Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV
Chapter 3
O recem-chegado, personagem lhe chamamos, e mostrava-o ser de conta entre aquella gente, era uma figura notavel. Um barrete de tela vermelha de forma exquisita rematava, assentado sobre um capirote, uma fronte um pouco crescida e saliente, complemento de um rosto ossudo, moreno, em que dous olhos desesperados com a proeminencia de um nariz, que se mettia em tudo de permeio, tinham acabado por enviar as pupillas, cada uma para o seu lado, a tomar conhecimento com as orelhas; o lábio superior era adornado por um bigode esfarrapado, de côr duvidosa, ou de todas as côres possiveis--preto, branco, castanho, louro e ruivo--e de egual mescla eram os pellos que deixava crescer no queixo. Da cabeça não desdiziam o resto do corpo e o vestuario: trajava um gibão bipartido preto e vermelho, e uma das longas pernas enfiava-se em uma calça e borzeguim vermelho, a outra em calça e borzeguim preto; do pescoço pendia-lhe uma medalha de metal amarello, com as armas da cidade, da cinta um grande punhal e uma enorme bolsa de couro, e na mão sustinha um bastão, terminado por uma cabeça de metal cinzelada, ao que parecia, por artista que tomára a delle por modello. Medalha e bastão apregoavam que Tello Rabaldo era o pae dos velhacos, cargo que não tem hoje correspondente, por não tolerarem as luzes do seculo absurdos. Tello superintendia, governava tão sómente cidadãos que em noites serenas teem o docel do leito recamado de estrellas, jejuam sem devoção, deixam crestar o corpo pelo sol de Agosto e gelar o sangue pelo frio de Janeiro, e chamar-lhes velhacos era alterar a significação das palavras, se não era malicia de legislador, que assim arrebanhava e baptisava alguns centos de creaturas, para que se persuadissem as de boa fé que na terra não havia mais, como os hospitaes de doudos lisongeam muita gente que não é forçada a não ter lá moradia. Os velhacos, os verdadeiros, então, como hoje, não se deixavam governar, sempre governavam tambem, e havia-os anafados, vestindo custosas telas e abrigados em paços soberbos.
--Eh! boa gente! exclamou Tello, dirigindo-se aos individuos que tractavam de lhe evitar a presença; então assim querem fugir a seu pae! Vamos, venham receber a benção, como bons filhos, e com a benção uma boa nova. Olá, Pedro Choca! accrescentou, depois de honrar com um sorriso a facecia que servira de exordio, dirigindo-se a um dos que se desbarretava; que nenhum dos teus falte depois de ámanhã na Ribeira. Onde está o João Bispo?
--João Bispo, redarguiu o interrogado, ha dias que desappareceu.
--O velhaco voltaria para o convento farto de estar deitado de barriga ao sol, ou se metteu outra vez com a filha do velho Humeia, e está a fazer penitencia por ter peccado com moura?
--Ou se foi lançar com os scismaticos...
--Para que? Toma conta em ti! Chegou-me aos ouvidos que te travaste com elle de razões por umas nonadas, e se me déste cabo do rapaz, em boa te metteste! Se não me trouxeres em breve novas delle, a tua pelle m'as dará. A polé do aljube está nova, e poderá bem comtigo.
Choca resmungou por entre dentes algumas palavras, e o pae dos velhacos proseguiu:
--Avisa aos compadres para que ou vão comtigo e mais a sua gente, ou a levem para as tercenas. Que não falte ninguem! Quero duzentos homens, bons pulsos...
--Duzentos homens, bem sabe sua mercê que não podemos reunir. A melhoria da gente levou-a o senhor conde Gonçalo; o senhor alcaide tem boa porção, e se creanças, mulheres e aleijados não servem...
--E esses perros de cabeça amarrada! exclamou Tello, designando um mouro que a curiosidade trouxera para junto de Pedro Choca, capataz de uma turma de vádios. Quanto aos aleijados, sei de uma mésinha que os põe sãos como um pero, ajuntou, mostrando o seu bastão; o manco da porta da Sé que o diga. Vamos: sua senhoria (uma barretada) appellidou os bons homens da sua boa cidade (outra barretada) para que o ajudassem a dar cabo dos perros de Castella, e os alvazires dão-vos honra mettendo-vos na conta dos bons homens... fazendo-vos trabalhar. Que ninguem falte, e viva sua senhoria!
--Viva sua senhoria! repetiram os vádios e com elles Gonçalo Domingues, que se approximára da roda formada ao pae dos velhacos, roda desfeita a um signal por este dado com a vara, deixando a importante, incansavel e incorruptivel auctoridade, como lhe chamariam hoje, que todos os encargos teem um ou mais adjectivos annexos, face a face com o burguez, que abria a bocca para indagar quaes os serviços que o filho de Thereza Lourenço reclamava dos portuenses.
A interrogação não foi formulada. Tello Rabaldo, cheio da sua importancia, fez uma leve saudação, carregou o barrete sobre um dos olhos em rebeldia, e girou sobre os calcanhares ao mesmo tempo que um outro individuo assentava nos hombros do forçureiro uma grande palmada. Gonçalo Domingues voltou-se a vêr quem segundava a amabilidade do marinheiro, e se não reconheceu logo o seu compadre, foi porque um abraço de metter costellas dentro o suffocou. O bom homem vinha lisongeado com a carta de que Ruy Pereira fôra portador, lisongeado em extremo no seu patriotismo de localidade, e expandia o seu contentamento daquella sorte e em exclamações, que fizeram suspeitar ao tio de Fernando, que não estava em bom arranjo aquella cabeça. D. João chamava aos portuenses o seu bom povo, mimoseára-o além disso com outros epythetos taes como--leal, esforçado, etc., e o portador, resolvido, apesar do seu enfado, a ser amavel e popular, pintára a amisade e reconhecimento do Mestre, pela espontaneidade da sua acclamação na cidade da Virgem, com taes côres, descera da sua dignidade prodigalisando sorrisos ao corpo municipal, batendo no hombro de Luiz Giraldes de um modo, que o nosso homem esteve por um triz a deixar cahir uma lagrima de commoção. Era uma alma candida e enthusiastica, apesar do involucro grosseiro, o compadre do senhor Gonçalo Domingos; tão candida que acreditava no desinteresse do Mestre de Aviz, suppondo que defendia a coroa para a entregar ao filho de Ignez de Castro; tão enthusiastica e patriotica que, quando, á força de lhe perguntar o marchante se encontrára o arrabi, seccas as goellas e já sem alento para descrever a reunião nos paços municipaes e mais epysodios da embaixada, se recordou do seu negocio, era tarde. O sol ia quasi a mergulhar no oceano, e era provavel não só que, na judearia estivessem fechadas as ruas, mas até que se lá fossem, encontrassem as portas da cidade cerradas no regresso. Os dous burguezes separaram-se, pois: o patriota, compadre de Gonçalo Domingues, seguiu pelos campos em direcção ao povoado de Cedofeita; est'outro, despertando o sobrinho de pensamentos em que não entravam nem compras, nem vendas, nem os direitos que os filhos de Henrique 2.^o de Castella e D. Pedro 1.^o de Portugal, podiam ter á terra que pisava, tomou com elle o caminho de casa.
As nuvens, que o norte espalhára no ar, como flocos de algodão, ornadas pelas tintas que formam a gradação entre o rubro e o amarello vivo, davam ao céu a apparencia de um marmore, um todo que em pintura seria inverosimil; os edificios de Villa Nova e de Gaya cortavam com o perfil o horisonte, vestindo pouco a pouco uma côr uniforme, o cinzento-escuro. De um destes edificios, o que mais se avantajava, do castello de Gaya, as janellas esguias voltadas para o poente pareciam dar sahida aos fogos de um incendio. De que não era, porém, este chamejar mais que um reflexo do sol no occaso, se poderia desenganar quem, mesmo nunca tendo presenceado este phenomeno, se nos anticipasse na residencia do tenente do conde D. Gonçalo, onde uma hora depois lhe provariamos que a reflexão, ao appresentar Tello Rabaldo, não fôra de leve feita: velhacos não eram só os que não tinham nem leira nem beira.
Em uma das salas que no castello serviam de apposento ao alcaide, revestida de apainelados de carvalho, em que a luz do dia, coada pelos miudos vidros de côr, formando losangos, embaçava, e embaçava egualmente a que davam as tochas sustentadas por braços de ferro, passeava de um para outro lado um homem de alguma edade já, magro e de estatura mediana. No peito de uma especie de camisola de panno de curtas fraldas, cujas mangas, farpadas nas orlas, pendiam até ao joelho, viam-se bordadas a verde com nervuras de ouro tres folhas de figueira; o mesmo distinctivo se reproduzia em uma bolsa de couro, que, do lado contrário ao estoque, acompanhava um punhal, nos fartos reposteiros das duas portas, que para a sala davam serventia, e na manga da jornea de um pagem, creança de dez annos, que cabeceava com somno a um canto. O barrete adornava-se com duas pennas de aguia, presas em fecho de ouro, e os borzeguins apresentavam uns longos bicos, moda que um epysodio da guerra travada deixou assignalada na historia. Encostados, no vão de uma janella, conversavam, em voz baixa, uma dama e um individuo que se tornava notavel por usar crescido o cabello, raro e de côr avermelhada, e por uma longa espada, de que affagava o punho. Do lado opposto havia seis individuos, um dos quaes vestia hábito monastico, e outro se acobertava com uma velha armadura de malha.
O homem que passeava era Ayres Gonçalves de Figueiredo; a dama era a esposa deste, D. Catharina; o individuo, que lhe fazia companhia, o irlandez Guilherme Down-Patrick; os restantes eram quatro cavalleiros, homens de solar de Entre-Douro-e-Minho, o capitão de besteiros, Pero Bedoido, e frei Garcia.
As passadas do alcaide soavam mais alto do que as poucas palavras que toda aquella gente trocava entre si, e visivelmente preoccupava-o negocio, que não era para os outros estranho, a não enganar o modo porque de tempos a tempos se fitavam e a meditação que se seguia. Duas pessoas se subtrahiam á influencia geral, a castellã e o irlandez: se se calavam era, ella para amimar uma galga branca, que se enroscava sobre um escabello, elle para com a vista percorrer a laçaria e penduróes do tecto.
Segredos e silencio, aquelles olhares e gestos tinham um todo mysterioso, que houve por bem quebrar Ayres Gonçalves.
--Que me dizeis, senhores? exclamou, estacando no meio do passeio, como a procurar alvitre que viesse pôr termo á sua irresolução, parecer que se conformasse com o que tinha na mente.
Ninguem respondeu, porém, e o castellão, lançando á volta de si um olhar de quem queria lêr nas physionomias dos hospedes as suas intenções, proseguiu:
--Sua senhoria quer em volta de si todas as lanças do reino, e não se lembra, ou não se quer lembrar de que fica desguarnecida uma terra tão importante como esta, e cercada por tantos senhores que levantaram voz pela rainha D. Beatriz. Deixa a cidade aos peões, aos peões, que tracta como a gente de prol?!
--Em boa confusão vae pondo as cousas! Um dia, veremos, senão lhes pozer cobro ás ousadias, vir arraya tomar-nos os solares; atalhou, abanando a cabeça com ar sentencioso, um velho fidalgo de Riba-Tua. Bem altaneiros andam já burguezes e mesteiraes!
--Deixae, accudiu Affonso Darga, as encamizadas dos peões, que terão seu cabo. O Mestre precisa de sustentar a guerra, e lisongea por isso quanto mercador tem a arca bem provida de boas dobras, tornezes, gentis, florins e pilartes. Aos do Porto pede elle agora uma armada, mantimentos e dinheiro.
--Armada que nos levará a vêr o rosto ás hostes de Castella; tornou Ayres Gonçalves.
--Se se fizer.
--O povo do Messias de Lisboa a arranjará. Não viram como os alvazires propozeram logo uma derrama, e juraram a Rui Pereira que teriam antes de um mez a nado algumas naus e outras se armariam dos melhores navios do commercio com Flandres?! Estão inchados com o valimento que lhes dão.
--Por ahi se conhecem os vilões...
--É que dão elles ao Mestre? Grande cousa! Em campo se verá de que servem, e no campo é que a contenda tem de se decidir. Irão com béstas, virotes e azevans fazer frente ás lanças de Castella? Lingua teem elles; mas brio é que nem toda a algaravia desses mestres em leis e clerigos, que o regedor tomou para seus conselhos, esses falladores de Pisa e Bolonha, poderá metter nessa gente.
--Mas nella se estriba D. João, disse, meneando a cabeça, um dos cavalleiros.
--Para elles appella com boas palavras; a nós manda-nos, não recado, mas ordem! exclamou o alcaide. É dessas garnachas sahidas do nada que vem a desconsideração em que nos tem.
--Tempos do rei D. Fernando! suspirou Down-Patrick, recordando-se talvez de quando as hostes do duque de Lencastre faziam, entre os alliados portuguezes e os inimigos de Castella, de tudo roupa de francez.
--Era um bom rei o que Deus tem! ajuntou frei Garcia, fazendo uma momice de piedade.
--Rei, e creado como rei, bem sabia elle onde estava a força e grandesa do reino e sua.
--E melhor agasalho não nos fazem sempre no campo do marido da rainha D. Beatriz. Aos de sua casa aconselhou D. Leonor que fossem para o Mestre, que ao menos não era soffrego.
--Com isso perdeu D. João: perdeu-o a altivez.
--E ao Mestre não approveitarão as mercês rastejadas.
--Elle não precisa de nós, tornou o velho, o mais desappontado dos hospedes do alcaide, ao que perecia; faz cavalleiros a seu capricho do primeiro peão que se lhe antolha.
--Bons cavalleiros! observou, rindo, o mais moço da reunião. Por lá andam montados em mulas fazendo rir com os seus ares de importancia. Não será preciso, para os derribar, erguer clava ou montante: andam tão mal a geito com arnez e grevas, tão abafados pelos elmos, os que os teem, que ao primeiro arranco das azes vão ao chão.
--Em se tractando de lançadas é comnosco que se haverão, bem o vêdes, disse Ayres de Sá.
--E ireis, senhor alcaide? interrogou Affonso Darga.
--Eu, senhores, respondeu Ayres depois de alguma hesitação, levantei voz pelo Mestre, mas recebi o castello do conde D. Gonçalo: obedecerei a sua senhoria em tudo, mas só abandonarei o castello...
A phrase do alcaide não terminou. D. Catharina, approximando-se de seu marido, e impondo-lhe com um relance d'olhos a conveniencia de não proseguir, atalhou:
--Largos dias tendes para tomar conselho, cavalleiros; alegrae o sarau com outros contos. Cousas de tanta importancia não se devem tractar de salto: o tempo que se leva a pensar em casos taes não é perdido. Tomai exemplo de D. Gonçalo Telles, ajuntou mais baixo, dirigindo-se ao esposo.
D. Catharina de Figueiredo era, até certo ponto, uma dona prudente, como chama um historiador, por egual conselho fabiano, a Beatriz Gonçalves de Moura, aia depois da excellente rainha D. Philippa. O exemplo do conde era um grande exemplo, pois era de homem que sabia, ou parecia ter de memoria o _Sic vos non vobis_ de Virgilio, e dar-lhe o valor devido nas cousas do mundo. D. Gonçalo fechara-se em Coimbra, jogára com sua irmã um jogo pouco leal e parecia aguardar que a sorte decidisse qual dos pretendentes á corôa tinha razão e direito, ou força e geito para a segurar na cabeça. O alcaide approveitou o conselho e abandonou o thema em que o lançára o mau humor causado pela mensagem de Ruy Pereira.
Palestra sobre outro assumpto era naquella occasião difficil de sustentar. Os cavalheiros pouco a pouco deixaram a sala, e quando só restavam o aventureiro, Henrique Fafes, o mais moço dos da reunião, e frei Garcia, indicou este ultimo com o olhar o pagem quasi adormecido, tirando ao mesmo tempo da manga uma tira de pergaminho dobrada. Ayres de Figueiredo, sacudindo com violencia a creança de quem o reverendo parecia recear a indiscripção, a poz, extremunhada, fóra da porta, ordenando-lhe que se recolhesse, e em seguida percorreu com os olhos o escripto, que lhe appresentaram.
--O alcaide de Monsaraz veio? disse elle terminando a leitura e dirigindo-se ao frade.
--Senhor, sim, veio.
--E não desconfiaram de nada?
--Penso que de nada. As galés castelhanas não appareceram.
--E de boa fonte houvestes esta proposta?
--Do irmão do arrabi-mór, esse judeu a quem sua real senhoria acaba de fazer mercê.
--Misser Guilherme, senhor Henrique, disse o alcaide depois de fitar os dous por um momento, se pouco caso se faz de nós em Lisboa, no campo dos que a sitiam teem-nos em apreço. D. João não é tão soffrego como o pintavam, e a prova é este pergaminho.
Down-Patrick fez uma visagem e soltou um «oh» guttural, que expressava a pouca admiração que lhe causava o apreço em que o poderiam ter, como certo dos seus muitos merecimentos.
--Gonçalo Rodrigues vos fallará depois d'ámanhã em S. Domingos, disse frei Garcia, attrahindo o alcaide para junto de uma das portas, a opposta áquella por onde sahira o pagem. E depois, accrescentando algumas palavras em voz baixa, sahiu pelo outro lado.
Ayres de Sá, chamando Henrique Fafes e o irlandez, seguiu-o.
Quando a sala ficou deserta, o reposteiro, junto do qual frei Garcia fallára com o alcaide de Gaya, oscillou e appareceu entre elle e a hombreira da porta um rosto, onde a curiosidade e a malicia se pintavam.
--A mulher tem razão, disse, referindo-se ás palavras de D. Catharina, o curioso, depois de ter o ouvido á escuta por alguns segundos; o tempo que se gasta em certas cousas não se perde, e eu não perdi o meu. Ah! Garifa, minha pobre Garifa! exclamou em seguida, mudando de expressão e ajuntando á exclamação um suspiro, de ti é que não apanho novas.
IV.
Dous namorados.
... Donde amor se atraviesa No hay padres reverenciados.
(ROMANCES DE GAZUL.)
Fernando, chegando a casa, o melhor predio da rua dos Pellames, ao toque de Angelus, viu seu tio devorar com todo o appetite uma grande posta de carneiro e um tassalho de toucinho, capaz do pôr em debandada um exercito mahometano, regado tudo com o summo da uva. Gonçalo Domingues, se dava descanço aos dentes, não o dava á lingua, pois incetou, ao _benedicite_, um sermão, que, ao _gratias_, ainda não estava concluido. O velho fallou na creação do seu tempo, na obediencia da gente moça á mais idosa em geral, e em especial áquella de quem se recebe o pão do corpo e o pão do espirito; discorreu sobre as passadas travessuras do sobrinho, e foi cahir na ultima, terminando pela ameaça de um sevéro castigo, em caso de reincidencia. Fernando, ao inverso do tio, não tocava sequer em uma mealha do pão alvo, que a criada com um prato de figos passos servira por mimo, e, com os olhos fixos na toalha, não soltava uma palavra de desculpa. O bom velho, notando aquelle extraordinario fastio e sizudez, tomou tudo por effeito da sua eloquencia, conversão e compunção do rapaz, e por um triz esteve, no final, a addicionar ao sermão um palliativo, tirando o exemplo de casa, pois que o podia fazer; mas a necessidade da disciplina, de conservar sempre perante o sobrinho um todo de soberania, um sobrecenho, que julgava indispensavel, embora não quadrasse com a affeição que lhe tinha, o detiveram. Fernando era, segundo elle, um estouvado, um leviano como seu pae, do que déra já provas exuberantes, abandonando, depois dos estudos, o convento de S. Francisco, então extra-muros, para onde um outro parente o chamára, a fim de o metter na estrada do céu e do mundo pela clausura. O que nisto amofinava mais o forçureiro era a boa disposição que mostrava o mancebo para as letras, a intelligencia desenvolvida, que nos primeiros tempos fizera dizer a frei Gumeado, grande sabedor para aquellas epochas, que bem podia vir a aspirar a grandes dignidades da egreja e do seculo, a ser geral, bispo, ou chanceller. Todo o rigor, pois, que empregasse era pouco, e despediu-se do mancebo com toda a solemnidade, para dizer á cuvilheira que, como por seu voto e lembrança, lhe levasse ao quarto alguma cousa de comer.
Se Gonçalo Domingues soubera qual a attenção que lhe dava o sobrinho, de certo não fizera semelhante recommendação. É bem certo que os annos trazem, ás vezes, experiencia e algum saber; mas não é menos certo que á proporção que vão passando se esquece muita cousa egualmente: aos sessenta perde-se a memoria dos vinte, senão das acções praticadas, dos pensamentos havidos; um mancebo póde muito bem avaliar o que não apreciará, não conseguirá distinguir um homem a quem o inverno da vida tenha gelado o coração. A prédica entrava tanto na absorpção de Fernando, como entrava a mensagem do Defensor: as palavras do tio eccoavam-lhe aos ouvidos como sons vagos, que se não reproduziam no machinismo regulador chamado intelligencia e outros nomes, segundo a face por onde é visto, porque sons diversos o impressionavam. As fallas de Irene, as inflexões, os mais leves gestos preoccupavam-no: de uns e outros tirava esperanças agora, logo motivos de amofinação; traduzia agora uma phrase, das poucas obtidas de Irene, por um modo que o coração trasbordava de alegria, e logo parecia-lhe que o timbre de voz, um nada sonhado lhe dava bem diverso valor; assignalava aquelle dia como o mais feliz da vida, e recordando-se do desfecho do colloquio, em seguida; entristecia-se e amaldiçoava o tio, que o fizera descer do galho da arvore e dos braços da felicidade. O puxão de orelhas, sobretudo, doia-lhe, quando o recordava, mais do que lhe doera em Miragaya, julgando-se aos olhos da sua namorada deshonrado... mais que deshonrado, ridiculo. Este combate entre o desejo e o receio, durou, trazendo a insomnia, até altas horas da noite; mas, a final, venceu o desejo, e a alegria espelhou-se-lhe no rosto. Fernando, nas azas da imaginação; voava do passado ao futuro, e deste áquelle, amontoando as pedras do seu castello de felicidade. Deitando-se e apagando a luz sorria a todos os sonhos creados; sentia como nova vida a inflar-se no peito, e parecia querer affogar-se em ar, tanto era o que respirava de momentos a momentos. Junto com a imagem da linda filha de João Ramalho toda a natureza era risonha naquella miragem: as arvores reproduziam-se mais verdes, mais cheias de perfumes e mais bellas as flores; as aves nos cantos diziam todas--alegria; o céu transparente deixava adivinhar além do manto azul uma segunda vida toda amor. O mancebo vira, bem o podem acreditar, bastantes vezes o céu, as arvores e as flores, mas nunca se lhe tinham affigurado assim: como á estatua de Pygmalião, faltava-lhe o fogo no peito. A lavareda ateára-se naquelle dia, posto que incubasse havia muito.
Fernando Vasques amava Irene desde que a vira, e vira-a nessa edade em que se sente um vacuo no coração; a si mesmo confessára já esse amor; mas definido, claro, só então rebentára: o vácuo enchera-se, e a trasbordar, e para o encher talvez o amaldiçoado puxão de orelhas, a primeira grande contrariedade, entrasse por muito: «talvez» dizemos, e podiamos dizer «certamente.» O amor vive de contrariedades, de luctas, diz um phisiologista; e como um malicioso accrescentou que por isso só elle nas mulheres se creava, saibam, acreditem as leitoras que todo o homem tem no coração o seu tanto ou quanto de mulher, na mocidade sobretudo, e por isso não perde. As mulheres lucram menos com o que recebem do homem em geral: não as compensamos. Como diziamos, porém, deixando reflexões, a correcção de Gonçalo Domingues, e ainda, se quizerem, as poucas palavras trocadas entre os dous namorados, tinham ateado a lavareda no peito do mancebo, e um dos effeitos della fôra, de fazer acordar homem quasi quem se deitára creança.