Chapter 1
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Rita Farinha (Maio 2008)
PAISAGENS DA CHINA E DO JAPÃO
WENCESLAU DE MORAES
Paisagens da China e do Japão
LISBOA LIVRARIA EDITORA VIUVA TAVARES CARDOSO _5, Largo de Camões, 6_
1906
LISBOA
Typ. de Francisco Luiz Gonçalves 80, Rua do Alecrim, 82
1906
A Camillo Pessanha e João Vasco
_Nos baldões da vida bohemia, na confusa successão dos dias e das scenas, acontece que os factos, as coisas, os individuos, invocados pela pobre memoria exhausta, vão perdendo pouco a pouco as suas qualidades intensivas, as suas côres, os seus contornos, a sua feição propria, emancipando-se do real, como uma pagina de aguarella desmerece, solta e perdida no espaço e voando com as brisas; diluindo-se por fim n'uma emoção generica, vaga, indifinivel,--a saudade.--A essas duas grandes saudades, Camillo Pessanha e João Vasco, dedico hoje este livro._
_Kobe, 10 de Abril de 1901._
Wenceslau de Moraes.
AS BORBOLETAS
A J. Moreira de Sá.
A lenda das borboletas.
São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? ahi vagabundando pelo azul dos campos, razando as corollas frescas, amando-se, beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas de amantes despidas da miseria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas, as borboletas!...
Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento surprehendel-as na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras mysteriosas dos bambuaes, com as suas longas azas palpitantes, lancioladas, em matizes maravilhosos, de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos quentes, como se as loucas vestissem cabaias de setim, de sedas de alto preço...
Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que hoje se diz Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus paes lhe permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres annos; volveu tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim, rogando aos deuses que as conservassem frescas como ella, assim se conservaram durante a longa ausencia, embora, como consta, a cunhada as fosse regando com agua quente tirada da chaleira.
Durante os tres annos de seu estudo, um companheiro, por nome Leun-San-Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada inseparavel, o seu irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando juntos, divagando, sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que tinha a seu lado uma mulher.
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Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração vêr o rapaz, lamentando o futuro isolamento, a perda d'um amigo como aquelle. A moça consolava-o. A moça poisava-lhe nos hombros as suas mãos gentis, e exhortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do estudo, té alcançar um alto grau de sapiencia.--«E depois, dizia-lhe ella entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim, abala, vem vêr me á minha aldeia.»--E dava-lhe indicações precisas do logar. Despediram-se, entre choros.
A donzella esperou, esperou, esperou,--quem poderá descrever esse tormento? guardando da familia o seu segredo; e o moço não apparecia. Segundo os usos do paiz, os paes destinaram-lhe um marido; e ella, a desolada, escrava da obediencia filial, obediencia cega, indiscutivel, que é a base da vida inteira moral do povo china, inclinou-se, acceitou, sem que uma só queixa proferisse.
Tres dias decorridos depois do contracto nupcial, eis que chega á aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre, porque a desventura se lhe acerca; mas rico de erudição, de uma alma culta, e occupando um logar proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu irmão; mas agora sem disfarces, na graça plena dos seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes que lhe são proprias, e com grinaldas de flores na trança negra. De começo, este enigma, pouco a pouco explicado, confunde-o, desnortea-o; mas tudo se aclara; da amisade ao amor o salto é rapido. Oh! elle ama-a agora, elle ama-a de todas as forças do seu ser; e no olhar de fogo transluzem mil mysterios de adorações e de desejos!... É tarde. A palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos paes prezam mais do que tudo, a propria honra.
Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco, com a alma embebida no fel dos desesperos. É ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida não é eterna; que a piedade filial arrasta-a a um consorcio que só lhe vaticina dores e prantos; mas que as almas são livres, emigram d'uns corpos para outros; encarnam-se n'outros seres; que elle socegue, aguarde outra existencia, para a qual ella lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e toda amor. Leun-San-Pac lê, faz um bolo d'essa carta, onde tão demoradamente poisara a mão da sua bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala assim na solidão o ultimo suspiro. Um pouco além, sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.
Soam bategas festivas, estalejam nos ares fogos de gala, de alegria; e pela longa estrada em ziguezague, bordada aqui e alli de bambus e bananeiras, doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes theorias o monumental cortejo do noivado, caminho do lar feliz.
O estylo de ha mil annos é o mesmo estylo de hoje. São os grandes balões, os estandartes, conduzidos por moços vestidos de vermelho. São os enxovaes primorosos, as cabaias, a collecção dos sapatinhos, tudo disposto nas liteiras luzentes dos esmaltes. São as colossaes peças de doçaria, castellos de assucar, dragões de assucar, coisas espantosas. São os porcos assados, loiros, deliciosos, espalmados sobre os taboleiros, com laços de fita nos focinhos. São as orchestras estridentes, de flautas, de rebecas. São as creanças ataviadas em setins, em allegorias de scenas de outros tempos, cavalgando alimarias pachorrentas. É finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda ella esmaltes, fechada como um cofre, furtando á vista dos curiosos o precioso fardo, Choc-In-Toi.
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A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva, antes de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além, d'aquella sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do que morreu por ella. Quem lhe recusaria tal licença? Eil-a que desce da liteira, nas suas cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra, eil-a que beija a terra...
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A terra abre-se então, carinhosa, mãe; a terra traga-a, chama-a a si, chama-a para junto dos ossos do seu querido. A comitiva pasma do milagre. As mãos avançam a detel-a; mas só logram colher um pedaço do vestido, que se rasga, e é tudo... O pedaço de seda, de mil matizes, transforma-se de subito n'uma borboleta de mil côres, que vôa das mãos rudes, e desapparece no azul, desapparece!... É desde aquella epocha que ha borboletas n'este mundo, tão lindas, tão cheias de matizes!...
Eu não lhes estou contando uma mentira, meus amigos. Ainda hoje se vê a sepultura, esboroada pelos seculos, d'aquelles amorosos. E as esposas desprezadas alem vão em romaria, e d'aquella terra bemdita se suprem ás mãos cheias, e d'ella provam, e disfarçada com o arroz a ministram aos maridos. Consta que o estranho tempero, aquella terra, que em alguma coisa participa da essencia dos amantes que ali jazem para sempre, tem virtude comsigo, e é sempre efficaz em trazer ao bom caminho os mariolas, os maridos.
A ALFORRECA
A Henrique Carvalhosa.
Falla a lenda japoneza.
Antigamente--e quem sabe se ainda hoje!--no seio do oceano era o reino faustuoso dos dragões. Por longos annos, o senhor d'este reino, o dragão real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa; e sabem só os deuses, e não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de tartarugas e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao som do _shamicen_ e lhe iam servindo _saké_ em ricas taças, quantas noites elle passou em travessas intimidades amorosas!...
Verdores, que passam breve. Um bello dia, resolveu casar-se, o bom soberano. A noiva escolhida foi uma joven dragôasita, dezeseis annos apenas, adoravel, digna pelos seus mil encantos de ser a consorte feliz de tal senhor. Explendidas foram as bodas por essa occasião, segundo consta: sem já fallar na côrte intima, toda a bicharia aquatica, peixes, mariscos, molluscos, todos vieram processionalmente, em cardumes, em bellos _kimonos_ de sedas encarnadas, offerecer seus respeitos e presentes; e foram, durante longos dias, estupendos regabofes, em danças, em musicas, em banquetes...
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Mas nem os dragões escapam ás duras provações da existencia! Ainda bem um mez se não passára, quando a augusta soberana caiu doente; e taes cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era uma lastima observar as trombas compungidas dos fidalgos, commentando baixinho, em lamentações do seu officio, o triste caso. Reuniram-se os doutores em conferencia; fallaram muito, discutiram muito, sem chegarem a accordo, como sempre succede; consultaram-se abalisados alfarrabios de therapeutica; as barbatanas incançaveis rabiscaram um milhão de receitas milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana extinguia-se; e afinal os focinhos dos sabios, n'um tregeito de piedade e desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a sciencia--já n'aquella epoca se enchia a bocca com _a sciencia_--que a sciencia nada mais podia fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.
Do seu leito de enferma, de entre os _futon_, as fofas colchas de setim, agita as tremulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe estas palavras ao ouvido:--«Uma só coisa me salvará: arranquem o figado a um macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a saude....»--O rei não poude reprimir um gesto de surpresa, quasi de enfado, e todo se lhe erriçou o bigode façanhudo:--«Um figado de macaco! estás louca, minha querida!...»--Ella promptamente retrucou:--«Louca, porquê? Vossa magestade esquece por ventura, que nós, o grande povo dos dragões, no mar vivemos sempre; emquanto que os macacos, muito longe d'aqui, vivem na terra, nos bosques, entre as arvores, nutrindo-se de fructos... No figado do mono alguma coisa virá que participe d'esse mundo, tão diverso, tão outro; e essa particula estranha, senhor, me salvaria!...»--E a rainha, a quem as lagrimas acodem, prosegue n'um tom reprehensivo e lastimoso:--«Uma insignificancia, um nada, pedi, e esse nada vossa magestade me recusa. Julgava merecer-lhe mais affectos. Dispa-me d'estas pompas de soberana, não as quero; dê a corôa a outra esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao ninho carinhoso de meus paes...»--A voz suffoca-se em soluços, não pode mais proferir uma só queixa...
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O rei dos dragões não queria passar, entre damas por um dragão cruel; por demais conhecia elle os caprichos pueris do sexo fragil, mas perdoava-os complacentemente, por systema; e sobretudo adorava a esposa, cujas lagrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaça-se pois o capricho da rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a alforreca, e disse-lhe o seguinte:--«Vou dar-te uma espinhosa tarefa, minha velha, mas confio na tua dedicação nunca mentida; preciso que emprehendas uma longa viagem, que nades até junto da terra, e alli convenças um macaco a vir comtigo a estes meus reinos; falla-lhe, para o resolveres, da magica belleza d'estes sitios, tão differentes dos seus, e da gentileza d'estes meus subditos felizes; mas o que eu realmente quero n'este caso, é que se arranque o figado das entranhas de tal mono, e se sirva como medicamento á tua joven ama, que, como de certo sabes, se acha em perigo de vida, a desditosa.»
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Lá vae, oceano fóra, vento em pôpa, a alforreca, emissaria obediente e ufanosa do encargo. Por aquelles tempos, a alforreca, como qualquer bicho das aguas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos, com cabecinha, com olhinhos, com mãosinhas, e com a competente cauda titillante; e ficava-lhe tão bem o fato de marujo!... Lá vae, oceano fóra, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas braçadas a onda fria. Não tarda muito a abeirar-se do paiz onde vivem os macacos; por felicidade, um alem está, um lindo mono, saltando de ramo em ramo, dependurando-se das arvores que enraizam nos penedos e se debruçam sobre o mar.--«Bons dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente para fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello do que o seu; é elle situado alem das ondas e conhecido pelo reino dos dragões; alli, não ha estações, é eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das arvores repolhudas, constantemente amanhecem avelludados fructos saborosos, é colhel-os, não ha outra tarefa; para cumulo do conforto, essas creaturas malfazejas, homens chamados, não pisam taes paragens. Se lhe agrada vir commigo, eu serei o seu guia; não tem mais que fazer do que saltar d'esse tronco para cima do meu lombo...» O macaco achou gracioso isso de ir vêr novos paizes. Vá lá mais esta extravagancia á conta da bohemia simiesca.--«Ao largo, amiga!»--E lá foram os dois; porém, a meia travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito, expondo-se assim ao arbitrio d'um extrangeiro, e abandonando a sua patria. Decidiu-se emfim a perguntar:--«Que pensa você que vão fazer de mim na sua terra?»--A alforreca deveria agora ser discreta, encapotar as respostas em evasivas; mas oiçam lá o que ella deu em troco:--«Eu lhe digo: meu amo, rei dos dragões, ordena ao senhor macaco que arranque o proprio figado, o qual vae ser servido á nossa soberana, hoje enferma, e salval-a da morte.»--Então o mono, guardando para si os commentarios que o caso suggeria, disse cortêzmente, que era para elle uma alta honra e um esperado prazer, o assim tornar-se util a sua magestade; acrescentou, porem, que agora se lembrava de ter deixado o figado dependurado n'um tronco de arvore, aquelle mesmo castanheiro d'onde saltara para as costas da alforreca. Continuou discursando em linguagem fluente, de orador emerito, descendo a explanações minuciosas; e explicou como o figado era uma coisa bastante pesada, embaraçosa, um quasi alforge de peregrino, um empecilho que elle costumava pôr de parte, durante o dia, para se entregar mais á vontade aos seus exercicios de acrobata; habitos de familia, já seu avô fazia o mesmo; e concluiu, que o melhor que tinham a fazer n'este momento, era voltarem para trás, e na arvore encontrariam o figado em questão.
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Não pôz objecções a nadadora. Voltando á terra, o macaco saltou ao castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos, acompanhando o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que traduzia o jubilo do bestunto, coisa que passou estranha á alforreca. Procurou entre as folhas o seu figado. Não o encontrou. Explicou então do alto, á alforreca, que provavelmente algum companheiro o levára para longe, o que o obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que fôsse ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar ancioso por vêl-a chegar antes da noite.
Assim procedeu o bicho.
El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha ingenuidade--para não lhe chamar coisa mais feia,--mandou logo vir da maladia um bando dos seus mais soberbos _samurais_, e ordenou-lhes que malhassem no bicho á pancada, até cançarem. O castigo foi cumprido, e com esse vigor de braços de villões, que miram aos applausos do monarcha. É esta a razão porque a alforreca, hoje em dia, não tem pernas, nem cabeça, nem cauda, nem barbatanas: tanta pancada levou, que ficou reduzida a esta miseria, massa informe, um farrapo, um pedaço de gelatina, boiando despresivelmente á mercê do turbilhão das vagas.
Com respeito á soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho, concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se bôa; e assim fez, com grande pasmo dos doutores.
A historia da alforreca está contada, na sua simplicidade commovente. É veridica esta historia, como tudo que o povo relata de memoria; creia n'ella quem crê. Fica-se já sabendo no entretanto,--e é isto d'um proveitoso ensinamento,--que os japonezes tão prodigamente propensos ao perdão para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os patetas.
Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, no paiz do sol nascente, era inevitavel; e o caso presta-se a interessantes commentarios, que eu vou resumir em poucas linhas. Os japonezes--povo de artistas--são os grandes amorosos da creação, da forma, da vida; ninguem como elles conhece os segredos da ave, do insecto, do reptil, do peixe, dos molluscos, do verme, de todos os seres da terra; a animalidade graciosa d'esses seres, estudada com percepções especiaes, que nos escapam, constitue o thema mil e mil vezes variado, dos seus primores de arte. Mas esse monstro, essa disformidade, essa alforreca que se apresenta como unica excepção da lei geral da gentileza da vida, e parece resumir em si o enfado inteiro d'um dia de mau humor do Omnipotente, devia ter deixado impressões tristes nos primeiros japonezes que a avistaram; e foi preciso arranjar logo uma explicação condigna do phenomeno, e é a que ficou descripta n'estas linhas.
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É ainda interessante recordar de passagem a approximação, pela desdita, da alforreca japoneza com a medusa mythologica da Grecia, não merecendo esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa coincidencia!
O ANNO NOVO
A Feliciano do Rozario.
Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, começa o anno novo. Mas não vão imaginar que seja do anno novo de que rezam os nossos calendarios, a commemoração; tal commemoração, aqui, no fim do mundo, no seio d'esta colonia nostalgica, passa insipida, quasi sem alvoroços intimos de familia, limitada á troca banal--_troca_ sem cedilha e com cedilha--de algumas duzias de bilhetes de visita, com as competentes _boas-festas_ escriptas, da pragmatica. Trata-se do anno lunar que finda, do anno lunar que principia, o anno chinez emfim, a ampulheta que marca para o povo amarello as suas horas de existencia; vamos entrar no anno XXII do reinado de sua magestade imperial celestial, Kuang-Su.
* * * * *
Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, evidencea-se, domina, hoje; offusca, pela grande maioria dos rabichos, o pallido reflexo da civilisação do Occidente que logrou chegar a este Macau, a este exiguo penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira.
Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de alem dos bazares, o ruido da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações fundeadas no porto o clamor ovante das bategas, vibradas pelas mãos rudes das companhas. Que irá lá por esses bazares, a estas horas, santo Deus!... Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas suggestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não ha chapéo de côco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho de pellucia com laçarotes de setim e seu competente passaro empalhado, de menina, que não vá correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se com os rabichos, gosar com elles. Mas está tanto frio, e as bagas de agua zurzem-me tão desapiedadamente os vidros das janellas... E, peor do que isto, é o frio da alma, é a apathia enervante do meu espirito, é o sorriso amargo que me enruga os labios, provocado por esse mesmo jubilo do enxame, que aqui me retêem e me impedem de tambem ir galhofar.
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Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a d'aqui. Imagino essas ruas lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel, accendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas ephemeras, ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao publico; fructos, flôres, doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em prodigiosas theorias, em coloridos quasi estonteantes; e é comprar, e comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanço, o unico na China em que o camponez, o artifice, o vendilhão, todos, cruzam os braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado, uma caixa de phosphoros, qualquer infimo objecto nos mercados. As espeluncas de jogo, em galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda; e até pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se apanha para a festa um accrescimo de peculio não esperado! O china adora o jogo--era preciso que elle adorasse alguma coisa!--mas hoje todos jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo interessante da influencia suggestiva das grandes maiorias; a mão mais circumspecta de funccionario, a mão mais mimosa de dama (de _nhônha_, em dialecto vulgar d'esta colonia) avançam sem pejo, arriscam á sorte varia umas pratinhas...
Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; quando em plena rua um brado de alleluia os echos acordou; dirige-se então a onda humana para o lar, já mercas feitas, já bolsas esvasiadas; e vae surgir um grande dia votado inteiro ao descanço, votado á glorificação dos deuses, cuja magnanima assistencia se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que vão esperar-se!....