Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV
Chapter 8
O conde D. Pedro vestia sobre ricas armas de Toledo cheias de relevos, esmaltes e embutidos, um brial côr de cereja, onde, em vez do brasão proprio, havia bordadas chammas de ouro, e no escudo, esmaltado da mesma côr rubra, e taxeado de ouro, lia-se a palavra «_Cuydado_» entre duas palmas, que enramavam um sol feito de espadas. Um malicioso notou que o desenho do escudo podia figurar a roda de navalhas de Santa Catharina, e que a esposa de Ayres Gonçalves trajava um corpete de tela, da côr favorita do mantenedor do torneio, adornado com um peitilho e fraldilhas de arminho; todos poderiam notar egualmente que, quando, ao fazer caracolar o seu ginete, o conde deu uma volta á roda do circo, antes de tomar das mãos do escudeiro que o seguia o elmo, a lança e o escudo, entre elle e a nobre castellã se cruzára um olhar expressivo; porém, o governador de Gaya mostrava-lhe um sorriso de agrado, e eram tão sabidos os recentes amores, que o tinham feito abandonar a côrte de seu tio, que a maledicencia achava-se um pouco embaraçada nos vôos.
O mantenedor do campo foi saudado com tanto enthusiasmo ou mais que o trovador, e da mesma sorte foram acolhidos, em seguida, os contendedores, que se appresentaram: Vasco Martins de Mello, Gil Esteves, Affonso Darga, Henrique Fafes, um dos irmãos Alvalade, micer Manoel Pessanha, Affonso Henriques de Transtamara, e outros mancebos, todos tão adornados e vistosos, que á multidão iam-se-lhe os olhos nelles, não sabendo a qual dar primazia. Depois das ceremonias do costume e de um bafurdio, jogo em que cada um mostrava a destreza no arremesso das lanças, diversão tomada dos arabes, começou o combate. Vasco Martins, Henrique Fafes e Alvalade perderam a sella, não supportando o embate das lanças; micer Manoel, como mais affeito ao mar que á terra, ao dar a volta em um dos extremos da liça, para arremetter contra o seu antagonista, o fez de sorte, que, roçando pela barreira com o cavallo, o arremessou este para o outro lado, deixando-o menos maltractado que a uns dous burguezes, que lhe amacearam a queda com o corpo.
As damas debruçavam-se curiosas na balaustrada do cadafalso, e mais curiosas do que as damas as donzellas de honra e as burguesas, para quem tudo aquillo era inteiramente novo e de fortes impressões, como hoje se diria. D. Catharina de Figueiredo, entre as do seu sexo, era a excepção, como Fernando entre os homens. Alguma cousa lhe prendia a attenção, e essa cousa ficava perto da bancada onde estava o mancebo. Seguindo a direcção dos olhares frequentes da bella dama, encontrar-se-hiam as vistas do sobrinho do forçureiro, e ao primeiro relance dir-se-hia que se provocavam e comprehendiam. D. Catharina notara Fernando; notara nos olhos os reflexos do incendio ateado no coração, e illudira-se, como se poderia illudir muita gente. Extranhar a audacia a principio, podia-a extranhar; porém, mulher, havia de achar-lhe indulgencia, por virtuosa que fosse. Não o era. De sangue ardente, fogosa por temperamento pertencera, demais, á corte de Leonor Telles; era uma das damas com que a astuta rainha jogara, para formar partido, cativar a benevolencia dos cavalleiros a principio um pouco do parecer do povo que apedrejara os paços de apar S. Martinho, e não desdissera depois da escóla em que se criara. Nos seus galanteios não encontrara nunca um olhar de adoração como o que interceptava; Fernando Vasques fizera-lhe mesmo uma impressão mais que extraordinaria: fizera-lhe não só, alli, esquecer o conde; mas, depois, ainda mais, a distancia em que estava ella, dama de alta linhagem, de um simples burguez, um peão.
A illustre dama não contava com Irene, que se occultava, córando, atraz da poltrona em que se sentava: o filho do mestre de Santiago não contava tambem com o sobrinho de Gonçalo Domingues; mas via claramente que as côres e divisas que tomara podiam ser taxadas de vaidade, presumpção e nada mais.
Quando um novo contendor entrou na liça, estava tão preoccupado o nobre mantenedor, a procurar quem lhe podia roubar completamente as attenções, que não reparou que era esse o mais destro de todos, affeito aos jogos dos arabes de Granada, a medir-se com os cavalleiros da Africa ao serviço dos Alhamarides; que era seu proprio irmão, Affonso Henriques. O moço castelhano, passando junto do conde guiou tão destramente o cavallo, que lhe roçou pelas joelheiras, e dando um geito á lança, na carreira, desviou completamente a do seu antagonista e tocou com a sua no escudo de tal sorte, que o braço que o segurava, estendeu-se; a mão abriu-se e aquella arma defensiva foi ao chão. D. Pedro, ao ouvir os applausos levantados a seu irmão, e com a cabeça perdida pela distracção da sua dama, ergueu-se furioso nos estribos e arremetteu contra elle. A sua lança desfez-se desta vez em hastilhas no arnez do mancebo; porém este não saltou da sella, e em poucos instantes estava outra vez em frente do conde. A lucta tornou-se então um verdadeiro duello, e as regras do cartel apresentado no principio, consentindo tudo que fosse destresa, e mandando parar ao primeiro ferimento ou queda, pois que não era justo que grande mágoa enlutasse tão grande festejo, foram despresadas. O conde tinha sido desappontado nos seus galanteios como homem, e nos seus brios como cavalleiro. Ás lanças succedeu a espada; e as espadas como a lança quebraram, amolgando os elmos, disjuntando e torcendo peças dos braçaes. Tomaram um a maça, outro o machado, e furiosos correram um para outro.
O tio de Nuno Alvares Pereira e Ayres Gonçalves de Figueiredo, estavam tomados de assombro para intervirem na lucta; os mestres de campo, que a principio haviam tentado manter com os arautos as condições do cartel, tinham-se, embaraçados, por noviços, retirado para junto das bancadas, e olhavam uns para os outros e para os juizes, procurando conselho, que não viam nos olhos de ninguem. Os espectadores, homens e mulheres, esses applaudiam os epysodios da lucta.
A massa ressoou na armadura de Affonso Henriques, e a um rugido, um regougo seguiu-se um fio de sangue a correr por entre as fendas do gorjal sobre o arnez. Os contendores tinham-se esquecido de que eram irmãos. D. Pedro, sobretudo, estava cego. O brial do conde fez-se em farrapos, enrodilhado pela machadinha; o ginete em que montava D. Affonso, ferido na cabeça, apesar de acobertado de ferro, cahiu na arena levando o cavalleiro. Os gritos da multidão, como nos circos romanos, eccoaram pelos montes visinhos.
--A pé, a pé! gritaram alguns cavalleiros enthusiasmados, exigindo a egualdade de combate.
Não foi preciso repetir a exigencia: ou melhor fôra ella escusada: o conde de Transtamara lançara-se abaixo do cavallo, e corria direito para o irmão, que, já erguido, com o machado no ar o esperava.
--Cavalleiros, cavalleiros! exclamou Ruy Pereira ao mesmo tempo que Ayres Gonçalves, querendo sustar o combate.
Os passavantes e o mestre de campo correram para a arena, porém quando chegaram junto dos irmãos, um delles, D. Pedro, soltáva um grito doloroso, e cahia com todo o peso do corpo, fazendo ranger e estallar todas as peças da armadura.
O guante de ferro que lhe guarnecia a mão direita estava despedaçado, e despedaçado o pulso. O sangue tingiu a areia da liça.
--Jesus! se ouviu do lado das damas e depois uma borborinha correu pela assemblea; pois a queda do sobrinho do rei de Castella, tomada como o baquear extremo, produzira no povo uma impressão desagradavel.
Aquelle rumor e assombro fizeram cahir em si Affonso Henriques.
Os momos que se seguiram ao torneio foram sem interesse para os espectadores entretidos a commentar o combate extraordinario dos dous nobres castelhanos. Se recrearam alguem foi a Fernando Vasques e a Irene, e pela duração; não por outra cousa.
D. Catharina não havia tambem despregado os olhos do mancebo. Ao cavalleiro que a invocára no torneio, se concedera um olhar, fôra de curiosidade. Quando este tornára a si do desmaio em que a dôr e o sangue perdido o haviam feito cahir, passando junto delle, ao entrar para as andas em que viera de Gaya, teve algumas palavras; mas ainda, se não dirigidas, allusivas ao sobrinho de Gonçalo Domingues, que tratára de seguir Irene, apesar das exclamações do velho forçureiro, pouco amigo de se metter em apertos, lembrado do desembarque de Ruy Pereira.
--Bello pagem se fizera daquelle mancebo... se fôra de linhagem! Não é certo, micer Guilherme? disse ella.
--Bello pagem! disse o irlandez, que de certo devia ter achado a festa menos divertida que o recontro de Leça, e sem mesmo olhar para o joven que D. Catharina designava com a vista.
Fernando, perto da linda filha de João Ramalho, mais formosa agora e esbelta com as galas que lhe consentira a castellã, embellecido o rosto pelo amor; Fernando não ousára erguer os olhos, e sustentára assim a illusão para a antiga donzella de Leonor Telles, que repetio:
--Bello pagem!
IX.
Garifa.
Cade in tanto dolor, che si dispone Allora allora di voler morire......
_Ariosto_--Orland. fur. cant. V.
Maravilhou a todos o spectaculo Inesperado... Que será? disse emfim um rumor surdo De vozes dos que tremulos pararam...
_Garrett_--D. Branca--cant. I.
--Para longe o agouro! Ora esta! dizia, horas depois do torneio, em Gaya, junto da fonte do rei Ramiro, a mulher de um galeote.
--Pois que é, tia Dordia? interrogava outra.
--Que ha de ser? Vindo ás vozes do lado do monte, ouvi fallar em affogado, e bem sabe que o meu Manoel anda por esses mares!
--Para longe o agouro, repetiu a outra mulher. Isto de agouros nem sempre são certos. Fé em Deus, que elle fará as cousas pelo melhor.
--Fé em Deus tenho eu; mas bem mau é que em noite de S. João se ouçam cousas destas! A velha Mafalda, o anno passado, ouviu, ao passar ao arco de S. Domingos, fallar em um justiçado, e bem sabe o que aconteceu ao filho.
--São signaes que cada um traz ao nascer. Mas ainda não é meia-noite, proseguiu a mulher, querendo consolar a senhora Dordia da crença ainda hoje existente junto da foz do Douro, de que, quando, vespera de S. João, ao cahir da meia-noite, se procura um prognostico, ou noticias da sorte de pessoa ausente, as dão as primeiras palavras de qualquer conversa.
--Deus a ouça, visinha... Deus a ouça; mas parece-me que já será: o sete-estrello vai alto!
--Não é, não. Ólá, João Canhoto, meia-noite será?
--Não é, tia Luiza. Quer ir saltar as fogueiras?
--Eu não: forças para tal Deus as déra. O meu tempo já passou. Quando rapariga!...
--Então deitou ovo em escudella?
--Para que?
--A vêr se lhe sahe arco de egreja, respondeu o homem, que dava pelo nome de João Canhoto, rindo.
--A mim agora só se me sahir tumba. Isso é bom para cachopas.
--Vamos, vamos, tia Luiza; ainda está féra, rija como um virote, e um noivo agora era mel pelos beiços.
--Seu bargante! exclamou a velha, mostrando no rosto que a mofa do galeote não era inteiramente recebida como tal.
--Então, ainda não é meia-noite? tornou a perguntar a senhora Dordia, bastante impressionada pelo agouro tomado, para delle tirar o sentido, não obstante os gracejos dirigidos pelo galeote á sua amiga.
--Qual meia-noite! Ao cantar do gallo toda a chusma, que anda por ahi, ha de vir em descante. É uma festa de estrondo cá da gente. Verá se lá os da cidade nos levam as lampas! Só violas é uma meia duzia, e os rapazes que as tangem são mestres acabados. É de se abrir a bocca. E o Safio? Se ha por ahi quem saiba deitar uma cantiga como elle, que eu beba agua toda a minha vida! O Safio vem no rancho.
--Então, temos grande descante? interrogou uma outra mulher.
--É esperar para ver.
--O sitio não é lá dos melhores.
--Dizem que por aqui...
--O que?
--Que em noite de S. João apparece na fonte uma moura encantada... Ora uma moura de não sei que rei...
--Bôa, bôa! exclamou o galeote. As mouras não se vem metter assim com um homem do mar, por mais tresloucadas que andem. Se ella quizesse bailar na festa...
--Credo! Não diga isso, que o póde ella ouvir! exclamaram duas ou tres mulheres ao mesmo tempo.
--Ai, senhor João, bem se vê que não é da terra, e não sabe que é certo o apparecer ás vezes ahi a maldicta. Minha avó, que Deus haja, quando era rapariga, viu-a, disse a tia Luiza.
--E vi-a eu, vai em tres annos, com estes que a terra ha de comer, accudiu a tia Dordia.
--E eu, disse outra.
--E eu, exclamaram em seguida mais cinco ou seis.
--Então, como é a moura?
--Ora como ha de ser a moura? É uma figura branca, toda branca, muito branca, com os cabelos, nem fios de ouro, soltos pelas costas; e apparece a bailar na agua de um para o outro lado...
--Hoje quebra-se-lhe o encanto, atalhou o galeote, que era para o seu tempo um grande incredulo ouvindo um desfinar de instrumentos do lado da povoação.
--Alli vem a festa! Lenha para ahi! exclamou em seguida, dirigindo-se a um rancho de creanças de ambos os sexos, que saltavam por cima do brazido deixado pela fogueira.
A festa annunciada não tardou com effeito a apparecer. Uma grande porção de galeotes, petintaes e espadeleiros de Gaya e Villa Nova arranhavam em violas, tocavam tamboril, ou cantavam, fazendo coro, a canção entoada por um rapaz alto e de ar jovial, que era nem mais nem menos o Safio apregoado por João Canhoto. Para se dizer toda a verdade, deve-se accrescentar que a desafinação dos instrumentos não destoava das vozes, um pouco roucas, como as de todos os embarcadiços, e demais ressentindo-se de brodio feito em tasca.
Uma voz cantava:
Em noite de S. João Até no mar traiçoeiro Accendem anjos ou fadas Em cada vaga um luzeiro.
E, velas de seda ao vento, Passa a galé encantada; Remos de ouro batem n'agua Ao som de branda toada.
No ceo bailam as estrellas Bailam as mouras nas fontes... ..............................
--Jesus! exclamou uma mulher, pallida, com os olhos espantados, lançando-se a tremer no meio da festa.
As violas calaram-se, o cantor, que desta vez dizia versos, que não eram de sua lavra; os coros, que repetiam no fim de cada estrophe um estribilho maritimo, calaram-se tambem; os rostos tornaram-se de finados, como se tornara o da mulher. Esta, com o braço estendido, designava a fonte de D. Ramiro.
Se vós, leitora, que talvez por mais de uma vez apregoastes que não credes em muita cousa natural, quanto mais nas que o não são, visseis o que Safio e os festeiros de Gaya estavam vendo, a côr do rosto vos fugira, como a elles lhes fugiu, e talvez, como a vossa organisação não é a de qualquer petintal, um desmaio vos tirasse de sustos.
A lua no extremo da sua carreira, redonda, mergulhava no mar, marcando nas aguas uma esteira tremula, de um brilho duvidoso. O disco, meio embaciado pelos vapores do occeano, podia servir para uma imagem funebre: dir-se-hia que era o espectro do sol. Na outra margem, para o lado da cidade, por entre fogos vermelhos, appareciam e desappareciam figuras negras, como possuidas de uma vertigem, de frenesi, e a aragem trazia nas azas humidas pelo orvalho, um concerto de rizadas em todas as notas possiveis da escala, e uma discordancia de instrumentos, como em ronda de feiticeiras. O rosto tornava-o negro uma immensa fogueira feita na praia. Os reflexos da luz davam ao rosto dos marinheiros de Gaya, tomados de assombro, um todo phantastico, assustador. Toda esta scena momentos antes era alegre. Uma só cousa bastára para a transtornar. Entre o fundo escuro em que se mergulhava a margem opposta, em consequencia da fogueira que fizera avivar João Canhoto, e o lanço do rio tocado pelos derradeiros raios da lua, junto da fonte, á beira da agua, via-se uma figura branca, indefinida em tudo que não era o contorno, movel, conforme as oscillações e intensidade dos fogos, accesos que parecia, mais do que a pousar na terra, suspensa do ar, baloiçada por fio invisivel.
Aquella apparição, como transtornára o aspecto da scena, como déra aos cantos e aos risos um tom sobrenatural, tornára immoveis quasi os collegas de Safio. Se não fosse o movimento que faziam para se aconchegar uns aos outros, dir-se-hia que ella os havia petrificado. O suor innundara-lhes a fronte, e o frio corria-lhes pela espinha dorsal.
A campa do convento de Corpus-Christi dobrou compassada marcando a meia-noite, e ao mesmo tempo quasi uma nota plangente vibrou no ar. Marinheiros, que tinham affrontado a tempestade com o coração sereno, que nas galés reaes ouviram sibilar os pelouros, sentiram perto do craneo o embate do machado no machado tremeram como as folhas dos alamos. Das mulheres nem fallamos. Todas as orações, todas as fórmas de esconjuros se lhes embaralhavam na memoria, e os lábios negavam-se a pronuncial-as.
--Meia-noite, tartamudeou João Canhoto, momentos antes emprazador de phantasmas, e fazendo ao soar a ultima badalada o signal da cruz ás avessas.
--Valham-me os santos e santas do céu!
--Jesus! bento nome de Jesus!
O silencio que estas exclamações interrompiam era tal que se ouvia o respirar não muito desembaraçado daquella boa gente, e o terror tambem era tamanho, que as passadas e mesmo a apparição de um homem junto do rancho dos festeiros não foi por elles notada. Daquelle pasmo pasmou o recem-chegado, mas não por muito tempo.
--Ui, Canhoto, exclamou elle; que mau olhado vos deu, e em toda essa gente, que tendes cara de quem viu o trêpo em encruzilhada?!
--Jesus! bento nome de Jesus! repetiram as mulheres, deitando a correr para o lado da povoação, como se a presença daquelle homem quebrára o encanto de terror em que estavam.
--Ui! tornou elle, que demonio se lhes metteu no corpo?! Nem bando de cotovias que farejaram besta armada. Eh! Canhoto, que feio esgar que estás a fazer! Estás mudo, homem? Aquelles pergaminhos velhos de saias que fugiram a grasnar eram bruxas? Em noite de S. João...
João Bispo, pois era o nosso conhecido o recem-chegado calou-se, e recuou espantado, fitando um gesto dos galeotes de Gaya a apparição phantastica que os atemorisára, e quasi ao mesmo tempo dous gritos se confundiram com o baque de um corpo no rio. O phantasma branco, a moura encantada durante a enfiada de perguntas de João Bispo, approximara-se da margem do Douro, erguera os braços ao céo, como em supplica, e precipitara-se na corrente. Durante este movimento o bésteiro reconhecera naquelle vulto um ente querido, e ao grito, soltado como em adeus extremo ao mundo, juntara-se outro de angustia tambem. O pasmo produzido pelo reconhecimento feito em taes circumstancias não foi longo, porém; ao baque na agua do corpo da moura seguiu-se outro, o do bésteiro.
--João! João! exclamaram alguns galeotes perplexos; sem saber como traduzir na sua intelligencia o passo do condiscipulo de Fernando.
João não ouviu sequer aquelles gritos.
--A moura saltou ao rio! disse um espadeleiro, que se attrevera a procurar com a vista a causa do terror geral.
--Foi para casa de _Brazabu_! redarguiram dous ou tres, tomando de um folego o ar necessario para cem homens, e limpando com as costas da mão o suor frio que lhe banhava o rosto.
--João! João! tornaram os que mais perto estavam da praia.
--Arrastou-o a maldita. Não viram os olhos que ella deitava. Eram dous luzeiros.
--Guay delle! Aquillo não era moura; era o tinhoso, resmungou o espadeleiro, fazendo o signal da cruz, o vigessimo talvez nessa noite.
--A modo que sim, tio Vasco. Cheira aqui a não sei que.
--Olhem! olhem! disse com voz abafada outro marinheiro, que se attrevera a approximar-se da margem, e de novo recuára atterrado. Olhem! olhem! Não veem na agua aquelle marulhar? A moura filou o bésteiro.
--A Virgem santa seja com elle! murmuraram tres ou quatro a um tempo, dando o nosso homem como perdido de corpo e alma.
No rio, mesmo na esteira que prateava a lua, com effeito apparecia e desapparecia, para de novo surgir á flor d'agua, um vulto, a bracejar. De uma das vezes não veio só. O vestido da moura alvejou, tocado por um raio de luz, e a crença, dos marinheiros, de que João Bispo era arrastado por um espirito ou pelo demonio, mais se confirmou, levando-os a novos esconjuros. O bésteiro sobraçando o corpo e segurando com os dentes as vestes da infeliz, embaraçado nos movimentos, luctava com a corrente afim de alcançar a margem.
--A mim! a mim! gritou elle de uma das vezes em que veio ao lume d'agua; porém os marinheiros olhando espantados uns para os outros não se moveram em seu auxilio.
--S. Pedro seja com sua alma, murmurou o velho Vasco, recuando ao passo que o bésteiro se approximava da margem, um pouco escarpada naquelle sitio e então mais do que hoje. Que se apegue com a Virgem, não com a gente, que nada póde com encantos.
--Oh de terra! soccorro, por Deus, que se me fina esta desgraçada! tornou João Bispo com uma inflexão de voz, que denotava o desespero que ia naquelle coração.
Safio e Canhoto, por um impulso sobre o qual nem tempo tiveram de reflexionar, correram á praia. Safio approximou-se da rocha junto da qual o bésteiro se debatia, segurando sempre a mulher de branco.
--Uma mão a esta pobre, que já mal respira.
--É uma rapariga! exclamaram os dous marinheiros, estendendo os braços a segurar aquella que, momentos antes, tomavam todos por um ente sobrenatural.
Os petintaes, galeotes e mais festeiros pouco a pouco se tinham approximado, ouvida esta exclamação, e vendo que se não tratava de mais do que de arrancar á morte uma creatura, o exemplo de Safio e Canhoto foi seguido, e, instantes depois, João Bispo a depositava em terra a sua preciosa carga.
De novo reinou o silencio. Os marinheiros atordoados com as sensações diversas experimentadas em tão curto espaço de tempo, formaram roda ao corpo da mulher, que inane, desmaiada haviam conduzido para junto de uma fogueira, e deitado sobre um monte de trevo, alfombra improvisada das moças da terra, dispersas pouco havia. João Bispo com o olhar fixo, espantado, as mãos pendentes, os lábios entreabertos contemplava o rosto da moura, pois moura era a desfallecida. Parecia ter-se-lhe apagado completamente da memoria o que acabava de se passar: o corpo alli prostrado era uma surpresa. De repente deu um grito; lançou-se de joelhos junto da moura, tomou-lhe a cabeça no regaço, e palpou-lhe as faces e o seio, a vêr se encontrava o calor da vida, e, curvando-se, entre carinhos, como se com elles a quizesse acordar daquelle lethargo, exclamou:
--Garifa! Garifa!
Garifa não respondeu. Os lábios contrahidos, lividos, perdido o fogo que animava aquelle rosto moreno, quando, pelas grandes festas, nas danças e folias, com que as da sua raça contribuiam, fazia girar sobre a cabeça o adufe, ou agitava os cascaveis que lhe adornavam o curto saio; os olhos cerrados; as longas cilias cheias de gotas d'agua, como se a morte a surprehendesse entre prantos, nem um suspiro desprendia; nem um movimento, por leve que fosse, se lhe notava.
--Morta! tornou a meia-voz, atterrado, o bésteiro, tirando do cinto o punhal, e chegando-lhe a folha aos lábios depois de a ter limpado.
Um raio de luz, um raio de alegria passou pelos olhos do magoado amante, quando o fraco alento da moça formou uma mancha na folha luzidia.
--Garifa! Garifa! tornou elle a exclamar.
--É viral-a de cabeça para baixo! resmungou o velho Vasco; é a mésinha dos afogados.
--Garifa... minha pobre Garifa! murmurava o bésteiro.
--Safio, chega-lhe vinho; um trago não lhe fará mal, gritou João Canhoto; e em seguida, tomando o pichel que o seu companheiro trazia á cinta, derramou algumas gotas sobre os lábios da desfallecida moça, ao passo que este resmungava, vendo correr o licôr a que não parecia desaffeiçoado:
--Boa cera com ruins defuntos!
João Bispo lançou-lhe um olhar terrivel, e fez um movimento, como se tentasse desafogar em cólera contra o imprudente marinheiro todo o peso do coração, e estallar, quando Garifa moveu os lábios fazendo um gesto de repugnancia.