Chapter 10
--Um filho... um filho ao menos, fôsse elle embora um aleijado, um monstro, uma migalha de gente, com o tamanho de um dedo por estatura... mas um filho!...--tal o thema constante, durante longos annos, das mais gratas esperanças do casal a que me referi. Quando, pelas rugas nos rostos e pela alvura dos cabellos, os bons velhos concluiram que não mais lhes era dado confiar na iniciativa propria, elevaram então o pensamento aos deuses, como dispensadores que são de todos os milagres; encaminhando de preferencia a sua devoção para o glorioso Myojin, que é a divindade venerada no celebre templo de Sumyoshi, a curta distancia de Naniwa. Quasi todas as manhãs elles se dirigiam em piedosa romaria, juntos, cada qual arrimado ao seu bordão, pois já as pernas lhes vergavam ao peso dos invernos; e era então um espectaculo deveras commovente, e supinamente grotesco ao mesmo tempo, que fazia correr lagrimas e estalejar risadas á gente que passava, o d'aquelles dois decrepitos, cheios de uncção e abrazados em fé, erguendo ao céo as pobres mãos escarnadas, e implorando o deus para que lhes desse um filho, fôsse elle como fôsse, fôsse elle uma migalha de gente, do tamanho de um dedo por estatura!...
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Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios annos, o deus de Sumyoshi se apiedou por fim de tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um dia para lhes proferir estas palavras:--«Faço-vos a vontade, bons caturras, haveis de ter um filho.»--Os dois pularam de contentes, como se póde imaginar; galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas um do outro, voltaram para o albergue. Não tardou muito que a velha sentisse com alvoroço os primeiros remoques que prenunciam gravidez; e finalizados nove mezes dava á luz uma creança, um menino...
Caspité!... Mas reparem agora no ponto mais surprehendente da aventura: o menino, lindo como os amores, tinha a estatura de um boneco, como esses de porcellana que se usa collocar nos jardins liliputianos, contidos n'um vaso ou n'uma caixa, muito do agrado da gente japoneza. O espanto dos paes foi grande, e a decepção tambem; mas em verdade não havia motivo de queixa contra o deus, que concedêra o que se lhe rogára,--um filho, com o tamanho de um dedo por estatura.--Era assim.
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_Issumboshi_ foi o nome que deram ao menino, isto é, traduzindo litteralmente em portuguez: o _Cavalheiro Pollegada_. As chronicas não rezam se foi amamentado a _biberon_, ou se o mirrado seio maternal entumeceu de subito e se offereceu solicito aos labios do garoto. O que é facto é que Issumboshi foi medrando em graças e em esperteza; não porém em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era tal como viera a este mundo. Esta gentil disformidade trouxe o enfado ao lar e até um certo azedume mal contido contra as suppostas bondades do deus de Sumyoshi. O escarneo era espontaneo nas boccas dos visinhos; os gaiatos do sitio apraziam-se em zombarias d'esta ordem:--«Lá está o _anão_ comendo arroz! lá vae a _ervilha_ passear!»--Emfim, para encurtar razões, direi apenas que chegou um momento em que Issumboshi se tornou insupportavel a seus paes, vergonha viva do casal, sem prestimo presente, e sem que se lhe suppozesse utilidade possivel no futuro.
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Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse, pôl-o fóra de casa, abandonal-o ao acaso da fortuna. Foi chamado o menino á presença do pae, que lhe expôz os motivos da sua resolução, e lhe apontou de um gesto o caminho da rua.--«Sim, papá, partirei sem demora, retorquiu, resignado e submisso; mas faça-me favor de dar-me antes uma agulha d'aquellas de que a maman se serve para coser os seus _kimonos_.»--Perguntou o pae para que? e foi-lhe respondido que era para usar d'ella como um sabre, muito proporcionado ao seu tamanho. Depois pediu á mãe uma tigela de madeira, d'aquellas que se empregam em servir o caldo ás refeições, e mais um d'esses pausinhos que se chammam _hashi_, com o comprimento de um palmo, substituindo na mesa japoneza o garfo e a colher. Perguntou a mãe para que? e foi-lhe respondido que, para a longa viagem que ia emprehender, a tigela seria o barco, o _hashi_ seria o remo, tudo proporcionado ao seu tamanho.
Em posse dos utensilios que alcançára da munificencia de seus paes, Issumboshi fez-lhe uma rasgada reverencia e desappareceu de casa.
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Eil-o só, o pobre abandonado, entregue ao seu arbitrio, dispondo como haveres de uma tigela, de um palito e de uma agulha, collocando esta á cinta, á laia de catana, com uma palhinha por bainha!... Que fazer? Para onde ir?... Corria cerca o Iodogawa, o extenso rio lodoso e calmo que tem suas origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa Naniwa, e vae perder-se no oceano. Que fazer? Para onde ir?--«Ir a Kyoto, pensou comsigo o anãosinho, á capital do Imperio (então não era Tokyo a capital), á residencia do Soberano, aonde muitas coisas curiosas deve haver, dignas de vêr-se...»--E abalou.
Seria impossivel relatar as peripecias da viagem, os mil perigos affrontados por tão exiguo barco, que uma simples casca de laranja, boiando á tona de agua, já punha em risco de naufragio. Issumboshi ia perguntando aos pescadores o caminho para Kyoto; se refrescava o vento, abrigava-se junto da estacaria das pontesinhas que galgavam de uma margem do rio para a outra margem; pelas noites escuras, ou quando a fadiga o affligia, encalhava o seu barco junto á terra, por entre a maranha dos limos e das plantas aquaticas; e foi assim, com mais de trinta dias de derrota, que abordou uma manhã á famosa capital do paiz do Sol Nascente.
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Eil-o em terra, bamboleando-se, folgando com o chão firme, com as palestras da turba, com o cheiro das tabernas, como effectivamente succede aos marinheiros após longos dias de cruzeiro, enfadados de balanço, de isolamento, de carne salgada e de bolacha. Issumboshi, pouco maior que um escaravelho, passava despercebido por entre os muitos passeantes; assim poude furtar-se a commentarios zombeteiros e percorrer tranquillamente as ruas da cidade, embasbacando-se em face dos aspectos grandiosos que aos seus olhitos sagazes se iam offerecendo. Por fim, eil-o acercando-se da mais sumptuosa residencia em que os mesmos olhitos jamais tinham poisado; era alli que vivia um grande personagem, o principe Sanjo-no-Saishó, primeiro ministro na côrte do soberano. Entra Issumboshi resolutamente no amplo pateo da entrada, e informa os serviçaes de que pretende fallar ao senhor de tal dominio. Deu-se então o comico incidente de estar sua alteza muito cerca e de acudir, á porta, attrahido pela maviosa voz do visitante; como ninguem visse porém, ia de novo recolher-se, resmungando que teria jurado achar-se alli um estranho em conversas com a gente de serviço; mas um derradeiro olhar pesquisador revelou-lhe, quasi occulto por detraz dos seus tamancos, que estavam junto á entrada conforme o uso do paiz, o curioso figurão que conhecemos.--«Oh! exclamou, eras tu, minusculo vivente que ainda ha pouco proferias o meu nome?»--O rapaz, polidamente, assegurou que sim, que era elle proprio.--«E que me queres então?»--Issumboshi expôz a sua procedencia, os seus titulos e as tristes condições em que se via; e concluiu rogando que lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu serviço.--«Pois sim, fica comnosco, respondeu sua alteza, após ligeira reflexão; tu és sem duvida, continuou, o homem mais pequeno que tem apparecido n'este mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras que conheço; não quero perder o léo de possuir tamanha galanteria, praticando ao mesmo tempo um acto meritorio, protegendo-te.»
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Embora tam infimo em grandeza, o _Cavalheiro Pollegada_ soube mostrar-se utilisavel em tudo em que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se querido da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto para matar enfados, dos quaes ninguem se livra, e menos ainda os ricos, sempre ociosos em seus palacios de regalo. Ko-Haru, a filha do fidalgo, a mais gentil donzella de Kyoto (que é a terra das mulheres mais gentis de todo o Imperio), especialmente lhe votou as suas sympathias, impondo-lhe o dever--dulcissimo dever!--de acompanhal-a por toda a parte onde ella fôsse, qual rato sabio que seguisse a dona em seus passeios...
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Entre os dois, a formosa _musumé_ e a migalha de gente, passaram-se então graciosas scenas, as mais tocantes que póde imaginar-se, se imaginaveis são... Era um enlevo vêl-o, sempre vestidinho de guerreiro, a primor, com roupas de setim que ella pelos proprios dedos habilidosos lhe bordava, e lhe cosia, privando de carinhos as suas bonecas favoritas; e Issumboshi, muito compenetrado do seu papel de pagem, nunca largando o sabre da cintura, arrogava-se uns taes ares marciaes, tão petulantes, que a gente morria de rir, ao avistal-o!... Se chovia, ou se a excursão se prolongava, Ka-Haru tomava nas mãos alvas de neve o seu pequeno companheiro, aconchegando-o ao collo, ou aquecendo-o ao seio. Issumboshi, é bem de crêr, possuia, como todo o ser humano possue, um coração, embora reduzido ás proporções de uma cabeça de alfinete, mas pulsando de gratidão e de ternura. Aquella convivencia escravisou-lhe a alma. Uma dedicação immensa, uns zelos infinitos, um desejo constante de agradar á sua nobre ama, taes fôram os sentimentos dominantes no animo do pygmeu. A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que aos outros mortaes eram vedadas... (oh, mysterio psychologico de todos os namorados d'este mundo! quantos de vós, que lêdes estas linhas, invejareis a sorte de Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas de agosto, Ko-Haru se aprazia em estender-se sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido tambem pela fadiga, poisava e adormecia sobre um dos pés nus de sua ama, como em leito de marmore de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos labios frescos da donzella uma petala de magnolia, em que por distracção os dentinhos se entretinham mordicando: Issumboshi comeu-a; e durante um dia inteiro não se serviu de outro alimento, assegurando com verdade que aquelle lhe bastava...
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Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo de Kiyomizu-no-Kwannon (Kwannon é a deusa buddhista da piedade), a fim de praticar as suas devoções; como sempre, o anão acompanhava-a. Ora, de volta, quando ambos desciam o ultimo degrau da ampla escadaria que dá accesso ao templo, dois demonios surdiram de improviso das proximas balseiras, horriveis de figura, herculeos, colossaes, cuidando sem detenças de raptar a linda peregrina. Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece. Issumboshi retira a espada da bainha (a agulha que a mãe lhe dera n'outros tempos), perfila-se em frente dos demonios e brada-lhes assim:--«Vis temerarios, que commetteis a magna offensa de perturbar em seus passeios piedosos a princeza Sanjó! sabei que se um de vós, com um só dedo lhe tocar, commigo se ha de haver! e, tão certo como ser eu Issumboshi, assim este meu sabre lhe rasgará a entranha!...»--Consta que os diabretes se pozeram a rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais fallador, dignou-se responder com uma vóz de trovão que fez afugentar das arvores os pardaes, em cinco leguas ao redor:--«Acalma a tua furia, infimo insecto; não percebes acaso que a lucta contra nós é-te defeza? para encurtar razões e não seres importuno, vaes vêr o que te faço...»--Levantou-o do solo, mui delicadamente, com as pontas dos dedos, e enguliu-o...
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Pareceu a Ko-Haru fugir-lhe a ultima esperança de salvar-se. Illudia-se. Em plenas trevas, escorregando pela guela babujenta do monstro, e penetrando na enorme rotunda da barriga, o anãosinho empunhou o sabre a duas mãos e foi espicaçando ao acaso, para a frente, para a direita, para a esquerda, o ventre, a fressura, os intestinos; o diabo sentiu-se de repente incommodado, soffreu ancias atrozes, vomitou o jantar e Issumboshi de novo appareceu á luz do dia. O outro monstro tentou em seguida igual ardil, devorando o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe para o nariz, em cujas fossas sanguineas e felpudas recomeçou esgrimindo, a ponto de produzir tal comichão, que o diabo espirrou, salvando-se o inimigo pelos ares. Foi então que os demonios se encheram de pavor, convencidos de que tinham em frente de si um ente extraordinario, posto que de tão desprezivel apparencia; e deitaram a fugir...
Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a desolada dama, convence-a da ausencia do perigo e faz-lhe vêr que são horas de seguir para palacio, onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru vae partir; antes porém testemunha ao pagem a sua muita gratidão, promettendo contar á familia o succedido, para que chovam justas recompensas sobre o seu donodado salvador.
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Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia, Ko-Haru encontra no caminho um utensilio alli abandonado, o pequenino martello milagroso de que os demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido pelos monstros na ancia de safarem-se. Tomou-o pressurosa. Perguntou o companheiro o que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que bastava brandil-o para a gente realisar os seus desejos, e que elle proprio, se algum desejo tinha, lh'o dissesse, que logo lhe seria satisfeito, Issumboshi berrou, no auge da commoção e da esperança:--«Altura! Altura! Altura»--Ko-Haru não percebeu o que elle queria. Elle então, mais prolixo, explicou que queria a altura de si proprio, crescer em tamanho, tornar-se um homem como todos os homens d'este mundo. O milagre, a um gesto da _musumé_, realisou-se. Issumboshi attingiu n'um momento as regulares proporções de um guapo mocetão; ao lado da princeza, quem se pozesse a vêr aquelle par, diria-os feitos um para o outro, de encommenda...
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Chegaram ao palacio. A admiração foi grande; mas não sei o que mais commentarios mereceu, se as peripecias da princeza, rematadas com tão feliz epilogo, se o milagre do martello na pessoa de Issumboshi. Logo alli se lhe mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu do seu nobre protector mil recompensas, mais tarde do soberano mui fartas honrarias, subindo aos mais altos cargos publicos; mas a mais doce recompensa que aqui se lhe póde assignalar foi tornar-se o esposo querido de Ko-Haru, que elle amava, do fundo da alma, desde o primeiro dia que lhe foi dado contemplal-a...
Kobe, março de 1902.
O PESCADOR URASHIMA
A Joaquim Costa
Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da costa do Japão, Urashima, um moço pescador. D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhança:--que tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguem o igualava, tratando-se de artes de linhas e de anzoes;--nada mais, mas já não era pequeno o elogio.
Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, sósinho no seu barco. E que pescou Urashima d'essa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora... pescou uma enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita rugosa, denunciando assim a grande vetustez; é notorio que as tartarugas vivem muito; vivem mil annos, no Japão.
Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao pobre pescador, pouco mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fóra os lucros que a casca lhe trouxesse; mas o moço poz-se a scismar na crueldade que ia commetter, roubando assim talvez longos seculos de vida áquelle bruto, fadado pela sorte ao goso da existencia, durante gerações e gerações da tribu humana; e lembrou-se da mãe, da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser caritativo com os brutos indefezos... É certo que as mãos abandonaram a presa, n'um largo gesto de bondade; e a tartaruga, volvendo á agua sem se fazer rogada, lepida mergulhou no azul e se safou das vistas.
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Fazia então tanto calor!... Era um d'esses dias abrazadores de agosto, embebidos de paz, de luz, de torpidos affluvios. Além, a aldeia quedava-se na sésta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto; apenas, sobre as arvores, cantavam as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se nos campos a faina da lavoira; nas choças escancaradas, patenteavam-se os corpos nús, estendidos em repoiso, adormecidos, banhados em suor. E Urashima, no seu barco, vencido tambem pelos ardores d'aquella hora, largou das mãos os remos e as linhas, encostou-se á bancada e adormeceu.
No entretanto, eis que surge das aguas um vulto feminino, encantador. O episodio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, póde agora reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do esquife, poisa esse vulto, essa fada adoravel de feitiços, envolta em roupas carmezins, solto o cabello ás brisas e corôada a fronte com o diadema de oiro, que é apanagio das princezas; estende o braço de neve para o adormecido, toca-lhe na fronte com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas palavras:--«Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu sou; sou a filha do deus do oceano immenso, habito com meu pae o palacio do dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco colheste e restituiste á liberdade, era eu propria; meu pae impoz-me um tal disfarce, para que assim podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil annos viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palacio do dragão, sob o azul das aguas...»
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Lá seguem os dois pelo mar fóra. Urashima empunha a esparrela da pôpa, maneja-a com denodo, dá-lhe--podera não!--forças herculeas a ancia de chegar; a princeza poisa no outro remo as mãos franzinas, e vae sorrindo ao companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de longe o palacio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes recortados.
Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia ousára imaginar tantos primores!... As paredes do palacio são de renda de coral; as arvores do jardim têem por folhas, esmeraldas, e fructificam em perolas e rubis; as escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos dragões, de oiro lavrado...
Então, toda a bicharia do oceano acode á praia, vestindo _kimonos_ de cerimonia, e vem saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os discursos laudatorios que prescreve a etiqueta em casos taes, a princeza, seguida do cortejo, entra em palacio; gorazes e toninhas seguram-lhe a cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma meticulosa limpeza indescriptivel, as plantas alvas dos seus pésinhos deliciosos; descança n'um salão que mais lhe apraz, pela delicia dos adornos e pela paizagem que se avista, e a seu lado offerece um logar ao companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, os dragões, a turba em fim dos escravos jubilosos, corre a prostrar-se em frente da princeza; e de joelhos, barbatanas erguidas em offertorio, começa servindo em taças preciosas o branco arroz cosido, os licôres, os fructos, os manjares.
Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua esposa. Durante tres annos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem enfados, sem nuvens de tristeza no céo dos seus amores; ora na paz da esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos humidos que se fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas que se dão; ora perscrutando os mysterios do oceano, em excursões pachorrentas pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida aquatica, de plantas, de animaes, se multiplica em maravilhas que a ninguem é dado conhecer; ora em longos passeios pelos jardins, onde as arvores não cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando ao pendor das perolas e rubis.
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Tres annos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e diz-lhe pouco mais ou menos o seguinte:--que a adora e se sente ditoso, mas cresce-lhe o desejo de ir vêr a sua aldeia, o velho pae, a doce mãe, os irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promette voltar após curta visita.--Então, pela primeira vez sem duvida, uma ligeira nuvem de tristeza, um vago presentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da princeza.--«Vae, diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora bem me pese, pois imagino que vaes expôr-te a grandes riscos; leva comtigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém que te pertence; sirva-te elle de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás, pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta mansão do nosso amor...»
E partiu, e abordou o solo patrio...
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O que quer que era de bem estranho se passára durante a ausencia de Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana de seus paes? A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos, os mesmos cerros sobrepondo-se, alli lhe appareciam, bem taes como os deixára, na fria impassibilidade das coisas immutaveis; mas os povoados offereciam outro aspecto, os campos outro amanho; mas as arvores, que lhe haviam dado abrigo e sombra, e de que tão bem se recordava, erguiam apenas troncos seccos, algumas, porque outras já nem mesmo existiam, e outras arvores medravam n'outros sitios, projectando outras sombras, fructificando em outros fructos. Aonde fôra a sua aldeia, surgia agora um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e ainda agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, como dantes; mas agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das _musumés_ que tinham por costume ir alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans, _kimonos_ arregaçados, pernas núas, braços nús, lidando, palestrando e rindo umas com as outras.
Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os e interpella-os:--«Bons dias; fazem favor de me dizer onde é agora a casa da familia de Urashima?»--Pensaram, consultaram-se, coçaram a cabeça, buscando recordar-se.--«Urashima, Urashima... Urashima, o pescador? tem graça tal pergunta: ha já quatrocentos annos pelo menos, como contam, se afogou elle quando pescava no seu barco, pois nunca mais appareceu; o seu pae, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus irmãos, dormem todos além no cemiterio, ha muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes de nossos avós serem nascidos, nem o pó d'ella sequer existe por aqui...»
Então, como um relampago que acode subitamente pela noite, a illuminar a estrada, uma idéa acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a allumiar-lhe o espirito. Elle alli estava, volvido á patria, poisando os pés descalços no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da paizagem em que por tantos annos a vista se poisara, e a recordação lhe gravára para sempre na memoria. O palacio do deus do mar, no abysmo das ondas, com as suas paredes de renda de coral, com os seus pomares de folhas de esmeraldas e fructos de perolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas e olhos de brilhantes, e os seus dragões de caudas de oiro fino, não pertencia á terra, era do mundo dos prodigios, regia-se pelas leis do encantamento; um dia, dos seus dias, valia por muitos annos, dos nossos annos; e assim, sem que Urashima o suppozesse, seculos sobre seculos haviam passado sobre a terra, matando, destruindo, transformando, arrastando as coisas e os individuos á fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das ruinas outros aspectos e outros seres...
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