletas, 1
A Alforreca, 9
O Anno novo, 20
A Primavera, 30
Nilguyo, 50
O Cavallo Branco de Nanko, 62
A primeira formiga, 78
Os Diabos e os velhos, 90
Pan-Man-Chen, 98
A Caricatura no Japão, 107
Dois Cemiterios Japonezes, 134
O Espelho de Matsuyama, 153
Amôres, 164
Um pintor de gatos, 171
Impressões rapidas, 181
Issumboshi, 213
O Pescador Urashima, 229
Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO 5, Largo de Camões, 6--Lisboa
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*Notas:*
[1] Official da marinha morto em 25 de outubro de 1902. Vivia, quando o auctor lhe consagrava este capitulo.
[2] Os desenhos que illustram este conto são originaes do proprio W. de Moraes.
*Lista de erros corrigidos*
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+----------+------------------------+-------------------------+ | | Original | Correcção | +----------+------------------------+-------------------------+ |#pág. 25| n'estas | n'estes | |#pág. 49| whisyk | whisky | |#pág. 68| difflceis | difficeis | |#pág. 69| focinho snostalgicos | focinhos nostalgicos | |#pág. 76| offereco | offereço | |#pág. 79| tempelos | tem pelos | |#pág. 81| entrasae | entrasse | |#pág. 92| diabolidamente | diabolicamente | |#pág. 111| niconsciencia | inconsciencia | |#pág. 130| vermelha s | vermelhas | |#pág. 150| _sumarais_ | _samurais_ | |#pág. 174| At que | Até que | |#pág. 208| fabulosa | fabulosas | |#pág. 209| ?ontes | fontes | |#pág. 219| encahlava | encalhava | |#pág. 223| queaquelle | que aquelle | |#pág. 227| a palacio | ao palacio | |#pág. 235| rante | durante | +----------+------------------------+-------------------------+
As figuras podem não estar no sítio original. Algumas foram movidas para que os parágrafos não fossem cortados.