Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga

Chapter 2

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Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona attribuivel á situação de Talabriga[22] não está erma de castros, antes nella se dão varias circunstancias que não posso deixar de aproveitar para a minha these conjectural.

_Branca_ é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e que é cortada pela estrada real; ha nella um logar de _Cristellos_, que só pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (_loc. cit._) e d-_O Arch. Port._ (II, 313, «Mem. Parochiaes») que ha um local sito na serra de S. Julião, atravessado pela estrada real e que Brito mais claramente chama _castello_ de S. Gião (_castello_ por _castro_), no qual, segundo aquelles tres testimunhos, ha ruinas de muralhas e fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem ruinas de uma _atalaia_ e que o parocho das _Memorias_ tambem capitula de vestigios romanos, acrescentando muito singularmente (note-se bem o que isto póde significar) que ahi esteve... _Langobria_ (_sic_). Foi aqui que Brito diz ter encontrado a tal pedra de _letras mal distinctas_ de que não affiança a leitura, mas que lhe pareceu _padrão de estrada_.

E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito.

Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é precisamente a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre a carta a primeira secção da via romana de Coimbra a Gaia[23].

Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem perguntados pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os montes e as vozes da região, mas nem por isso o meu espirito deixa de ficar demonstrado, até o possivel, que as cinzas de Talabriga nunca podem estar guardadas em Aveiro. As coincidencias que acabo de notar, não são bases frivolas.

Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca, poderá concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura.

D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou menos proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou referencias de documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares e tradições poderão concorrer para precisar a trajectoria d'aquella antiga via de communicação; o caso em si, porém, é indifferente para a questão primacial que motivou este estudo. O que é certo, é que a estrada romana sulcava a faixa comprehendida entre a estrada real e a linha ferrea até o vertice de Gaia.

Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas anteriores. _Albergaria_ denota bem que o sitio era de assiduo e antigo transito (Viterbo, _Elucidario de palavras_, etc. s. v. _Albergaria_) ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o norte do país. As _mansiones_ tinham o caracter de pousadas.

Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa se fundou, como implemento de uma necessidade que já existia.

As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia das viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e paludosa. São decerto obras da idade media, dos _mouros_, diz Pinho Leal (s. v. _Marnel_ e _Vouga_). Mas os indicios pre-romanos e romanos soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de edifícios e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam, segundo descrevem Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. XVIII nos extractos publicados pelo _Archeologo Português_.

IX

O sentimento de Gaspar Barreiros (_Chorographia de alguns logares_, MDLXI, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a actual Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios antigos. Varios autores o seguem.

As razões d'este illustre escritor do sec. XVI merecem alguma discussão.

Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento, traz o passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma differença que elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando porém que alguns exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A lição citada é pois esta: _A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres, Pesuri, flummen Vacca, oppidum Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et flumen Minium_, etc. Esta variante demonstra a existencia de uma cidade _Vouga_, que G. Barreiros colloca na Ponte de Vouga (p. 50 _v_). Algumas cartas antigas reflectem esta indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a contagem de Conimbriga para Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é exacto, espaço que elle computa equivalente a 12,5 leguas e enumera:

De Condeixa a Coimbra 2,5 leguas De Coimbra á Mealhada 3,5 » Da Mealhada a Avellãs 2 » De Avellãs a Agueda 2 » De Agueda á Ponte de Vouga 1,5[24] » De Ponte de Vouga a Cacia 1 » 12,5

«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas, se acham vestigios antigos, s. os fundam[~e]tos de h[~u]a torre que na memoria dos hom[~e]s inda staua quasi inteira, onde era outro tipo segundo ficou fama de h[~u]s em outros chegauam nauios da foz do mar, porque inda ali se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta torre em h[~u]a lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que dentro em seu ambito cõprehende h[~u]a milha pouco mais ou menos» (p. 50).

A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação, nós temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec. II a. C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia, segundo narra Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam que foram escolhidos pelas populações proto-historicas; teria que justificar o proprio designativo de caracter celtico _briga_--altura fortificada.

Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos, sobresaía uma torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de argamassa», quasi estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não podem ser anteriores aos romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca que ás posteriores. Para a contemporaneidade, teriamos que admittir e demonstrar uma deslocação do primitivo assento de oppidum, como vimos; se esses vestigios se affectam ás epocas successoras dos romanos, o facto sae para fóra do problema e d'elle me não posso occupar.

O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é aquelle que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do itinerario a contar de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte. Evitei assim o erro de cair em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia, onde muito bem podia ir passar com o roteiro romano nas mãos.

Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos na tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela Mealhada, Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado porém a esta altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a primeira estação de Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga. Kilometricamente, creio não haver que lhe objectar. A distancia da ponte de Vouga a Cacia é proximamente igual á que entre o mesmo ponto se nota e a linha-zona _TT_, que eu determinei. Portanto não falseava o illustre chorographo quinhentista a tabella do Itinerario, isto é, as 50 milhas desde Condeixa (Conimbriga).

Mas a precaução de começar a contagem de Cale para Talabriga, obsta ou impede aquella inflexão e obriga a trazer o caminho numa directriz mais desempenada para a ponte de Vouga. Volvendo os olhos á curva _TT_ do mappa, ver-se-ha que Cacia lhe fica a distancia grande porque, com este desvio da trajectoria normal, a medição romana perdeu espaço, atrasando-se.

Se não fosse este meio de verificar o erro, era possivel a desorientação.

Creio, pois, ter demonstrado pela ethnographia e pela geometria topographica que Talabriga não póde ser collocada em Cacia, quer se olhe á Talabriga preromana ou protohistorica, quer á romana ou historica; á Talabriga de Appiano e D. J. Bruto ou á da epoca imperial e do Itinerario.

X

Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de Talabriga continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. IV a. C. e emfim ainda existia no sec. IV d. C., poderia succeder que elle conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos arabes. Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de Edrisi, geographo do sec. XII, impunha-se-me logo.

O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para mim que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por parte dos arabistas.

Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de _Geographia Nubiensis_, que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert (_Géographie d'Edrisi_, Paris 1840).

Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um por terra, outro por mar.

Caminho por terra

_Ed de 1619_ (trad. lat)

«Iter autem terrestre a _Colimria_ ad _S. Jacobum_ est hujusmodi: a _Colimbria_ ad oppidum _Aba_ stationis habetur intervallum. Ab _Aba_ ad oppidum _Vatira_ statio. Ab hoc ad primos terminos regionum Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram Portugalliae spatio diei, ibique conspicitur oppidum _Bonacar_ ad ripam fluminis _Durii_, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum cymbis ad hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca LX M. P. duae videlicet stationes. A castello _Abraca_ ad castellum _Tui_ stationes duae».

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O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as _stationes_, expressão que se referia a pousada dos viandantes. As _stationes_ justas eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos. Parece que seria o espaço que se poderia percorrer em um dia.

_Ed. de 1840_ (trad. fr.)

«O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como segue: de _Coimbra_ a _Abah_ (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De _Abah_ a _Uetaria_ (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras de Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a _Buna-Car_, aldeiasinha nas margens do _Douro_, que é o rio de Zamora. Passa-se o rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao rio _Minho_ ou antes ao forte _Abraça_ (insua de Caminha) (?) 60 milhas ou duas jornadas. Depois _Tuia_ (Tuy) cidade pouco notavel, mas bella e numa região fertil, duas jornadas» (II, p. 232)

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No texto francês, ao vocabulo _statio_ corresponde _journée_, que eu traduzi por _jornada_ (de um dia).

Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para o meu fim seria a localização das estações de Edrisi; neste ponto o traductor francês apenas conserva intemeratamente as tradições dos estrangeiros quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia.

Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... _Ribadavia_!

A primeira estação ao deixar Coimbra é _Aba_ (ed. 1619) ou _Abah_ (ed. 1840). Poderá corresponder a _Agueda_? Jaubert desejaria falar em _Riba-d'Agueda_! É provavel.

A segunda estação foi interpretada por _Vatira_ (ed. 1610) e _Uetaria_ (ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim desfigurada.

Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia, ella desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal, chega-se com um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o tradicional caminho que entesta na foz do Douro.

Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava _Bona_ ou _Buna-car_, expressão que não sei reconhecer, mas parece-me que deve ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz Edrisi que de _Bona-car_ ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina anterior (p. 227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. Portanto creio que _Buna-car_ era aproximadamente em Gaia, onde depois o rio se atravessava em barcos[25].

Descrevendo o mesmo _caminho por mar_, isto é, a viagem de Coimbra a Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de _nahr-Budhu_ (rio _Vadeo_, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao Vouga, rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e pequenas (II, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle tempo a foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa. Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do caminho medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com segurança.

Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado então devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas pontes medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem estes dois ponto; duvidosos, localização muito verosimil de _Aba_ ou _Abah_ em Agueda e incerta de _Vatira_ ou _Ueturia_, o testemunho do geographo arabe apenas serve seguramente para localizar as testas d'este caminho, estabelecer com grande plausibilidade a tradição do caminho historico pela orla das montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz do Vouga.

XI

Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana _ab Aeminio ad Calem_, o testemunho de Viterbo (_Elucidario_, s. v. _Estrada mourisca_) devia ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos documentos de Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da parte de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148, Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S. Felix _subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo_.

Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido aberta pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar entre Lancobriga e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se entupira e alteara por causa das areias e os rios estagnados não só esterilizaram os campos, mas fecharam a passagem dos caminhos. E mais depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto a Agueda por Azemeis, Albergaria, Vouga, etc.

Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão concordante com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada _mourisca_ descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por Albergaria e por Vouga.

Que Viterbo lhe chamasse _mourisca_ não é de espantar; era a voz popular que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc[26].

Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que não podia ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul de Portugal. Creio não se poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo era construida por arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles ainda encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror das suas algaras.

Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma estrada mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e Agueda? Confesso que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso d'este caminho tradicional se perpetuassem através de tantos seculos e tão profundas transformações sociaes.

Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha ainda o logar de _Mourisca_, á margem da estrada, e que o nome lhe veio d'esta. Traduzindo _mourisco_ em _romano_, póde ser acertada a supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. _Estrada_.

Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da estrada real; chama-se elle _Fundo da rua_. Tal rua não é outra senão a via romana. Esta explicação affere pela que dá o _Corpus_ (II. p. 363) com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da Rua, onde passava uma estrada romana (_oppido quod a via romana nomen duxit_). A 3:500 para O. da Feira ha um sitio chamado _Rua Nova_. Aqui é que só a inspecção dos logares poderia indicar-me o significado d'este tópico.

Num escritor estrangeiro do sec. XVIII, lê-se uma descrição litteraria do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se descortine para a banda do mar toda aquella immensidade de terras feracissimas que aquelle autor olhava como planicie encantadora (_Annales de l'Espagne et du Portugal_, Alvares de Colmenar, Amsterdam 1741, p. 253).

Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.

Nos _Port. Mon. Hist._ não se encontram referencias mais claras do que esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa alguma que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da epoca romana, considerada como tal[27].

XII

Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a historia d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.

Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e fechava os caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um problema technico e administrativo extremamente complicado para os governos portugueses, não só pelas condições commerciaes de Aveiro, mas pelo estado sanitario de toda esta região. O coração d'este problema é a barra do Vouga.

É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que interessam ao presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (_Os portos maritimos de Portugal_, pelo Sr. Adolfo Loureiro, II, 3). Não sei que fundamentos póde ter esta asserção, que em todo o caso é relativa á tonelagem dos antigos navios.

Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem cousa d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações, como aliás se tem escrito.

O mais explicito é Estrabão (_Geographia_, liv. III, III), que vertido a latim, diz: _Deinceps post Tagum nobilissima flumina sunt Muliadas, parvas habens navigationes. Itidem Vacua fluvius, post quos Durius longo fluens cursu_, etc. O geographo grego iguala o Mondego (_Muliadas_) rio de navegação diminuta, ao Vouga, da mesma fórma (_itidem_) estuario de diminuta navegação. E tanto mais é esta a natural hermeneutica, que o contraste é frisante com a importancia do Douro, _longo fluens cursu_. Estrabão escreveu no sec. I a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no tempo dos romanos entravam o Vouga embarcações de longo curso e a sua foz era um porto de grande commercio e muita prosperidade?

Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não havia nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de vulto que determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio da natural directriz _ab Aeminio Calem_. E para um porto de tamanho trafego, era pouco um simples _vicus_.

Temos pois a affirmação estraboniana[28]. E antes?

Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações. Apesar da falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se o facto até para a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a mais pronta saida do mineiro para o commercio externo.

Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico determinasse a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada interior. A essa gente faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára tão indispensavel, como o pão para a boca: era a segurança pessoal, era o ninho de aguia. Com as planuras não se queriam elles. A não ser que deroguemos os conhecimentos adquiridos no que até agora se tem encontrado.

Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á noticia de Estrabão?

Um primorosissimo escritor[29], filho de Aveiro, evita, com exemplar abnegação patriotica, o problema archeologico da origem preromana da sua terra natal, mas propende á presumpção de que algum povoado assentaria antigamente na foz do Vouga os seus lares. E enfeixa o illustre homem de letras duas razoes: 1.ª, a geographica; 2.ª, a da exploração do sal. Aquella parece-me menos conciliavel com a ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E esta? Para o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. Os marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam[30]?

Que, posteriormente a Estrabão, as _parvae navigationes_ crescessem em numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a fervilhar nas planicies.

E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos neolithicos, poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa epoca em deante, se tomarmos por base da hypothese o caracter latino da technologia[31] e o que sabemos por aquelle geographo da importancia das salgas (_Geographie de Strabon_, por Am. Tardieu, 1886; III-IV-2). Mas então já a via militar _ab Aeminio ad Calem_ lá estaria antes de ser necessaria, se necessaria se pudesse considerar por motivo do commercio externo, num porto afastado da linha natural de communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como vimos.

Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo arabico Edrisi (_Géographie d'Edrisi_, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris 1840 II, 227).

O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A. Jaubert representa na graphia francêsa por _Boudhou_ (ou==u); e assim conforme o texto arabico vemos que o _nahr-Budhu_ é um rio consideravel onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a 70 milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população occupada no trafego maritimo.

A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo relacionaveis com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á questão posta.

Há porém, uma cousa que não posso omittir.

É o documento n.º LXXVI dos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chartae», onde se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é _alauario_, o que só por si desmorona as hypotheses etymologicas a que varios chorographos se tem apegado, mas revela pela primeira vez a existencia de uma povoação onde hoje é Aveiro (assim tambem _Talabario_ e _Táveiro_. Doc. CXXVIII).

O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e inflexivel dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade[32]. O factor é antigo, tão antigo quanto o póde ser, por maneira que aquella região nunca teve, fóra das epocas geologicas, outra face topographica muito diversa da dos nossos dias[33]. É presumivel que elevadas florestas forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla limitada pelo mar a Oeste e pelas montanhas a E., na região e na epoca de que me occupo[34] como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto Sampaio (_Portugalia_, II, 215, art. cit.); mas isso não importa acreditar a possibilidade da via romana por terrenos de tal especie.

Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao proceder-se aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades de _Vagos_, se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio, que infelizmente não foi estudado. Na _Esgueira_, achara-se outro.