Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga

Chapter 1

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FELIX ALVES PEREIRA

PAGINAS ARCHEOLOGICAS

III

SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA

LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1907

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SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA

Obra composta e impressa na Imprensa Nacional

Edição e propriedade do Museu Ethnologico Português

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FELIX ALVES PEREIRA

PAGINAS ARCHEOLOGICAS

III

SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA

LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1907

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Ao

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conselheiro

_Luis Cypriano Coelho de Magalhães_

_O. e D._

_O autor._

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Separata d'«O Archeologo Português», XII, n.os 5 a 8 de 1907

SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA

Summario

1. Estado da questão.--2. Autores antigos--3. Itinerario--4. Exame do mappa--5. Topographia e onomastico da região--6. Os castros do trajecto da Via--7. Região mineira--8. Localização de Talabriga--9. Opinião de Gaspar Barreiros--10. Geographia arabica--11. _Strata maurisca_--12. Ria de Aveiro e o Vouga--13. Historia de Talabriga.

I

Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos, (_Arch. Port._, XII, 36) encontrei-me no limiar de um problema que, de modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação _in loco_ de vestigios archeologicos incontrastaveis.

É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem, da qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes, especialmente da sua passagem por Talabriga.

O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro e de Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que é da praxe mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a Coimbra (e Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até heraldico de Agueda[1].

Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do seu aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização de Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é certo; mas desejo englobar neste estudo um certo numero de considerações, que podem preparar o desenlace d'este ponto controvertido da geographia protohistorica da Lusitania, no campo adequado, e quiçá orientar pesquisas.

Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que marcam inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para _Conimbriga_ (Condeixa-a-Velha), _Aeminium_ (Coimbra), _Bracara Augusta_ (Braga), _Olisippo_ (Lisboa), _Pax Julia_ (Beja), etc., se nos antolha para dar resposta nitida áquella pergunta.

Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os nossos escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia, Esgueira occupem hoje o logar que outrora se chamou _Talabriga_. De facto, o Itinerario, ao contar as milhas que de _Aeminium_ vão a _Calem_ (Gaia ou Porto?) pela via militar, devia ter especial valor para este problema; mas a comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente as indicações d'aquelle documento, a consulta de edições criticas, tomando-se por base a decisão do problema de Aeminium, e talvez o desaffecto de uma ou outra solução é que teem, no meu humilde entender, faltado a todos os autores que mais modernamente do assunto se teem abeirado[2].

II

A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o seguinte: _A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen Vagia[3], Oppidum Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium, Oppida Coniumbrica, Collippo, Eburobritium._ (C. Plinii Secundi, _Nat. Hist._, ed. de Detlefsen, IIII, 113). Isto tem o ar de uma sêca enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar do Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia:

_a_) rio Vouga;

_b_) cidade de Talabrica;

_c_) cidade e rio de Aeminio (Coimbra);

_d_) e as cidades de Conimbrica (Condeixa),

_e_) Collippo (Leiria) e

_f_) Eburobricio (Obidos, Vejam-se _Relig. da Lusit._, II, 31).

Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga e este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga vizinha de um lado ou outro aquelle estuario.

Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o problema chorographico. Na _Cosmografia_ de Ravennate (ed. de Pinder & Parthey, p. 307) _Talabrica_ apparece transformada em Terebrica e fica na seguinte localização relativa: _Olisipona--Terebrica--Langobrica--Cenoopido--Calo_...

III

Vamos pois ao _Itinerario_[4] e á discussão das suas indicações. Encontra-se nelle, que nos sirva:

Eminio mp. X Talabriga mp. XL (= 59:240 metros) Langobriga mp. XVIII (= 26:658 » ) Calem mp. XIII (= 19:253 » ) 105:151 »

A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio & Daremberg, s. v. _Milliarium_).

A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem) deixaria de ser ponto controverso se, como succede noutras estradas romanas, alguns milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios.

Não ha porém, neste particular, mais que isto:

1.º Um fragmento de milliario com 2,04m de alto X 1,40m de circuito, que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e só tem M.XII.

2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta M.IIII.

Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado litigioso no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre Mealhada e Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, p. 82; Hübner, _Notas archeologicas sobre Portugal_, p. 67, trad. cit.: _Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto de Coimbra_, p. 6; A. Filipe Simões, _Escritos diversos_, 1883).

3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na _Monarchia Lusitana_, II, V, p. 3. Este vicio de origem obriga-me a pôr ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; Hübner fulmina-o com a sua desconfiança (_Corpus_, II, 55 a *) dizendo que Brito queria demonstrar com elle a existencia de _Vacua_. Não lhe darei porém eu maior valor que o proprio monge, que, como por prevenção, confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy quebradas». Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha meio de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco vale por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao que parece, _castro_ rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja importancia só modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos de que com effeito alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com o dizer que a lapide era padrão de estrada, contrariava sem o advertir a propria crença de que a via romana seguia pela beiramar e _Talabriga_ era em Aveiro. (_Mon. Lusit._, id., p. 130).

Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto, mas rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique, provisoriamente, apenas um facto--o achado de um padrão de via romana num castro das margens do Caima.

A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario tinha ainda por si, alem do mappa de Abr.ão Ortelius (_Theatrum orbis terrarum_, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (_España Sagrada_, tomo XIV, p. 73), que lêra Plinio e uma edição antiga do Itinerario romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que dominou até hoje, se com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se Adolfo Loureiro. _Os portos maritimos de Portugal_, II, p. 3; Marques Gomes, _Districto de Aveiro_, onde restringe[5] a Cacia o _ubi_ de Talabriga; Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, 1885; Pinho Leal, _Portugal Antigo e Moderno_, s. v. _Aveiro_; Gaspar Barreiros, _Chorographia de alguns lugares_; D. Nunes de Leão, _Descripção do reino de Portugal_; Francisco do Nascimento Silveira, _Mappa breve da Lusitania antiga_, etc.)[6].

Regressemos porém ao _Itinerario_, e vejamos se será possivel concluir algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo possa contraprovar. É o meu sonho.

Que a medição total do _Itinerario_ relativa á via _ab Aeminio Calem_ está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a somma das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros, (unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada) era de 105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na Carta do Estado Maior d'esta região pela directriz da _estrada real_ é de 105:100 metros[7]. Não podendo ser mais breve a distancia d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados rectificados ao lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a rectificação exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, o que mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos, conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica, não poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito distanciado d'ella.

Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si, que a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no seu trajecto de Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma extensão, encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o que nada util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já salientei, e que me permittiram estudar sobre uma carta este problema, a coincidencia effectiva das duas vias de communicação deve em grande parte quasi corresponder á coincidencia theorica, agora expendida.

Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito afastado e divergente do trajecto theorico[8].

IV

Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso partir do principio já demonstrado, embora para o total da distancia, que as medições do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas milhas marcadas para cada uma das secções da via militar alteraria a somma, desde que, por um acaso unico, não fosse compensada por outra inexactidão.

Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de Eminio a Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga a Cale. Se uma sequer das distancias correspondentes do Itinerario contivesse erro, a somma total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a distancia de 105 kilometros corresponde a uma realidade. Comecemos pelo extremo norte da via. Isto conduz mais claramente ao meu fim; e descobre mais prontamente o erro em que até agora me parece que tem laborado os escritores. Tomemos o mappa[9].

Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se a escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no mappa) que no terreno representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga, dentro da qual e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto ininterrupto da via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o archeologo deverá procurar os vestigios de Lancobriga.

Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se consideravelmente da directriz da estrada real.

Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam 26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva _LL_ marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o terreno não é propriamente uma carta celeste[10] em que os pontos podem ser rigorosamente indicados, a nova curva deixada pelo compasso é representativa de uma segunda faixa de tolerancia, susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada, quanto á sua extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a Aeminium, trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas.

E assim temos o arco _TT_.

Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao appellido do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta conclusão emerge logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do Itinerario no total e muito provavel nas secções; a coincidencia das extensões da via antiga e da estrada moderna.

Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com um raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra curva, a terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a zona util, o segmento dos arcos, correspondente á area provavel da situação de Talabriga. Porque o que não póde haver, é um hiato, uma interrupção de trajecto de Cale a Aeminium[11].

Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel a actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que isto; vem levantar um equivoco de Plinio, que parece suppôr aquelle oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga aos 19 kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20 kilometros, onde devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a de Plinio[12]. O hiato resultante fica, parece-me, fechado e annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a de Albergaria, ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se concilia em todos os pontos com o Itinerario.

V

Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em face das condições topographicas e historicas da região de Entre-Vouga-e-Douro.

A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter seguido a via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado que ella já trazia desde Lisboa.

Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada na epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro, mais economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam existir já então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio, do Nilo.

Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis[13] ou veigas retalhadas, como hoje, por um dedalo de canaes e esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De qualquer d'estas fórmas, uma via romana não iria atravessar uma região em que a falta de pedra é quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de architectura civil ou de obras de arte uma consequencia inevitavel. Era preciso combater por um lado a pouca firmeza do terreno, por outro contar com o custo da empresa[14], ou os impecilhos da viagem.

Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção, ou melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa, obrigando-a a passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os mesmos que desviaram os engenheiros romanos de lançarem a via militar através de campinas encharcadas, só para irem buscar a embocadura do Vouga, antes de attingir Calem.

Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da administração do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos com a traçada através do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada romana pela orla fóra do terreno firme e accidentado e da região povoada de castros e abundosa de minerios, região que ainda hoje podemos ver acompanha-la pelo trajecto da estrada real. As vias de communicação teem muitas vezes uma directriz fatal e tradicional através de longos tempos e povoadores successivos[15].

Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação.

A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer, decalcada pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes antigas de que os chorographos fallam. Esta orientou-se pela comprehensão das conveniencias, e afastou-se da embocadura do Vouga, seguindo a directriz mais economica e mais util; não direi ainda a directriz romana porque é o que pretendo demonstrar, mas a que era directriz tradicional, como vou explicar.

VI

Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento da via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as _brigae_, e as cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias, consoante as denominações que lhes applicaram[16]; era por essa corda alem, que o terreno baixo e plano da zona maritima começava de elevar-se. A estrada romana desenrolava-se por entre esses centros da habitação, abandonando ao lado um país chato, pouco firme e talvez quasi invio.

Do sul para o norte _Anadia_ está situada nas abas de um monte de _Crasto_ (Pinho Leal e M. Gomes).

_Agueda_ está tambem perto de um _Crasto_ (Pinho Leal).

Nas margens do Vouga, naquelle logar onde subsiste ainda a ponte medieval (Pinho Leal), encontra-se na aldeia de _Vouga_ um morro que foi castro (Brito e P.e Carvalho, II, 161); explica Francisco do Nascimento Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p. 239) que _Vacca_ existia em sitio forte por natureza, entre as pontes de Vouga e Marnel, porque alli se vêem vestigios de muros antigos e sinaes de uma majestosa grandeza; existem ainda tijolos, cantarias, muralhas em _Lamas de Vouga_ (_Arch. Port._, V, 50 e VII, 191)[17], e havia ahi a _civitas Marnele_ (_Port. Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», n.º 819)[18], cuja origem deve ter sido outro castro.

Na carta geodesica vê-se, junto ao rio, um _Castello_ (111). Isto é ainda do concelho de Agueda[19].

Na freguesia de Serem, tambem concelho de Agueda, outra _civitas_ (Viterbo, s. v. _Cidade_); ha lá sitios elevados a norte e a sul (Cfr. M. Gomes).

Na freguesia da _Branca_ ha um logar de _Cristellos_ (M. Gomes e _Arch. Port._, II, 313).

Na serra de S. Julião, mesma freguesia, _onde passa a estrada real_, diz o Sr. M. Gomes que ha ruinas de muralhas e fossos: acreditava-se (_Arch. Port._, loc. cit.) que ahi era a antiga _Langobria_ (sic). Não sei se é precisamente o mesmo local a que Brito (_Mon. Lusit._, II, V, p. 3) chama castello de _S. Gião_, onde havia ruinas de muros e elle encontrou o tal padrão suspeito e onde presume _Lancobriga_, não na Feira, diz, mas entre Albergaria e Bemposta, defronte de Pinheiro. Significativa confusão! Aquelle logar de _Cristello_ vem na carta geodesica entre Estarreja e a estrada real[20].

Na freguesia de Ul ha outro castro (_aldeia do crasto_), de que porém não conheço o _ubi_. Tem uma cintura de muralha de pedra solta ou cousa que o valha. (Pinho Leal, s. v. _Ul_).

Nas proximidades de Azemeis parece que não são escassos estes monumentos (_Quatro Dias na Serra da Estrella_, por E. Navarro, Porto 1884, p. 174).

Em _Ossella_ ha um castro com ruinas de muralhas (Brito, _loc. cit._).

Entre _S. Martinho_ e _S. Tiago_ vê-se na carta geodesica um _crasto_, a O. da estrada real; isto é no parallelo de Ovar. Será aquelle a que Pinho Leal chama Castro Troncal ou Francal (s. v. _C. de Cucujães_)?

No _Arch. Port._, VI, 68, diz-se que ha em Oliveira de Azemeis um logar de _Lações_, onde foi a antiga Lancobriga (_sic_), porque ahi se ajustam as medidas do Itinerario e não na Feira ou Bemposta. Este sitio é elevado e estrategico; a sua cota é de 287 metros e fica na fronte de um promontorio fechado por duas ribeiras e no extremo de uma chapada em cujo prolongamento se conta ainda a altitude de 274 metros. É, pelo que se vê, um _castro_. _Lancobriga_ e que não.

Em _Macieira de Cambra_ ha um castro (_Arch. Port._, VII, 54)[21].

Em _Romariz_ informa o Sr. M. Gomes que ha um _Crasto_, onde appareceram antiqualhas da epoca romana; o que é presumivel e prova ter recebido a influencia dos seus conquistadores.

Os antigos chorographos portugueses não teem dado valor aos cabeços elevados, onde se encontram os vestigios do que póde ter sido um castro, uma citania, emfim uma estacão archeologica pre-romana, e isso não admira; mas o facto é esse e constitue uma deficiencia na descrição dos logares, que actualmente seria imperdoavel, e que, num caso como o que estou versando, sonega lamentavelmente elementos aproveitaveis de estudo.

Junto ao mar, e bastante para o norte, em Esmoriz, encontro menção de um castro, especializado hoje pelo erudito estudo que d'elle fez documentalmente o meu erudito amigo Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._, III, 137). Era o castro de _Aville_, _Ouvil_, _Ubile_ e _Obil_, denominações que se applicavam á lagoa que ainda existe, e que elle dominava. Crê o distincto publicista que aquelle castro é o mesmo outeiro a que o parocho depoente de 1758 chamou _Monte do Murado_, pertencente á freguesia de S. Martinho de Mozellos. Fico porém em duvida, pois que estando o castro _prope litore maris_ (Docs. de 1055, 1076) bem como a lagoa (Docs. de 1057 e 1090), Mozellos parece um pouco afastado para o interior. Confessando que, sem a inspecção dos logares, a base é instavel, em todo o caso affiguram-se-me aqui dois castros distinctos.

Em S.ta Maria de _Fiães_ apparece outro castro ou «povoação de Mouros» (_Arch. Port._, IV, 250).

E d'ahi para o norte, são frequentes na faixa atravessada pelo caminho romano. Será algum d'estes castros o jazigo de Langobriga?

Este inventario, tendo origem, como tem, exclusivamente bibliographica, não póde deixar de ser omisso. A averiguação local e a informação competente accrescentá-lo-hiam, se eu d'estes dois factores me tivesse soccorrido. Para o meu intento, o pouco que joeirei, era colheita bastante.

VII

Alem d'estas averiguadas condições de habitabilidade que se encontravam no trajecto da via romana e que, em meu entender, conjugadas com as da elevação e relevos de terreno, que para as populações ante-historicas constituiam uma necessidade vital, concorreria tambem, não sem ligação com ellas, a existencia de jazigos metalliferos.

Nem todas as minas que enumero seriam conhecidas na antiguidade, mas em algumas ha vestigios da remota laboração e o que tudo attesta é que a região era mineira e portanto centripeta de populações.

Os locaes explorados são Telhadella, Albergaria, Palhal, Milheirós, Cucujães, Nogueira, Ossella, Palmás, Carvalhal, Pindello, Silva Escura, Ul, Talhadas, Braçal, Coval da Mó, Malhada.

Os minerios são cobre, tão procurado na antiguidade, chumbo, prata, etc.

D'estes jazigos, aquelle em que são mais importantes os vestigios de antiga lavra, é o da Malhada, uma das concessões das chamadas Minas do Braçal. As madeiras de entivação, que foram encontradas dentro da mina, denotam tal antiguidade que parecem fossilizadas, em consequencia da côr negra que adquiriram. Os trabalhos antigos attingem a profundidade de 45 metros (_Catalogo Descriptivo da Secção de Minas_, pelos Srs. Severiano Monteiro e J. Augusto Barata, p. 188).

A respeito dos outros, a noticia de antiga exploração é muito vaga para que me seja licito insistir. Nas minas de Palhal tambem ha vestigios antigos. (Cfr. Marques Gomes, _Districto de Aveiro_).

VIII

Que se póde concluir das considerações que até aqui tenho encadeado?

Por um lado, o estudo do Itinerario levou-me a aventurar na carta geographica, largamente circunscritas, as zonas em que o calculo faz presumir que se devem encontrar as ruinas de Talabriga; por outro lado, a inquirição topographica e onomastica da região, tanto quanto era possivel com a escassez de elementos, indicou-me alguns logares de archaicas estações archeologicas do genero da que deve ter sido Talabriga, como castro ou oppido submettido ao poder de Roma.

Quero lembrar que _briga_ só póde corresponder a uma posição elevada, a um outeiro ou cabeço fortificado; por onde Talabriga nunca pudera ser Aveiro ou arredores (Vid. _Arch. Port._, XII, 42).