Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV
Chapter 10
Os alvazires e mais cidadãos que os acompanhavam, depois de se empuxarem e acotovellarem uns aos outros, por bom espaço de tempo, tinham resolvido, ou antes forçado o mais bojudo e o mais endinheirado d'entre elles a tomar a palavra, e o nosso homem depois de um gesto bastante solemne feito ao bom povo; depois de tossir e escarrar, como o faria, ao encetar um sermão, o frade mais sabedor do convento de a pár, balbuciára uma ou duas duzias de palavras. É de crêr que fossem boccados de ouro; mas asseverál-o ninguem, a não serem os collegas, o poderia fazer, pois, quasi nada perceberam no terreiro os que lhe quizeram prestar attenção. Uma grande parte não lh'a dava, e continuava a formular as suas queixas ou accusações.
--Querem dar cabo do povo, e entregar a cidade aos de Castella!
--Morram os traidores!
--Morram os scismaticos.
--Amigos, tornou o alvazir levantando a voz, logo que a tempestade popular serenou mais; o Mestre nosso regedor e defensor se encomendou ás vossas boas lealdades, e vos mandou dizer que, como este reino andava todo revolto com desvairadas tenções...
--E bem desvairadas são as que tendes! exclamou cortando a palavra ao orador, um amotinado, pouco reverente para com o plagio da mensagem de Ruy Pereira, de que em apuros aquelle se valera.
O pobre homem, olhou em torno de si espantado; limpou o suor, que lhe corria em bagas pela fronte; tossiu de novo; poz a mão no peito para tomar um ar mais solemne, e começou novo aranzel:
--Todos vós sabeis que esta cidade levantou voz pelo Mestre...
--Viva o Mestre! Alcacere por sua senhoria! gritou a chusma...
--Todos vós sabeis, repetiu o alvazir, que esta cidade deu voz pelo Mestre, que jurou defender-nos e amparar-nos, e tambem sabeis que el-rei de Castella veio sobre Lisboa com toda a sua gente...
--Morram os castelhanos! gritaram do terreiro.
O illustre orador, como hoje lhe chamariam, se ele vivesse, as gazetas, orgãos ou respiradouros do partido em que se tivesse lançado; o illustre orador, vendo que não havia com tal gente meio de atar duas phrases sem uma interrupção, tratou, já desesperado, de resumir o seu discurso:
--O regedor mandou pedir a esta boa cidade que lhe enviassem todas as galés e barcos que fosse possivel armar e equipar, e bem assim mantimentos e dinheiros, os quaes--ajuntou o bom do alvazir, como se entre os amotinados houvesse alguem que com tal se importasse--como filho de el-rei que é, por toda a sua verdade jurou pagar muito bem...
--E ressuscita os que tiverem morrido á fome? perguntou um velhaco, que subira acima de um poial, arrimado ao arco, e de braços cruzados, com gesto zombeteiro encarava o orador.
--Morram os traidores!
--O regedor não quer que matem o povo!
--Viva o Mestre!
--Fora os alvazires, gritou Pedro Choca.
--Fora, fora! vozearam d'entre a multidão.
O orador tornou a limpar o suor, que se tornava copioso e frio cada vez mais, e ainda tentou proseguir; mas a sua má estrella quiz que ao examinar o seu auditorio désse de novo com os olhos no velhaco do poial. O maldito riu-se, e fez-lhe um esgar; e risada e esgar seccaram-lhe completamente a prosa na garganta. O bojudo cidadão bateu com a lingua nos dentes, soltou dous ou tres sons, estendeu os braços, e meneou-os, como se pertencesse á seita dos mestres pedreiros que, pouco havia, tinham concluido os muros da cidade, ou quizesse nadar em secco; mas nem uma palavra mais conseguiu formular, nem com todos aquelles tregeitos exprimir uma ideia.
A atrapalhação do orador deu incremento ao alvoroço, e os bons-homens que tentaram substituir aquelle na tribuna, não conseguiram um momento de attenção. Era este o estado das cousas, quando Gonçalo Domingues e Fernando, appareceram no terreiro, vindos do lado do Palmeirim. Mestre Gonçalo e o compadre, que já encontramos no campo do Olival, tinham sido os encarregados de arranjar o gado, e portanto a sua apparição trouxe áquellas cabeças desorientadas a ideia de que uma boa parte da culpa dos males que receiavam, delles provinham. O acolhimento foi pois o menos amavel possivel. As relações de mestre Gonçalo com o judeu Moyses, em quem o povo já fizera justiça a seu modo, foi a primeira pecha que lembrou a alguns dos amotinados, e mal lhes lembrou, logo foi lançada em rosto. A chusma fez côro, como fazia a todas as lembranças, e o bom burguez ficou perplexo: fez-se vermelho e fez-se amarello quasi ao mesmo tempo, e o caso não era para menos. Quem não respeitava nem bispos, nem abbadessas, não era muito que desacatasse um forçureiro, por mais endinheirado que fosse. Não era mesmo naquellas circumstancias o dinheiro carta de seguro; bem pelo contrario: era mais uma razão para temores.
Gonçalo Domingues, impallidecendo, agarrou-se ao braço do sobrinho e quiz retroceder; mas a rectaguarda estava-lhe já cortada, e entre ameaças foi levado pela multidão até junto do paiol, onde se empoleirára o vadio que seccára a eloquencia ao orador do arco. Fernando tomado de assombro seguiu o tio. O sangue do mancebo, porém, não era o do velho, e a vozearia, os insultos bem depressa o fizeram ferver. O primeiro impulso do namorado de Irene, recuperada a exaltação que o dominava desde o recontro de Leça, e levado por assomos de cholera foi o de se lançar contra os amotinados. Desembaraçando-se das mãos de seu tio, atirou-se a um mesteiral, que junto do rosto daquelle erguera o punho cerrado, e ia ser victima talvez dos seus brios, quando dous braços musculosos seguraram o seu antagonista, e uma voz, que devia ser conhecida de alguns dos que se mostravam mais enfurecidos contra mestre Gonçalo, exclamou:
--Ter mão rapazes!
Pedro Choca vira Fernando Vasques ameaçado e correra em seu auxilio. O velhaco, apesar de tudo, não deixava de ser um bom patriota, de ter o seu enthusiasmo pelos defensores da arraia meuda. Conhecia Fernando do assalto ao bailiado, e o denodo do mancebo fizera com que elle o tivesse na conta de um heroe, contra o qual não levantára mão, nem consentira que se levantasse por todo o dinheiro que lhe dessem.
As suggestões e os tornezes do capellão de Ayres Gonçalves, e mesmo o prazer de fazer arruido não eram as unicas causas que o tinham feito estafar os pulmões; frei Garcia gastára tempo e algumas malgas de vinho para o convencer de que entre os alvazires havia partidarios de Castella, que tinham tido o negregado pensamento de se vingarem do povo, por meio da fome, fingindo que serviam ao mestre. Que Fernando pactuasse com traidores não acreditava porém, o velhaco, e por isso repetiu com ar ameaçador, vendo que alguns animos ainda se mostravam hostis ao mancebo:
--Que ninguem lhe toque em um cabello da cabeça, senão commigo tem de se haver!
--A traidor, como a traidores! gritou o mesteiral, querendo desembaraçar-se da prisão em que estava.
--Traidor, quem tomou uma bandeira aos gallegos, quem eu vi atirar-se a esses perros como se os virotes fossem palheiras?!
--Se não é traidor, é por elles, que vale o mesmo. Que tem elle com esse forçureiro de má morte!
--Que enriqueceu furtando ao peso.
--E mais sabe Deus se era cabrito ou cão o que dantes vendia!
--E agora comprou o gado todo, para nos deixar á fome!
--Mentis! exclamou Fernando, respondendo a estes capitulos de accusação; mentis!
--Ahi o tendes! ponde a mão no fogo por elle! resmungou um dos vadios, dirigindo-se a Pedro Choca.
--Se tão bom é um como o outro! ajuntou uma mulher. O rapazelho é filho, ou cousa que o valha do forçureiro.
Pedro Choca coçou a cabeça, e olhou para Fernando com ar indeciso, mas logo formulou este raciocinio:
--O mancebo era incapaz de pactuar com os inimigos do Defensor, e protegia Gonçalo Domingues logo a não quadrava tambem o appellido de traidor.
--Se é pae do meu homemsinho é outro caso, exclamou em seguida, voltando-se para os circumstantes. Deve ser dos nossos.
Gonçalo Domingues, vendo que alguem mais de que o sobrinho vinham em seu auxilio, tartamudeou.
--Domingues Pires ou Affonso Eannes, se aqui estivessem vol-o diriam!
--Que resmunga elle?
--Acoberta-se com o trato que tem com Domingues Pires?
--Sim, sim; mas tambem era dos amigos do perro Moyses! se ouviu dentre a multidão.
A arraia meuda, como se baptisára o povo naquella quadra, tresvairada, estreitára o circulo formado á volta do burguez e as suas intenções pareciam ser bem pouco pacificas, quando Fernando, saltou acima do poial, abandonado pelo companheiro de Pedro Choca. A vis oratoria, molestia que se dá em quadras revoltas como sezões em terrenos alagadiços, acommettera tambem o namorado de Irene. O rapaz emprehendia tarefa espinhosa, como os respeitaveis edis o podiam attestar, commettia, pode-se avançar uma loucura; mas é sabido que neste mundo por vezes as loucuras aproveitam mais do que as cousas pensadas. Fernando tivera uma idea, que vos fará rir talvez leitor, e que podia ter entre os amotinados o mesmo, ou peior acolhimento; porem que foi agua em fervura, como diz o povo. Fora uma idea feliz, uma idea luminosa a do mancebo.
--Metteram-vos em cabeça que vos queriam matar á fome... porque se embarca alguma carne na esquadra! exclamou elle: mas não se lembrou ninguem de que todos os miudos cá ficam.
--É verdade?! acudiu com outros Pedro Choca, que desfazia agora, por causa do seu heroe, a obra para que concorrera; é verdade!
--E depois? interrogou um mesteiral, embasbacado.
--E depois com tanta forçura, com tanta miudagem de todo esse gado não se morre á fome.
--E a carne não é cousa que engasge a arraia muita vez no anno! observou o vadio.
--Demais, proseguiu o mancebo, aos corredores gallegos nós os ensinaremos, e haverá ahi mantimentos de sobra. Para dez scismaticos basta um portuguez. A gente que foi a Leça e Santo Thyrso está ahi, e antes da chegada das galés os do Porto esperaram a pé quedo os do arcebispo, sem que elles se atrevessem a vir ás mãos comnosco. Deixai ir as galés...
--Quem as quita? exclamou um mesteiral, a quem aquellas palavras tinham inflamado o orgulho patrio. Se os de Lisboa carecem de nós, nós não carecemos delles. Não nos atraiçoem os de casa...
--De casa... aqui neste boa cidade não ha traidores, atalhou o namorado de Irene; aqui, ninguem põe o seu braço em almoeda: as lanças e ascumas dos populares não teem preço!
--Como certas espadas.
O mancebo apesar das interrupções, de approvação agora, não se calou. Surprehendendo, como vimos, os amotinados com a primeira lembrança que tivera, lançando por instincto mão dos argumentos melhores em taes circumstancias, proseguiu appellando para os brios do povo, appellando com a convicção de ser attendido, e o rumor levantado pouco a pouco em torno de si provar-lhe-hia, se a isso désse attenção, se elle mesmo não se enthusiasmasse com as suas palavras, que senão havia enganado. Quando terminou o descontentamento da arraia, estava convertido em abnegação civica, em enthusiasmo patriotico. O povo tem, como o oceano, destas mudanças repentinas. Pedro Choca, cuja bossa decididamente era a de vivorio, encarregou-se de dar expansão aos sentimentos que o agitavam.
--Viva Fernando Vaz! que... gritou elle; mas não pôde proseguir, porque o distrahiu e engasgou uma pancada em um hombro e uma voz zombeteira, que lhe dizia ao ouvido:
--Assim é que sua mercê trabalha nas tercenas?
O impulso estava porém dado, e Choca, desapparecendo, pois bem reconhecera pela amabilidade da pancada e da voz a presença do pae dos velhacos, deixava de novo o rico forçureiro em suores nos apertos da ovação do sobrinho. O nome de Fernando Vasques era bastante popular desde o recontro de Leça... pelo que demonstravam os successos, mais do que a pessoa.
Quando Pedro se eclypsava com os seus companheiros, os acontiados do municipio, ha pouco apupados, arrebanhavam sem a menor opposição o gado que se espalhára pelos campos das azenhas. Os planos de Ayres Gonçalves goravam completamente, graças sobretudo ao namorado de Irene. O rapaz, tivera, repetimos, uma ideia feliz, e soubera tocar no fraco dos amotinados melhor do que os alvazires, que no convento ainda discutiam, embaraçados, a maneira de darem conta da sua missão. Falho o expediente do alcaide de Gaya, as indecisões dos seus nobres companheiros tinham de ser cortadas pela emulação dos caudilhos.
Os portuenses davam o primeiro passo para obterem em chrisma uma alcunha que tinha de durar seculos; mas a honra da cidade estava salva. O pae dos velhacos capitaneava os vadios, que, juntos com os besteiros, levavam o gado ás tercenas, e os mesteiraes, que momentos antes tão descontentes se mostravam acompanhavam-nos, berrando:
--Viva o Mestre de Aviz! Viva a arraia meuda do Porto!
FIM
PREÇO 300 REIS.
LIVRARIA DE IGNACIO CORREA, _Rua de Bellomente, n.^o 65 e 66--Porto._
*Louzada.*
Rua Escura--1 vol. 500 Na Consciencia--1 vol. 500
*Camillo C. Branco*
Anathema, 2.^a edição 500 Duas Epochas da vida, poesias--1 vol. 600 Duas horas de leitura--1 vol. 400 Espinhos e flores.--1 vol. 300 Lagrimas abençoadas--1 vol. 400 Livro negro--1 vol. 400 Marquez (O) de Torres Novas, drama--1 vol. 400 Mysterios de Lisboa--2 vol. 1$000 Neta do Arcediago (A)--1 vol. 400 Onde está a felicidade?--1 vol. 500 Purgatorio e Paraizo, drama--1 vol. 300 Que (O) fazem mulheres--1 vol. 500 Scenas Contemporaneas, contendo a «Poesia e dinheiro» drama, e outros--1 vol. 500 Scenas da Foz--1 vol. 500 Um homem de brios--1 vol. 400 Um Livro, poesias--1 vol. 360 Vingança--1 vol. 500
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O Emparedado, drama--8.^o 300 A Cigana, drama--8.^o 200 A Moura, drama--8.^o 200 Os tres dramas reunidos 500
*P. J. Conceição*
Mysterios do Porto.--2 vol. 480 Amante e Irmã--drama 200
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correcção | +----------+---------------------+----------------------+ |#pág. 11| presonagens | personagens | |#pág. 13| edificapões | edificações | |#pág. 52| o insomnia | a insomnia | |#pág. 53| rebem | recebem | |#pág. 53| ingratidão,; | ingratidão, | |#pág. 68| ressaltar | ressaltar | |#pág. 103| desonvolver | desenvolver | |#pág. 263| gallegos? | galegos! | |#pág. 119| curiosidadade | curiosidade | |#pág. 121| embtuidos | embutidos | |#pág. 132| o ocoração | o coração | |#pág. 132| ?ibilar ?s pelouros | sibilar os pelouros | |#pág. 139| Que ma? | Que mal | |#pág. 143| hemem | homem | |#pág. 144| principiosdo | principios do | |#pág. 144| prdor | pudor | |#pág. 144| id enticas | identicas | |#pág. 151| demonstaram | demonstraram | |#pág. 151| pobrecreatura | pobre creatura | +----------+---------------------+----------------------+
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