Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga

Chapter 3

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Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é acrescentar que a ponte foi logo capitulada de _romana_, nada menos.

Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas de Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e ancoras, o que radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi em tempos antigos. Esta apreciação já é do sec. XVI.

D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide _Theatrum orbis terrarum_, já citado a pag. 132).

Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (_Monarchia Lusitana_, II. V. p. 130) diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e pescarias, era cidade florescente[35].

O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto consentia a arqueação das caravelas.

D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. _Os portos maritimos de Portugal_, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3).

O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga cidade de _Vacua_[36], onde depois foi a villa de Vouga e agora mero cabeço de Vouga (_Arch. Port._, VII, 191), que aliás tende a desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho Leal, _Port, Ant. e Mod._, s. v. _Vouga_).

Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (_Annales de l'Espagne et du Portugal_, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8 ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres.

Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (_Arch. Port._, IV, 144).

O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do sec. XVIII, transmittida pelas _Memorias Parochiaes_, segundo as quaes o braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo para caravelas e agora é vadeavel (_Arch. Port._, IV, 329).

Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente, tem-se açoreado (_Arch. Port._, V, 297).

Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso do que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das minas.

XIII

De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor do meio do sec. II d. C., Appiano de Alexandria.

É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os oppidos lusitanos, no embate das cohortes romanas.

Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu, germen de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia tranquillizar Decimo Junio Bruto, que julgou que o caso era de reclamar a sua presença no local da cidade. Partiu com numerosa gente, e ao seu apparecimento responderam os irrequietos Talabrigenses com supplicas e o seu incondicional abandono á discrição do conquistador. Então J. Bruto foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve um lanço inesperado de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza cruel do seu braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens. Depois chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres e filhos. Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que seu tino de politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para obedecer alli mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro que lhes impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o effeito produzido.

Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a sua turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras tantas elle viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza, incutido assim o receio e a convicção de que no momento adequado, J. Bruto cairia sobre elles com toda a energia, o general romano quebrantou a sua ira, satisfeito com estas objurgatorias. Mas não sem que lhes tomasse os cavallos, os mantimentos, os dinheiros da cidade com todo o outro material publico[37]. Isto era claramente deixá-los na impotencia e até na penúria. E por fim J. Bruto, contra tudo quanto os Talabrigenses podiam já esperar (_pratter spem_), restituiu-lhes a cidade para nella continuarem a habitar. Isto passava-se já meado o sec. II, antes de Christo (138 a. C).

Feito isto, o conquistador regressou a Roma.

Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é, com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos oppidos lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da conquista, não deixa de ser elucidativa.

Quando li este trecho de Appiano (_Appiani Alexandrini Rom. Historiarum quae supersunt_. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as ruinas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás cinzas d'aquelle abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que chammejou nesses lusitanos insoffridos, ainda se não arrefentára com o soprar sobre ellas de vinte vezes cem invernos, e em mais de um dia, já da nossa existencia nacional, elle se tem ateado em protestos bem tumidos de calor.

Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de Estorãos, sec. III-IV; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. IV).

Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real que aquelle, sobretudo no territorio portugalense?

Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o jazigo de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de independencia territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a probabilidade elle se deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de averiguar se o simples e frio raciocinio me guiou, sem desvio, até as trincheiras historicas, que occultam os miserandos restos de Talabriga.

Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o onomastico, paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso mais provavel do verso susodito de Vergilio:

_Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!_

Março de 1907.

_P. S._ No mappa do _Ortelius_, de que me soccorri a pp. 132 e 155, vejo nova _Lancobriga_, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver _O Arch. Port._, XII, 42).

[1] O brasão de Agueda ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe dá irrecusavelmente o foro de _civitas aeminiensis_.

[2] Um dos autores que se destacam por tentar a determinação de Talabriga e Langobriga (e ainda outras estações da via ab _Olisipone Bracaram Augustam_) por um processo exacto é o Sr. J. Henriques Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas talvez em consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza Talabriga em _Aveiro_ e Langobriga na _Feira_. Em todo o caso, não podendo conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que ha erro nos Codices (_Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a Astorga_, por J. Henriques Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).

[3] O Sr. A. Coelho diz que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como o prova a moderna _Vouga_ e _Vauga_ dos documentos em baixo latim anteriores ao sec. XII (Mélanges Graux, 1882). Vid. _Religiões de Lusitania_, II, 28.

[4] Nas _Noticias Archeologicas de Portugal_, de Hübner, trad. do Visconde de Juromenha, vem um extracto do Itinerario segundo a ed. de Parthey & Pinder (1848). Prefiro a lição _briga a brica_ de Wesseling, ed. dos _Vetera romanorum Itineraria_, MDCCXXXV.

[5] Não pude haver á mão as _Memorias_ d'este mesmo senhor.

[6] Como preciosidade estrangeira, desejo referir que o aliás eminente celtista D'Arbois de Jubainville, num estudo erudito sobre «Les Celtes en Espagne» (_Revue Celtique_, XIV, § 8) diz, de passagem, ser Talabriga a actual povoação de Sousa, conc. de Alenquer! Presumo que esta incongruencia é proveniente do que escreveu _C. Muller_ em uma nota da _Cl. Ptolemaei Geographia_ (I, 137) a respeito de Talabriga: _Oppidum haud longe a Vouga, fluvio circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum definire non licet._ Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a confusão. Veja-se Sousa a O. de Vagos.

[7] Por partes temos:

De Gaia á Feira 21:900 metros Da Feira a Oliveira de Azemeis 10:900 metros De Oliveira de Azemeis a Albergaria 18:000 metros De Albergaria ao rio Vouga 6:800 metros Do rio Vouga a Agueda 9:000 metros De Agueda á Mealhada 22:000 metros Da Mealhada a Coimbra 16:500 metros 105:100 metros

[8] Escreveu o autor do _Portugal Antigo e Moderno_ que a via romana seguiria pouco mais ou menos o trajecto da linha ferrea. Assim era preciso, se Talabriga fosse Aveiro, quer no troço ao norte, quer no troço para sul, em attenção ás condições topographicas. Neste caso, porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria necessariamente pelo menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115 kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e da estrada real. Num diagramma da carta indico a differença das distancias entre Cale e Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea (45:800 metros e 59:000 metros).

[9] No mappa com que documento este estudo, lancei só os elementos que me eram uteis. Tudo o mais ficou no original, a que até accresci alguma cousa a mais por assim convir á minha demonstração.

[10] É força porém attentar na exigua differença que no caso presente existe entre a recta, que unisse os dois pontos extremos (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da distancia effectiva pela estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que differentes parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que, acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale, delinquisse nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via militar. Veja-se o diagramma.

[11] Pela linha ferrea de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo caminho romano de Coimbra a Talabriga eram 59 kilometros.

[12] Nada mais possivel do que um erro de informação de Plinio. Mas poderia tambem haver aqui uma confusão entre a Talabriga do roteiro romano e a Vacua, de que parece existirem ruinas no Cabeço de Vouga (Cit. _Oppida restituta_, 1885). Mas o Itinerario omitte-a, o que é apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o caso de _Vacua_ não ser _mansio_ do caminho romano. Havia um codice de Plinio que nomeava Talabriga e _Vacca_ e uma cosmographia antiga que refere _Vacca_ (_sic_) e não Talabriga, que aliás deveria ter conhecido pelos AA.

Jorge Cardoso, no _Agiologio_, II, 65, quer que Vacua tenha sido em Viseu. Peor!

[13] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. & Chart.», vem um documento (n.º 815 do anno de 1095) cujo teor nos não prende, mas onde se lê:.... _Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliam_ (silvam) _que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum_.... Trata-se de arredores de Ilhavo.

[14] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46, 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra incomparavelmente melhor?

[15] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na _Revue des Études Anciennes_ (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a caminhos de epocas prehistoricas, diz: _Et il résulte bien.... que beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années._

[16] Para os leitores habituaes do _Archeologo Português_, seria ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla em _castros_ com supposta referencia á epoca romana, não se trata dos _castra_, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg) fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha: nunca vi ruinas de nenhum d'estes _castra_, nem me consta que as haja verificadas no pais. E comtudo os _castros_, ou _crastos_ no fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas muito differentes. Estes _castros_ são apenas uns montes com vestigios de habitação _ante-romana_ e quasi sempre de obras de fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros, cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país. Os _castros_ devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos documentos da idade media. É que no singular _castrum_ significou secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI da _Eneida_, onde se lê (_vv_. 771 a 776):

Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires! At qui umbrata gerunt civili tempora quercu, Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam, Hi Collatinas imponent montibus arces, 775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque: Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae.

(_Oevres de Virgile_, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882).

(Trad.) _Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas, Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora_ (antigas povoações do Lacio): _estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na terra sem nome._

Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a denominação de _castro_ ou _crasto_.

Na _Revue des Études Anciennes_ (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra _castrum_ se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de entre todas extraio a seguinte de Isidoro (_Origines_, XV, 2, 13): _Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm_. Com referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido _Portumcale castrum_, de Idacio.

Mas a par d'aquella, outras se formaram, como _castello_, _cristêlo_, _crastêlo_ e _castrêlo_. _Castellum_ (cfr. cit. _Rev. des Ét. Anc._) na lingua latina, era um deminutivo de _castrum_ e applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio & Daremberg, s. v. _Castellum_). Depois, é explicavel que a linguagem popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as designações de _cividade_, mais ou menos pura, _cidadêlhe_, _coroa_ e outras ainda. Os autores antigos usam o termo _oppidum_ applicado a alguns d'estes centros de população (_oppidum Aeminium_). E ainda se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo, o termo de origem celtica _briga_, que tambem quer dizer castello, altura fortificada (_Talabriga_).

Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico e uma directriz frequentada.

[17] O parocho de Segadães (1758) informava que a antiga cidade de _Vaca_ (_sic_) fôra assolada pelos _mouros_. Os Leitores conhecem estes _mouros_... (_Arch. Port._, VII, 191).

[18] Varios outros documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro compulsei eu nesta collecção, que se reportavam a _castros_, mas não pude localizar as referencias com a presteza que era necessaria. Até se me deparou a fórma rara _crésto_ (_cresto ualanes_, doc. DXLIX do anno 1077), da qual conheço outra actual no concelho de Valdevêz.

[19] Na fé de Nascimento Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p. 226), em Mancinhata, nos cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem entendeu.

[20] Nos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º CCCCLXXI, vem um documento que diz: _Cesari... subtus monte castro calbo..._ Cf. o n.º CCCCLXX. Não pude averiguar se é um _Monte Calvo_ que vejo perto de Romariz. _Cesári_ (gen. de _Cesarius_, _-ii_) deu Cesár, como _Severi_ (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Ch.», _passim_, e _Arch. Port._, II, 252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.

[21] Virá de _Calambria_? pergunta A. Herculano (_Historia de Portugal_, III, 423). Cfr. _Arch. Port._, art. do Sr. A. Cortesão, IX, 232. Teremos aqui alguma _Calambriga_? Um thesouro de 16 argolas de ouro é de lá. (_Arch. Port._, II, 87).

[22] Eu não me occupo especialmente da _Langobriga_ do Itinerario, mas é facil ver que identicos raciocinios lhe são applicaveis e em consequencia, a situação d'este segundo oppido deveria ser na faixa de terreno vagamente indicada pela curva _LL._ um pouco ao norte da Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, assentei que esta não é a actual _Longroiva_, cuja fórma medieval era _Langobria_, (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.» CCCCXX). Do que deponho a p. 141, parece que é a algum dos castros de _Obil_ ou do _Monte do Murado_ que deverá convir a localização de Langobriga. Este fica a 6:000 metros para leste da lagoa.

Para _longo-_ e _lango-_ como para _brica_ e _briga_, não encontram difficuldade os celtistas. (_Élém. celt. dans les noms de personnes des inscr. d'Esp._, por A. Carnoy. Luvaina 1907).

[23] A legitimidade do processo que segui, empregando o compasso e a escala para determinar a zona em que, segundo as indicações do roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de Talabriga, tem uma averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se eu, collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico systema, o compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me seria impossivel encontrar localizações compativeis com uma estação d'aquella natureza.

Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.

Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de fazerem pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra e Gaia e a rectificação da estrada entre os mesmos pontos.

[24] ... por ser tam grande como todos sab[~e], de [~q] á prouerbio no pouo. (_Ibid._ p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!

[25] O escritor espanhol Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La geografia árabe de Portugal» in _Revista Archeologica e Historica_, I, 49, suppõe que o trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a Viseu e Braga «por um caminho muito frequentado», fazendo o primeiro descanso em Avô, 45 kil. a NE. de Coimbra; o segundo em S. Miguel do Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de S. Pedro do Sul; depois chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte de uma aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas jornadas a Braga e outras duas a Tuy.

Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... _à vol d'oiseau_!

[26] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», apparecem mais documentos em que se encontra esta mesma designação. Estes por exemplo:

N.º 67 do anno 953:... _et inde per carraria mourisca..._ (Isto era nas vizinhanças de Villa do Conde).

N.º 614 do anno 1083:... _et inde per via maurisca:..._ (territorio de Arouca).

Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas, como não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser inexacta no seu sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores aos arabes. Aliás teriamos que admittir que os filhos do Islam andaram por terras de Villa do Conde e de Arouca a abrir estradas em fórma, por serem invios os territorios.

Demonstra isto que os amanuenses do secs. X e XI já não sabiam estremar romanos (e visigodos) de serracenos. Era pois, como hoje, o fallar do povo.