Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV

Chapter 5

Chapter 54,011 wordsPublic domain

--Sim, sim: veja se me engana com esses risinhos sêccos, menina. Por mais que faça não me faz acreditar que não está magoada. Eu desconfio que...

­--De que? interrogou Irene, fazendo-se vermelha, julgando ser do sentimento dominante no seu coração que lhe iam fallar.

--Nada, nada. O senhor seu pae não lhe fallou... não lhe deu a entender...

--Meu pae, tornou a joven sobresaltada, não me disse cousa alguma...

--É que... pensei...

--O que, Genoveva? Que tinha meu pae a dizer-me?

--Nada, nada; respondeu a velha, recomeçando de novo o rozario.

--Não, alguma cousa era! Diga, diga, Genoveva; meu pae está de mal commigo?

--De mal! elle que não vê outra cousa, que a traz nas palminhas das mãos, apesar daquelle modo assim de poucas palavras?! Se se amofina é...

-­-Acabe! supplicou a joven.

--Triste já está a menina; para que a entristecer mais? disse a criada mastigando. ­ --Não me quer entristecer mais? Pois que ha? exclamou a filha de João Ramalho, erguendo-se com a anciedade pintada no rosto.

--É... nada, nada, redarguiu a velha. E baixo accrescentou, tornando a carregar a roca:--Cala-te, bocca. Ora, não ia eu já dizer tudo?

O áparte da cuvilheira, por uma mania que tinha de sempre dar á lingua para que a ouvissem, pareceu­-se com todos os ápartes do theatro, e mais anciosa ficou Irene.

--Jesus, Genoveva! Succedeu alguma cousa?

--Nada: é que...

--Acabe por uma vez.

--Como tem de ser... porém, olhe, triste já a menina está, e quanto mais tarde...

--Está a fazer-me mal, minha boa Genoveva! exclamou Irene, juntando e erguendo as mãos em acção de supplica.

--Ora vejam! mal é que eu lhe não queria fazer; mas visto que teima... sempre lhe digo: seu pae embarca por estes dias.

--Embarca... disse a joven tornando a sentar-se. Julguei que fosse outra cousa. Não estou já affeita a vêr partir meu pae, todos os annos, uma, duas e tres vezes para essas terras de Christo? Se podésse fazer com que não andasse sobre aguas do mar, ex­posto; porém...

-­-Ao mar, atalhou Genoveva, já o senhor João Ramalho está affeito. Parece que tem todos os santos e santas por elle... e merece-o, que não ha tempestade­ que mal lhe faça; e mais dizem que são bem más as da Inglaterra e Flandres! Mas não é agora só o mar...

--Então que mais é, Genoveva?

--É... que... que volta a Lisboa... e...

--Jesus! agora... que anda a guerra por lá!...

--Deus ha de querer que nenhum mal lhe venha, e eu hei-de recommendal-o muito á Senhora da Silva e á Senhora do Amparo, as duas santas de mais valimento que ha no céo... de maiores milagres pelo menos... ao Senhor S. Pedro, advogado da gente do mar, e ás almas milagrosas! redarguiu a senhora Genoveva, fazendo uma especie de mesura a cada nome dos beatos patronos que proferia.

--Bem me dizia o coração que destas náus e galés chegadas me viria mal, disse Irene recordando-se naquelle instante das palavras de Fernando.

--Mal... mal? Tenha fé em Deus, que é grande peccado descoroçoar assim. O senhor João Ramalho, seu pae, se anda cuidadoso é por si, menina Irene: como está já uma moça... eu cá me entendo... quer deixal-­a bem amparada, em logar seguro; que nestes tempos revoltos, e nos que o não são, todo o cuidado é pouco. Como não vae lobo a redil nem raposa a gallinheiro senão quando acha a porta mal cerrada e não ha mastins para açular, queria deixal-a em abrigo seguro, e lembrou-se de um convento. Já dei recado para uma prima, que tenho, sergente em Entre-Rios, a vêr como poderei ir fazer companhia á menina...

--Então, Genoveva, vamos para tão longe! exclamou a linda moça com voz magoada.

--Ainda não é de certo. É precisa licença do senhor D. João Affonso, e não sei que outras requestas... e como não é para já o caso... por estes dias...

--Genoveva! Genoveva! gritou do andar terreo o senhor João Ramalho, fazendo estacar a falladora cuvilheira, que incetando um Padre-nosso em um tom de voz que, sem offensa da boa da beata, se podia comparar ao rosnar de um cão, desceu as escadas.

--Virgem santa, valei-me! murmurou a joven fechando uma na outra as mãos, brancas e delicadas, e deixando sobre o seio pender o rosto, que não desfeiavam os assomos de tristeza.

Irene assim permaneceu longo tempo, e quando ergueu os olhos orlava-lhe as palpebras uma côr mais rosada que de costume, e as lagrimas borbulhavam mais intensas do que as trazidas pela desconfiança de que Fernando Vasques não correspondesse ao affecto por ella consagrado. Eram mais intensas, porque junto com as arrancadas pelo amor filial--pois bemqueria a joven a seu pae, com um extremo inexplicavel, attenta a rudesa apparente do piloto, se é que uma força occulta a não fazia corresponder ao sentimento por elle votado ao unico ente que na terra lhe restava, á imagem de uma esposa adorada com o fogo que empregam essas almas reconcentradas, os homens que jogam a vida sobre o mais terrivel dos elementos, e passam dias e noites seguidas a soletrar no livro da natureza a pagina do infinito, em circulo fachado por céo e mar;--junto com as saudades e receios por seu pae, se ligavam penas avultadas pela sua imaginação, suppondo-­se já separada, longe de Fernando, clausurada para a vida talvez; que no amor tudo é coado por um prisma que engrandece e multiplica os objectos.

Ás lagrimas do travesso moço succedera a resolução: Fernando fizera-se homem; ás lagrimas de Irene succedia o anniquilamento: póde-se dizer tambem que se fizera mulher a pobre menina porque: a coroa do seu sexo é formada por essas perolas nascidas no coração, perolas que resgatam a propria culpa e a alheia. Para o resgate da humanidade Deus, tornado homem, deu o seu sangue; para completar essa regeneração, para abrir ás mulheres as portas da vida, inflar-lhe no seio uma alma, verteu lagrimas uma virgem.

Irene chorava pela segunda vez, depois que se apoderára do seu coração a imagem de Fernando, quando lhe veio ferir os ouvidos um som distante e confuso; confuso porque era grande o arruido que petintaes, espadeleiros e galeotes faziam na praia, sanctificando o dia do descanço com libações frequentes de verde e maduro, cidra e outras bebidas. Era o som de um toque de caça, assobiado por um valente folego. A moça estremeceu, quando se lhe afigurou reconhecel-o; estremeceu e a alegria repelliu naquella fronte as nuvens de tristeza com tanta ou mais rapidez de que nos leva a dar uma ideia dessa mudança. Ergueu-se e correu ao extremo da varanda, encostou á adufa o ouvido attento a linda namorada; mas calára-se a marcha, e os berros da chusma iam em um _rinforzando_ prodigioso. Alguns minutos de anciedade assim passou, com o seio a arfar, os lábios meio-abertos, deixando vêr uma enfiada de dentes alvos como o fructo das camarinhas, com os olhos brilhantes, fixos, até que com novo sibilo rompeu um grito da joven, um grito de alegria, e deixando a varanda subiu a assomar a cabeça por aquella historiada janella das flores, onde com ella travamos conhecimento.

A cabeça appareceu e desappareceu logo.

Irene soltou outro grito, porque os seus olhos encontraram os de seu pae, irados, em vez de outros que de certo procurava carinhosos.

Junto com o sibilo, com os gritos, com o bater das adufas da varanda e portadas da janella--junto, se póde dizer, tal foi a rapidez da successão--ouviu-se um grande fragor.

A arvore do cercado oscillára e o muro da quelha fôra a terra.

A filha de João Ramalho deixou-se cahir no estrado em que costumava costurar; o piloto soltou uma praga, e a cabeça da tia Genoveva, que da cosinha presenceára parte desta scena, appareceu de bocca aberta no quarto da donzella, persignando-se e abanando a cabeça como um manequim, pintando em toda esta gesticulação o seu pasmo, e terminando por entre dentes com esta phrase, que havia de ser, como já fôra, repetida milhares de vezes:

--Ora fiem-se lá nas innocencias deste tempo! O mundo vai perdido!

VI.

Causa publica e cousas particulares.

/# A nenhu era ouvida rezão, nem escuza, que por sua parte dar quizesse, mas como hum falava dizendo: que fohão he delles; não havia cousa que lhe desse vida, nem justiça que o livrasse das suas mãos: e isto era especialmente contra os melhores e mais honrados, que havia nos logares, dos quaes muitos foram postos em grande cajão de morte...

FERNÃO LOPES.--Chronic. #/

Em quanto Irene soluçava, Tello Rabaldo vociferava, sacudindo a poeira do gibão, e João Bispo evitava na rêde de bêccos e escadas do bairro a sanha do bésteiro e de alguns mesteiraes, que o suppunham réo de crime grave, ou queriam nelle desacatar o alcaide, que viam, como a grande parte dos nobres, com maus olhos, no terreiro de S. Domingos havia grande ajuntamento de povo, e na portaria do convento e claustro da igreja se reuniam os homens bons da cidade, burguezes e cavalleiros; que a ordenação de D. Diniz era desattendida durante aquelles transtornos, como o tinha sido por vezes, e depois havia de ser.

Ruy Pereira e a edilidade portuense combinavam os meios, já o sabemos por via de Luiz Giraldes, de corresponder ao appello do Mestre, e corriam as cousas ás mil maravilhas. Affonso Eannes Pateiro e Alvaro da Veiga, bastante compromettidos com a acclamação do novo governo, juntamente com o rico mercador que fôra despertar Gonçalo Domingues sopravam em pequenos conciliabulos o enthusiasmo de amigos e conhecidos, e não perdiam o tempo. Os periodos mais ou menos bombasticos, mais ou menos curtos, tinham, depois de um ou outro commento, como ponto, a deslocação de dous ou tres individuos, que se dirigiam a uma mesa cercada de tamboretes e cadeiras, onde dous homens vestidos de negro, um redondo, de nariz globuloso e vermelho, outro côr de pergaminho e de feições angulares, se viam ao par de alguns vereadores, afagando este com a rama da penna os lábios ressecidos, abanando-se aquelle com um caderno de papel. Um dos patriotas segredava tres palavras ou quatro ao ouvido de um dos alvazires; os burguezes diziam outras tantas; os homens negros traçavam algumas letras e algarismos, que liam em voz alta, e de tudo isto sahia, póde-se dizer, a Milheira, a Estrella e a Sangrenta, o levantamento do cerco e bloqueio de Lisboa, a dynastia de Aviz e--quem sabe?--a salvação e civilisação da Europa. Se julgam paradoxal a ultima parte, provem como sem os donativos daquelles bons homens se accudiria ao Mestre; se este não se veria obrigado a tornar real o fingido embarque para Inglaterra; se, simples João Pires, casaria com a exemplar filha de João de Ghaunt; se haveria quem formasse um viveiro de navegantes tão destemidos, arrojados, para devassar a costa d'Africa e penetrar na Asia pelo Oceano, como o infante D. Henrique; como sem o córte dado naquellas paragens ao poder ottomano, se lhe sustaria a carreira victoriosa dos seus estandartes, que chegaram a tremular junto dos muros de Vienna, na costa da Italia, na Hungria e na Bohemia, que pendiam bafejados pelas tépidas aragens de Aldjesireh, da Arabia, e açoutavam os ares impellidos pelos ventos gelados na Polonia, se espalhavam nas aguas do Mediterraneo, no mar-Negro, no golfo Persico e no Oceano, e acobertavam os recebedores de pareas até ao Dekan.

Se algumas circumstancias concorreram tambem para este gigante resultado foram as narradas nos antecedentes capitulos, desde as dos namoros de Irene com Fernando e de Garifa com João Bispo, até á daquelle virote quebrado.

Não cuidem que um escriptor consciencioso escreva uma linha só com o fim de encher papel; que invente um episodio por seu alto recreio: tudo aqui vem a pello desde o mais somenos facto ao de mais vulto, e os leitores phylosophos, que esquadrinham os fins moraes, procuram o succo de todo o livro e folheto, farejam uma ideia em cada letra impressa, acharão neste romance demonstrações de que grandes successos, que pasmam do mundo, são como os nevões: um floco de neve, que rola do cimo dos Alpes, ao chegar ás fraldas destroe casas e plantios; uns bigodes cortados em 1152, ainda no seculo em que viviam estes nossos heroes, destruia cidades, assim como as bagatellas acima apontadas salvavam este canto da terra de ser hoje em dia... um pachalik ou cousa peior.

E João Bispo, Fernando Vasques, e até para muita gente João Ramalho, Affonso Eannes, Alvaro da Veiga, Domingos Pires das Eiras, Luiz Giraldes e outros com quem o leitor tomará ainda conhecimento, estavam no olvido?!

Lamentemos esta má sina de ingratidão pelos grandes homens... que em vida não tiverem condados d'Ourem, nem terras do Alfeite; lamentemos, e vamos de novo para S. Domingos.

Ao passo que os burguezes davam que fazer a Gonçalo Pires, escrivão de chancellaria e ao seu companheiro, na casa do capitulo, bocejavam os poucos cavalleiros que tinham adherido, como hoje se diz, ao pronunciamento do Porto, por vontade, ou circumstancias. Dissemos que bocejavam; pois movimento, acção em poucos se notava, a não ser um alguns dos recem-chegados de Lisboa, dos quaes o mestre soubera captar a benevolencia com aquella largueza de mãos, que o deixaria rei das estradas de Portugal, se não fossem depois as garnachas, de que já se queixavam então, e em alguns pobres infanções e simples cavalleiros. Ruy Pereira reunia em volta de si, os dous sobrinhos do rei de Castella, D. Pedro e Affonso Henriques de Transtamara, misser Manoel Pessanha, João Rodrigues Guaday, Ayres Pires de Camões, Affonso Furtado e os irmãos d'Alvalade, e em uma das extremidades da quadra segredavam, ou antes fallavam quasi por signaes o alcaide de Monsaraz, Affonso Darga, o irlandez Down-Patrick e o velho fidalgo de Riba-Tua. Do resto, faziam uns retinir pelo sobrado os acicates dos seus sapatos de ferro, que vinham em traje de guerra não poucos, outros descançavam nas grandes cadeiras de espaldar, que os reverendos para alli tinham feito conduzir. De tempos a tempos um pagem ou um leigo entravam com recado para o tio do condestavel, ou este fallava a alguns dos seus homens, que estanceavam á porta, e elles partiam ás carreiras para diversos pontos.

Ruy Pereira tractava de aproveitar o tempo o melhor possivel, como bom cabo de guerra e bom politico, depois de ter conferenciado com os influentes da cidade, conferencia que déra em resultado decidir-se que se chamasse ao partido do defensor o conde Gonçalo, combinação que não era mais do que uma lisonja aos bons burguezes: pois, soprada pelo mensageiro de sua senhoria a Domingos Pires, e por este appresentada, fôra já decidida nos paços de S. Martinho. D. João resolvera comprar o conde com os bens pertencentes á irmã desthronada, bens que já tinham servido de engodo a outros. O escolhido para o ajuste do balsão do nobre senhor, de quem tinham sido já indagadas as ambições--que se iam encontrar com as de Nuno Alvares, felizmente bastante patriota para ceder ás circumstancias;--o escolhido fôra o alcaide de Monsaraz, Gonçalo Rodrigues de Sousa, e devia seguir logo com alguns navios para a Figueira, emquanto outros iriam correr a costa da Galliza, inquietar em casa o inimigo, e nos seus barcos, pescarias e alfandegas procurar um reforço para as arcas exhaustas do thesouro.

O movimento dos pagens, dos sergentes do convento, dos bésteiros e homens d'armas tinha produzido o ajuntamento da pequena praça ou terreiro, que ficava em frente do convento, e das tortuosas ruas visinhas. Na praça, vistas do alto, as cabeças dos curiosos formavam uma massa, que ondeava como as espigas de trigo sazonado, impellidas pelo vento, e no meio de borborinho constante, especie de gemer de tempestade em praia cheia de recifes, surgiam ora estrepitosas gargalhadas, ora gritos, apodos e vivas. As gargalhadas eram provocadas pelo bôbo da cidade. O Porto não era uma terra de pouca monta para não ter um bôbo seu, como qualquer principe, mesmo no meio daquellas calamidades e sustos, e tinha-o até que não ficava nada a dever aosque se importavam de França, por aquellas epochas, com o mesmo cuidado com que se haviam de importar cabelleireiros--o que, entre parenthesis, não quer dizer que para escolha dos primeiros se expedissem tão gordas personagens como para o dos segundos--.Voltando ao nosso caso, ao bôbo da cidade: os leitores que comnosco fazem esta viagem ao seculo XIV e ao terreiro de S. Domingos, devem confessar que a verba votada no orçamento municipal, verba insignificantissima, não devia ser chorada. D. Golias era uma raridade; uma creatura de seis palmos de alto, se tanto, comprehendendo esta medida uma desmarcada cabeça, cortada de lado a lado no terço inferior por uma bocca, cousa unica que correspondia naquelle todo ao nome com que o tinham baptisado. D. Golias áquella bocca, mais do que ao infésado da estatura e uma mobilidade de feições extraordinaria, devia o seu emprego e a sua popularidade. Os mesteiraes e burguezes que o encontraram, vindo do acampamento, onde exercia as suas funcções, tinham-lhe feito um acolhimento brilhante, uma ovação, e elle, escarranchado sobre um vádio espadaúdo e meio idiota, com o seu vestido variega­do e o seu capirote, notavel por duas immensas ore­lhas asininas, correspondia a tanto extremo disparando, entre esgares e tregeitos, epygrammas para a direita e esquerda, na portaria do convento.

Uns bons dous terços destes gracejos, dos mais pesados, eram dirigidos a nobres senhores ou a alguns ricos burguezes, o que os fazia ser acolhidos com prazer pela gente da praça.

--Olé, mossem Methusael, D. Methusael, tio Methusael! ginchou elle sacudindo os cascaveis do vestido e da palheta, dirigindo-se ao arrabi-menor, que por entre a multidão abria caminho; o vinho que á socapa comprastes a mestre Manoel do Arco, subiu-vos á cabeça, ou foi exconjuro que vos trouxe aqui?! Mossem Methusael, as vossas dobras vão tinir como a minha jornea, e o vinho vae desfazer-se em lagrimas! Não é verdade, manos, que vai haver juderega dobrada e tresdobrada. Mossem Methusael antes quer que elles roubem a pequena Lea do que um punhado das boas barbudas da arca!

O arrabi resmungou algumas pragas, que se perderam entre as risadas do povo, e appressou o passo, seguindo um cavalleiro, na direcção da portaria, a fim de em tal companhia ter mais facil accesso.

--Guarda! berrou o bôbo, attravessando a palheta; guarda! Se queres entrar pede a frei Roque que te lave em agua-benta!

--Tira a tua vara, truão, gritou o cavalleiro, ao pousar o pé no limiar da porta.

--Arreda, Portugal! tornou Golias; arreda, que ahi vem Castella em peso! Passe lá, don cavalleiro; eu levanto o meu sceptro e arredo-me, porque não quero tocar em scismaticos. Don cavalleiro, tornou, quando o fidalgo subia já a escadaria, tendes novas do mano Garcia Manrique? Quando lhe ides dar a mão?!

E voltando-se para o leigo porteiro, que, depois de fazer uma grande reverencia ao nobre recem-chegado, o fitava, espantado da ousadia, proseguiu:

­--Eh! beguino de má morte, se cuidas que te estás a vêr a espelho de Veneza, enganas-te: estas orelhas são do capirote. As tuas são mais compridas e mais felpudas!

Estes e outros gracejos, que não é licito escrever, pois não curava o truão da polidez da linguagem, nem eram por esses tempos malsoantes palavras que o são hoje; estes e outros gracejos eram a pedra de toque da popularidade dos individuos a quem os dirigiam: a gargalhada e os assobios, as palmas, os grasnidos e murmurios que provocavam, diziam a conta em que eram tidos. Quando a vaia partia, e o povo se calava, não insistia o bôbo, certo de que era a personagem aggredida estimada por aquella boa gente, e não teria, por isso, defensor, se algum syllogismo contundente fosse servir de censura ás suas burlescas reflexões. Regulando por este thermometro, o piloto e mercador João Ramalho e Gonçalo Domingues eram bemquistos na cidade da Virgem. O forçureiro, sahindo açodado pela porta do convento, esbarrára em cheio com o piloto que entrava, e do choque resultou a oscillação dos dous corpos, que procuravam o equilibrio, e um regougo abafado do burguez. A risada foi inevitavel, pois as pequenas desgraças teem sempre o riso por caudatario; mas um olhar do pae de Irene engasgou nas fauces de Golias o motejo.

João Ramalho não vinha para graças.

Ao olhar sevéro dirigido ao bôbo seguiu-se outro lançado a mestre Gonçalo, que lhe estendia a mão com a costumada lhaneza, e o piloto começou, quasi sem tomar folego, uma lenga-lenga de recriminações, que fizeram abrir os olhos do burguez desmarcadamente. Porque se espantava um, adivinha-o o leitor, porque desabafava o outro a sua cólera, se o não sabe, aventa-o: Fernando sahira contra ordem expressa da rua dos Pellames e fôra colhido em flagrante delicto de namoro, acompanhado das aggravantes circumstancias de escalada e destruição de um muro. O piloto deduzira de tanto ruido peccado mais gordo do que sonhára o mancebo, e, como este se lhe tinha salvado da furia, valendo-se da sua agilidade na carreira, avinha-se com o tio. Mestre Gonçalo Domingues, se naquelle instante apanhasse a geito o travesso rapaz, de certo o punha em maus lençoes, tal era a indignação e raiva, traduzidas nas faces em uma côr arroixada, que lhe incitava a narração deste successo, feita pelo rude marinheiro. O sangue subia-lhe á cabeça e ameaçava-o com uma apoplexia. Sem o querer, applicou-lhe o pae de Irene o remedio; porém, continuou a aggressão tão viva contra o travesso rapaz; chegou a taes ameaças, que o forçureiro julgou dever fazer algumas observações a esse respeito, e as observações fizeram desviar o raio de uma cabeça para outra. A culpa daquelle attentado, tão grave para o cego piloto, era de Gonçalo Domingues, que não soubera morigerar o seu pupillo; que lhe déra largas illimitadas; que lhe deixára damnar alma e corpo com ruins paixões. Quem ouvisse aquella recapitulação de queixas e accusações tomaria o namorado de Irene por um D. Juan, se Tirso de Molina já tivesse modelado no _Burlador_ o typo famoso, que, com um arrebique para aqui, uma limadella para acolá, um nariz de cartão, uma cabelleira empoada, ou os tezos e cortantes colarinhos de um mylord tem servido a tanta e tão boa gente. O bom do tio, posto que chofrado, e duvidando de tanto aggravo, julgou o caso de consciencia, comtudo, e mentalmente resolveu a questão por um dos lados; por onde a lei, se fossem veridicas as supposições do forçureiro, a resolveria, mesmo naquelle tempo, visto que não havia desigualdade de castas. O rico burguez não mettia em linha de conta a vaidade do piloto, não se recordava tambem de que o commercio e industria com que se locupletara eram marcados com despreso tradicional, despreso ecclipsado para as maiorias pelo brilho das dobras, é verdade; porém não de todo para os mais pechosos. João Ramalho, á primeira phrase em que o forçureiro dava a entender a sua resolução, feriu-o vivamente no fraco, e emcambulhando-se as palavras em dialogo alternado, a voz do tio de Fernando chegava ao diapasão da do pae da linda namorada deste, quando arruido maior lhes abafou as vozes, e uma onda de povo os separou, lançando um para um lado, outro para outro.

Para explicar esse alvoroço voltemos outra vez ás assoadas de D. Golias, o bôbo da cidade.

Como em baile de etiqueta annunciava o maninelo quanto individuo de seu conhecimento se approximava do mirante semovente, em que se empoleirara, quando um claro se fez do lado do arco, que dava serventia para as Cangostas, rua que não desmente­ ainda hoje o nome posto, para a Bainharia e almuinhas, e appareceu açodado o nosso conhecido João Bispo. Se a pressa, que mostrava trazer, e o conservar na mão a adaga não fizessem notada a pessoa do ex-subordinado de Tello, chamariam sobre elle a attenção os gritos de Golias.

--Upa! acima sineiros da maldição, berrava elle. Os sinos não tangem? Beguino, frei velhaco! campas e sino grande, tudo a chocalhar! Venha toda a monjaria de cruz alçada, que chega o senhor bispo, o bispo João! Sua mercê traz pressa; mas nem por isso deve ser recebido sem as honrarias de usança. Vá: deitem-lhe agua benta aos olhos, para que não veja por ahi moura perdida pelas celas!