Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV
Chapter 6
E terminando a exclamação imitava com a bocca o repique de sinos, baloiçando-se sobre os hombros do espadaudo vadio, em quanto este, que não tinha a insensibilidade de campanario, grunhia incommodado pelo revolver dos pés do bôbo ante os olhos, e arrepelões dados na hirsuta cabelleira.
A cidade ficava de certo sem o importante Golias; pois que o vadio estava já disposto a sacudil-o no lagedo, como o besoiro, que lhe fizesse cocegas no cachaço, e de certo o estatelava, senão se ouvissem gritos no meio da praça, e o novo bésteiro de Gaya se não viesse embaraçar, tentando penetrar na portaria, nas pernas da victima do bôbo, ao mesmo tempo quasi que o acontiado do municipio.
--Castelhano! gritou este, deitando as mãos ao namorado de Garifa, castelhano, aqui não te valem os fidalgos traidores!
O homem do virote, que sentira subir-lhe o sangue á cabeça com a ameaça de Ayres Gonçalves, correra, mal este embarcára, a procurar desafogo em João Bispo, e mais desesperado pela velocidade da carreira deste e pelo emmaranhado dos beccos por onde seguira, quando o encontrou, ao dobrar o arco, sentiu o despeito renascer; o nosso bésteiro, porém, deitou-o no chão com um cambapé e seguiu caminho. A vontade de tirar desforço do novo desappontamento trouxe aos lábios do homem do virote aquella palavra «castelhano». João Bispo correra menos risco quando lhe chamaram ladrão, entre os bons burguezes, na baixa, do que baptisado com semelhante nome.
--Castelhano?! exclamaram alguns mesteiraes correndo para junto dos dous soldados, emquanto João se desembaraçava do seu aggressor.
E um sussurro indicador de que a tempestade, as iras populares estavam eminentes se levantava no terreiro, ao passo que a portaria era invadida.
--Mata, mata! gritaram em seguida alguns garotos do outro extremo da praça; mata o castelhano!
João Bispo sentiu um suor frio correr-lhe pelo corpo todo, e murmurou dando um salto, encostando-se a uma das hombreiras da porta, e cobrindo o peito com a adaga:
--Castelhano... castelhano? Quem falla aqui em castelhano? Affastar, proseguiu em voz mais forte, affastar! Em castelhanos vou eu pôr o dedo.
--Mata, mata! berraram com os garotos alguns dos homens mais esfarrapados da chusma; e uma pedra veio ferir fogo nos umbraes do convento.
O amante de Garifa, metteu a mão no seio e tirou uma pequena tira de pergaminho, ao passo que o bôbo, atterrado com o arremesso de projectis em semelhante direcção, julgava dever intervir:
--Sús, boa gente; quem chama castelhano a João Bispo? Frei João não foi sagrado pelo papa dos scismaticos... foi pelo papa dos velhacos.
--Oh! é João Bispo? perguntaram duas ou tres vozes d'entre a chusma.
--João Bispo, ou o bispo João, tornou o bôbo, fazendo mesuras ao publico, ao qual soubera modificar as iras com o seu gracejo.
O homem do virote via de novo escapar-se-lhe a victima.
--Vêde, vêde, gritou elle apontando para o pergaminho, que o bésteiro segurava na mão, e tentando apoderar-se delle: vêde como quer esconder aquillo.
João Bispo levantou o braço para furtar o escripto, que trazia a Ruy Pereira, á mão do bésteiro do municipio, ao mesmo tempo que Golias estendia o braço e o apanhava.
--Ui que esgaravunhos! pipitou elle desenrolando a tira. Isto é esconjuro de bruxa, ou pacto de venda de alma de judeu?
--Ou mensagem para os do arcebispo! resmungou um dos mesteiraes.
--Mensagem para os do arcebispo... disseste a verdade, mal-cuidando! accudiu o bésteiro de Gaya, soltando ao mesmo tempo uma praga, e com a raiva pintada no rosto dando um salto para rehaver o pergaminho.
O escripto voou das mãos do truão assustado para junto de João Ramalho, que, levantando-o, passou pelos olhos as primeiras linhas:
--Traidor, Gonçalo de Sousa?! exclamou elle.
--Traidor, sim, disse João Bispo; e ainda ha pouco aqui tramou não sei que outras villanias! Estes cães que trouxe ás pernas não me deixaram...
João não proseguiu. O alcaide de Monsaraz desembocava no pateo, acompanhado de Affonso Darga, vindo do lado da casa do capitulo. Entre os mesteiraes entrados na portaria reinava profundo silencio. O joven cavalleiro fallava com o commandante da flotilha enviada pelo Mestre de Aviz ás aguas do Douro:
--Senhor Gonçalo de Sousa...
Como João Bispo não acabára a phrase não a acabou tambem Affonso Darga. João Ramalho dirigira-se para o alcaide, e batendo-lhe com uma das mãos no hombro, appresentou-lhe o escripto. Aquelle pergaminho apanhara-o o ex-noviço ao capellão de Ayres Gonçalves. Scismando nas palavras ouvidas atraz do reposteiro, quando, ao regressar de uma visita á ucharia, se perdera nos lanços de escada e corredores dos paços de Gaya, pensou que no aposento do frade lhe acharia a explicação. A prova de que não pensou mal era o ter encontrado alguma cousa, e essa cousa--o pergaminho--fizera perder a côr ao alcaide de Monsaraz.
Á pallidez, seguiu-se o rubor, e depois de novo a pallidez. Gonçalo de Sousa sacudiu a mão do mercador, como se fosse um reptil, que lhe tivesse pousado nos hombros; quiz fallar e a voz prendeu-se-lhe na garganta; a espuma produzida por um accesso de bilis appareceu-lhe aos cantos da bocca. O nobre senhor, nesse instante, temia menos as iras das turbas, sentia menos a deshonra, se deshonra via na sua traição, do que a ousadia do homem do povo, que assim se arvorava em seu juiz.
--Arreda, villão! gritou, mal a voz se desembaraçou.
--Villão! repetiu João Ramalho, refece é quem assim atraiçoa a terra que o viu nascer; não é, senhor alcaide?
A voz do piloto tremia; mas não de susto. Gonçalo Rodrigues de Sousa arrancou-lhe das mãos o pergaminho, e rasgando-o, lançou-lhe os pedaços ao rosto.
--Quereis resposta? disse elle com um sorriso nervoso, symptoma de um excesso de raiva; quereis uma resposta? Eil-a... Outra só a darei quando o meu accusador não fôr da tua ralé.
O punhal de João Ramalho lampejou no ar. O alcaide de Monsaraz contára aquella hora como a ultima da vida, se uns poucos de mesteiraes e bésteiros do municipio não fizessem o mesmo, lançando-se sobre elle, embaraçando-se uns aos outros.
A onda popular, levantada pelas primeiras palavras do homem do virote, pela accusação feita ao namorado de Garifa, crescera furiosa, estuara no meio dos gritos de «morra o traidor, o castelhano». A portaria do convento fôra invadida, esmagado quasi o porteiro, apeiado e pisado o pobre D. Golias, e azevans, ascumas e agomias luziam ameaçadoras por cima daquellas cabeças inquietas, como na crista das vagas os flocos de espuma feridos pelos raios do sol. Quatro braços possantes seguraram o alcaide, mais já lembrado de que era homem do que fidalgo: Affonso Darga e uns dous monges, que o quizeram cobrir com o corpo, foram repellidos em um abrir e fechar d'olhos.
--Ao pelourinho, ao pelourinho! gritou um dos mesteiraes arvorados em justiceiros. Açoutado e enforcado!...
--Jesus! gritou o dominico, tentando salvar Gonçalo Rodrigues; Jesus! o que ides fazer é um homizio, e o sangue...
--Vamos fazer justiça. A traidor como a traidor! Peões, não temos cepo nem cutello; mas temos boas cordas de canave.
--Ao pelourinho, ao pelourinho!
--Morram os traidores!
--Bésteiros, a mim bésteiros! gritou o alcaide de Monsaraz, vendo apparecer do lado do claustro dous acontiados da esquadra.
--Quem é aqui por traidores?! exclamou um dos que empunhára o alcaide.
Os bésteiros não se moveram. A celeuma na praça crescia.
--Por Christo crucificado! tornou o dominico pacificador, erguendo a cima da cabeça a imagem do Redemptor. Quem com ferro matar, morrerá pelo ferro...
--Ide-vos, homem de Deus; ide-vos, senão quereis que vos tomem por traidor.
A voz de Ruy Pereira, avisado do risco em que estava Gonçalo de Sousa, trovejou por cima daquella celeuma:
--Quem falla aqui em traições? Traidores, se os ha, deixai-os á justiça do regedor. D. João vol-a fará boa e prompta, bons homens! Senhor meirinho, senhor meirinho!
--O povo do Porto sabe fazel-a tão bem e tão boa como o de Lisboa.
--Senhor meirinho, senhor meirinho, gritava o tio de Nuno Alvares, barafustando para se approximar do commandante das galés do Mestre, e procurando com o vista o meirinho da cidade, que abafava entre os mesteiraes.
--Ao pelourinho! vozeavam estes.
Um bésteiro neste momento atravessava o terreiro, soffreando o cavallo em que montava, para não pisar o povo, nessa occasião soberano em verdade. Conhecido de alguns dos amotinados, abaixara-se a fallar-lhes, e pouco e pouco, á proporção que se approximava da portaria do convento, ao berreiro de «morras» succedia um borborinho destas palavras trocadas em voz baixa:
--Os gallegos! os gallegos!
--Os gallegos! exclamou o mesteiral que segurava o alcaide e parecia ter grande influencia nos seus companheiros; os gallegos veem? Boa idéa: mandar-lhe-hemos este bom cavalleiro para o arraial. As machinas que estão do lado das Hortas podem com pesos maiores. É uma boa lança que enviamos aos do arcebispo. Não é para elles que se queria partir?
Uma gargalhada saudou a lembrança, apesar de não ser original.
Gonçalo Rodrigues de Sousa estava salvo com aquelle addiamento das vinganças populares.
VII.
Recontro de Leça.
Todo oro que se afina Es de mas fina valia, Porque tiene mejoria De cuando estaba en la mina, Ansi se apura y retina El hombre y cobra valor En la fragoa del amor.
GIL VICENTE.--FRAGOA D'AMOR.
--Bofé, por aqui?!
--É verdade, João.
--Mas como? Se o não vira com estes olhos que a terra ha de comer...
--Pois eu sou.
--Como S. Thomé, parece-me que será preciso tocar-vos para crêr. E como vindes armado! Nem moço escudeiro vos leva as lampas! Mas ainda o não posso acreditar. E mestre Gonçalo?
--Meu tio...
--Sim! O bom do velho veio tambem na arrancada. É o que faltava vêr... elle que não é para estas cousas, apesar de bom portuguez. Mas, em fim, está ahi o Porto em peso; velhos e cachopos... até mouros. Por pouco vinham as mulheres! Ala fé, mestre Gonçalo Domingues...
--Meu tio não veio...
--Então...
--Ai, João, se souberas?!
--O que?
--Estou como tu; sem leira nem beira.
--S. Jorge e todos os santos batalhadores sejam commigo! Que foi o que vos succedeu, Fernando? Morreu mestre Gonçalo?
--Não morreu, não... nem Deus queira tal.
--Então, que foi?
--Ai, João, hontem foi um dia bem de mau sestro!
--Para mim tambem: por um argueiro duas vezes escapei á morte!... Pois não vi, ao sahir de Gaya, nem gato preto, nem chapim de sola para o ar, nem velha varrendo lixo: nem ouvi piar a coruja, nem uivar os cães! Valeu-me o anjo da Guarda...
--A mim não me quizeram matar; mas... parece-me que me foi peior...
--Peior?!
--Sim, João: lembras-te de me encontrares nos Banhos, e de te fallar em certos amores? ..... Fui vêl-a.
--Ah! fostes vêr a tal menina, e estava arrufada...
--Não, João; Irene...
--Irene? chama-se Irene? é um nome que não é feio.
--E ella é mais linda; mas, como te ia contando, fui vel-a. Ia a subir a um muro do lado do quintal para lhe fallar--queria tirar um peso que tinha no coração; dizer-lhe que, apesar de meu tio ralhar, lhe havia de querer muito e... nem eu sei o que mais; mas queria-lhe fallar, vel-a--ia a subir ao muro, e o muro... zas... no meio do chão, e cara a cara dou com o pae...
--Ora! E por tal é essa amofinação?
--Olhe, João, que não é o caso para folgar! Como não ralharia elle á minha pobre Irene, elle, que não tem ar de palavras de mel, e ficou com um senho... que descarregou nella... de certo...
--Isso de nada vale, Fernando.
--Ainda não ficou ahi o mal. Deitei a correr... eu sei lá para onde! Quando me lembrei de voltar para casa era tarde; pouco faltava para o sol posto. Appressei o passo, lembrado de que se meu tio me não encontrasse nos Pellames, elle, que me guardava má tenção por me haver encontrado já na maldita arvore, faria de sorte que eu não tornaria a pôr pés na rua. Ao chegar quasi a S. Domingos, havia uns alaridos, um grande vozear, e parara ao pé do arco, quando mestre Duarte, o nosso visinho, veio aonde eu estava, e contou que vira o pae de Irene fallar com meu tio, e que ambos esbravejavam, por palavras que lhes ouvira, contra mim. Voltei a Miragaya...
--Para que?
--Nem o sei dizer. Receiava de meu tio... e não receiava. Quando de novo me dirigi á porta da cidade estava fechada. Do lado da Esnoga via-se um grande clarão, e continuava o alarido...
--Era a chamusca da casa de mossem Moysés, o irmão de D. David Algaduxe; era o escote dos judeus.
--Assim me disseram de manhã.
--Passastes a noite ao relento?!
--Passei, João, e se visse sequer uma luz á janella, parece-me que ficava consolado. Ao alvorecer, como depois daquella noite assim corrida maiores razões tivesse para não voltar aos Pellames, subi a encosta em cata de mestre Pedro, e, como o não encontrei, fui pelas Hortas. No campo, a chusma das galés, os acontiados da cidade, e a gente de armas dos ricos homens vindos de fóra, estava tudo em movimento; chegava povo a todos os momentos e sahia no meio de vivas; ao pé da torre, junto á porta, do lado de dentro, distribuiam armas. Um anadel deu-me um encontrão, e disse-me que fosse buscar tambem alguma cousa, e fui; pozeram-me a caminho para aqui, e puz-me a caminho tambem...
--Amores! amores! E agora que ides fazer?
--Boa pergunta, disse, erguendo e cabeça com certo enthusiasmo, o namorado de Irene, Fernando Vasques, de certo já reconhecido, bem como João Bispo desde as primeiras linhas deste dialogo; agora é batalhar, e ou ficar para ahi, ou fazer acção de fama; e depois...
--E depois ides pôr a espada aos pés da vossa dama, como naquelle conto da Tavola-Redonda ou naquell'outro que tinha frei Gumado... Ama... Ama...
--Amadis, queres dizer?
--Isso é: um em que havia combates de gigantes e uma princeza muito formosa: deixai vêr se me lembra o nome... Oriana!...
--A dama de Amadis.
--Bonitos contos, Fernando, esses de cavallerias e amores; pena é que hoje nada succeda assim de geito.
--Pena que não haja quem tenha a vontade de boas acções e famosas! O senhor Nun'Alvares, tem-se, ainda assim, havido como alguns dos mais pintados, e ouvi contar a meu tio, que o viu simples pagem, acompanhando a rainha Leonor, pela qual depois foi armado.
--Tomou o leão para o fazer lebreo de estrado; mas elle, mal chegou a idade, mostrou-lhe os dentes todos, e foi para o monte a monteal-a. Desde nado trouxe boa sina Nuno Alvares. Mestre Thomaz, grande astrologo, que andava em casa de seu pae, leu nas estrellas, e viu que empresa em que se mettesse seria boa, e elle sahiria vencedor, se fosse para bem sua tenção.
--Por isso deixou elle a rainha Leonor; pois em serviço della não andava bem, e podia-se quebrar o encanto com que foi fadado.
--A mim tambem me leram a sina; porém a maldita da moura que o fez disse uma tal embrulhada, de que só percebi que havia de entrar em grandes batalhas, e salvaria um rei...
--Não ouvis? atalhou Fernando, sobresaltado.
--Ouço.
--Além do rio...
--Um como tropear de gente, e quebrar de ramos. Estas fogueiras não deixam vêr bem. As vigias dormirão?
--Não... olha, não vês alli ao pé daquelle fraguedo, onde bate o luar, aquella que se move? está bem desperta. Ainda ha pouco se recolheu uma rolda, a que acompanhou frei Patinho.
--Escutai, tornou João Bispo, deitando-se no chão para melhor distinguir a direcção do rumor, depois de retesada a corda da sua besta.
A noite descera havia muito; os galos de algumas choças visinhas tinham já annunciado que ia alta, a meio do seu curso, e a lua erguia-se redonda, avermelhada, semelhando um escudo candente, por entre as ramas dos pinheiros, que fechavam ao nascente o horisonte, fazendo destacar a uns por contornos negros, cobrindo de uma luz phantastica os curutos de outros, e projectando sombras immensas pelas clareiras. Á proporção que ella minguava no céu, tornavam-se mais vivos os reflexos azulados com que tingia alguns objectos, fazendo contraste com os fogos dos dous acampamentos áquem e álem de Leça--fogos que em pontos ainda se mostravam vivos, fazendo ressaltar vultos negros, tocados, sobretudo nos arnezes, braçaes e grevas dos homens d'armas, de linhas ardentes, vermelhas quasi; em outros quasi extinctos, mostrando, através de uma luz vaga, fórmas indecisas, movendo-se, tregeitando. Aqui o ferro de uma azevan, volteando, espelhava um raio da lua, e imitava os fogos fátuos; acolá o bacinete polido de um bésteiro de polé lampejava, ao cruzar rápido por pé dos fogos das vigias. De vez em quando o relincho dos cavallos se reproduzia nos eccos; as vozes das roldas se alteava; erguia-se aqui uma risada, alli um clamor, e depois recahia tudo em um silencio, que só interrompia, alguma conversa a meia voz, como a que cortaram os nossos dous namorados.
Pela bocca de um delles já todos sabem que os combatentes de que podia dispôr a cidade da Virgem, homens e rapazes se tinham nessa dia de madrugada posto a caminho de Leça, e se estão lembrados da noticia dada pelo bésteiro em S. Domingos, noticia que tirou Gonçalo Rodrigues das mãos dos populares e o entregou á justiça, que lhe fez grande favor em o reter preso em Gaya; se se lembram de que D. João Manrique, arcebispo de Santiago, abalára de Braga com setecentas lanças e dous mil infantes, portuguezes, partidarios de D. Beatriz, e gallegos, e quando chegára a mensagem do Mestre acampava perto da cidade, atinarão qual o intento que ahi os levava. Alguns corredores do bando inimigo tinham, ao tempo que pecuniariamente se salvava a patria, chegado a Paranhos, alarmando os poucos camponezes não recolhidos á cidade, e os bons burguezes, que já os tinham esperado duas vezes sem verem apparecer uma só lança, haviam resolvido affugentar estes hospedes importunos.
Seis a sete mil homens, pois, acampavam áquem do Leça, occupando uma extensa linha.
Esta tropa, superior á do arcebispo em numero, era, encarada por outro lado, talvez inferior. Dos nobres que com os seus homens d'armas tinham seguido as hostes populares, em alguns não eram firmes as crenças de partido, como vimos; nos outros, em geral, havia certa má vontade por vêrem ao seu lado cavalleria burgueza, para a qual olhavam pouco mais ou menos com os mesmos olhos com que ainda hoje, no seculo XIX, olha o militar para o miliciano que marcha ao seu lado. Os bésteiros da behetria, trezentos ao todo, era gente de animo resoluto, porém fracos atiradores, e os quinhentos, tirados da esquadra e de Gaya, tinham os outros quasi na mesma conta que ás lanças que rodeavam a bandeira onde entre torres a Virgem apparecia mostrando Jesus inda menino, aquelles que seguiam balsões historiados, e mesmo ainda ao mais historiado labaro, museu de imagens santas ideado pelo futuro condestavel.
Cinco mil homens, exceptuando a chusma da armada, pertenciam a essa gente que parecia entregue a uma mascarada, quando levamos o leitor aos adarves que tinham vista para Miragaya. Eram porém estes, era o povo e os acontiados do municipio que tinham de fazer retirar os muito esforçados cavalleiros Lopo de Lira, Fernão Gomes da Silva, Martim Gonçalves de Athaide, Gonçalo Pires Coelho e outros nobres, que seguiam com elles o arcebispo de Santiago. As ascumas e os mangoaes affaziam-se, a passar aquellas entre o gorjal e a barbuda, a malhar estes em cimeiras; amestravam-se para a grande tarefa de Aljubarrota.
Como dissemos, os defensores do Mestre estendiam-se na margem do Leça por bom espaço. João Bispo e Fernando Vasques encontravam-se em uma das extremidades da linha, ou acampamento, quando extranho ruido vindo de uma mata visinha os fez interromper o dialogo que ahi fica exarado. O amante de Garifa, depois de se conservar por alguns segundos deitado, com o ouvido attento, ergueu-se, fez um signal ao seu companheiro, e, empregando o maior cuidado possivel para não fazer rumor, dirigiram-se ambos para o lado do poente, onde de novo se pozeram a escutar.
--São os nossos, disse o bésteiro novel a Fernando; são os nossos, que estão abrindo caminho no bosque.
Palavras não eram ditas, um grito sahia da selva, e um bésteiro levantava quasi debaixo da cara do sobrinho de Gonçalo Domingues a sua besta armada, mirando-o.
--Eh! Gil! abaixa lá isso, gritou João Bispo: guarda os teus virotes para os gallegos! Que desbravar de matto é esse?
--Eramá! estás ahi, João? tomei-vos por esculcas desses condemnados! Abrimos caminho na mata, e vamos passar o rio. João Ramalho está lá em baixo com trezentos dos da cidade.
--Começa o folguedo?
--Boa festa! Vamos fazer dançar os do arcebispo ao som de assobiar de virotes, e ranger de polés e garruchas. Os malditos deste lado dormem, ao que parece, e não é mau despertal-os.
O amante de Garifa deu alguns passos para se internar na mata. Fernando reteve-o.
--Espera, João, eu sei um sitio onde se póde passar melhor do que ahi.
--Sabes?
--Além, abaixo daquelle casal que está a alvejar, pelo açude.
--Bom discorrimento teve o cachopo! exclamou o bésteiro, com um sorriso de escarneo. Vão lá passar pelo açude! É o mesmo que fazer caminho para o outro mundo. Dous homens na outra margem tragam-vos uma hoste, como a uma tigella de migas.
--E se de lá não houver ninguem?
O bésteiro, como unica resposta, voltou as costas, encolhendo os hombros; João Bispo, depois de curta reflexão, tomando a mão do seu companheiro, exclamou:
--Vámos ao açude!
O desbaste do arvoredo continuou com affinco, e uma hora passada, havia uma soffrivel clareira aberta, onde tinham já penetrado alguns homens d'armas. No campo inimigo, em frente, não se ouvia senão o ciciar da aragem. Um troço de bésteiros e populares, armados estes com toda a sorte de armas, desde o montante farpeado e o machado, a maça de puas, até ao chuço e mangoal, começaram a passar o pequeno rio pouco abaixo do mosteiro dos Hospitaleiros. Cem homens teriam tomado pé na outra margem, quando um sibilo se ouviu, e um virote se veio cravar em um velho roble, ao pé do qual João Ramalho dava ordens aos acontiados da cidade. Em seguida, a outro sibilo juntou-se um grito, o som da queda de um corpo na agua, e logo um alarido immenso. Bésteiros de pé e a cavallo, burguezes e mesteiraes, que se tinham lançado ao Leça, recuaram.
Do campo do arcebispo haviam notado o movimento da gente do Mestre, e o silencio guardado fôra alliciente para os chamar além. Cem homens estavam na outra margem prisioneiros, se o grosso da força não avançasse.
--Santiago! Santiago! gritaram os castelhanos; e a margem appareceu como por encanto coberta de frecheiros, e d'ahi a momentos o relinchar dos ginetes e o som das trombetas eccoava pelos valles.
--S. Jorge e Portugal! gritou João Ramalho, arrebatando a bandeira da cidade das mãos de um cavalleiro do municipio, e lançando-se ao rio. Ávante, filhos, ávante!
Um troço de mesteiraes lançou-se em seguida do caudilho popular; porém recuou de novo.
As folhas das arvores cahiam, como varejadas, e os troncos lascavam aqui e alli, que os bésteiros de Garcia Manrique faziam a sua obrigação.
--Assim deixaes os vossos nas mãos daquelles perros?! exclamou Nicolau Domingues, apontando para a outra margem onde havia um concerto de pragas, vivas e morras. Bésteiros! bésteiros, pela Virgem de Vandoma, ávante!
--Ávante! responderam alguns mesteiraes e acontiados, seguindo o exemplo de João Ramalho.