Othello

Chapter 3

Chapter 33,820 wordsPublic domain

Julgue-se, pois, a impressão que tão faustas noticias fariam nos ditosos viajantes, que viam desapparecer n'um minuto os perigos que ameaçavam a Republica de Veneza, para elles mil vezes mais temiveis e angustiosos, pois lhes tinham ameaçado até então a popria vida.

Quando por fim a desarvorada galera capitanea fez a sua entrada triumphal no bellissimo porto da ilha de Chypre, onde já era tambem conhecida a destruição da esquadra turca, o regosijo e a alegria não tiveram limites; Othello e Desdemona foram recebidos com o fervente enthusiasmo que só se tributa aos heroes, e toda a população distincta da ilha, com o governador Montano á frente, correu a visital-os ao palacio em que se haviam installado, para tributar-lhes sincera e franca homenagem de admiração e de estima.

Othello, pela sua parte, ao assumir, n'aquella mesma tarde, o comando supremo de Chypre, decretou em nome da Republica veneziana festas geraes durante todo o resto do dia e até á meia noute, para que o povo celebrasse, cada qual consoante a sua vontade e gosto, o ter-se livrado, tão feliz como inopinadamente, do terrivel e feroz inimigo que pretendera apoderar-se da ilha.

Em seguida, e apenas anoiteceu, retirou-se para o Palacio em companhia de Desdemona, pedindo a Montano para ainda fazer as suas vezes durante a noute, pois alem de estar fatigado, devido á accidentada viagem, era essa tambem a primeira noite em que, desde que se unira a Desdemona, podia encontrar-se a sós e tranquillo com a formosa e virginal esposa.

Montano, como póde suppor-se, accedeu promptamente ao desejo do general governador de Chypre, offerecendo-lhe cumprir o seu encargo de vigiar cuidadosamente os guardas durante a noute, tanto para acudir ás desordens e escandalos resultantes de todas as festas populares, como para não abandonar a vigilancia do porto que, não obstante o desastre casual soffrido pelos turcos, era presa demasiado cubiçada por elles para se descurar, um momento que fosse, observando com semelhante prevenção o famoso e prudente proverbio latino _si vis pacem, para bellum_, que deve ser sempre a divisa de todo o bom militar.

Caiu a noute sobre Chypre com os melhores auspicios e em meio da alegria de todos os seus habitantes que, já livres das tristes preoccupações que os haviam atormentado até ali se entregaram inteiramente ao gozo das festas que haviam organizado.

Ao dizermos todos os habitantes, devemos descontar dois muito nossos conhecidos, que já não participavam do regosijo commum, e recolhidos n'um angulo do edificio que servia de quartel á guarda encarregada da vigilancia do porto, conversavam animadamente e em voz baixa de assumpto que, a julgar pelo aspecto e gestos de ambos os interlocutores, devia ser de grande interesse para elles.

Estes dois personagens eram Iago, o alferes de Othello e o seu nobre companheiro Rodrigo, sobrinho de Barbancio e desprezado amante de Desdemona, o qual não deixára ainda o disfarce de marinheiro, por assim o ter aconselhado o amigo, como medida de prudencia.

O dialogo que segue porá os nossos leitores ao corrente do assumpto que tratavam, e que, como já terão advinhado, não era outro senão o dos desditosos amores da ingenua victima do alferes.

--A avaliar por quanto pude ver desde que sahi de Veneza, dizia Rodrigo ao companheiro, asseguro-te que, se não fôres o proprio diabo em pessoa, te será difficil que eu consiga o amor da minha bella prima, que dia a dia me parece mais enamorada do horroroso marido.

--Trouxeste comtigo todas as joias e quanto dinheiro podeste reunir, segundo prometteste? perguntou tranquillamente Yago, sem dar a menor attenção ás palavras do amigo.

--Nas minhas malas tenho todas as alfaias de familia, que valem para cima de dez mil escudos de ouro, e quasi outro tanto em moedas novas venezianas e genovezas, respondeu Rodrigo.

--Com menos de metade se comprava, seduzia e conquistava uma rainha, ainda que abrigasse no seio um coração mais duro que as afiadas garras do leão de S. Marcos, disse o alferes em cujos olhos brilhou um clarão de cobiça, ao ouvir as palavras do companheiro.

--Não proponho comprar Desdemona, replicou este, por duas razões: a primeira porque a conheço bem e estou certo que não é mulher que se venda; e a segunda porque receberia um amor que se daria por dinheiro e não por natural correspondencia á paixão que inspira a mulher amada.

--Ta! ta! ta! cantarolou cynicamente Yago, tudo isso são cantatas, bôas, quando muito, para servir de assumpto a rimances cantados por trovadores, depois de opipara ceia em noute de festa. A tua bella prima é como todas as mulheres, e todas as mulheres são como as andorinhas. Namoram-se de tudo quanto brilha; por isso tua prima se enamorou de Othello, porque a seus olhos brilhou mais do que todos os nobres venezianos, devido ao inegavel esplendor das suas maravilhosas proezas.

--Que devo então fazer? perguntou Rodrigo, contemplando Yago com irritação não isenta de espanto. Não me asseguraste que Desdemona está enamorada do marido?

--Nem mais, nem menos, respondeu fleugmaticamente Yago. Mas, por dizer-te que está enamorada, não significa semelhante affirmação que o esteja sempre. O amor de tua prima, nobre Rodrigo, crê piamente no que digo, pois sou homem de experiencia, não é amor verdadeiro, mas ficticio; o que poderiamos chamar amôr de imaginação.

--Como! exclamou, cada vez mais surprehendido, o joven veneziano.

--O que acabo de proferir, continuou o alferes, é precisamente a phrase approximada e perdoa que me gabe ao dizer-te que muito feliz fui em a ter encontrado: um amor de imaginação. O brilho que vê em Othello, e que a deslumbrou, não é outra coisa senão o que se vê nos heroes dos romances, que é precisamente como se apresenta o marido aos olhos de Desdemona. Ella vê o heroe, sempre o heroe. Pergunta-lhe pelo homem, e não saberá responder-te.

--Porquê? perguntou Rodrigo, verdadeiramente interessado.

--Simplesmente porque o homem não existe para ella nem, felizmente para o que respeita a Othello, se preoccupa de procural-o; no dia em que tal faça, o marido está perdido e o mesmo será no dia em que o encontre.

--Não te comprehendo, interrompeu o joven veneziano, que, como todos os seus eguaes d'essa epocha, estava pouco habituado a torturar o cerebro, sentia enorme confusão perante semelhante embroglio para elle inintelligivel.

--Porque não queres comprehender-me, replicou Yago com a mesma tranquilidade do gato que brinca cem o rato. E se não, continuou dizendo, ouve-me attentamente e verás como te explico tudo, em quatro palavras, verás como entendes: tua prima é mulher, não é verdade?

--Essa é de cabo de esquadra! exclamou irritado Rodrigo. Pois que outra coisa poderia ser?

--Não te abespinhes, homem, não te abespinhes! De vagar se vae ao longe e nao tardarei em chegar onde quero, disse o alferes que, semelhante n'isto a todos os miseraveis, se comprazia em atormentar a victima. Responde: é mulher ou não?

--Quem duvida?

--Ninguem, por certo. Ora como mulher, necessitará de um homem que lhe satisfaça as exigencias do organismo; um homem que ame fisicamente, entendes-me agora, alma de cantaro? _fisicamente_, porque o amor _fisico_ é o unico que póde convir á vida de uma mulher, quando as paixões imaginativas e novelescas, como a agora experimentada por ella, se evaporam e fogem ante a fortaleza brutal dos gritos da carne.

--Bem, de accordo, respondeu Rodrigo que ia começando a comprehender o companheiro.--Mas aonde queres tu ir parar com todas essas philosophias?

--Simplesmente a uma conclusão que não admitte duvidas: tua prima está hoje satisfeita e enamorada porque não vê mais do que o lado poetico do marido, e ainda não se fixou na cara, linguagem, gestos, e no mais que n'elle existe de tosco, de selvagem e de brutal. Mas como o seu amor não póde alimentar-se de sonhos, e um beijo dado por uns labios humidos e vermelhos vale mais para uma mulher do que toda a poesia do mundo, no dia em que esse tigre africano despertar torpemente a carne da mulher, o que n'este momento está fazendo, asseguro-te que, ou não ha senso commum sobre a terra, ou apenas Desdemona se inteire do que então ignorava, quer dizer, de que tem sexo, o negro estará perdido para ella, completa e irremediavelmente perdido. Talvez, nas suas horas de tédio, o recorde e até careça d'elle, como se recorda e se carece, em determinados momentos, de uma historia interessante ou de um fragmento de poema; mas, durante os parentesis da realidade, que são os maiores da vida, precisamos todos, e ella tambem, coisa mais substanciosa e mais pratica: o gastrónomo, carne fresca e appetitosa que desfaça nos dentes; e o amante, carne mais fresca e mais appetitosa que lhe palpite nos braços! Já vês que n'este pobre mundo tudo é questão de carne, meu caro amigo! Ah! ah! ah!

E, ao dizer estas palavras o miseravel soltou uma gargalhada cynica e estrepitosa, gozando em desfolhar, uma a uma, as poucas flôres da illusão que ainda vicejavam no coração de Rodrigo.

--Assim, pois, continuou dizendo quando acabou de rir, confia em mim e não tortures a cabeça com supplicios inuteis.

«A noiva de Othello será tua, porque assim jurei e não falto nunca aos meus juramentos, disse com um sorriso de escarneo quasi imperceptivel. E proseguiu acto continuo:

«Apenas terás de me ir entregando joias e dinheiro, á medida que eu vá pedindo, para captivar com ellas o coração de minha mulher, que é o anjo da guarda do Paraiso, e seduzir tambem a coração de Desdemona. Já vês que sou imparcial na minha opinião com respeito a mulheres, terminou o mizeravel, pois que não sendo a minha das peores, não lhe dou mais valor do que positivamente tem.

--E julgas, realmente, que Desdemona se deixará captivar por fim, com dadivas e presentes? perguntou o infeliz apaixonado, cuja certeza a respeito da virtude da prima começava a fraquejar, combatida simultaneamente pelos proprios desejos e pelas perfidas theorias do ruim amigo.

--Dá tempo ao tempo e depois te convencerás do que digo, proseguiu Iago com a firmeza de quem tem certo o triumpho.

«Dá-me tudo o que te pedir e deixa o resto por minha conta. Não te preoccupes mais com tal assumpto e presta attenção, e ao dizer estas palavras baixou a voz e adoptou uma attitude mysteriosa; ha outra coisa e outra pessoa que constituem um grande perigo para os teus amores.

--Que queres dizer?--perguntou Rodrigo sobresaltado.

«Explica-te mais claramente porque os teus enigmas apenas servem para me atormentar.

--Não tens reparado na assiduidade com que o tenente Cassio segue para toda a parte Desdemona, e na singular preferencia que esta lhe dispensa constantemente, mesmo na presença do esposo?

--É certo! exclamou Rodrigo empallidecendo; até agora ainda não tinha dado importancia a semelhantes detalhes; mas acabas de abrir-me os olhos, e não ha duvida que tens razão de sobra para assim fallares. Que infame! acabará, talvez, por entender-se com Cassio, procurando n'elle o homem a que ha pouco te referias? Se assim fôr, posso perder as ultimas esperanças, pois o meu amor não se verá jámais correspondido!

--Enganas-te, porque estou eu aqui para o evitar respondeu Iago, fingindo carinho affectuoso.--Tenho o meu plano. Esta noute preciso que me ajudes, para varrer esse empecilho, de fórma que não torne a molestar-nos em vida.

--Como?--perguntou Rodrigo.

--É muito simples; primeiro que tudo, é perciso fazer que Cassio, perca a estima de que desfructa junto de Othello, e que este o demitta do seu posto de tenente, para dar-m'o. D'este modo, affastado para sempre do general, não terá pretexto para approximar-se de Desdemona e todas as suas seducções e artificios resultarão completamente inuteis. Entretanto eu, investido nas funcções do meu novo cargo, poderei converter-me em sombra do mouro e, por conseguinte, de tua prima, e não me parece necessario encarecer as vantagens que poderás tirar d'isto para os teus amores.

--É certo!--exclamou o moço veneziano, contemplando com admiração e gratidão o amigo--Mas como te vais arranjar para levar a cabo o teu plano e em que poderei auxiliar-te?

--Da maneira seguinte: d'aqui a uma hora, pouco mais ou menos, vou cear em companhia de Montano e de Cassio no quartel que existe n'este mesmo edificio. O tenente é tão mau bebedor que não póde resistir a um só copo do riquissimo vinho d'esta ilha. Ora bem; hei de fazer o possivel para que beba dois ou tres, o que bastará para o embriagar como a qualquer mendigo e, em seguida, busca sahir-lhe ao caminho e, sem o provocar, farás que te dirija algum insulto, cousa que não será difficil, porque quando está bebedo, é aggressivo. Replicar-lhe-has acto continuo e continuarás discutindo até conseguires que te bata. Como farás tudo isto, procurando não te affastares do quartel, onde se effectuará a ceia, gritarás de modo que Montano e eu possamos ouvir-te. Então acudiremos ambos, eu occupar-me-hei de ti, e deixaremos que os dois se entendam, na certeza de que Cassio, homem sereno e senhor de si quando está no estado normal, é indiabradamente provocador e insultante quando se embriaga, o que lhe succede poucas vezes na vida, e não deixará de puchar pela espada para responder com ella ás amigaveis indicações que lhe dirija Montano; fará sangue, certamente, e então entrarei eu em scena para armar tal escandalo, que Othello terá de inteirar-se necessariamente do caso. Ora bem; como não transigiria nem com o proprio filho em pontos de disciplina, surprehenderá Cassio em falta grave, precisamente no momento de guarda, e affirmo-te que o teu provavel rival não tornará a pôr no peito a divisa de tenente, que passará a ser minha, e que, a partir d'esta noute, poderás viver completamente tranquillo.

--E estás bem seguro do teu plano?--perguntou Rodrigo ao alferes, quando este acabou de narrar o infame projecto, que o joven veneziano escutára com profunda attenção.

--Certissimo--respondeu Iago--Só preciso que prestes o serviço que te peço.

--Conta comigo--prometteu o sobrinho de Brabancio, decidido a tudo para conseguir o amor de Desdemona.

--Então, mãos á obra--respondeu o alferes levantando-se e apertando a mão do companheiro.--N'este mesmo sitio estás perfeitamente para fazeres quanto te indiquei, porque Cassio sahirá por aquella porta--apontou, indicando uma que havia a poucos metros de distancia.--Espera-o aqui, executa fielmente as minhas instruções, e não duvides de que o triumpho será nosso.

E, acto continuo, o miseravel despediu-se do ingenuo Rodrigo e correu a pôr em pratica o diabolico plano que concebera, não para ajudar o companheiro nos seus amores, como promettera, mas para perder um innocente a quem invejava, e supplantal-o no posto e no affecto de Othello.

* * * * *

Duas horas depois, o sino de alarme tocava desabaladamente no quartel situado junto da doca do porto, pondo em alvoroço toda a ilha, que começava a entregar-se ao somno passada a agitação da festa, e obrigando a saltar do leito, em sobresalto, o proprio Othello, que repousava docemente entre os bellissimos braços de Desdemona.

CAPITULO IV

O traidor

A minuciosa exposição que Yago fizéra a Rodrigo do plano que tinha in-mente, bastaria para que os nossos leitores tivessem noticia exacta de quanto havia succedido durante as duas horas que passaram desde a separação dos dois amigos até o momento em que o inesperado toque do sino de alarme levou a inquietação e o desassocego a todos os habitantes de Chypre, incluindo n'este numero o proprio Othello.

Mas, se, para maior clareza da narração é imprescindivel por um lado conhecer a descripção pormenorisada do succedido e assim chegar ao desenlace d'esta tragica historia sem uma solução de continuidade que prejudicaria notavelmente a comprehensão dos factos; pelo outro, seria impossivel, omittindo tal narração, seguir passo a passo as interessantes e accidentadas peripecias do complicado drama cuja base principal assenta na ambição e na inveja de uma alma perversa, nascida para a infamia e para o crime.

Assim, sigamos Iago no momento em que, ao separar-se do primo de Desdemona, entrou no quartel onde, á entrada, o estavam esperando para a ceia o tenente Cassio e o nobre Montano, governador da ilha de Chypre e representante da Republica Veneziana, na ausencia de Othello.

--Boa noite, prudente Cassio; saude e prosperidade, illustre Montano, cumprimentou o alferes ao entrar, dirigindo-se aos companheiros e superiores.

--Graças a Deus que vieste; julgavamos que tivesses esquecido que te esperavamos! exclamou Cassio ao vêr entrar o amigo.

--Pelo que prevejo, interrompeu Montano esboçando um sorriso malicioso, este bom Iago, apezar de ter uma esposa deveras formosa, não faz má cara ás mulheres do proximo, especialmente quando são jovens lindas; e como abundam em Chypre as que reunem estas duas qualidades, graças sejam dadas ao Amôr e a Venus, certamente se atrazou, dando uma volta pelas ruas da ilha, com o perverso proposito de render alguns corações mais do seu gosto.

--Acertaria no alvo o vosso gracejo, se visasseis o nosso tenente, que tem, na verdade, fama de irresistivel com as bellas, replicou Iago esboçando um sorriso intencionado, de que só elle percebeu a transcendencia. Quanto a mim detesto as saias, por instincto de conservação, e não trocaria uma só garrafa de bom vinho de Chypre por todas as mulheres casadas, viuvas ou solteiras, que vivem na ilha.

--Parece-me, Iago, observou Cassio affectuosamente, que acabas de fazer duas affirmações duplamente exaggeradas: uma, aquella em que alludes á minha boa estrella junto das bellas, que seja dito de passagem, só existe na tua imaginação, pois confesso-te que, até agora, não tenho na minha folha de serviços uma só conquista que valha referencia.

--Nunca é tarde quando a sorte nos sorri, replicou astutamente Iago.

«Ha quem assegure que estás a caminho de entrar por assalto n'uma praça que mais de um nobre veneziano, teu compatriota, invejaria.

--Não te comprehendo, respondeu Cassio com estupefacção tão profunda como sincera retratada no semblante.

--Saibamos, saibamos que praça é essa e veremos se é digna de disputal-a o bello Cassio! exclamou alegremente Montano.

--Se elle guarda segredo, não sou eu que tenho o direito de desvendal-o, disse hypocritamente o alferes.

--Guardo segredo porque não sei a que aventura te referes, respondeu Cassio de boa fé. Explica-te, peço, porque conseguiste intrigar-me.

--Modestia, pura modestia, discreção levada até á mudez! disse rindo o alferes. Cassio, felicito-te porque és um cavalleiro digno de ter vivido nos bons tempos do rei Arthur. Mas, continuou, dando deliberadamente outro rumo á intencional charada, cada vez me convenço mais de que o mundo está cheio de paradoxos e nós proprios o somos.

--Porquê? perguntou Montano com estranheza.

--Nada mais simples, respondeu Iago. Vocês esperavam-me com impaciencia, o que evidentemente accusa um apetite devorador; por minha parte tambem declaro que não vinha menos resolvido a entender-me com uma boa ceia. Pois bem, em vez de aproveitarmos o tempo predispondo o estomago com meia duzia d'essas veneraveis garrafas que nos escutam, para entrarmos depois heroicamente pelos manjares, estamol'o perdendo lastimosamente, fallando de mulheres, isto é, do assumpto menos substancial e mais perigoso que pode tratar-se entre cavalleiros.

--Indubitavelmente esta noute estás pouco amavel e galanteador para as damas, valente Iago, respondeu Montano rindo.

--Nem mais nem menos do que n'outras occasiões e nem menos nem mais do que o merecem, disse Iago.

E passando em revista meticulosa as garrafas poeirentas que se viam sobre a mesa artisticamente posta, pegou n'uma de respeitavel antiguidade, a julgar pelo aspecto e pela marca que ostentava na rolha, abriu-a e encheu de riquissimo e perfumado vinho os copos dos companheiros e o d'elle. Seguidamente e sem dizer palavra, bebeu-o de um trago e fez estalar a lingua com a placida expressão de um bebedor satisfeito.

Montano fez com o copo o mesmo que Iago fizera com o d'elle; mas o tenente Cassio contentou-se com leval-o aos labios e humedecel-os ligeiramente com o dourado nectar.

--Como! exclamou Iago apparentando indignação e assombro ao ver que o seu amigo voltava a por sobre a mesa o copo tão cheio como o levantára. Não bebes comnosco, ou não aprecias este vinho, herdeiro directo da sagrada ambrosia com que Jupiter obsequiava de vez em quando os seus amigos do Olympo? ignoras, por ventura, desgraçado, que o vinho de Chypre foi consagrado pela historia, atravez dos seculos, até que vencendo o seu rival Falerno, teve a honra de toldar com frequencia o cerebro de Alexandre, de produzir as gloriosas alegrias de Alcibiades, de servir de vehiculo para o veneno que matou Britanico e de inspirar os versos de Nero e os pontapés que o imperial artista dava em Popêa para a expulsar dos festins, quando o estorvava nos seus desabafos amorosos com os mancebos romanos? Ignoravas isto, infeliz? Pois bem, é um peccado de lesa ignorancia, indesculpavel n'um homem ponderado como tu; mas, apesar de tudo, Montano e eu perdoamos-te com a melhor vontade do mundo, dado que honres o historico vinho como nós o honramos.

--Nunca bebo! respondeu gravemente Cassio.

--Porquê? perguntou com curiosidade Montano. É talvez algum juramento?

--Não, respondeu o tenente; a minha repugnancia em beber obedece sómente a que o vinho me ataca de tal modo a cabeça, que basta um copo para transtornar-me por completo e fazer de mim um homem absolutamente diverso de que sou no estado normal.

--Mas ceando, aventurou Iago, é outra coisa, e affirmo que não te succederá mal algum. Além d'isso, proseguiu alegremente para animar o companheiro, estás entre amigos e, se a bebedeira te der para dormir, mandar-te-hemos deitar n'um fôfo e confortavel leito, ou então rir-nos-hemos se te der para nos insultar.

--Um homem embriagado é um ente desprezivel, e por cousa alguma d'este mundo consentiria em chegar a semelhante e lastimoso estado.

--Pois bem, disse deliberadamente Iago; ceêmos; de qualquer forma, affirmo que saberei obrigar-te a brindar comnosco, dado o caso que o nosso exemplo não te leve por motu proprio a provar o historico nectar.

Acto continuo serviram-se os primeiros pratos, e durante minutos apenas se ouviu o ruido produzido pelos dentes ao triturarem os tenros ossos das presas que devoraram.

Inesperadamente Iago levantou-se e enchendo os dois copos que ainda estavam vasios, pegou no d'elle e brindou:

--Pelo feliz matrimonio do nosso general e para que nunca veja perturbado com a mais ligeira nuvem o céu de seus amores com a bella Desdemona.

E dirigindo-se a Cassio, accrescentou:

--Atreve-te a recusar este brinde, e asseguro-te que Othello nunca te perdoará a descortezia, se um dia vier a sabel'a.

Cassio vacillou um segundo; mas, instado por Montano, que juntou os seus rogos aos do alferes, pegou no copo e bebeu-o de um trago dizendo:

--Á saude do general, e pela eterna felicidade do seu matrimonio!

E em seguida cahiu na cadeira, sombrio e taciturno, como arrependido de ter quebrado tão facilmente a resolução de permanecer sobrio.

Continuou a ceia, animada pela pittoresca conversação do alferes e pela alegria natural e espontanea de Montano, e, passado algum tempo, o primeiro voltou a erguer-se, encheu novamente os trez copos, e disse levantando o seu:

--Brindemos pela gloria e prosperidade de Veneza e pelo triumpho das suas armas sobre todos os inimigos!

Montano e elle emborcaram os copos d'um só trago; mas o tenente, sem despejar o seu, disse em tom resoluto:

--D'esta vez não beberei, já lhes fiz a vontade, apezar de contrariado, e por isso espero que não insistam mais.