Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV
Chapter 4
Fernando, no dia seguinte, não era o mesmo rapaz; o tio notou aquella differença e attribuio-a ao jejum da vespera, com a mesma prespicacia com que attribuira a causa delle á sua predica; e para contentar o rapaz, levou-o de manhã, depois de tractar dos seus negocios e da politica do dia, a visitar frei Gumeado, que o costumava regalar, apesar da sua deserção, com gulodices, em que não tocou dessa vez, e de tarde, a passeio até aos Carvalhos do monte, que assim se chamava o local onde o cabeçudo parodiador do marquez de Pombal no Porto, o corregedor Almada, edificou um theatro. O effeito destas amabilidades é facil de adivinhar. O namorado de Irene, que, voltando com a luz da madrugada á lucta de esperanças e receios, anceava por occasião de ir buscar um desengano nos olhos da donzella, preso assim todo o dia, revoltou-se interiormente contra a tutella do tio e desappontou-o com desabrimentos. O velho pasmou, benzeu-se, e da compaixão, do arrependimento da aspereza da vespera cahiu com um mau humor verdadeiro, tomando aquelle procedimento por ingratidão, protestou que a severidade, que até ahi lhe ficava nos lábios, ia ser posta em acção, e como assim se revoltára pelo leve castigo de uma travessura, elle trataria em primeiro logar de as impedir, não lhe deixando uma hora para folias, nem arredar pé da loja de pellames; em segundo, se se furtasse á sua vigilancia, de passar além do puxão de orelhas, dando causa verdadeira a amuos.
No outro dia, um domingo, não se esqueceu do seu protesto o velho forçureiro, e o desespero do sobrinho augmentou, tanto quanto augmentava o receio de perder o amor da linda moça; que, se até ao dia em que conseguira trocar algumas palavras com Irene, muitos se passaram em que não descera a Miragaya, sem que tanto se amofinasse, aquella meia declaração e o desfecho mudára as circumstancias: daquellas em que se encontrava bem podem fazer ideia as leitoras e os leitores, aos quaes a memoria ainda conserva vivas as paginas da mocidade.
Depois de jantar, porém--refeição que se tomava nessas epochas, mesmo entre aristocratas, desde as onze ao meio dia, exactamente á hora em que hoje almoça muita gente--quando Gonçalo Domingues executava, dormindo a sesta, uma musica que se assemelhava a tempestade em chaminé na combinação de assobios e notas de contrabasso, appareceu Luiz Geraldes, o mais respeitavel individuo da burguezia, a procural-o para irem a S. Domingos, onde se devia tractar do meio de corresponder á confiança que o mestre de Aviz depositára nos bons cidadãos da terra, assumpto em que o alvitre do forçureiro era valioso, por se poder traduzir na linguagem sonora das boas dobras de el-rei D. Pedro; appareceu Luiz Geraldes e com elle a occasião que desde madrugada esperava e provocára á sombra de todos os pretextos. Mestre Gonçalo, pois, a sahir, e Fernando a procurar na arca o seu melhor gibão e o barrete, a alindar-se, e a bater com a porta da rua na cara da velha creada, que lhe recordava as ordens dadas pelo tio, avivadas segundos antes, e a trovoada que sobre elle e sobre ella descarregaria se ou o encontrasse na rua, ou o não achasse em casa, regressando.
O namorado moço deitou a correr; mas, como em certo apologo, a pressa foi causa de vagares. Tal era o estado daquella cabeça que tomou o caminho seguido por seu tio e o grande amigo do Mestre, e ao cabo da rua da Bainharia esbarrava com elles se um encontrão de um homem d'armas o não obrigasse a uma pausa, e na pausa a um espadeiro, que se sentava em um desses balcões ou mostradores que fechavam uma das portas das estreitas e escuras lojas, conservando nas ruas mais estreitas e não menos escuras os freguezes, não ouvisse dizer para um visinho que deitava a cabeça por uma adufa:
--Lá vae em cata de mestre Gonçalo, que dobrou agora mesmo para o terreiro, o sobrinho... o filho de Vasco, que Deus haja.
Fernando, quiz retroceder; porém, como o bom do espadeiro lhe gritasse que perto ia Gonçalo Domingues, se o procurava, não teve remedio senão responder que ia a recado para as Aldas, e enfiar pelo arco de Sant'Anna, tomar caminho pelo lado da judearia e descer aos Banhos, onde lhe tolheu o passo o personagem que no capitulo antecedente vimos no castello de Gaya, surdir por entre o reposteiro.
--Vindes de S. Domingos? interrogou elle, pondo-se diante do mancebo.
--Oh! és tu João Bispo! exclamou Fernando, depois de examinar o rosto do individuo, assombrado por um farto capuz. Ha muitos dias que te não vejo.
--É verdade, redarguiu o recem-chegado, dando pelo nome, que ouvimos já da bocca do pae dos velhacos. É verdade, repetiu; e á palavra ajuntou um profundo suspiro.
--Que tens, tu? Estás tão triste como quando nos tinham no convento.
--D'onde nunca devêra ter sahido! tornou João, soltando outro suspiro.
--Bem mudado estás, meu folião, ou é isso momice nova?
--Antes fôra, Fernando! antes fôra! mas finaram-se as alegrias.
--Mas, ao que parece, a vida não te vae peor. Gibão novo de barregana... boa adaga! disse o mancebo, medindo-o de alto a baixo.
--Vesti isto; mas embrulhade em almafega respirava melhor: o saio e as calças riam-se por todas as costuras, mas eu tambem ria, e agora bem vedes....
--Vejo que estás sizudo como eremitão, ou mestre em leis, é verdade... Mas onde assim te pozeram? d'onde vens?
--Do castello.
--Do castello? Tomaste lá moradia e serviço?
--Ou cousa parecida... que não se pode assim dizer de praça...
--Segredo! Ora vejam João Bispo feito escrivão da puridade do alcaide! exclamou o mancebo, sorrindo e dando alguns passos para seguir seu caminho.
João segurou-o por um dos braços, e encolhendo os hombros respondeu á zombaria:
--Mofai, que a vez a todos chega. Algum dia haveis de querer bem a alguem....
--E por isso te amofinas, quando não tens quem te empeça de a vêr a todo o momento! redarguiu Fernando, que se não recordou naquelle instante de outro contratempo em amores, senão do que com elle se dava.
--Vêl-a!... vêl-a! exclamou, tornando a suspirar o vadio. Oh! minha pobre Garifa!
--Garifa, repetiu Fernando; Garifa... ora espera... Garifa não era aquella rapariga moura que vinha ao terreiro vender fructa?
João Bispo fez com a cabeça um aceno affirmativo.
--Uma rapariga sempre alegre, que na procissão de _Corpus_ tangia pandeiro e dançava com tanta desenvoltura, trazendo o vestido cheio de cascaveis?
--Sim.
--Que tão bem cantava umas cantigas castelhanas?
--Sim.
--Pois bonita era... pena que fosse moura! E tu, João...
--Eu quero-lhe, quero-lhe como se em noite de S. João me fizessem feitiço...
--E feitiço foi de certo; porque uma moura...
--Não sei se é grande peccado o querer-lhe bem; mas cá para mim tenho que não. Ella é moura, é; mas...
--É por isso que tão magoado te vejo? Querial-a christã, e casavas.
--Não é, não; é porque m'a roubaram!
--Roubaram-ta?
--Roubaram. Ha uma semana, no sabbado, estava eu na encosta do Olival, ao pé do regato, á espera della, e eis que vejo o pae, o velho Humeia, vir direito a mim. O pobre homem chorava como uma creança; as lagrimas eram como punhos pela cara abaixo e os soluços pareciam affogál-o; cortava o coração! disse João Bispo, limpando com a manga do gibão os olhos, sensibilisado ou pela recordação da scena, que narrava, ou pela desapparição de Garifa. O velho proseguiu, quando pôde começar a fallar, a pedir-me a filha, dizendo que lh'a entregasse; que bem tinha visto andar-lhe no seguimento, e na vespera a encontrára ainda alli mesmo a fallar commigo. Olha, Fernando, fiquei como quando me vieram dizer que meu pae--Deus o tenha--era finado, e jurei áquelle pobre homem que não fôra eu que lhe tirára a filha... e commigo pela hostia consagrada jurei tambem descobrir-lhe a rapariga. O velho acreditou-me, e disse-me cousas, que não poderei repetir; que não sei bem o que foram; mas que pelo modo de as dizer me deram um nó na garganta: parecia que tinha engolido uma maçã inteira. Procurei Garifa. Dous homens foram vistos a passar o rio nessa noite com uma mulher, me disse um petintal, e corri tudo em Gaya; alistei-me no troço de Pero Bedoido, para ter occasião de esquadrinhar todos os cantos do castello; mas vêl-a... vêl-a... ainda a não vi! Desconfio, porém, que lá esteja, e se lá estiver, ai do rausador! Olhai, elles deram-me esta adaga, e eu trago-a bem afiada, os ouvidos attentos e os olhos abertos!
João Bispo, ao soltar estas ultimas palavras, baixou a voz e um veo sinistro lhe assombrou a fronte; por alguns instantes permaneceu calado, e proseguiu depois, vendo que o sobrinho de Gonçalo Domingues parecia atterrado com semelhante confidencia:
--A alegria não póde durar sempre. Desde que, morto meu pae, que por força me queria vêr tonsurado, fiz uma reverencia ao guardião, dei um cascudo no porteiro e me fiz velhaco, visto que no convento não apprendi officio e de sujeição estava farto, bem vestido, mal vestido, mais trapo, menos trapo, barriga mais cheia ou menos, tinha quasi todo o santo dia os dentes á amostra; agora veio um revez...
--Não és só tu, João, que os tens; eu...
--Que lhe fizeram, atalhou o vadio; diga, que eu dou uma ensinadella, e...
--É negocio em que nada podes. Não sabes, João, disse o mancebo, pondo a mão no hombro do seu antigo companheiro, e chegando-lhe a bocca perto do ouvido, como em segredo; não sabes... eu tambem quero a uma rapariga como ás meninas dos meus olhos. Oh! é mais bonita que a tua!
--É, disse João Bispo, com um meio sorriso.
--Muito mais; porém, meu tio, tenho eu para mim...
--Não quer?
--Parece-me que não.
--É pobre?
--Pobre!... repetiu Fernando Vasques, encolhendo os hombros.
--Mestre Gonçalo Domingues é rico, e...
O namorado de Irene, ouvindo o nome do tio, lançou em torno de si os olhos, como se receiasse que alli apparecesse; lembrou-se que passava o tempo e elle podia, de volta a casa, não o encontrar, se fosse grande a demora; recordou a causa do seu passeio, e fazendo um gesto de despedida, deu alguns passos em direcção á porta da cidade.
--Se fôr necessario o antigo companheiro das folias, não o poupeis. Os meus trapos nunca vos fizeram voltar o rosto, quando nos encontramos, e hei de mostrar que não tendes feito mal, Fernando, disse o ex-noviço, estendendo ao mancebo um pulso que não era fraco. Ah! exclamou em seguida; não vindes do lado de S. Domingos?
--Não.
--Nem pelo caminho vistes o alcaide de Gaya?
--Não.
--E que tens a vêr com o senhor alcaide, meu velhaco? disse uma voz, que logo João Bispo reconheceu por ser de Tello Rabaldo.
--Ah! sois vós! murmurou o interpellado, visivelmente contrariado por aquella apparição, em quanto Fernando deitava a correr pela rua abaixo.
--Vosso servo, tornou o pae dos velhacos, tirando com ar zombeteiro o seu barrete e segurando pelo capuz a João Bispo. O fidalgo de certo que só com fidalgos tem tracto e por elles procura; porém como está em behetria, para não haver desaguisado, pondo-o fóra, dou-lhe companhia mais chã; mas que lhe fará bom agasalho. Vamos! exclamou mudando de tom; para as tercenas já!
--Senhor Tello, porém...
--Vais seccar a goella sem proveito.
--Senhor Tello, quizera fallar a Ruy Pereira.
--Agora é com Ruy Pereira! Grandes são os negocios! Bravo! continuou o pae dos velhacos, medindo João Bispo de cima abaixo, como minutos antes fizera o sobrinho de Gonçalo Domingues, e como elle admirando a mudança que na roupa havia; bravo! Parece que vamos ter contas graves a ajustar! Cortaste bolsa, ou arrombaste a porta a mercador ou algibebe para vires assim garrido?
--Sou bésteiro do rei.
--Bésteiro do rei desde quando, velhaco? desde que fugiste com a filha do velho Humeia?
--Está excommungado! crédo! gritou uma velha do pequeno ajuntamento que se fizera á volta dos dous interlocutores. Ter contractos com aquella condemnada moura, aquella...!
A mulher disse nome que lhe valeu de João Bispo um murro, que levava a força proporcional á raiva que lhe causára a abelhuda comadre, insultando Garifa.
--Olhem o maldito! gritaram duas companheiras da aggredida. Onde está a justiça? Que faz o senhor bispo que o não manda açoutar bem açoutado? E attreve-se em rosto do senhor Tello...
--Calem a bocca, serpentes! berrou o pae dos velhacos, fazendo um gesto e meneando o seu bastão.
--Serpentes? grunhiu a velha, segurando com a mão os dentes que o socco pozera em vesperas de despedida.
--Serpentes? pipitou uma das novas, esganiçando-se.
--Serpentes? resmungou a outra, ferrando os pulsos nas ancas.
--Serpentes! gritaram, grunhiram e pipitaram entre gargalhadas e em todos os tons os garotos que já embaraçavam o transito.
Tello Rabaldo viu a sua dignidade compromettida, o que não poucas vezes acontecia, e tractou de a salvar pelos meios usados ainda hoje em embaraços--pela força; e como á mão não tivesse se não a sua, foi dessa que se serviu. Segurando sempre o namorado da moura pela extremidade do capirote, fez rodizo com o seu bastão; tomando-o pela parte superior, e uma escala salteada de «ais» e «uis» sahiu dentre a roda de curiosos e curiosas, que augmentava.
--O senhor alcaide! Ahi vem Ayres Gonçalves! gritaram duas vozes quasi ao mesmo tempo.
--Tolhido sejas tu, maldito! resmungou João Bispo, lançado em apuros com semelhante apparição.
--Senhor Pero! senhor Pero Bedoido! berrou o pae dos velhacos, para o capitão de bésteiros, que, seguindo o alcaide de Gaya, se dispunha a embarcar para o castello, e desepparecia por um dos postigos.
--Já nada faço, disse comsigo o ex-noviço deitando o olho a vêr se o capitão accudia ao chamamento. A pelle corre-me agora grande risco, se desconfiam de mim. Com a bocca no pixel não os apanho já!
--Olé, senhor Pero! sua mercê não me diz se este velhaco tomou serviço? proseguiu Tello, querendo arrastar comsigo João Bispo, mais talvez para á sombra do capitão dos bésteiros se fazer acatar, do que pela curiosidade de saber se o namorado de Garifa lhe mentira, ao que estava bastante affeito, para regular a sua justiça pelo humor em que o apanhavam e não por depoimentos e confissões. Em materia de confissões dava fé ás feitas em potro, ou de borzeguins, quando estava de boa feição, e felizmente não era isto raro.
--Grande velhaco! continuou, dirigindo a palavra ao seu prisioneiro; ainda ha pouco não tinhas que dizer a todos os fidalgos? Mais depressa se pilha um mentiroso do que um côxo.
Pero Bedoido, ouvindo a voz do pae dos velhacos, parára junto do postigo, que dava sobre a margem do rio, e retorcendo o bigode piscava os olhos para concentrar os raios visuaes afim de melhor reconhecer quem o chamava. Ayres de Figueiredo parára igualmente.
Quem não deve não teme. João Bispo sentia os seus arripios pelos lombos, porque um pensamento, que o leitor experto, e que de certo se recorda do dialogo apanhado atraz do reposteiro, adivinhará, o punha, na consciencia, em hostilidade com o nobre alcaide, e se na presença delle Tello Rabaldo de novo se referisse á entrevista que pretendia ter com o tio de Nuno Alvares, a vida corria-lhe grave risco. João não tinha, porém, cursado em vão os estudos em S. Francisco e a eschola pratica de velhacarias dos terreiros, praças e bitesgas da cidade da Virgem, para não achar um expediente bom ou mau com que se sahisse de apuros, momentaneamente que fosse. Tello segurava-o, tendo-o quasi esganado pela extremidade do capirote, e o cabeção deste fechava no peito e garganta por meio de quatro grossos botões. Desabotoado estava livre.
--Senhor Tello, senhor D. Tello?! murmurou o rapaz, levando as mãos já aos botões, e esgotando no submisso, no plangente da voz, e naquelle «dom», o ultimo recurso oratorio.
--Ah! perro, velhaco! Eu te...
O pae dos velhacos não concluiu a phrase: um cascudo que preparava como paga da nobilitação dada ao seu nome, deu-o no ar, e com o costado no mesmo momento apalpou o chão, depois de abalroar com as canellas de alguns curiosos.
Um côro formado de um unisono de gargalhadas e de gritos ensurdeceu os visinhos que enchiam as janellas e atulhavam as portas. As gargalhadas provocara-as o desastre de Tello; os gritos soltaram-nos os que abriam caminho a João Bispo. O amante de Garifa deixando o capirote na mão do pae dos velhacos, que perdera o equilibrio, mettera mãos á adaga e corria na direcção da Ferraria.
Ao passar em frente do postigo um acontiado da behetria tomou um virote para lhe embargar o passo.
Ayres Gonçalves, ao mesmo tempo que Pero Bedoido, reconhecendo no fugitivo um dos seus homens, lhe sustava o arremesso, gritou em voz bem alta para chegar aos ouvidos de João:
--Perro, villão, se tocas n'um dos meus homens!...
E a mão do fidalgo pousou como complemento de phrase no punho do estoque.
O acontiado fez uma careta de despeito, baixou o virote, e quando o fidalgo voltou costas, deu com elle com uma força tal d'encontro á parede, que o fez voar em hastilhas, resmungando:
--Perros e villões... perros e villões! A nossa vez ha de chegar, traidores, scismaticos!
V.
Irene.
Ma son, mentre ella piange, i suoi lamenti Rotti da un chiaro suon oh'a lei ne viene...
TASSO. Ger. lib. cant. VII.
E a linda Irene, a filha de João Ramalho?
Irene, das primeiras fallas trocadas com Fernando, colheu um resultado quasi igual ao que este obtivera. A impressão primeira foi a da alegria. Deslembrada da apparição de mestre Gonçalo, quando foi ao encontro da cuvilheira, que a chamára, a physionomia illuminára-se, reproduzindo toda a felicidade que lá ia por dentro naquelle coração. Á pergunta que lhe fizeram, mas não ouviu, respondeu com um abraço na velha, que, mal affeita, pela sua rabuje, a taes carinhos, abriu grandes olhos, e o espanto desta subiu ainda, levando-a a benzer-se, quando viu que, sem lhe prestar attenção, a moça começou a entoar uma copla de amores, desses cavalheirescos amores da epocha. Aquella alma de virgem saudava o enfloramento da nobre paixão que no seio lhe germinára, e a velha, como Gonçalo Domingues a respeito de Fernando, nem se quer pensou que nessa exaltação entrasse por alguma cousa o mancebo, de quem já havia notado os passeios em frente da casa--o que a levára a fazer-lhe carrancas de sobrecenho capazes de affugentar qualquer outro que não fosse um namorado.
--A menina Irene namorar! a menina que depois da morte da nossa ama tenho creado com todos os cuidados?! pensava ella com os seus botões, quando lhe vinham desconfianças, ou as visinhas, pela sésta, no cavaco quotidiano que tinha depois de arranjados prateis, agomias, sartã, pucaros e mais aprestes de cosinha, notavam o volver d'olhos de um ou outro alindado da terra.
A tia Genoveva tinha de si para si que o coração de Irene se abriria só quando ella, ou o senhor João Ramalho muito bem quizessem.
As tias Genovevas ainda hoje não são raras.
A linda moça, quando a deixou a cuvilheira, insensivelmente começou a reflectir nas palavras de Fernando, e pouco a pouco no semblante e no coração começou a tristeza a vencer. A pobre não sabia que o amor se não traduz bem em palavras, e esmorecera pensando que podia não ser amada, ao passo que bem sentia definir-se-lhe no seio a paixão; e quando, noite cabida, a velha trouxe para o quarto de trabalho um velador do qual pendia um graúdo candil, não respondeu ás «boas noites» dadas, possuida de sentimento bem diverso do que horas antes a distrahira. Ainda mais: a tia Genoveva, ao espiar a roca e terminar a ultima ave-maria da coroa que todas as noites rezava á Senhora da Silva, para a ter por sua intercessora; a tia Genoveva notou uma lagrima a balouçar-se nas cilias da linda joven, como aljofre matutino nos estames de uma flor.
--Porque chora, menina? perguntou a velha criada tomando-lhe o rosto entre as mãos, para melhor se certificar de que não era illusão sua aquelle pranto.
--Chorar... eu? murmurou Irene, limpando os olhos.
--Sim, a menina. Então não veem o espanto que faz?
--É que eu não choro... Porque havia de chorar?
--Porque? Ora sei eu o porque?
--Nem eu...
--Credo! Anjo bento da minha guarda! Feitiço por certo lhe fizeram! De tarde a rir e a cantar como uma louquinha, e a fazer-me momices carendeiras; agora a choramingar sem que nem para que! É quebranto, menina... é feitiçaria; e bem fará em pôr esta noite debaixo da almadraquexa um ramo de arruda.
A velha atinava: que maior feitiçaria que a do amor não póde haver. Só elle tem o privilegio de dar a uma palavra ecco que, por vezes, dura até com elle se casar já bem fraco o das ultimas preces: de perpetuar uma imagem ante os olhos até que os cerre o frio osculo da morte.
Pranto e risos, succedendo-se rápidamente sem explicação para quem os vê, sem explicação mesmo para quem os sente humedecer as faces, ou descerrar os lábios, são em geral o resultado vulgar do toque da vara do grande feiticeiro: emquanto o feitiço conserva toda a força, o pranto é como os chuveiros de Maio, que veem como para fazer ressaltar o sol que lhes succede, ou como os orvalhos de Junho, que refrigeram as flores; quando o feiticeiro se ausenta, o riso é como o luar em noites de Fevereiro, quando tudo é silencio: contrista como elle,· traz melancholia. As lagrimas da linda filha de João Ramalho eram chuveiros de Maio. Correndo á vontade sobre o travesseiro, em que não pozera a arruda, não lhe imprimiam nas faces a aridez; regavam, permitta-se mais esta imagem entre tantas, o amor que, como no sobrinho de Gonçalo Domingues, repetimos, se definira naquella tarde.
O amor na juventude, no sexo que chamamos fragil, porque nós, que nos dobramos a todo o momento a seus pés, lhe esmigalhamos o coração em um circulo de ferro chamado positivismo, realidade e conveniencia, quasi sempre nasce entre lagrimas, lagrimas das que chorava Irene quando repetia baixinho, comsigo, o nome de Fernando; lagrimas que rebentam espaçadas, se demoram nas palpebras, e descem lentas pelo rosto.
No outro dia muitas vezes correu a moça namorada á janella da praia, muitas á que dava para o lado do monte, e impacientou-se e entristeceu-se quando viu cahir a tarde sem apparecer o sobrinho do forçureiro; no domingo, durante a missa do dia, na velha igreja de S. Pedro, fez cochichar umas poucas de comadres, que lhe ficavam na rectaguarda, tantas foram as vezes que voltou, durante o officio, a cabeça para o lado da porta, e ainda mais se impacientou e entristeceu quando, feitas ante todas as imagens as estações que eram da devoção da senhora Genoveva, regressou a casa sem vêr uma sombra rastejando ao lado della (que olhar face a face, de perto, para Fernando, nunca a gentil menina olhara) sem ouvir certas passadas, que distinguia de todas as outras e lhe causavam uma impressão nervosa agradavel.
Neste descontentamento, sentada na varanda, que tentamos já descrever, prestava attenção a todos os ruidos, quando a velha criada com quem João Ramalho havia conferenciado depois de jantar, arrastando um tamborete de pau e umas contas com que se entretinha todas as vezes que não trabalhava ou dava á lingua, lhe veio fazer companhia. Genoveva engorolou um _pater_ e tossiu; engorolou outro _pater_ e tossiu outra vez; terceiro _pater_ a meio e mais prolongada foi a tosse, e, ao findar, a esta juntou um arrastar de tamborete e um suspiro. Era evidente que rebentava por fallar; porém a sua joven ama estava bastante distrahida para notar todos aquelles preparativos oratorios. A velha ainda se resignou a fazer passar mais algumas contas, a mudar o tamborete da direita para a esquerda e a passar na tosse do _piano_ ao _forte_, do _moderato_ ao _vivace_ e até á _furia_; mas vendo que era trabalho perdido, pousou o rosario, puchou a touca, crusou os braços sobre a barriga e exclamou:
--A menina que tem?
--Nada, respondeu Irene, olhando pela abertura da zelozia para o céu, que mostrava um azul soberbo.
--Nada! Então eu estou cega; ha dias que não sei o que tem... anda triste!...
--Triste? atalhou Irene, com um desses sorrisos, que se denunciam como contrafeitos. Ainda esta manhã me disse que andava com a cabeça no ar, e achou que ria como louca... não sei quando...