Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga
Chapter 4
É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._, III, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a interrupção de tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera conjectura tomara o logar d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as obras de viação de que elles apenas tiveram a utilidade (Veja-se _Hist. de Portugal_, por A. Herculano, III, 421). Em França não se dava isto. Ruy de Pina na _Chronica do sr. rey D. Affonso V_ (p. 569) diz: «E na cidade de Nimis leixou El-rey _a estrada romam_, que vay a Avinham».
[27] Seria longo transcrever os trechos respectivos d'esses documentos; e nem sempre é possivel acertar a que especie de caminhos se referem as expressões usadas nos documentos. É commum o termo _strada_, _strata_; algumas vezes adjectivada _strata ueredaria_ (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a _alia carrale_ (id.); _estrata de uereda_ (id. n.º 13); _in estrada qui discurrit via de uereda_ (id. n.º 24) ou _strata maiore_ (id. n.os 563, 378 e 549). Tambem se encontra a expressão _carreira antiqua_ (id. n.os 620 e 639), _karraria antiqua_ (id. n.os 888), _carraria antiqua_ (n.os 639 e 287), _carera antiqua_ (id. n.os 366). _Via de strada_ e _strada de uiminaria_ lêem-se no doc. n.º 817 (_ob. cit._) Ainda hoje se póde dizer _caminho de estrada_. _Carreira_ é termo agora quasi só locativo, mas ainda se ouve no norte applicado ás largas entradas de algumas casas antigas, precedidas de uma alameda plana; certamente _carreira_ inclue a ideia de carro, como _carrale_. Outra denominação que encontrei foi a de _via publica_ (_ob. cit._, n.º 676), que parece corresponder a caminho publico.
_Karraria antiqua_ era certamente uma estrada carreteira antiga já naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde concluir que essa estrada fosse _via militar_ romana. Assim o doc. n.º 570 do anno 1079 refere-se á freguesia moderna de Paçô, no concelho do Valdevêz (_uilla Palatiolo_), onde nunca passou via militar e onde a _carreira antiqua_ poderia bem attingir a epoca romana.
Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador do Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros rebusquei-os propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr. Gama Barros, _A administração Publica em Portugal_, entre os que pertencem á região de Entre-Vouga-e-Douro.
[28] No mesmo pensar encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na _Portugalia_, II, 216 (_As povoas maritimas do norte de Portugal_). Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes então (no tempo dos romanos), eram Calem e Portucale».
[29] É o Sr. Conselheiro Luis de Magalhães, em _A arte e a natureza em Portugal_, vol. IV. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as salinas espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de sal, que marchetam a planicie sem fim, é um d'estes primores de prosa gracil e diaphana, que mais ninguem poderia escrever com igual coração e com pulso comparavel. Parece que a seducção d'esse panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir, do que quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas.
[30] A grandíssima maioria das povoações d'estas epocas era nos altos; ahi tem sido encontrados os seus vestigios. Para a alguma se attribuir situação aberta como a de Aveiro, necessario seria documentar a excepção.
Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese pura. E depois, lá temos o distinctivo _briga_. O nome da cidade comsigo traz a natureza do seu assento. No Algarve, _Ossonoba_ e _Balsa_, não demoravam em outeiros. (Vide _Religiões da Lusitana_ II, 85).
[31] _Portugalia_, II, 220, «As póvoas marítimas do norte de Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio.
[32] Explicação geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir traversé les marécages du Vouga, que l'on entre dans les terrains anciens; ce sont d'abord des schistes luisants, généralement cachés par des dêpots superficiels: sables des dunes, graviers pliocènes et graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces derniers ne montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches solides n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine profondeur au-dessous du niveau de la mer; dans ce cas, la côte subit des alternances d'accroissement et de décroissement qui peuvent être funestes à l'homme trop empressé de s'approprier le terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à Espinho». _Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue)_, por Paul Choffat, 1895, p. 1.
[33] Poderia aqui investigar-se das alterações da costa que possam ter modificado o aspecto do surgidouro do Vouga. Um apello, publicado no _Arch. Port._, II, 301, teve em resposta o silencio. Não tratando dos factos de periodos geologicos ou indeterminados (_Arch. Port._, VII, 274 e X, 193) pouco é o que se tem recolhido e ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados na Povoa de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em Setubal, no Algarve (_Portugalia_, I e II. _passim_), e eu mostro que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que não posso precisar. Num mappa que illustra o _Hisp. & Port., Itinerarium_ de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do Vouga. E não é o unico mesmo de datas mais recentes.
[34] Ha um documento do sec. XI que faz uma referencia aproveitavel debaixo d'este aspecto: é o n.º DCCCXV do anno 1095 (doação á sé de Coimbra da igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... _Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm_ (silvam) _que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum..._
[35] Entre as cartas antigas que folheei, desejo destacar uma do sec. XVII, assinada por N. Sanson. _christ. Gall. regis geografo_ (_Hispaniae antiquae tabulae_, 1641). O mappa de Portugal antigo individúa, na região que andei estudando, _Conimbrica_ em Condeixa, _Aeminium_ na margem norte do Mondego; _Talabriga_ ao N. do Vouga, um pouco afastada do estuario, a 20 ou 25 _milliaria_ da foz do Vouga (isto é, na altura onde eu localizo esta povoação); e, seguindo no mesmo rumo, _Langobriga_. É na Bibliotheca Nacional, um grosso volume _in-folio_, recentemente encadernado com o dístico--Mappas--e sem frontispicio.
[36] Esta lenda porém reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta região.
[37] ... _pecuniis publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis_. Isto dá bem a entender que havia uma perfeita organização politica, e n'ella se estribava a organização de uma defesa militar contra a invasão romana.
DO AUTOR
ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª)
Publicados
I--Epigraphia christiano-latina (uma inscripção inedita).
II--Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de Valdevez (visita ás antas da serra do Soajo).
III--Machados de duplo anel.
IV--Ainda a inscripção christã de S. Pedro de Arcos.
V--Uma primicia de epigraphia funeraria romana.
VI--O portico da matriz de Monção.
VII--Um castro com muralhas.
VIII--Um erro de amanuense nas inquirições de D. Affonso III (C. Sancti Salvatoris Darcus).
IX--Um Grovio autentico (cippo de Villa-Mou).
X--Ara celtiberica da epoca romana (um novo «Genio»).
PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª)
Publicadas
I--Estatueta ithyphallica.
II--Cemiterio da epoca romana em Vianna do Alemtejo.
III--Situação conjectural de Talabriga.
End of Project Gutenberg's Paginas Archeologicas, by Felix Alves Pereira