Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV
Chapter 7
A lucta travada além do Leça era uma temeridade. O luar alto já, allumiava o necessario para o inimigo vêr o inimigo que tinha junto de si, para uma lucta quasi corpo a corpo; e os homens d'armas do arcebispo, avançando sobre o ponto invadido, iam dar cabo dos attrevidos portuenses; demais, os fundibularios e bésteiros d'aquem temiam ferir os seus, ao passo que os gallegos, prolongando-se de lado opposto pela margem, enviando tiros mesmo ao acaso, difficultavam a passagem. Martim Correia, o escrivão da chancellaria, Gonçalo Pires, e o filho do Mestre de Santiago, D. Pedro de Transtamara, com alguns escudeiros e um troço de cavalleria da cidade, forcejavam em vão por enfiar mais além a estreita ponte, ainda hoje existente naquellas paragens. O grosso dos homens d'armas e cavalleiros embaraçavam-se uns e outros, nos vallos, fraguedos e silvados, pelos sitios onde tinham acampado, alarmados pelo rebate extemporaneo.
No rio, se se ouvia o chapejar, era o de um ou outro burguez fugitivo; no bosque o estallar dos ramos, o rumorejar dos fetos não era só produzido pela queda de virotes; era tambem pela queda de homens. Nicolau Domingues gritava a bom gritar; mas a chusma da esquadra, vinda de reforço, não se resolvia a ir juntar-se aos acontiados do Porto, quando um sucesso inesperado deu um fim brilhante ao que até então não se podia dizer mais que uma imprudencia do pae de Irene, e da sua gente.
O mosteiro dos Hospitaleiros appareceu illuminado por uma luz avermelhada: nas ameias da egreja e das torres veria quem dellas se approximasse vultos negros correndo de um para outro lado açodados, e um alarido immenso se casava ao fragor do combate da margem.
Fernando Vasques e João Bispo tinham passado o açude e approximado, fazendo um rodeio, do acastellado mosteiro, pelo lado do norte, lado desguarnecido, e bastante custára ao namorado da filha do velho Humeia a suster o seu companheiro, que na effervescencia do seu amor, cheio de enthusiasmo, imbuido de mais na leitura dos livros de cavallerias, para conquistar renome se dispunha a commetter temeridades, que serviriam apenas para alarmar os castelhanos e arriscar a vida. João persuadiu-o a voltar á outra margem, a procurar reforço para uma ideada surpresa, e não tinham do lado de áquem dado muitos passos quando lhes chegou aos ouvidos um vozear confuso, e toparam com uma mulher, que, soluçando, com os olhos arrasados de lagrimas, conduzia pela mão uma creança, chorosa tambem. Guiados por essa mulher, a quem Fernando, condoido, perguntára a causa daquelle pranto, foram ter a um casal. As portas todas da casa estavam arrombadas: por uma sahia um grande clarão. Uma velha arca e outros trastes ardiam ao canto de uma adega, e á volta das pipas tripudiava um troço de bésteiros. O vinho derramado em uma grande celha de pau, e que, trasbordando, se esbanjava pelo chão, mostrava em que estado tinham as cabeças, e mais ainda o modo porque recebiam as admoestações de micer Guilherme: dançavam, tregeitavam, grunhiam e berravam em várias linguas e dialectos, chegando alguns dos que se mostravam menos firmes nas pernas ao nariz do nobre aventureiro uma escudella a trasbordar. Para bem da verdade deve-se dizer que o irlandez, pretendendo conter os seus patricios, os inglezes, escocezes, gascões e normandos, que, recrutados pelo chanceller em Londres, tinham vindo nas galés, deitava á escudella um olhar tão terno, que não era para delle esperar grande sanha contra os indisciplinados, nem grande vontade de se metter á agua.
João Bispo via no meio de gargalhadas e motejos desfazer-se o plano combinado com o sobrinho de Gonçalo Domingues, quando este se lembrou de notar aos nossos fieis alliados por palavras e gestos que o vinho dos cavalleiros de S. João devia de ser cousa muito superior ao de pobre lavrador. Um hurrah saudou Fernando, e, cambaleando, a turma tomou o caminho do açude, apesar dos protestos de Down-Patrick.
Vinte homens, se tanto, seguiam aos dous namorados: uma duzia de archeiros de Gilles de Montferrand e alguns subordinados de Tello Rabaldo, encontrados tambem na adega do casal: os demais, embriagados, tinham ficado pelo caminho, e uns dous ou tres afogados no Leça. Bésteiros e vádios penetraram na cerca com o maior silencio em quanto João e Fernando rodeavam um páteo junto da igreja, onde os do arcebispo tinham amontoada bagagem, carros e grande porção de escadas, com que ameaçavam um assalto á cidade. A sentinella, posta desse lado, dormia, cabeceando, encostada á lança, quando Fernando deitou mão de uma das escadas para a encostar ao muro. O pobre archeiro, extremunhado, abriu os olhos, esgaziados logo pelo terror, e a bocca para dar o signal de alarme; porém aquelles embaciaram, e desta sahiu apenas uma golphada de sangue; deu umas outras duas passadas, cambaleando, estendendo as mãos como a procurar appoio, e cahiu no chão soltando um som rouco e um assobio, como de homem que desperta de pezadello. O castelhano, não despertava; adormecia para sempre: aquelle estertor sahia pela garganta e feridas abertas no peito por João Bispo.
--S. Jorge e Portugal! exclamou o namorado de Irene, abraçando-se ás ameias do eirado, e arrancando a bandeira dos partidarios de D. Beatriz, que tremulava ao pé da vermelha dos cavalleiros. S. Jorge e Portugal!
--Estamos perdidos! resmungou João, ouvindo o grito do mancebo; e estropeando o nome do aventureiro irlandez, gritou: Micer D. Patrico! micer D. Patrico, por aqui! por aqui! A mim, bésteiros!
Nas torres ergueu-se um alarido immenso: alguns penedos cahiram do eirado no páteo, e uma nuvem de virotes sibilava nos ares. Ao chamamento de João apenas tinham acudido Pedro Choca e tres vádios. O sobrinho de Gonçalo Domingues, com a haste da bandeira defendia-se dos castelhanos, que, alarmados, mais tratavam de lançar a escada a terra do que de se desfazerem do temerario inimigo.
--Abaixo, Fernando, abaixo! gritou João; e no alto das torres appareceram algumas luzes.
--Viva o Mestre de Aviz! gritou o mancebo quasi ao mesmo tempo que lhe fugia a escada debaixo dos pés, deixando-o suspenso das ameias e estribado em uma enorme salamandra de granito, que servia de goteira ao eirado.
--Ahi vem ginetes, disse Pedro Choca, fazendo um esgar. Recommendemos a alma a Deus!
--Se elle t'a quizer! redarguiu um dos vádios soprando a uns tições alli deixados em rescaldo, que embrulhára em uma pouca de palha.
--Fernando! exclamou João Bispo, encostando outra escada ao muro, apesar dos arremessos; afferra-te, Fernando, que eu sou comtigo.
--S. Jorge! S. Jorge! se ouviu do outro lado do mosteiro em altas vozes.
--A mim, bésteiros, a mim! tornou João Bispo, em quanto o seu amigo se defendia na goteira, procurando saltar no eirado.
--Hurrah! S. Jorge!
--Malditos! aquelles odres onde estarão! Micer D. Patrico!
--Arriba, João, arriba! accudiram os vádios, marinhando pela escada, que de novo tinham erguido. Aquelle endemoninhado cachopo vai morrer!
Uma grande lavareda, de repente, illuminou a lucta travada entre Fernando Vasques, os seus companheiros e alguns homens d'armas do eirado. Pedro Choca tinha lançado fogo a uns carros de palha, e este ateava-se aos enormes pavezes de vime, proprios para assalto, amontoados entre as escadas e bagagens. Era uma fogueira soberba que dentro em pouco faria estalar o travejamento dos aposentos de D. Mafalda, ao mesmo tempo que os castelhanos abandonavam o eirado da egreja.
--Os do Mestre! os do Mestre! se ouvia por todos os lados; e nas torres, besteiros e fundibularios perdiam os seus tiros.
--Hurrah! continuavam, já roucos, a berrar, do outro lado da cerca, os inglezes.
--S. Jorge e Portugal! gritaram algumas vozes, com boa clara, pronuncia portugueza, do lado do rio, apparecendo por entre os castanheiros, retirando os homens d'armas de Garcia Manrique.
--Ter! gritou um dos seus caudilhos, ameaçando com o estoque os mais medrosos; ter, rapazes! Não se diga que retiramos diante de meia duzia de villões!
--Ter, ter! exclamou o guerreiro arcebispo, apparecendo no meio dos fugitivos.
--Os do Mestre estão no bailiado! disse uma voz d'entre a multidão. Vêde, o mosteiro está a arder, e foi derribada a bandeira!
--Por Sanctiago! tornou o arcebispo para os seus companheiros, espantado da audacia dos portuenses, embrulhados já com os gallegos, e suppondo-se cortado por forças immensas; estes excommungados estão decididos a morrer, e trazem comsigo o poder do mundo. A caminho de Braga, senhores! Temos tempo sobejo para desforra.
--Covarde! resmungou João Rodrigues Portocarreiro, esporeando o seu ginete para se lançar sobre os do Mestre. Covarde! repetiu; e o fogoso animal, ferido nos peitos por um virotão, ergueu-se com as mãos no ar, e cahiu, arrojando com ruido o portuguez rebelde a alguns passos de distancia, abollando-lhe a armadura e o capacete e fracturando-lhe o craneo.
--Covarde! repetiu tambem o arcebispo com um sorriso de mofa, voltando-se para um dos seus capitães, e designando o fidalgo portuguez: temeridades não aproveitam.
A ponte tinha sido forçada ao mesmo tempo quasi, e a cavallaria de D. Pedro de Transtamara cortava já pelo meio dos gallegos, atterrados.
--A caminho de Braga! tornou a gritar o arcebispo D. João, que, lançando-se na estrada partiu, a galope, seguido de grande porção de cavalleiros, e pouco depois de todo o exercito, deixando os apprestes d'assalto, viveres e bagagens nas mãos dos burguezes do Porto.
--Senhor conde, senhor conde, aqui está a bandeira de Castella, exclamava momentos depois, attravessando no meio de vivas por entre as hostes do Mestre, o sobrinho de Gonçalo Domingues, com as mãos cheias de sangue, de feridas do corpo e da cabeça, mas tão contente, que nada lhe doia naquelle instante, e, em vez do perigo corrido, se recordava tão sómente de Irene, alegrava-se por saber que o seu nome lhe havia de chegar aos ouvidos na historia daquelle recontro.
Era um heroe feito pelo amor......................................... .....................................................................
O mosteiro dos Hospitalarios tinha sido abandonado, mal o incendio mostrou aos seus guardas as hostes portuenses além já do Leça, abatida a bandeira e em fuga Garcia Manrique. No entanto, ainda do lado da cerca, sol já nascido, as mesmas vozes roucas gritavam:
--Hurrah! S. Jorge!
--Onde demonio estarão estes bargantes? perguntou o namorado de Garifa, procurando o sitio donde sahia aquelle vozear.
Uma gargalhada estrondosa se seguia, pouco depois, á pergunta. Os besteiros encontrados no casal, não se esqueceram, chegados ao mosteiro dos cavalleiros de S. João, que vinham para humedecer a garganta com bom vinho, e foi a adega a primeira cousa que procuraram. Era de lá que tinham, com os seus hurrahs, ajudado a alarmar os gallegos.
Desta vez micer Guilherme Down-Patrick não resistira á tentação.
VIII.
Torneio.
/# E elles no Porto por ledice de sua vinda ordenarão hum torneo vespora de S. Iohão, que era em que os moradores daquella cidade costumavam fazer gram festa.
(Fernão Lopes _Chronic._) #/
Por uma tarde de mez de Junho, pouco mais de uma hora seria, caminhavam em direcção ás Hortas, no meio de extraordinario concurso, mestre Gonçalo Domingues e Fernando Vasques. O feito de Leça, tornando um heroe, entre os patriotas da terra, o moço namorado, os gabos por elle publicamente recebidos de Martim Correa e do conde D. Pedro, a ovação feita pelos populares, que em charola, o conduziram, quando perdidas as forças, pelo sangue derramado, cahira ao voltar do recontro; tudo fizera passar por alto ao bom tio a fuga da loja. O velho abraçou-o enthusiasmado tambem, com o riso nos labios e ao mesmo tempo umas duas lagrimas nos olhos e só se lembrou de fazer algumas reflexões sobre as imprudencias da mocidade, quando em casa notou a necessidade de chamar um medico, ou physico, como então se dizia.
Gonçalo Domingues tinha, como muita gente, na cabeça uma boa dóse de ideas em opposição com as inspirações e sentimentos do coração, sobretudo a respeito de seu sobrinho. Se dissessemos que queria ao mancebo tanto como ás suas dobras, diriamos que lhe tinha affeição de pae; porém, ia mais longe o velho: queria-lhe mais; pois bom dinheiro sem dó com elle tinha dispendido. E comtudo dava-se de vez em quando a perros por causa de certas travessuras e inclinações do filho de seu irmão, sobre as quaes fazia observações muito sisudas, cheias de um positivismo tal, que obrigava a dizer aos que o ouviam que elle era um homem de grande tino e prudencia. Reflexões e ralhos, terminavam quasi sempre por aquelle sorriso que lhe viram os leitores quando elle voltava de Miragaya.
Fernando vinha ainda alguma cousa pállido, debilitado, ao que no corpo mostrava; porém nos olhos havia um fogo extraordinario, uma alegria pintada em todo o semblante, e nos movimentos uma força, uma rapidez, que não parecia de quem entrára pouco havia em convalescença. O tio bem lhe dizia que moderasse o passo, pois lhe fazia mal aquella violencia, e elle mesmo a custo o poderia seguir sem correr; mas o mancebo, se o affrouxava, era por instantes.
O sol, ainda quasi a prumo, podendo, dardejar os raios por entre as esguias e altas edificações das estreitas ruas, que percorriam, rarefazia o ar, appresentando nos terreiros á vista a illusão de um como doudejar de átomos no ambiente, um tremor que fere os olhos; porém Fernando nada sentia. Ia vêr Irene, Irene que não vira desde o esboroamento fatal do muro; Irene, que João Ramalho, em vesperas de se fazer de véla para a Figueira, d'onde seguiria para Lisboa, recolhera ao castello de Gaya, recommendando-a a D. Catharina. A nobre senhora era bastante astuciosa para não affagar em quanto fosse conveniente um homem popular como o piloto mercador, e fallando elle em metter a joven em um convento, em quanto ia servir o Mestre, para a guardar dos riscos a que a idade a expunha, se offerecera para a tomar como donzella sua «e tel-a como filha» palavras della. D. Catharina devia ir ao campo das Hortas nessa tarde, e por João Bispo soubera o mancebo que á sua namorada fôra concedida a honra de formar parte do seu cortejo. Em logar do sol que fazia, podia queimar o dos tropicos, que o mancebo o sentiria tanto como a aragem fagueira por sesta do outomno, ou a gellos de hinverno.
O recontro de Leça deixára desassombrada a cidade, e os bons burguezes entregaram-se todos aos cuidados de aprestar as embarcações e mais soccorros pedidos pelo Mestre de Aviz, posto em apuros pelo aperto do sitio e bloqueio. Em quanto o abbade de Paço de Sousa se dirigia a Coimbra, transtornada, como vimos, a embaixada do alcaide de Monsaraz, as galés vindas de Lisboa e outras do Porto, já prestes, para não perderem tempo tinham-se feito de véla pela costa da Galliza, capitaneadas pelo conde D. Pedro, lançando contribuições aos povos que não queriam experimentar o nosso ferro. Destruido completamente o Ferrol e queimadas algumas naus, pelos fins de Junho de novo a frota appareceu nas aguas do Douro, rebocando umas sete presas, e carregada de despojos.
Os sinos de todas as torres da cidade balouçaram-se, atroando os ares; berrou-se em todas as escalas os vivas do costume, e os edis, no fogo do enthusiasmo, decretaram uma festa esplendida, como appensa á de S. João, santo sempre popular e mais nessa quadra, por ser o do nome do Mestre, que o povo tinha por um Messias, como diziam os partidarios de D. Beatriz. A vespera da commemoração do nascimento do Baptista, morto por ter desdenhado da dança, devia ser celebrada com danças, guinolas, touras, momos e por um vistoso torneio, que tinha de ser o assombro da terra, pouco affeita a tão graúdos folguedos.
Desde o amanhecer do dia 23 o campo das Hortas estava cheio de gente embasbacada para o tablado levantado na vespera, que alguns operarios cobriam com tapeçarias, em quanto outros davam a ultima demão ao circo, ou estacada, adornando-a com bandeiras, panoplias e festões de ramagem.
Aos gritos e cantigas dos trabalhadores, aos commentos dos curiosos, ás risadas pouco e pouco se juntavam os pregões das vendilhonas de fructa, dos taberneiros, fritadeiras e padeiras, que assentavam as suas mezas, as suas tendas, ou os carros enramados por todos os lados, que o circo deixava devolutos, e pouco antes do meio-dia era já difficil mover-se no campo, apinhando-se além disso um gentio immenso nos adarves e torres da cidade, por aquelle lado, e na encosta dos dous montes do Olival e Batalha. Se até ahi os bons burguezes tinham aberto a bocca para as tapeçarias onde a agulha ou a lançadeira traçara os episodios dos contos de cavallerias, mostrando o rei Arthur, Amadis, Lisuarte, Galaor, a duqueza Iguerna, Mabilia, Oriana, Urganda, Brisena e outras muitas personagens, que para maior illucidação dos seus feitos e ditos tinham a sahir pela bocca o texto da «illustração»; se ficavam embellesados nos grandes pannos de ouro, trazidos da cathedral para enfeitar o esperavel do estrado das damas, nos estandartes, onde havia divisas de toda a sorte, bordadas ou pintadas, mais pasmaram quando começaram a apparecer os mantenedores das justas, os improvisados arautos, mestres e juizes de campo, passavantes, sergentes, menestreis e trovadores, que para a festa tinham sido igualmente apenadas as musas.
O Porto, behetria havia muito, entregue todo ao commercio, quando não se divertia a jogar as cristas com os seus bispos e a pugnar pelas suas liberdades, o Porto tinha visto passar os cortejos de alguns reis e principes; mas de fugida, meios envergonhados, como o de D. Fernando, ou em som de guerra, e em devota romagem e peregrinação: cortejo assim, festa egual nunca se déra, pois nunca, como então, se reuniram de muros a dentro tantos e taes elementos: tinha uma côrte de seu. Os mesteiraes e os burguezes nesse dia, tão enlevados estavam nas louçanias que se desenrolavam, que abriam caminho com a melhor vontade aos cavalleiros, e alguns mesmo suspiravam por que fosse levantado o interdicto a quem com tanto garbo soffreava um ginete, vestia tão airosamente, e fazia tão acabadas mesuras.
Tinham as corporações apparecido com as suas bandeiras, precedidas pelas figuras que davam para abrilhantar o acto, como na procissão de Corpus: tinham-se reunido, amontoado os trajes mais variados, desde as vestes negras, compridas dos juizes, alvazires e meirinhos, as jorneas partidas, de panno bristol, de seda e velludo, os briaes blasonados, as marlotas dos mouros dançarinos, as olandilhas, as opas dos foliões e jograes, os arnezes polidos, espelhando o sol, adamascados ou tingidos de vivas cores, os vestidos de brocado, de panno de ouro e prata, os arminhos e zibelinas das damas e donzellas, a almafega e o burel de certos momos; casavam-se os preludios de todos os instrumentos; o arrabil e o tiorba, a charamela e o clarim, o tambor e o pandeiro, estrugiam, chiavam, rangiam; mas tudo aquillo dava vida e animação, afinava, no meio da sua desafinação, permitta-se dizer, com o ressalte das côres, que como em brazão pareciam postas, com os alaridos, as risadas e os vivas, quando Fernando penetrou no palanque, onde seu tio, como notabilidade da terra, conseguira bom logar.
O mancebo, mal entrou, estendeu a cabeça, a procurar com a vista não os arautos improvisados, que se pavoneavam de ambos os lados da liça, vistosamente trajados de branco e azul, com as armas da cidade bordadas no peito, nem os mestres de campo, montados já em bem ajaesados corceis, e correndo de um para o outro lado: foi para o estrado ou cadafalso das damas. Estava porém cerrada a cortina, e, que não estivesse, no palanque era tal o reboliço, tanta gente estava de pé, que não seria facil descobrir lá alguem, a não estar em logar eminente. Mestre Gonçalo Domingues, parte por natural curiosidade, parte por desejo de ostentar perante os visinhos, como os paes costumam, quando se embellesam nas prendas dos filhos, inquiria a significação de todas aquellas tapeçarias, e amofinava-se por ver que o sobrinho mal lhe prestava attenção, respondendo de tal sorte, que facil era ver que nem sequer olhava para o sitio indicado.
De repente notou-se um marulhar de cabeças, e á algazarra succedeu o silencio. Os alvazires appareceram no estrado para elles preparado, e em outro, contiguo ao das damas, os juizes do campo--Ruy Pereira e Ayres Gonçalves de Figueiredo.
As trombetas soaram; alvazires e juizes tomaram assento, e depois de feitas as costumadas ceremonias, um dos trovadores ergueu-se, desenrolou um pergaminho cheio de illuminuras, e começou em voz alta a recitar o seu poema, que era nada menos que um elogio aos guerreiros da espedição maritima. A poesia nessa epocha era tida em grande conta, e as attenções, por tanto, da assemblea voltaram-se todas para o bardo. Uma cabeça, uma só se volvia attenta para outro lado, e esta cabeça era a de Fernando.
A cortina de cadafalso das damas fora corrida por dous pagens, e D. Catharina e mais umas oito damas da nobresa das visinhanças da cidade tinham apparecido rodeadas pelas suas donzellas.
Os trovadores podiam dizer bocados de ouro sobre façanhas militares, que as palavras eccoavam como sons vagos aos ouvidos do namorado moço; os versos de amores, esses, como se affinados pelo sentimento que o dominava, ligados por uma corrente magnetica, faziam-no sorrir e córar, sem comtudo desviar os olhos do estrado.
Depois que as palmas de todos os lados, e as trombetas soaram, quando o vencedor proclamado, appresentando o seu manuscripto a Gonçalo Pires, escrivão da chancellaria, com uma corôa de louros, recebeu em soberba bandeja um bonito sacco de argempel, rico pelo bordado, e mais ainda pelas boas dobras que o pejavam, premio votado pela municipalidade, segundo antigas usanças, appareceu no meio da liça o mantenedor das justas.
D. Pedro de Transtamara vinha, sobre garrido, aprimorado, formoso.
Bem fraca figura fazem hoje nas nossas festas e folguedos, com a esguia casaca preta e a gravata branca de rigor, os alindados do seculo XIX á vista da que faziam os nossos avós. Para o namorado de hoje em dia no baile não ha meio de se distinguir, de lisongear o amor da sua dama, como então nos torneios, nos jogos de cannas e argolas, nos bafurdios e cavalgadas; não apparecem hoje os vistosos trajes de seda, ouro e prata, as mangas bordadas, de honra, as charpas ou bandas, nas quaes em cores preferidas pela donzella querida se via a tenção ou divisa, que recordava a ambos um protesto, uma confidencia, ou descobria um pensamento. O amor tinha, sobretudo no cavalheiresco seculo a que transportamos o leitor, um culto, que hoje não tem, hoje em que arrancaram a aljava a Eros, o facho ao Hymeneo, e a ambos deram por distinctivo um saquitel de lona, como a imagem globulosa de bemfeitor de confraria. (Entre parenthesis, faço aqui excepção dos meus leitores: os que são casados, o são por amor, e os solteiros e as solteiras ainda não deram um sorriso, um olhar a dote algum de boa somma, simplesmente pelo dote e nada mais. São a nata das creaturas.)