Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV

Chapter 9

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--Basta, Canhoto, basta! acudiu Safio, que não reparara no bésteiro; vais fazer perder a alma á ra­pariga. No céu dos mouros... que é o inferno, accrescentou por entre dentes... não entra quem prova do sumo da uva, ouvi dizer.

O bésteiro arredára Canhoto, e, com um braço debruçando-se sobre o corpo da sua namorada, tomava-lhe as mãos entre as suas, quando ella abriu os olhos, murmurou algumas palavras inintelligiveis, e tornou a fechál-os, soltando um suspiro.

--Garifa! Garifa! tornou a exclamar o amigo de Fernando.

--Quem me chama? perguntou a moura, como se acordára de um somno, com voz fraca, descerrando de novo as palpebras, e fazendo um esforço para se erguer.

--Eu, eu, Garifa! acudiu João Bispo cheio da alegria.

--Porque me não deixaram morrer? murmurou a filha de Humeia cobrindo o rosto com as mãos.

--Morrer, Garifa?! E que querias depois que eu fizesse no mundo! exclamou o mancebo affastando-lhe­ com brandura as mãos do rosto. Que faria eu? proseguio... Morrer... morrer tambem!

A moura meneou a cabeça; fixou a vista, como admirada no besteiro; estremeceu toda, e dos olhos rebentou-lhe o pranto ao mesmo tempo que os soluços do peito. João Bispo, que, em alguns minutos apenas experimentara os mais contrariados affectos, a extrema dôr e a alegria, redobrou os seus carinhos, as palavras affectuosas; mas as lagrimas continuavam a correr em fio dos olhos de Garifa.

--Garifa, minha Garifa, porque choras? Deixa esse pranto com que me amofinas. Eu estou aqui, Garifa, e ninguem nos ha de agora separar. Tu cumpres a tua promessa... e teu pae, que não espera já vêr-te...

--Oh, meu pae, exclamou a moça interrompendo-o, e de novo cobrindo as faces; com que rosto lhe poderei eu apparecer?!...

--Elle perdoará tudo, Garifa; esquecerá tudo... e que não perdôe, eu...

--Nem elle, nem tu; João... Oh! porque me não deixaram morrer!

--Eu? Garifa? Eu não te entendo... Que mal me fizestes? porque te hei de malquerer?...

João Bispo estacou, e de um salto ficou de pé. O que se passara causara-lhe um violento abalo, para dar logar a reflexões, e esquecera-se de que a mulher, que assim tentava pôr termo á vida, tinha, duas semanas havia, desapparecido; esquecera­-se do que lhe dissera o petintal e das suspeitas que o levaram ao ­ castello de Gaya. Tudo, porém, resumido em uma idea unica acabára de lhe passar pela mente.

--Rausada?! exclamou, abaixando-se a arredar-­lhe de novo as mãos das faces, procurando vêr se dos olhos mais depressa do que dos lábios obtinha uma resposta.

A moça só redarguiu:

--Porque me trouxeram á vida... porque?

--Rausada! tornou João, passando uma das mãos pela fronte, em quanto com a outra apertava o cabo do punhal. O nome desse homem, e pela hostia consagrada juro que dentro em dias o repetirão em resa de finados. Falla, Garifa: o nome desse homem? Vilão ou cavalleiro que seja, eu me pagarei em sangue de quanto elle me roubou. Garifa, Garifa!

Soluços e lagrimas foi a resposta que obteve da filha de Humeia.

--Garifa, não respondes? Dize... dize que não te pozeram mão, dize, proseguiu o mancebo fóra de si; livra-me desta idea que me faz perder a cabeça; livra-me della ou aponta-me um homem em quem desafogue todo o desespero que sinto. Tu não me atraiçoaste, não; não era possivel... Empregaram a força; empregarei a força, e hei-de esmagar quem quer que seja o rausador. Garifa, não respondes? Uma palavra!

--Que queres que te diga, João? Esmagaram o nosso amor, tornando-­me indigna de ti: a filha de Humeia não póde mais apparecer com a face descoberta!

--E o refece, o maldito?! gritou o bésteiro apertando com violencia os pulsos da moura.

--A aguia vôa tão alto que não a alcança a garrocha, murmurou meneando a cabeça, depois de alguns instantes de silencio, a namorada de João Bispo.

--Quem foi, Garifa, quem foi?

--Deixa-me, João.

--O nome desse homem!... o nome desse homem!

--Não, não posso.

--Não pódes?...

--Não, não posso: dizer-te o nome era fazer-te açoutar ámanhã no pelourinho... era matar-te...

--Ayres Gonçalves... Henrique Fafes!... gritou João Bispo.

--Não... não m'o perguntes...

--Qual delles, Garifa; qual delles? Affonso Darga?

--Ninguem!

--Ninguem?! O nome desse homem, ou tu és tão vil como elle!

--Serei, João... sou. A moura do Olival, que te queria tanto como á luz dos olhos, morreu no dia em que lhe pozeram uma mordaça na bocca e ataram os pulsos: atiraram depois o corpo ao monturo... como de moura que era. Garifa morreu, João: o que aqui está é uma desgraçada corrida por palafreneiros... a quem a lançaram...

--Calai-vos, calai-vos! exclamou o moço bésteiro, pondo a mão na bocca da sua namorada. Não póde ser... é impossivel!

--Antes fôra!... murmurou Garifa.

--Em má hora vim ao mundo!

João Bispo calou-se e deixou pender a cabeça sobre o peito. Quando de novo a ergueu, as palpebras estavam vermelhas, mas seccas; os olhos vagavam-lhe incertos; o rosto estava pállido, e uma contracção nervosa dos musculos parecia emagrecer-lhe, avelhentar as feições. O amigo de Fernando Vasques, occultava sob as vestes grosseiras um grande coração, cheio de fogo, de energia, e toda essa energia empregára-a no amor da filha de Humeia. A moura do Olival era tambem a unica mulher que topára no seu trilho capaz de não esfriar essa paixão. Não prendia, não captivava sómente com a bellesa do corpo; captivava com os dotes do coração, da intelligencia. Garifa tivera na infancia faixas bem superiores ás telas grosseiras dos vestidos que trajava no Porto. Para corresponder á exaltação, que a vida ociosa e ao mesmo tempo cheia de sobresaltos e de incertesas produzia na mente do escolar de S. Domingos, era necessaria a exaltação do sangue arabe, fervente nas veias de Garifa. É facil de avaliar qual o abalo que o mancebo recebeu no caes de Gaya. Aquella desventura, receara-a, temera-a; mas não se afizera á idem de que se realisásse; achára sempre a providencia a estender a mão á sua namorada, a protegel-a. Na maré mais negra seguindo-a com o pensamento, depois que ella desapparecera do Olival vira-a morta; mas se encontrasse no Douro o seu cadaver, a mágoa­ não fôra tamanha como a que sentia.

Mesteiraes e marinheiros fitavam commovidos os dous amantes, que se conservavam mudos affastando as vistas um do outro: João de pé, sombrio, pensativo; Garifa de joelhos, lacrimosa, tremulla, branca como a roupa que vestia por baixo do roto gabão, que um marinheiro lhe lançara aos hombros.

--Rausada! murmurou passados momentos o mancebo, sacudindo a cabeça, como se assim podesse repellir aquella ideia.

Depois, estendendo a mão á pobre moura, ajuntou:

--Vem, Garifa; já não sou tambem o mesmo que era. Vem commigo.

A moça, levada pela solemnidade da voz e do gesto do mancebo, e ajudada por elle, levantou-­se machinalmente, e com passos mal seguros, seguiu-o, perdendo-se os dois na escuridão da estreita rua que guiava ao povoado.

Os marinheiros ficaram olhando uns para os outros.

--Pobre rapaz! murmurou um delles.

--A rapariga era a que chegou a noite passada, quasi nua e toda magoada á taberna do tio Pero, e que elle abrigou por caridade, e livrou de dous mal encarados que a seguiam.

--Deu-me os seus ares della.

--Era a mesma, sem tirar nem pôr.

--Mal a puzeram em terra, conheci-a: era a moura do Olival.

--Coitado do Bispo, resmungou o velho Vasco. Bem enfeitiçado o traz a tal moura. Estas condemnadas teem taes artes, que, se vos lançam olhado, fica-se perdido de todo. Teem feitiços para tudo. Um rapaz conheci eu no meu tempo, que se myrrou de todo, e morreu por causa de uma destas maldictas. Em casa da rapariga, uma moura, e linda até alli, encontraram uma figura de cera feita a imagem d'elle com os olhos pregados, e um alfinete enterrado no sitio do coração.

--Qual feitiço, nem meio feitiço! resmungou João Canhoto.

--Não acreditas! accudiu outro mesteiral. As mouras todas sabem de feitiçaria, e quando querem querem que um homem lhes queira, a ellas ou a quem isso lhe pede, apanham um sapo, e cozem-lhe os olhos.

--Não digo que se não façam desses maleficios; mas a rapariga do Bispo...

--Homem, é moura e basta.

--Moura ou christã, se enfeitiçava, era com os olhos. Não precisava de outra cousa, accudiu João Canhoto. A bôa gente vi ficar de bocca aberta para ella, este anno ainda na procissão de Corpus, e depois não tem sido nem a um, nem a dous senhores de alta linhagem que tenho visto seguil-a, todos requebrados. A um dos que está no castello ainda ha semanas encontrei em seu alcance pela aljama, era já noite cahida. Não disse nada ao Bispo, por que elle faria alguma!

--Feitiços, feitiços, para nos perder a alma, resmungou o velho.

--Ora, mestre Vasco! Tambem enfeitiçou ella a quem o poz naquelle estado? A pobre, que se queria finar por se vêr assim, é porque não foi por sua vontade que a tiraram de casa. Christãs conheço eu, como as palmas das mãos, que não a valem. Se mestre Vasco estivesse mais novo, e ella lhe dissesse palavras de bem querer...

--Credo! era um peccado!

--Deus me perdôe; mas eu não o tenho por peccado; se o é, muita gente pecca.

João Canhoto não deixava de dizer a verdade: as mouras por aquelles tempos roubavam ás christãs bastantes corações, tanto de nobres, como de peões, o que as obrigava a crêr em poderes occultos, para não se confessarem derrotadas nos encantos. Nos paços dos cavalheiros e ricos-homens, muita descendente de Agar, forjava dos ferros que lhes lançára a escravidão cadeias para os seus senhores: nas cidades as mais jovens e formosas eram como Garifa forçadas quasi a mostrarem as suas graças em publico nas grandes solemnidades: eram as bailarinas da epocha, e as bailarinas teem feito dançar muita cabeça desde Herodiade até aos nossos dias. Os escrupulos do velho Vasco não eram partilhados senão pelos que se viam no seu estado. Os legisladores, entretendo-se a impedir relações ou ligações entre as duas raças com penas mais ou menos sevéras, não quizeram, ao que parece, mais do que deixar prova de que ellas eram um pouco frequentes, e que já então se faziam leis para ficarem letra morta, salva uma ou outra excepção feita com algum pobre de Christo. Nos principios do seculo XVI ainda apparecem trovadores, que, apregoando o seu affecto por descendentes de Azharat e de Shobeia, não nos deixam ficar por mentiroso.

Para crédito das nossas avós christãs, attribuamos a maior recato dellas, as conquistas das moças do Islam. O leitor, comtudo, não fique pensando que estas não tinham sobre a virtude, sobre o pudor e sobre o amor ideas identicas ás professadas por aquellas. Garifa não era uma excepção unica feita para João Bispo: as ideas com que hoje são creadas as mulheres no Oriente, não eram as das mulheres arabes de Hespanha. Com pequenas excepções, o amor no seculo XIV tinha em Granada as mesmas leis que na côrte da condessa de Champagne.

O leitor poderá agora dizer-nos o mesmo que Safio a Vasco e João Canhoto:

--Deixemo-nos dessas cousas.

O marinheiro accrescentou:

--Vamos: a noite de S. João é para descantes e folias! Venham as moças para o terreiro. Eia! mãos á obra: avivar as fogueiras e tanger as violas, que as cachopas acudirão! Ehuh! Mafalda! Joanna!

Pouco depois ninguem diria que na praia da velha Cale se tinha passado uma scena de lagrimas; que uma pobre rapariga tentára pôr termo aos seus dias; que um coração se despedaçára. Um bando de raparigas, de marinheiros e mesteiraes, dando as mãos uns aos outros, dançavam, ou melhor, giravam, formando circulo, em volta de uma grande fogueira, e entoavam todos esta cantiga, que os musicos da festa faziam por acompanhar:

«Todas as hervas são bentas Em noite de S. João Só o trevo, coitadinho! Anda a rasto pelo chão.»

E o sol, nascendo, ainda os encontrava no mesmo local.

X.

Uma idea.

Não falta com razões quem desconcerte Da opinião de todos na vontade. Em quem o esforço antigo se converte Em desusada e má deslealdade.

Camões. _Lusiad._ Cant. IV.

Os burguezes do Porto tinham desempenhado a sua palavra: os navios promettidos estavam a nado nos aguas do Douro, promptos para dar á véla. Os cavalleiros e ricos-­homens nem todos procediam do mesmo modo; o fogo do amor da patria era em alguns, tibio, em outros nullo. Ayres Gonçalves de Figueiredo era deste numero. Approveitara os conselhos de sua mulher, e fazia todo o possivel por aguardar que a situação se definisse para entrar com segurança na contenda. Martim Gil, mandado pelos portuenses, ao conde D. Gonçalo, delle recebera uma resposta favoravel, depois de feita, entende-se, a concessão das terras da rainha D. Leonor a sua mercê, e a das de Lordello e Bouças seu filho D. Martinho, fóra outras miudesas, taes como dinheiro e peças de panno; porém o conde adiava, sob pretexto de aprestes, a sua partida, quanto lhe era possivel. O Mestre lembrava continuamente os apuros em que estava a sua boa cidade de Lisboa; mas os nossos homens não se queriam metter tambem nelles, sem a certesa de bom resultado. Ayres Gonçalves tinha os olhos no conde de Neiva; Affonso Darga e outros cavalleiros aguardavam a resolução do alcaide de Gaya. Ruy Pereira, no entanto, enfastiara-se de tanta delonga, e tendo Alvaro da Veiga, Luiz Giraldes e Domingos Pires lembrado que se enviasse a armada receber o conde á Figueira, o alvitre fôra acceite, com grande amofinação­ dos Fabios politicos, que trataram logo de procurar embaraços á sua realisação.

Uma circumstancia os favoreceu.

Quando, pouco depois do S. João, a municipalidade tratava não só de abastecer as galés, mas até de enviar alguns viveres para os sitiados, como fôra requerido, alguns companheiros de Fernando Affonso de Zamora, deslembrados da lição dada em Santo Thyrso, ou outros aventureiros similhantes appareceram nas visinhanças da cidade. Mal a noticia se espalhára, frei Garcia fora ter com Pedro Choca, e causára nas tercenas um alvoroço extraordinario, pintando as cousas o mais feias possivel. Este alvoroço, graças a outros individuos, se tornou contagioso; o temor calou nos animos fracos, e na tarde desse mesmo dia nas ruas, terreiros e praças lamentações não faltavam.

--Eis de novo esses malditos gallegos! más terçães os colham! dizia um mercador. Não nos deixam tomar folego os hereges, e em bem mau estado vão já os negocios. O tempo vai bom para espadeiros; que os outros não veem pogea. Tudo são guerras, agora, e desordens. Dantes não era assim. No tempo do rei D. Pedro!... suspirou o bom homem, e concluiu meneando a cabeça, e fitando os olhos no tecto da loja.

Este gesto queria dizer que no tempo do pae do Defensor a paz florescia na terra, e era, talvez, copiado de outro identico, feito pelo senhor seu progenitor quando o amante de Ignez de Castro talava o Douro e o Minho, e mesmo de algum feito por seu avô, affectado pelas desavenças de D. Diniz com o pae do rei D. Pedro.

--Não foram bem sangrados, e veem por mais esses castelhanos ou acastelhanados, redarguia um visinho; pois terão o seu escote, como o teve o de Zamora e o arcebispo.

--Mal haja quem mal faz!

--Ruy Pereira, Ayres Gonçalves, ou qualquer os receberão como merecem.

--Assim creio; e por isso, como me dizia ha pouco mestre Lourenço, é que não acho muito acertado mandarem para Lisboa quanta bôa lança ha por ahi. É dever acudir ao proximo; mas em primeiro logar estão os da casa.

Quasi todos os dialogos, travados em diversos pontos appresentavam, espremidos, o mesmo succo que o ­do bom mercador quando pelo lado das Hortas entrava uma grande manada de bois, e rebanhos de ovelhas e cabras, destinados ao abastecimento das galés. Alguns ociosos, encontrando-se com a manada fizera-­lhe cortejo; alguns mesteiraes, vendo os ociosos, pousaram a ferramenta e engrossaram-no; os garotos, que possuem o faro dos grandes ajuntamentos, conhecendo que se formava um, surdiram de todos os bêcos, para o completar. Ao chegar o gado a S. Domingos, caminho das tercenas, onde deviam os carniceiros preparar as carnes, a procissão era solemne pelo numero. A ideia que presidia a todas as lamentações ia ser formulada de outra sorte: frei Garcia e alguns outros apaniguados do alcaide, achavam-se entre as turbas; Pedro Choca, desembocára do lado da Esnoga, sahido de uma taberna, onde, junto com individuos que deviam estar debaixo da jurisdição de Tello Rabaldo, tinha enxugado algumas medidas de vinho, e não era pelo menos destituido da manha necessaria para certas empresas.

Se o concurso era grande, tambem era ruidoso. Os conductores da manada gritavam, vendo que uma ovelha tresmalhava, picada por algum rapaz travesso, ou um boi estacava, atemorisado por negaças; os homens d'armas da escolta praguejavam no meio de tantos embaraços; aqui uma mulher queixava-se de que a pizavam; além alguns homens altercavam com os bésteiros, que os repelliam do transito; mais longe chorava uma creança. Os garotos e os vádios praguejavam, gritavam, riam-­se, assobiavam, cantavam e imitavam o balido de ovelhas e cabras, e o mugido dos bois, como se os animaes se recusassem a tomar parte naquelle concerto.

Entrando no terreiro a multidão, crescera a algazarra. Uma chusma de homens cobertos de andrajos, bem similhante á que estacionava no Olival, no dia da chegada da mensagem, correra para as boccas das ruas que iam dar ao rio, obstruindo-as completamente. Quando os guardas dos rebanhos quizeram abrir caminho para as tercenas, os vadios demonstraram a sua má vontade com apodos a que responderam os acontiados da behetria com os contos das azevans, ou as béstas, manejadas em ar de clava. Nesta destribuição de pancadas foram, como succede muita vez em casos taes, contemplados bastantes innocentes. Um bésteiro, querendo chegar a um velhaco, feriu no rosto uma mulher, levada para o centro do motim pelas ondas de povo. O sangue, correndo pelas faces da pobre creatura, indignou alguns circumstantes, que só a curiosidade alli trouxera.

--Fazei praça, exclamou d'entre elles um burguez, fazei praça, mas com tento. Guardai os virotes para castelhanos escismaticos. Em recontro ou batalha talvez o braço não ande tão destro.

O acontiado fez um gesto como de quem ia empregar syllogismo contundente; mas a prudencia o aconselhou melhor, e contentou-se com redarguir:

--Cuidai no vosso mester, bom homem, e deixae-­me. Onde pozeram a mira estes velhacos sei eu. Não lhes passa ha mezes pelas goelas bocado de cabrito, e querem fazer bôdo com algum que filem.

--Olha o outro! gritou um petintal. Se não comemos cabrito todos os dias, comemos pão; mas amassamol-o com o nosso suor: não o vamos roubar pelas padeiras. Os tagantes do aljube ainda teem a pelle de dous dos vossos! Nós não nos servimos das adagas para cortar escarcellas de mercadores encontrados fóra d'horas.

--Muito nos custa a viver! acudiu uma gôrda cidadôa, e mais custará agora que levam todo isso para Lisboa.

--E não parará ahi, disse um dos companheiros de Pedro Choca do meio da turba: vai quanto mantimento se encontra pela redondesa e ha na cidade.

--Se os de Lisboa estão cercados pelos de Castella, que façam como fizemos em Leça: se por lá estão minguados de mantimentos, tambem não nos sobejam.

--E os do arcebispo ainda não foram desta tão malferidos, que não possam voltar, disse uma voz. Alguns corredores teem sahido de Braga.

--É verdade, é verdade! berraram ao mesmo tempo dez ou doze mesteiraes. Os de Lisboa que se avenham como poderem.

--Teem braços como nós.

--E não havemos de finar-nos á mingua. Os mercadores mandam boas dobras.

--E a prata da Sé vai tambem!

--Já os alvazires carregaram uma galé de armas, e de Coimbra e Montemór vieram outras.

--Que se contentem com isso, e com o biscouto e farinha que embarcaram!

--Deixai que não faltará, louvado Deus, mantimento na cidade, embora levem tudo isso ao Mestre.

--Fallais assim redarguiu um dos queixosos, voltando para o ordeiro, que proferira estas ultimas palavras, porque se um pão de praça vos custar dous reaes brancos, tendel-os na arca! Nem mealha deixaremos embarcar.

--Nem mais tanto como uma unha negra!

Este dialogo, ou esta scena, que se passava ao pé do arco, como nas tragedias antigas tinha o seu côro n'uma gritaria descompassada de que seria difficil dar uma ideia. O que sobresahia no meio de tudo, eram os _vivas_ e os _morras_. Se se perguntasse a cada um dos coristas em separado porque davam essas vozes, nenhum talvez vol-o diria, a não ser que confessassem que sentiam a necessidade de gritar, e que na falta de melhor cousa, aquellas palavras serviam perfeitamente para tudo: enthusiasmavam, animavam o tumulto, e de mais apregoavam que eram muitos bons patriotas. Os vivas eram ao Mestre; os morras aos scismaticos: levar a mal aquella berraria, ninguem podia levar.

Do lado opposto a algazarra era a mesma, com pequenas variantes.

Os conductores de gado e os guardas embrulhados pela chusma não tratavam já senão de se deslimdarem della, e de acudir aos rebanhos.

Alguns amotinados tinham, para desembaraçar o terreiro, conduzido a maior parte do gado graúdo para as azenhas: ovelhas e cabras, essas corriam em todas as direcções. Para cumulo da confusão, quando Pedro Choca e os seus companheiros persuadiam o povo a que se dirigissem ao paço episcopal ou á casa do municipio, dous touros, enfurecidos ou assustados pelo ruido e negaças d'alguns garotos, tinham aberto caminho para o lado da Esnoga, derribando e maltractando algumas creanças e mulheres. A culpa do desastre era dos amotinados; mas todos elles á uma tinham procurado origem mais remota, e lançaram aos vereadores e bons homens que tinham ordenado a remessa dos mantimentos. Um velhaco lembrara-se de juntar aos «morras» da ordem um aos «alvazires, que queriam matar o povo á fome» e entre multidão, mesteiraes, que horas antes teriam dado a sua ultima pogea, se para sua senhoria lh'a pedissem, repetiram aquelle grito.

Uma voz ampliou-o:

--Morram os traidores, que querem dar cabo da arraia miuda para entregar a cidade aos de Castella!­

--Morram os traidores! uivou a chusma.

E apparecia já o alvitre de se ir em procura de alguns alvazires, e até mesmo de os tractarem como ao arrabi-menor, quando dois daquelles appareceram no terraço do arco de S. Domingos. Ruy Pereira, que vira rebentar o alvoroço, mandara-os chamar e a alguns bons homens para que socegassem os animos como podessem. O tio de Nuno Alvares, a principio tivera, ao ouvir o arruido, vontade de baixar ao terreiro e cortar naquella villanagem, que de cabeça tão levantada, insolente e turbulenta trazia o Deffensor; mas, apenas mandara sellar o seu cavallo, a reflexão lembrou-lhe a inconveniencia de um tal passo, e ­a reminiscencia poz-lhe diante dos olhos os tumultos de Lisboa e Evora e tantas outras terras do reino. O mensageiro do mestre, contentou-se, pois, em desabafar em pragas, em dar duas grandes punhadas sobre a mesa, e desappareceu pelo lado da cerca­ do convento onde pousava, para não se ver obrigado a aturar o bom povo, deixando as authoridades municipaes em apuros. Não eram fortes em rhetorica os bons homens, e a pouca que lhes concedera a natureza fugira assustada.

Os velhacos, dando por elles saudaram-nos com uma ladainha de apôdos que faria pasmar ao leitor pela quantidade e pelo desusado.

A arraia do terreiro tinha grande vantagem sobre os burguezes do arco: para o attaque bastavam palavras soltas, ou mesmo gritos inarticulados; para a defesa, para satisfazer as exigencias de Ruy Pereira, era necessario um discurso, pequeno ou grande, mas um discurso.