Chapter 4
--Prevês o que se dirá, replicou Iago, sem dar importancia ás palavras do amigo, quando se souber, e saber-se-ha comcerteza, porque as paredes teem ouvidos, que não quizeste brindar pela gloria de Veneza, depois de ter brindado pela felicidade do homem que te protege? Pois toda a gente affirmará, continuou, sem parecer notar o olhar colérico que lhe dirigia o companheiro, que não passas d'um adulador egoista, que pretende afagar os poderosos, para medrar á sombra d'elles, e que, como florentino afinal, te importa pouco que a Republica triumphe ou seja derrotada pelos seus inimigos.
Cassio cravou no miseravel um olhar ameaçador e apertando convulsivamente os queixos um contra o outro, como para conter as palavras que estavam prestes a escapar-lhe dos labios, pegou no copo e bebeu nervosamente até á ultima gôtta.
Outra vez proseguiu a scena, e foi então Montano quem, excitado já pelas libações, ainda que bastante senhor de si, encheu os tres copos e disse apresentando o seu:
--Pela total ruina do poderio turco, e para que o leão de S. Marcos destroce, definitivamente, nas suas garras, a orgulhosa meia lua!
O tenente Cassio, sem que em tal momento tivesse ninguem que o provocasse, foi o primeiro a tocar no copo do nobre anfitrião.
Mas, apenas bebeu o vinho que continha, soltou uma blasphemia, e cravando no alferes os olhos esgazeados, cuspiu-lhe á cara este insulto:
--Iago, és um miseravel!
Immediatamente arremessou o copo contra o solo e sahiu, cambaleando.
--É melhor seguil-o, pois vae em mau estado e pode praticar qualquer disparate! observou prudentemente Montano.
--Não te preoccupes com elle, illustre amigo, replicou Iago com indifferença. Já desabafou commigo e agora irá direitinho deitar-se e curtir a bebedeira.
«Conheço-o perfeitamente, pois ha muito tempo que o acompanho e sei que isto lhe succede com frequencia.
--Como! exclamou Montano admirado. Pois não nos affirmou que nunca bebe?
--Ora! respondeu o miseravel. Isso dizem por causa do general todos os bebedos que resistem pouco e teem, além de medo, mau vinho!
«Aposto dez escudos de ouro em como terás encontrado em tua vida muitos homens, que, como Cassio, teem, poderiamos assim chamar-lhe, o pudor da bebedeira, porque, quando recobram a razão, se envergonham da conducta que tiveram durante o estado de embriaguez.
«Isto, porem, rematou Iago, com malevola intenção, não os impede de tornar a beber, fazendo-se algo rogados para cobrir as apparencias e desculpar o juramento que costumam fazer a miudo, e de que se arrependessem nas occasiões opportunas.
--É certo! disse Montano convencido. Confesso, porém, ter chegado a acreditar ser Cassio um homem de caracter, incapaz das ridiculas pechas dos espiritos fracos. Desprezo os homens que não teem o valor da convicção das suas qualidades e dos seus vicios, e nunca pensei que o tenente de Othello pertencesse a semelhante classe de individuos.
--Porque não o conheces, volveu perfidamente Iago. Quanto a mim, estou habituado a estas scenas, e, como sempre que bebe, me insulta, ouço os ultrages como quem escuta a chuva. Isto te foi dado observar ha pouco.
--Sem duvida, disse Montano n'um tom affectuoso. Bem pode dizer esse bebedo que tem em ti um verdadeiro amigo.
--Sim, estimo-o, respondeu Iago, e prefiro, por isso, que desabafe comigo, a que o faça com outro qualquer; pois o insulto poderia acarretar-lhe desgosto sério, como já por vezes tem estado a ponto de succeder-lhe, quando não me encontro junto d'elle.
--Mas, pôe-se de tal modo quando bebe? Perguntou Montano.
--É verdadeiramente insupportavel; para qualquer outro que não tenha a minha paciencia, torna-se aggressivo e turbulento, e não ha meio de reprimir-lhe as insolencias senão castigando-o severamente.
--N'esse caso, observou Montano em tom de pezar, repito que fizemos mal em o deixar sair d'aqui... Quem sabe, se...
Não poude terminar a phrase, porque n'aquelle momento faziam-se ouvir, não longe d'ambos, os gritos espantosos de um homen que pedia auxilio desesperadamente, e antes que tivessem tempo de se refazerem da surpreza, entrou na sala, com flecha, um individuo vestido de marinheiro, que vinha seguido de perto pelo tenente Cassio. Este proferia a tropel blasphemias e maldições agitando a espada que empunhava.
--Hei de espetar-te como um frango, meu grande tratante! gritou o tenente ao entrar em casa, apóz o marinheiro, o qual, como já terão adivinhado não era outro senão Rodrigo, que havia seguido fielmente as instrucções dadas por Iago para a execução do plano.
--Socorro, socorro, que me mata! gritou Rodrigo com voz que reboou por todo o edificio, despertando os homens de armas.
--Alto ahi, amigo Cassio! exclamou Montano severamente. O que fazes não é proprio de cavalleiro!
--Se ha aqui alguem que não seja cavalleiro, esse és tu, covarde defensor de malandrins, respondeu gritando Cassio, emquanto ameaçava de tal modo Montano com a ponta da espada, que o defensor de Chypre teve de dar um salto para traz e arrancar da que trazia para defender-se, pois corria o risco de ter o peito atravessado pela lamina do adversario.
Limitou-se, porém, a aparar os ataques furiosos que lhe dirigia o tenente, completamente fóra de si, emquanto Rodrigo, Iago e os soldados que haviam acudido, armavam tal barulho com as exclamações e gritos, que o escandalo não tardou em propagar-se desde o porto até ás primeiras ruas da ilha cujos pacificos habitantes perguntavam assustados o que se passava, julgando-se ameaçados por qualquer invasão de turcos.
Entretanto seguia Montano defendendo-se dos ataques do tenente. Mas, num movimento que fez, ao aparar terceira estocada, teve a desgraça de ferir-se, ficando a descoberto, e recebendo em pleno peito a ponta da espada do adversario, que se lhe enterrou duas pollegadss na carne.
Cahiu no solo o nobre patriota, emtanto que os soldados conseguiam desarmar Cassio, que ficára como attonito ao ver Montano por terra. Entretanto Iago escapou-se sem ser visto e logrou assim chegar até o sitio onde estava a sineta de alarme, pela qual puxou furiosamente por bom espaço de tempo.
Os repetidos e violentos toques acabaram de pôr em alvoroço toda a ilha, cujos moradores saltavam apressados dos leitos, tomados do maior panico.
Armou-se uma confusão indescriptivel, e um dos primeiros a abandonar o repouso e armar-se foi Othello, que, depois de acalmar quanto possivel a inquietação de Desdemona, sahiu do palacio, seguido de alguns officiaes, para inquirir as causas de semelhante escandalo nocturno.
Não tardou em averiguar que a origem do reboliço partira do corpo da guarda situado no porto; e quando, ao apresentar-se alli, encontrou Montano ferido, Cassio desarmado e preso de um atordoamento indiscriptivel, que lhe impedia dar qualquer explicação, e Iago lamentando-se tragicamente do occorrido, ficou profundamente admirado; não tardou, porém, em succeder ao assombro uma cólera tal, que fez estremecer de terror quantos conheciam os terriveis arrebatamentos de tal homem, exceptuando o alferes que, longe de atemorizar-se ao ver o general dementado pela colera, sentiu o maior jubilo, enforçando-se todavia para não o dar a conhecer, porque, por muito, que devesse regosijar-se ao ver o exito alcançado pelo seu infame plano, a manifestação mais ligeira de tal regosijo teria sido uma imprudencia que lhe podia custar cara.
Conseguintemente, em vez de se mostrar satisfeito, accentuou mais ainda a tristeza da attitude e o tom das lamentações, e quando Othello lhe ordenou severamente que o informasse de todo o occorrido, o miseravel fez um relato permenorisado, tratando de desculpar apparentemente o amigo, mas, na realidade, aggravando de tal modo a sua conducta e as consequencias possiveis do escandalo a que havia dado logar em taes circumstancias, empregando phrases tão campciosas como intencionadas, lamentando com tão bem simulada sinceridade que por uma ligeira imprudencia, segundo elle dizia, se tivesse chegado até ao extremo de tocar o sino de alarme e interrompido o somno do seu general; fez resaltar, em seguida, com, tão perfida astucia, o desastroso effeito que a grave ferida do nobre compatriota podia causar nos habitantes da ilha, ainda que, segundo accrescentou, Cassio nunca fizera tal cousa a não ser sob o imperio da embriaguez; apresentou n'uma palavra, tão avultados os factos, fingindo diminuil-os, que, quando acabou a narração, condimentada com protestos de lealdade para com Othello e de sincero affecto para Cassio, o general completamente enganado pelas palavras do traidor, e muito mais irritado contra o tenente do que antes de ter ouvido Iago, estendeu-lhe afectuosamente a mão, e disse:
--Vejo que te conduzes para comigo com a mesma prudencia e fidelidade de sempre, emquanto este homem, e indicou Cassio que permanecia a alguma distancia, aguardando ordens e já completamente sereno, abusa da minha confiança pelo modo indigno como procedeu esta noute.
«Pois bem: saberei dar a cada um o que em justiça lhe corresponde. Tu, meu bom e fiel Iago, não continuarás muito tempo sendo alferes, prometto; e quanto ao que diz respeito, accrescentou levantando a voz e dirigindo-se a Cassio, a partir d'este momento ficas exonerado do teu cargo de tenente e privado da minha amizade, de que tão indigno te mostraste.
--Mas general, tratou de intervir hipocritamente Iago, emquanto lhe brilhava nos olhos um fugitivo relampago de infernal alegria, vêde que o castigo é excessivo para a falta!
--Se é, ou não só me compéte julgal-o, replicou Othello. Silencio e acompanha-me ao Palacio.
E, levando após si o traidor e o jubiloso alferes, Othello abandonou o corpo da guarda, deixando Cassio, entregue á desesperação que lhe causava o ignominioso castigo que acabava de soffrer e ver-se privado do affecto e estima de um homem a quem realmente amava como a irmão.
V
O lenço
Montano, cujo ferimento não era tão grave como todos haviam imaginado, principalmente como Iago havia feito suppôr a Othello, foi o primeiro em interceder a favor de Cassio para que se não attentasse contra a liberdade do tenente deposto; e esta intercessão, unida aos costumes da epocha, infinitamente mais tolerantes de que os actuaes especialmente com os que diziam respeito ás questões sangrentas derimidas entre cavalleiros, foi o sufficiente para que ninguem se preoccupasse com o desditoso official e o deixassem viver tranquillo.
Mas, como se comprehenderá, esta tranquilidade só podia referir-se ao que representava a segurança pessoal de Cassio; o que pouco lhe importava, preoccupado como estava, até á desesperação, pelo castigo que lhe haviam imposto: o mais doloroso que poderia ter soffrido, especialmente se levarmos em conta que a esse castigo ia unida, como dissemos no capitulo presente, a privação da amizade e da estima do chefe.
Cassio, pois, não parecia o mesmo desde a amaldiçoada noute em que se desenrolaram os lamentaveis factos que narrámos; concentrando-se constantemente no desconsolo e na tristeza mais profunda, permanecia sempre só, fugindo do convivio e da vista das pessoas e, mais do que de ninguem, do infame Iago; pois que uma especie de presentimento o fazia advinhar, ainda que muito vagamente, a parte activa que o miseravel tomára em todos os acontecimentos.
Não obstante, um dia em que segundo o costume que havia adoptado desde a noute fatal, se entregava aos seus solitarios passeios á beira mar, viu approximar-se o alferes de Othello, o qual se lhe dirigia com o sorriso nos labios.
Em tal sitio, onde não havia nenhuma casa, era impossivel a Cassio occultar-se, escapulir-se, ou responder com despreso ao cumprimento que lhe dirigiu o alferes; tal procedimento constituiria imprudencia perigosa, tanto mais que carecia de base solida em que apoiar as vehementes suspeitas que contra elle abrigava.
Por conseguinte fez das tripas coração, como se diz vulgarmente, e, ainda que com instintiva e invencivel repugnancia, correspondeu ao amigavel sorriso de Iago e apertou a mão que este lhe estendia, e que de boa vontade esmagaria entre os dedos.
Em breve a repulsão e antipathia começaram a dissipar-se lentamente, para dar logar á surpresa e ao assombro, quando ouviu fallar o alferes, que se expressava d'este modo:
--Acredita, caro Cassio, que lamento o succedido, ainda mais profundamente que tu; pois não ha duvida de que, em rigor, eu sou o unico causador de tudo o que deu motivo a tão lamentavel occorrencia, com a minha insistente imprudencia, obrigando-te a que bebesses. Conhecendo-te como te conheço e sabendo o inimigo que és do vinho, e que não resistes a um só copo, o meu dever era evitar a todo o transe a tentação de brindar, em vez de induzir-te estupidamente a tal. Foi o que fiz, em má hora para todos. Perdoa-me, pois, como me perdoou Montano, de cujo ferimento sou o verdadeiro culpado, ainda que indirectamente, e ao qual já dei as explicações que devia para justificar-te a seus olhos como mereces; perdoa-me, repito, e acredita que, se á custa do meu sangue pudesse evitar por completo o occorrido e fazer desapparecer as suas consequencias, fal-o-hia de boa vontade.
Cassio deixou fallar Iago sem o interromper, e embora as palavras do alferes causassem n'elle á medida que o traidor as proferia, a extranha impressão que dissemos anteriormente, limitou-se a responder com visivel frialdade:
--Bem! Quem se lembra já de semelhante cousa? O que está feito, está feito, e o melhor que podemos fazer é esquecer.
--Não, por Deus, querido Cassio!
«Eu, pelo menos, longe de esquecer, devo recordar constantemente, para que, servindo-me de exemplo esta rematada asneira, me impeça de para o futuro praticar outra egual. Depois, proseguiu alegremente, isso de o facto não ter remedio parece mais conforme com o fatalismo do nosso general, do que com a grandeza de criterio de um sabio florentino como é o tenente Cassio.
--Já não sou tenente de Othello, replicou Cassio com tristeza. Estavas presente quando me depoz e me negou a sua amizade.
--Se o não és, não tardarás em sel-o de novo, affirmou intencionalmente Iago.
--Que queres dizer?--perguntou Cassio, cada vez mais surprehendido e começando a arrepender-se finalmente de ter suspeitado da amisade do alferes.
--Quero dizer--respondeu este dando-se ares de protecção carinhosa para com o antigo camarada,--que conheces mal os homens e que és demasiado leviano para te entregar á desesperação.
--Que conheço mal os homens?--exclamou Cassio corando, pois que adivinhava a quem a phrase intencional do amigo visava.
--Sim, conhecel-os mal--insistiu Iago--e desconfiaste de mim. Vamos, confessa--accrescentou batendo affectuosas palmadas no hombro do amigo.
--Juro-te...--replicou Cassio.
--Não jures--interrompeu-o o alferes--porque mentirias, e isso é indigno de ti. Mas para vingar-me como devo da maneira como pensaste a meu respeito, vou castigar-te dizendo que, á força de atormentar o cerebro procurando a maneira de remediar efficazmente todo o occorrido, estou seguro de ter dado com um meio que, não só te devolverá o posto, mas que te ganhará tambem de novo a amisade e a estima de Othello.
--Como! exclamou Cassio, admirado, estreitando agradecido a mão do alferes.
--Muito simplesmente--respondeu este--por meio de Desdemona.
--De Desdemona? Não te comprehendo--disse Cassio.
--Pois a coisa não pode ser mais clara--replicou Iago com convicção absoluta.--Vejamos: não foste tu, durante muito tempo, o unico confidente dos amores de Othello e da bella filha de Brabancio?
--Certamente--respondeu Cassio, mas ignoro como podeste saber isso, que é segredo para toda a gente.
--Menos para minha mulher Emilia--rectificou Iago--pois Desdemona não tem segredos para ella. Mas, adiante; fallemos do que importa. Assim pois, a esposa do nosso general deve estar, e está, profundamente agradecida, pois deve-te primeiro que tudo, a felicidade de que disfructa e o amor de Othello. Além d'isto, consta-me que tem em grande estima o teu cavalheirismo e o teu talento, e que te aprecia tanto quanto póde apreciar outro homem uma mulher apaixonada do marido.
--É certo--concordou ingenua e modestamente Cassio--que Desdemona me distinguia entre os outros officiaes do seu esposo. Mas d'esta distincção á sympathia que dizes dispensar-me, ha muita distancia, e creio que a tua grande estima por mim, te faz exagerar e não pouco.
--As mulheres não sabem equivocar-se, nem exagerar n'este sentido--replicou perfidamente Iago--e a minha assegurou-me o que te acabo de dizer, por tel-o ouvido dos proprios labios de Desdemona.
«Que dizes agora a isto?
--Digo--respondeu Cassio, córando, pois sem saber porquê sentia a vaidade ferida com as palavras do bandido--que mesmo que assim fosse, qual a vantagem que me advirio?
--Ainda o perguntas?--inquiriu Iago, simulando a mais perfeita admiração. Perdoa dizer-te que és o mais innocente dos mortaes, pois só uma candidez como a tua póde ignorar que, quem como tu, tem pela sua parte a mulher, conta tambem sem duvida, com o marido.
--De que forma?--perguntou Cassio, sem comprehender onde queria chegar Iago, que não fazia mais do que seguir a linha que traçára ao infame plano para envenenar o coração de Othello e anniquillar-lhe a existencia, destruindo a felicidade que elle encontrava no amor da esposa.
--Assombra-me a tua innocencia, ingenuo Cassio! exclamou Iago.--Perguntas-me de que modo has de arranjar-te para chegares até Othello tendo por mediadôra Desdemona?
--Sim, pergunto--confirmou, porque não vejo meio de me approximar da esposa do general, estando-me prohibida, ainda que tacitamente, a entrada no palacio.
--Indubitavelmente, se não tivesses quem te ajudasse--respondeu o miseravel--não te seria muito facil, não. Mas quem conta, como tu, com amigos resolvidos a tudo para te ajudar, consegue o que quer, se tem a coragem precisa para ganhar a partida.
--Como!--exclamou Cassio reconhecidissimo--Acaso tu?...
--Eu, precisamente não,--interrompeu-o o alferes; mas sim minha mulher, que, compadecida de ti e convencida pelas minhas supplicas, cedeu, a proporcionar-te uma entrevista com Desdemona, que sabe o que se passou e pende para o teu lado.
--E accedeu a receber-me?--perguntou anciosamente o tenente.
--Ás primeiras palavras que Emilia lhe disse intercedendo por ti--respondeu Iago,--e accrescentou que te receberia com muito gosto e que, com maior ainda, intercederia por ti junto do esposo, convencida d'antemão que alcançará o perdão da tua falta, fazendo que sejas reintregrado no posto de tenente.
--E quando julgas que lhe poderei fallar?--interrogou Cassio, com justificada impaciencia.
--Quando te agradar; agora mesmo, se quizeres--disse Iago.
--Agora mesmo?--exclamou Cassio surprehendido.--Está então prevenida da minha provavel entrada no Palacio?
--Desde esta manha, segundo me informou minha mulher. Apenas chegues, Emila conduzir-te-ha á sua presença.
O leal e ingenuo Cassio estreitou carinhosamente entre os braços o ignobil amigo, e disse-lhe com a voz tremula de commoção:
--Perdoa-me, caro Iago, pois tinhas razão quando disseste que chegára a duvidar de ti! Perdoa-me, repito, pois se soubesses que só e desgraçado me encontrava!...
--Não fallemos mais em tal!--interrompeu Iago dando-se ares protectores. Eu teria pensado o mesmo, e talvez não tivesse tido a nobreza de o confessar, como acabas de fazer. Esqueçamos, pois, essas criancices, occupemo-nos sómente da tua completa rehabilitação junto de Othello. Estás decidido a fallar com Desdemona esta noite?
--Quando quizeres--respondeu Cassio, que se sentia tornar á vida desde que, com as palavras do falso amigo, lhe havia dado entrada no coração a esperança.
--Pois vamos, e não percamos tempo--disse Iago tomando o braço do camarada e encaminhando-o para o Palacio.--Consta-me que Othello não se encontra agora no Palacio e, por conseguinte, não póde haver occasião tão opportuna como esta para encontrar Desdemona só e poderes fallar da tua causa com o maior enthusiasmo; ainda que, como já te informei, pouco terás a dizer, porque a esposa do general é em teu favor e defenderá a questão até conseguir ganhal-a, sem duvida alguma.
--Tenho um escrupulo--observou Cassio, parando, em seguida, e obrigando Iago a deter-se.
--Qual?--perguntou este, franzindo ligeiramente as sobrancelhas, porque se Cassio não se prestasse a seguil-o, cahiria pela base todo o edificio do infame projecto que tramára para acabar de perder quantos lhe eram odiosos.
--Se Othello--respondeu Cassio,--sabe que visitei o palacio e fallei com a esposa a occultas, isto longe de predispol-o em meu favor, irrital-o-ha mais ainda contra mim do que já está. Perderemos então terreno, em logar de o ganhar.
--Em primeiro logar--ponderou astutamente Iago,--Desdemona se encarregará de lhe explicar satisfactoriamente tudo, com o que ficará bastante justificada a tua conducta; depois, este passo acabará de o convencer de que estás decidido a tudo para recuperar a sua estima e affecto.
«Além de que--terminou--o mais provavel, poderemos dizer o quasi certo, é que não chegue a saber da tua visita ao castello, pois entrarás por uma porta occulta e minha mulher estará esperando, para levar-te á presença de Dedemona, sem que possa surprehender-te nenhum corioso indiscreto. Já vês, que tudo está bem preparado e que não tens nada a recear.
Para fallarmos a verdade, tal mysterio, tal jogo de palavras e de precauções para afinal penetrar clandestinamente e como um ladrão na moradia do seu antigo general, nada menos que para fallar a Desdemona sem consentimento do esposo, não acabaram de convencer o leal e honrado official de Othello; mas como, apesar de tudo, não tinha por onde escolher e queria a todo o custo recuperar o cargo perdido e a affeição do chefe, deixou-se levar docilmente pelo infame amigo até ao palacio do governador, no qual entrou, como havia dito Iago, por uma porta occulta, junto da qual o deixou o alferes, affirmando-lhe que o viria buscar mais tarde para que o puzesse ao corrente do resultado da entrevista, ainda que este não podia ser senão completamente satisfatorio.
Conforme disséra Iago, Emilia esperava Cassio por detraz da tal porta, e apenas o tenente entrou, conduziu-o, atravez de corredores e galerias estreitas, até aos aposentos de Desdemona, sem que ninguem suspeitasse da sua mysteriosa visita ao Palacio.
A pura e formosissima esposa de Othello, que realmente apreciava Cassio, cujas excellentes qualidades conhecia e estimava, bem como a cega dedicação do official pelo mouro, recebeu-o affectuosamente, ouviu-o com a attenção e benevolencia de uma irmã e prometteu alcançar o perdão de Othello, ao qual fallaria em seu favor n'aquella propria noute, explicando-lhe a verdadeira causa do succedido, e apresentando o cavalheiroso e leal Cassio tal como este realmente era, e não como o havia feito apparecer aos olhos de todos e, principalmente aos do general, um conjuncto de circumstancias desgraçadas.
Cassio, derramando lagrimas de gratidão, ajoelhou ao despedir-se, para beijar a mão da sua protectora, vendo, louco de alegria, que voltava a brilhar para elle o sol da esperança.
Desgraçadamente, no momento em que pousava os labios na nivea mão de Desdemona appareceu Othello ao fundo do largo corredor que dava accesso ao salão em que se encontravam a esposa e o tenente.
O general, que vinha acompanhado de Iago, estremeceu violentamente ao ver Cassio de joelhos ante a esposa e beijando-lhe a mão.