Othello

Chapter 1

Chapter 13,901 wordsPublic domain

Produced by Pedro Saborano

OTHELLO

Editor e proprietario, F. A. de Miranda e Sousa. Comp. e imp. na typ. da Empreza Lusitana Editora, pertencente ao editor C. do Ferregial, 23--LISBOA.

G. DUBARRY

OTHELLO

_Trad. de D. Alda de Sousa_

LISBOA EMPREZA LUSITANA EDITORA Calçada do Ferregial, 83

DEPOSITARIO NO RIO DE JANEIRO LIVRARIA EDITORA JACINTO SILVA Rua Rodrigo Silva, 7

I

O rapto

Era a epoca mais feliz e florescente da aristocratica Republica de Veneza. As esquadras disputavam vantajosamente aos turcos a supremacia no Mediterraneo, e nas costas gregas, Rhodes e Chypre unidas ao feliz povo da poderosa Senhoria, diziam eloquentemente ao ottomano que não era nada facil arrancar a presa ao leão de S. Marcos, quando este a colhera nos seus afilados dentes.

Vivia-se por então no tempo em que a espada não podia enferrujar dentro da bainha, pois nos breves intervallos durante os quaes os exercitos não luctavam de povoado em povoado, de nação em nação, os individuos, sem distincções de cathegorias nem de classes, inventavam mil pretextos para guerrearem entre si, receosos talvez de olvidarem no repouso o manejo das armas.

Por causa d'isto e tambem com receio dos innumeraveis «_briganti_» e roubadores de bolsas que, durante a noute, vagueavam pela poetica cidade dos canaes, nem todos se atreviam a transitar por ella fóra de horas, pois estavam certos de que nada bom encontrariam nas suas escuras e mysteriosas ruas.

Eis porque causava certa extranheza ver a tranquilidade com que dois cavalleiros, jovens e de elegante porte, se bem que tal elegancia fosse mais notavel no que aparentava menos edade, conversavam passeando pela solitaria praça de S. Marcos á uma hora da madrugada d'uma noute de inverno.

Devemos ponderar que a tranquilidade, a que acabamos de alludir, referia-se sómente ao facto dos cavalleiros não recearem dos perigos nocturnos que os ameaçavam em tal sitio e a horas tão mortas da noute; por outro lado, os dois homens pareciam dominados por viva agitação, a julgar pela vehemencia dos gestos e pela animação com que sustentavam o seguinte dialogo:

--Digo-te, meu caro Yago, que semelhante coisa é impossivel, dizia o mais novo e de melhor apparencia dos dois interlocutores, tão impossivel como o Adriatico poder devolver a sua Senhoria o Doge o annel que este lhe deu no dia das suas nupcias.[1]

[1] Allude á cerimonia que celebravam os Doges no dia do seu advento, e no qual simulavam casar com o Adriatico arrojando para o mar uma preciosa joia, que era o annel de nupcias.

--Pois eu asseguro-te, nobre Rodrigo, replicou o mais velho dos cavalleiros, que trajava á militar e ostentava a divisa de alferes, que vi com os meus poprios olhos tua prima Desdemona, ha pouco mais de uma hora, fugir de casa do pae, o senador Brabancio, e saltar para uma gondola, onde a esperava esse maldito africano, que Deus confunda.

--Pois bem, os teus olhos trahiram-te, apresentando á tua fantasia como real o que não era mais do que um sonho. Ah! as garrafas de vinho de Chypre que bebeste esta noute, tiveram mais força do que a tua resistencia de bebedor habituado ás libações, e puzeram-te completamente borracho, respondeu de mau humor aquelle a quem o seu companheiro dava o nome de Rodrigo.

--Dizem, e com razão, que de namorado a tonto não vae mais do que um passo! exclamou o alferes Yago em tom desdenhoso.

--Porque dizes isso? porguntou com altivez Rodrigo. Tratas acaso, de insultar-me?

--Deus me livre de tal coisa, respondeu Yago. Queres dizer-me o que ganharia com isso?

--Seja pelo que fôr, o facto é que me chamaste tonto.

--Não, disse que estavas enamorado, e desafio a que o negues.

--Seria inutil, pois sabei-o tão bem como eu, confessou Rodrigo. Mas deixemo-nos de discussões inuteis e vamos ao que importa. Se o que me acabas de dizer não é uma infame mentira ou estupida fantasia de bebado; se a minha prima Desdemona esqueceu a honra de sua familia, o respeito e as cans de seu pae, toda a sua juventude de pudor e recato que a tornavam a donzella mais pura de Veneza; se esqueceu tudo isto, repito, para lançar-se nos braços d'esse mouro de rude linguagem e de rosto enegrecido, como qualquer infame Messalina, preciso será crer de hoje para sempre que a mulher, desde que nasce, é materia affeiçoada para o vicio e o ser mais ignobil que existe sobre a terra.

--Enganas-te, nobre Rodrigo, e a tua paixão e ciumes fazem-te ver as cousas, augmentadas até á exageração ridicula, replicou tranquilamente Yago. A mulher, na realidade, não é boa nem má, pura ou impura, mas simplesmente mulher e, como tal, joguete das circumstancias. A culpa do que succede não a tem ella, mas sim o velho tonto do pae que, depois de a ter encerrada como monja durante dezessete annos, deixou entrar em casa Othello com a mais ampla liberdade, consentiu que visitasse tua prima, conversasse com ella no mais absoluto isolamento, e, emfim, cruzou tranquilamente os braços, emtanto que o lobo rondava incessantemente em redor da ovelha.

--Mas, replicou Rodrigo irritado, quem poderia suppôr que uma joven tão innocente e virginal como Desdemona, podesse chegar a enamorar-se de um homem negro e feio como esse maldito mouro?

--Outro qualquer que não tivesse sido um velho imbecil como teu tio Brabancio, ou um namorado cego como tu, teria suspeitado que esse mouro, precisamente pelo que tem de extraordinario, poderia chegar a deslumbrar e a seduzir a donzella, como realmente succedeu. Ignoras por ventura, continuou Yago animando-se emquanto fallava, que ninguem conhece Othello melhor do que eu, e que é este exactamente o motivo do odio mortal que lhe tenho? Esse homem é feio, concordo; de rude linguagem e desabridas maneiras, mas nasceu como o leão para dominar e vencer, onde quer que se encontre; a alma d'elle é grande como o espaço e profunda como o abysmo; o coração é de gigante, e n'elle os sentimentos humanos, com tudo quanto ha de leal e de nobre, desenvolvem-se até assumirem proporções do sobre natural; junta a isto uma vida romantica, cheia de peripecias emocionantes e curiosissimas, sustentada á custa de uma lucta constante com os homens, com as feras e até com os elementos; emfim, um homem de sangue real, realeza moura, mas que vale tanto como outra qualquer, um homem de sangue real, repito, que perde seus paes, é vendido como escravo, foge atravez do deserto e, sem outras armas do que a coragem pessoal, a força d'um hercules, se assenhoreia das selvas virgens, das quaes desaloja os tigres e os leopardos: que depois se apresenta entre os homens e pratica com elles o mesmo que com os temiveis moradores dos bosques; que chega a Veneza quando a Republica está a ponto de tornar-se provincia de Constantinopla, e, com o seu valor lendario e o seu talento de general a salva, destroe os inimigos e devolve todo o brilhante esplendor á vacilante Magestade. Pensa em tudo isto, repito, apresenta tal homem prodigioso a uma rapariga de desessete annos, enamorada, como todas, do maravilhoso poetico, do extraordinario, e á fé de cavalleiro te juro, que a fealdade e a rudeza materiaes d'um mouro desapparecerão ante os olhos da virgem innocente, para não lhe deixar ver mais do que o lado poetico da varonil e sobrehumana figura do heroe, ante a qual surgem empequenecidos até ao ridiculo, os peralvilhos loiros e affemininados que tenha visto pisar até então as alcatifas dos seus salões.

--A julgar pela discripção que acabas de fazer de Othelo, não parece senão que estás tão enamorado d'elle como minha propria prima Desdemona, ponderou sarcasticamente Rodrigo.

--Porquê? replicou Yago com maior sarcasmo. Porque o conheço e conservo o senso commum necessario para poder apreciar no seu justo valor as qualidades d'esse homem e dar conta exacta da influencia que taes qualidades podem exercer no coração d'uma joven? Que disparate suppôr que eu amo Othello! Pelo contrario, odeio-o com todas as forças da minha alma e de boa vontade inventaria qualquer novo tormento para vel-o morrer na mais horrorosa das agonias. Preferiu-me a esse florentino, Miguel Cassio, a quem nomeou seu tenente, deixando que eu, com o estupido pretexto de que ignoro a estrategia militar, continue sempre alferes, o que é peor ainda. Fallando francamente, não tenho base firme para fundar as minhas suspeitas, mas chegou-me a parecer que o maldito mouro e minha mulher, Emilia, dormiram mais de uma vez no mesmo leito que paguei para celebrar as bodas. Só esta suspeita faz com que sinta todos os martyrios do inferno nas entranhas e deseje vingar-me de Othello, de maneira que cause horror ao proprio Deus das vinganças. Por isso te procurei esta noute, accrescentou o alferes fixando em Rodrigo os olhos chammejantes. Estás apaixonado por tua prima Desdemona, e o homem que eu odeio roubou-ta; pois bem, se me promettes fazer tudo quanto te disser cegamente e sem discutir as minhas indicações, garanto-te que Othello pagará o seu crime e Desdemona acabará por arrojar-se nos teus braços sincera e profundamente arrependida do que fez.

--Devéras? Não me enganas? esclamou Rodrigo louco de alegria.

Juro-o! respondeu Yago com um gesto de convicção; se me obedeceres em tudo, antes de um mez Desdemona será tua.

--Que tenho a fazer para tanto? perguntou Rodrigo disposto aos maiores sacrificios para conseguir o amôr da prima.

--Primeiro, disse Yago, que nunca perdia a presença de espirito, ganhar o tempo que temos perdido discutindo aqui como dois tontos, ou como dois homens despreoccupados, que não teem nada a fazer, quando cada minuto que se perde é um seculo, difficil de recuperar.

E no relogio de S. Marcos soaram n'esse momento duas horas.

--Já duas horas! esclamou Yago, arrastando comsigo o amigo, emquanto fallava. É bastante tarde e ainda precisamos de correr muito!

--Onde me conduzes? perguntou Rodrigo desconfiado, mas seguindo docilmente o alferes.

--Ao palacio de teu tio, para communicar ao pobre velho a sua deshonra e a fuga da filha, se é que elle ainda não deu por tal, como é provavel, pois deve dormir a estas horas, ajuntou Yago.

--Mas vamos provocar um escandalo! replicou o primo de Desdemona, a quem, como cavalleiro que era repugnava semelhante especie de delação.

--É isso precisamente o que nós necessitamos: um escandalo, disse Yago, sem deixar de arrastar o amigo. Um escandalo que fira o orgulho e a vaidade de um dos senhores mais poderosos de Veneza, e que obrigue o Doge a castigar o culpado com todo o rigor que exigem a gravidade da falta e as duras leis da Republica. Basta-me tanto para vêr satisfeito o meu odio, continuou o miseravel com feroz sorriso, depois Othello será destituido do seu posto de general e de todas as honras, como auctor de um delicto que attentou contra a dignidade de um dos membros do Senado, sem contar as penas corporaes que cahirão sobre elle e que serão verdadeiramente terriveis, pois conheço bem a justiça veneziana e sei que é inexoravel n'este ponto.

E, ao proferir taes palavras, Yago ria com um riso sedento de sangue.

Entretanto chegaram ao magnifico palacio do senador Branbancio e, depois de baterem ruidosamente á grande porta de entrada, obrigaram a criada a despertar o amo, que deixou o leito e recebeu os nocturnos visitantes com a vontade que pode suppor-se.

Mas esta má vontade não tardou em converter-se em estupefacção levada até á atonia, que por sua vez se transformou n'uma indignação que esteve a pontos de o enlouquecer, quando o sobrinho o informou da fuga da joven e virginal Desdemona, rapto que se negou obtinadamente a acreditar, a começo, mas que em breve poude ver comprovado, depois de pessoalmente percorrer todos os cantos do palacio com a mesma minuciosidade que empregaria se, em vez de procurar uma mulher, se tratasse de um objecto menos que imperceptivel.

Era que o infeliz velho tinha ante os olhos a realidade e recusava admittil-a, ditoso ainda com a illusão de que tudo aquillo não era mais do que um pesadelo horrivel, do qual não tardaria a despertar.

Assim, quando lhe foi impossivel duvidar e que teve de se render fatalmente á evidencia, a sua dôr não conheceu limites e, no cumulo da desesperação, amaldiçoou a filha e todas as mulheres chamando-lhes encarnação viva de Lusbel, da qual tinham até a infernal formosura; renegou o ceu e a terra e não deixou de lastimar-se e blasfemar até que, vencido pelo peso da propria afflicção, sómente lhe ficaram energias para lamentar com soluços convulsivos a immensa desgraça que acabava de cahir-lhe na encanecida cabeça.

Passada a angustiosa crise, reanimou-se um pouco, e com as forças voltou-lhe o orgulho e a altivez de patricio venesiano; a partir d'este momento só pensou em vingar o ultrage recebido, para o que era preciso, antes de mais nada, apoderar-se do autor da sua deshonra, do infame que lhe roubara a filha.

Por conseguinte e sabendo por Yago que Othello se encontrava áquellas horas nas margens do Adriatico, e não longe do porto, onde estava ancorada a galera destinada a transportal-o nas suas expedições guerreiras, reuniu a toda a pressa alguns soldados, e pondo-se animosamente á frente da pequena escolta, ordenou a seu sobrinho e a Yago que o guiassem até o sitio onde poderia encontrar o raptor de Desdemona.

Rodrigo prestou-se de bom grado a acompanhal-o; mas o alferes, que tinha razões sufficientes para recear que o mouro o visse em companhia dos que iam perseguil-o, allegou tão plausiveis e logicos motivos, que o vingativo e furioso pae consentiu em que marchasse deante de elles, precedendo-os a boa distancia, para que quando a ameaçadora comitiva chegasse onde estava Othello, elle se encontrasse já ao lado do chefe, ao qual teria entretanto explicado satisfatoriamente a sua ausencia.

Assim fizeram, com effeito, adeantando-se Yago a passo largo, pelo caminho mais curto e seguindo-o lentamente, Brabancio, Rodrigo e os homens de armas que os acompanhavam.

Precisamente no momento em que Yago se apresentava ao general, recebia este uma embaixada do Doge, que, apesar do adiantado da hora, estava presidindo ao Conselho dos Dez convocado a toda a pressa para assumpto de vital interesse da Republica e que exigia a presença immediata do general ante o Conselho.

--Está bem, respondeu gravemente Othello aos emissarios do Doge que acabavam de dar-lhe esta ordem. Já os sigo; para fallar verdade, preferia aguardar o dia de amanhã para tratar negocios graves; pois asseguro-lhes, senhores, que esta noute tenho mais coração do que cabeça. Mas o Estado está acima de tudo e obedeço o sua senhoria. Partamos.

--Alto ahi, perro traidor, ladrão de honras, corruptor de donzellas! gritou uma voz colerica e cheia de ira, no momento em que o mouro e os commissionados do Doge se punham a caminho.--Pára ou mato-te como o miseravel que és! Que fizeste de minha filha? Vamos, responde, infame Restitue-me Desdemona!

Ao encontrar-se cara a cara com Brabancio, que, como já terão advinhado os leitores, era quem o increpava tão asperamente, o mouro ficou preplexo por um instante e sem saber, realmente, que partido tomar, pois era a primeira vez na sua vida que ouvia um homem insultal-o de tal modo. Mas recuperando acto continuo o sangue frio, dominou a situação com um simples esforço da poderosa vontade e respondeu brandamente ao velho:

--Senhor, reprimi a vossa colera, que não tem razão de ser, pois nem eu sou ladrão de honras, e menos ainda corruptor de donzellas. Vossa filha seguiu-me esta noute voluntariamente, como está disposta a confessál-o, e, apesar de ha tres horas ser minha mulher, permanece todavia tão pura como os anjos do céu. Juro-o pela minha espada!

--Mentes como um cão! gritou fóra de si o velho. Minha filha não te seguiria de boa vontade e ainda menos se prestaria a ser esposa de um infame hereje como tu! Recorres a tão estupida desculpa para te livrares de cahir nas minhas mãos. Mas enganas-te, miseravel! continuou irritado Brabancio, avançando um passo mais para Othello, enganaste, se julgas ser-te facil escapar á justiça e á minha vingança. Vês estes homens que me acompanham? accrescentou voltando-se e apontando com o braço hirto para os companheiros; pois bastará um signal meu para te arrancarem com os seus punhaes a alma do corpo, se vacilas um só momento em me seguires.

O africano contemplou fixamente, durante um segundo, o encolorizado pae de Desdemona, e no bronzeado rosto deixou transluzir uma expressão terna e compassiva; depois ergueu a poderosa cabeça com um gesto de leão e lançou um olhar de supremo desprezo aos homens que acompanhavam Brabancio.

Em seguida respondeu com voz meiga e socegada:

--São poucos, senhor, para obrigar Othello a que faça o que não quer, emquanto estas duas mãos possam manejar uma espada ou estrangular um homem, e ao pronunciar estas palavras, o mouro estendeu os atleticos braços n'um tal gesto, que todos, até o proprio velho, retrocederam um passo e soffreram uma especie de calafrio que lhes chegou até aos ossos; são poucos, repito; seriam necessarios mais homens e, sobre tudo, homens de tempera, differente d'esses que vos acompanham. Mas ha outras razões mais poderosas, continuou o formidavel africano com a mesma brandura até ali mantida, que vos impedirão agora de pôr mão sobre mim.

--Quaes? rugiu o velho cego pela ira. Julgas por ventura que te vaes livrar com as tuas valentias?

--Não, respondeu friamente Othello; livro-me pelo menos agora, porque assim é a vontade do Doge, que acaba de chamar-me para que compareça sem a menor demora ante o Conselho dos Dez, o qual, presidido por elle, se acha reunido n'este momento para tratar de assumpto de gravissimo interesse para o Estado, e a respeito do qual, segundo parece, necessitam conhecer a minha opinião. Agora bem; proseguiu dizendo o mouro deliberadamente, ousarieis oppôr-vos á vontade do Doge e do conselho, e tolher que se executassem as suas ordens, que, como sabeis, são sagradas na Republica, expondo-vos, talvez a pôr em perigo a segurança do Estado?

--Ceus! Fallarás verdade? exclamou Brabancio desesperado ao ver que a presa estava prestes a escapar-lhe.

--Estes cavalleiros podem responder-te, affirmou o mouro, indicando os commissionados do Doge, que permaneciam a poucos passos de distancia, testemunhas mudas da acalorada scena.

--Assim é, nobre Brabancio, affirmou o que parecia ser o chefe do grupo. Quanto acaba de dizer o general é absolutamente verdade.

O velho senador pareceu ficar um momento atordoado com o peso da noticia.

Mas, de prompto, ergueu a cabeça, os olhos faiscaram-lhe com a viva satisfação da vingança satisfeita, e perguntou ao chefe dos commissionados:

--Disseste que o Doge está n'este momento presidindo ao Conselho dos Dez?

--Assim o disse e assim é, nobre Brabancio; respondeu o interpelado.

--Pois bem, n'esse caso, continuou o pae de Desdemona, que melhor accasião do que esta para exorál-o a que faça justiça? Por muito grave que seja o assumpto que presentemente o occupa, não poderá sel-o tanto que o impeça de ouvir a queixa de um senador da Republica, sobre tudo de um senador da minha ascendencia, contra um bandido que o Estado abrigou incautamente, no seu seio. Ides á presença do Doge, não é assim? Pois bem, eu vou tambem e assim ganharei tempo, em vez de o perder, como suppuz. Já vês, concluiu o raivoso velho dirigindo-se a Othello, que não ha poder humano que te livre da minha vingança! Vamos ter com o Doge e pedir-lhe justiça!

E todos formando um grupo compacto abandonaram as margens do Adriatico e perderam-se lentamente nos solitários e tenebrosos labyrintos da poetica cidade dos canaes.

II

Othello

Apezar da gravidadade das circumstancias, o Doge não poude conter uma exclamação de surpreza ao ver entrar Brabancio na sala onde se celebrava o conselho, acompanhando Othello, sem que para isso trouxesse ordem sua. Lançou pois, um olhar colerico ao velho senador e perguntou severamente:

--Quem se atreve a desobedecer d'este modo á minha vontade e ás leis da Republica, que prohibem a entrada na sala do Conselho a todo aquelle que não tenha ordem expressa de comparecer ante mim?

--Eu, Senhoria--respondeu em tom firme, e attitude respeitosa o pae de Desdemona.--Eu, que venho pedir-vos justiça para o irreparavel ultraje que lançaram nas minhas cans e no meu nome de patriota.

--Tão urgente é o caso e tão imperioso e vehemente o teu desejo de ver reparado o agravo que recebeste, para olvidando toda e qualquer consideração, entrares n'este recinto sagrado para todos os cidadãos da Republica?--replicou o Doge com enfado.

--A Vossa prudente e sabia rasão julgará por si mesma--disse Brabancio sem se deixar intimidar pela attitude severa do Doge, attitude que se reflectia nos dez membros do Conselho. E, acto continuo, indicando a Othello que permanecia de pé a seu lado.--Este homem, que a Republica acolheu em hora aziaga para todos, acabou de roubar-me a filha, deshonrando-a, deshonrando-me tambem e lançando uma mancha indelevel sobre toda a nobreza veneziana, sobre o nobre nome que me orgulho de usar. Justiça, Senhoria, contra tamanho criminoso! justiça, se não quereis que eu renegue a propria terra em que nasci!

--Tranquillisa-te, bom Brabancio--respondeu o Doge com benevolencia--se é certa a accusação que acabas de fazer contra esse homem, contra esse habil e heróico general que mais de uma vez tem dado provas da generosidade do seu coração, salvando a Republica, eu te prometto, como cavalleiro veneziano e como magistrado supremo do Estado, que justiça te será feita! Bem disseste affirmando que o ultraje que recebeste recae sobre todos os teus compatriotas. Mas sabes, prudente velho, que os momentos actuaes são em extremo solemnes e as circumstancias gravissimas? Os turcos dirigem-se contra ilha de Chypre, com uma poderosa esquadra, e d'ella se apoderárão, facilmente se não realizarmos um verdadeiro milagre de vontade e de força. Agora bem--proseguiu o Doge, com convicção.--Sabes o que significa para Veneza a perda da ilha de Chypre? Significa ver-se reduzida a Rodas no Archipelago; é a ruina do seu commercio com a Grecia e com toda a parte oriental da Europa; é o principio da decadencia do seu poder no Mediterraneo, e quando Genova, Florença e o Pontificado saibam isto, cahirão sobre a orgulhosa soberana do Adriatico como um bando de abutres sobre uma aguia ferida e enferma, para repartir os seus restos e insultar a sua passada grandeza. Immensa e justa é a tua dor, pobre velho, mas ante as calamidades que ameaçam a Republica, tu, varão sabio e prudente, responde: que significa a desgraça de um individuo, de uma familia, de uma dôr pessoal por grande que seja, comparada com o soffrimento de um povo?

--Perdoe-me a Vossa Senhoria e o sabio Conselho, respondeu humildemente o velho; ignorava as terriveis noticias que me acabaes de communicar e cega-me a dôr e a soberba. Soffra eu e os meus mil vezes, dado que se salve a Republica! Se a pessoa que a póde salvar é esse homem, terminou indicando Othello, desde este momento retiro a minha accusação e esperarei pacientemente, para lavar a mancha cahida sobre o meu nome, que venham melhores tempos! Veneza e a Republica acima de tudo!

E, ao dizer estas palavras, o nobre velho pareceu verdadeiramente transfigurado pelo generoso enthusiasmo que lhe trasbordava do coração, enthusiasmo que se communicou instantaneamente a todos os circumstantes, exceptuando Othello, que permaneceu sereno e frio como estatua de bronze. Mas apenas acabou de fallar o pae de Desdemona, e antes que o Doge tivesse tempo de responder-lhe, agradecendo a nobreza da sua conducta, como pensava fazel-o, o mouro estendeu o braço direito, como dando a entender que queria pedir a palavra, e ao ver que os membros do Conselho inclinavam a cabeça, com um gesto de approvação, começou com voz grave e pausada: