Part 9
Os outros dous tinham tal medo que decidiram-se a acompanhal-o. Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquella solidão, quando de uma mouta voou uma coruja. As corujas tem uns vôos tortos, de assustadora obliquidade. Aquella passou de travez pelos rapazes, fixando nelles os olhos claros no meio da treva.
Houve um certo estremecimento no grupo atraz do francez.
O francez clamou contra a coruja.
--Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver. E avançou.
O ranger dos seus sapatos grossos e ferrados não lhes impedia ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a accentuação calma e a continuidade de um dialogo.
Momentos depois accrescentou o francez:
--Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.
A insolencia no perigo reune os retardados e impelle-os para a frente.
Os dous rapazes de Torteval puzeram-se a caminho atraz do aprendiz de calafate.
A casa mal assombrada fazia-lhes o effeito de crescer desmesuradamente. Nesta illusão de optica do medo, havia realidade. A casa crescia realmente por que elles approximavam-se della.
Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distinctas. Os rapazes ouviam. O ouvido tem os seus augmentos. Não era murmurio, era mais que um cochichar, menos que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas palavras claramente articuladas. Essas palavras, impossiveis de comprehender, soavam estranhamente. Os rapazes paravam, ouviam e depois continuavam a andar.
--É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em almas do outro mundo, disse o aprendiz de calafate.
Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atraz da lenha; mas já estavam longe, e o amigo francez continuava a andar para a casa. Temiam ir com elle, e não ousavam deixal-o.
Acompanhavam-n'o, a passo e passo e perplexos.
O aprendiz de calafate voltou-se para elles e disse-lhes:
--Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.
A casa tornava-se cada vez mais alta.
Approximavam-se.
Approximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada. Era um clarão vago, um desses effeitos de lanterna surda, indicados ha pouco, e que abundam na illuminação das feitiçarias.
Quando se acharam ao pé da casa pararam de todo.
Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:
--Não são almas do outro mundo, são fantasmas.
--Que é aquillo que pende alli á janella? perguntou o outro.
--Parece uma corda.
--É uma serpente.
--É corda de enforcado, disse o francez com autoridade. Serve-lhes. Mas eu não creio.
E mais em tres pulos que em tres passos, o francez estava ao pé da parede da casa. Havia febre naquelle atrevimento.
Os outros, tremulos, imitaram-n'o, e foram collocar-se ao pé delle, encostando-se um á direita, outro á esquerda. Os rapazes applicaram o ouvido á parede. Continuava-se a fallar dentro de casa.
Eis o que diziam os phantasmas: [1]
--Assim pois, está entendido?
--Entendido.
--Dito?
--Dito.
--Aqui esperará nm homem e partirá depois para a America com Blasquito?
--Pagando.
--Pagando.
--Blasquito tomará o homem na barca.
--Sem indagar de que terra elle é?
--Não temos nada com isso.
--Sem lhe perguntar o nome?
--Não se pede o nome, pede-se a bolsa.
--Bem. O homem esperará nesta casa.
--Tendo que comer.
--Terá.
--Onde?
--Neste sacco que trago.
--Muito bem.
--Posso deixar o sacco aqui?
--Os contrabandistas não são ladrões.
--E os senhores quando vão?
--Amanhã de manhã. Se o seu homem está prompto poderá vir comnosco.
--Não está prompto.
--É lá com elle.
--Quantos dias esperará aqui?
--Dous, tres, quatro, dias. Mais ou menos.
--É certo que Blasquito virá?
--Certo.
--Aqui? a Plainmont.
--A Plainmont:
--Em que semana?
--Na proxima.
--Em que dia?
--Sexta, sabbado ou domingo.
--Não pode faltar?
--É meu tocayo.
--Virá com qualquer tempo?
--Qualquer. Não tem medo. Eu sou Blasco, elle é Blasquito.
--Assim não deixará de ir a Guernesey?
--Eu venho n'um mez, elle virá n'outro.
--Entendo.
--A contar de sabbado proximo, de hoje a oito dias, não se passará cinco dias sem que venha Blasquito.
--Mas se o mar estiver muito máo?
--Máo tempo?
--Sim.
--Não virá tão depressa, mas virá.
--Donde virá?
--De Bilbao.
--Para onde irá?
--Para Portland.
--Bem.
--Ou para Tor Bay.
--Melhor.
--O seu homem póde ficar tranquillo.
--Blasquito não será traidor?
--Os covardes são traidores. Somos valentes. O mar é a igreja do inverno. A traição é a igreja do inferno.
--Ninguem nos ouve?
--É impossivel ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto deserto.
--Sei.
--Quem se atreveria a escutar?
--É verdade.
--Mesmo que escutassem não poderiam entender. Fallamos uma lingua que ninguem conhece. Desde que você a sabe, é dos nossos.
--Eu vim para arranjarmos os negocios.
--Bom.
--E agora vou-me embora.
--Pois sim.
--Diga-me cá, homem. Se o passageiro quizer que Blasquito vá a outro lugar que não Portland ou Tor Bay?
--Traga onças.
--Blasquito fará o que o homem quizer?
--Blasquito fará o que as onças quizerem.
--É preciso muito tempo para ir a Tor Bay?
--Depende do vento.
--Oito horas?
--Mais ou menos.
--Blasquito obedecerá ao passageiro?
--Se o mar obedecer ao Blasquito.
--Ha de ser bem pago.
--Ouro é ouro. Vento é vento.
--É justo.
--O homem faz o que pode com o ouro. Deos com o vento faz o que quer.
--O homem que quer ir com Blasquito aqui virá sexta-feira.
--Bem.
--A que horas chega Blasquito.
--Á noite. Chega-se á noite, sahe-se á noite. Temos uma mulher que se chama agua salgada, e uma irmã que se chama noite. A mulher pode enganar, a irmã nunca.
--Está dito tudo. Adeos, homens.
--Boas tardes. Um gole de aguardente?
--Obrigado.
--É melhor que xarope.
--Tenho a sua palavra.
--O meu nome é Pundonor.
--Deos seja comvosco.
--Se é fidalgo, eu sou cavalheiro.
Era claro que só diabos podiam fallar assim. Os rapazes não ouviram mais, e desta vez fugiram deveras, até o francez, que convencido então, corria mais depressa que os outros.
Na seguinte terça-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo trazendo a Durande.
O _Tamaulipas_ continuava ancorado.
O Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da pousada João:
--Então, quando sahe o _Tamaulipas?_
--Depois de amanhã, quinta-feira, respondeu o estalajadeiro.
Nessa noite, Clubin ceou á mesa dos guardas das costas, e, contra o costume, sahio logo depois de cear. Resultou desta sahida que não pôde estar presente no escriptorio da Durande, e faltou ao carregamento. Foi isto reparado por ser elle um homem tão exacto.
Parece que elle conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.
Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino brasileiro sôa ás dez horas. Era, pois, meia-noite.
[1] No original vem este dialogo em hespanhol.
VI
A JACRESSARDE
Ha quarenta annos Saint-Malo possuia uma viela chamada viela Coutanchez. Essa viela já não existe: foi comprehendida nos melhoramentos da cidade.
Era uma dupla fileira de casas de páo inclinadas umas para as outras, e deixando no centro lugar sufficiente para correr um rego que se chamava rua. Andava-se alli com as pernas abertas dos dous lados da agua lamacenta, abalroando com a cabeça e o cotovello as casas da direita e da esquerda. As velhas choupanas da idade média normanda tem perfis quasi humanos. De albergue a feiticeiro a distancia não é grande. Os andares entrantes, as paredes inclinadas, os alpendres circumflexos, e o embrenhado de ferros velhos, simulam labios, queixos, nariz e sobrancelhas. A trapeira é o olho, zarolho. A face é a parede, rugosa e herpetica. Tocam-se as paredes como se conspirassem uma acção iniqua. Todos estes nomes da antiga civilisação, quebra-cabeças e quebra-ventas, prendem-se aquella architectura.
Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a mais afamada, chamava-se a Jacressarde.
A Jacressarde era a habitação daquelles que não têm habitação.
Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, ha, abaixo da população, um residuo. Vagabundos, aventureiros, vivendo de expedientes, chimicos de especie larapio, pondo sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existencias em bancarrota, as consciencias que já fizeram balanço, os que abortaram no assalto e no arrombamento de portas, (porque os ladrões trabalham por baixo e por cima) os operarios e as operarias do mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escrupulos rasgados e os cotovellos rotos, os tratantes chegados á indigencia, os malevolos mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, os _ganha-pouco_ do crime, os miseraveis na dupla e lamentavel accepção da palavra, tal é o pessoal. Alli é bestial a intelligencia humana. É o montão de immundicies das almas. Ajunta-se tudo aquillo a um canto, onde passa de quando em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a Jacressarde.
O que se encontra nessas espeluncas não são os grandes criminosos, os bandidos, os grandes productos da ignorancia e da indigencia. Se o assassino é representado alli, é por algum bebado brutal; alli o roubo não vai além da ratonice. É antes o escarro que o vomito da sociedade. O vagabundo sim, o salteador não. Todavia não ha que fiar. Aquelle ultimo degráo dos bohemios póde ter extremidades malvadas. Um dia, lançando a rêde no Epi-Scié, que era em Paris, o que a Jacressarde é em Saint-Malo, a policia apanhou Lacenaire.
Tudo entra naquelles albergues. A queda é um nivelamento. Ás vezes a honestidade esfarrapada escoa-se por alli. A virtude e a probidade tem aventuras. Não se deve, á primeira vista, estimar os Louvres nem condemnar as galés. O respeito publico e a reprovação universal devem ser descascados. Quantas sorprezas não se dão! Um anjo no lupanar, uma perola no monturo,--não é impossivel este sombrio e deslumbrante achado.
A Jacressarde era mais páteo que casa, e mais poço que páteo. Não tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma porta baixa. Levantava-se o ferrolho, empurrava-se a porta, entrava-se em um páteo.
No meio desse páteo havia um buraco redondo, cercado de uma orla de pedra, ao nivel do chão. Era um poço. O páteo era pequeno, e o poço era grande. Em roda do bocal do poço o chão era mal calçado.
O páteo, quadrado, tinha construcções por tres lados. Do lado da rua, nada; mas diante da porta, á direita e á esquerda, haviam aposentos.
Quem, á noite, entrasse alli, um pouco arriscadamente, ouviria como que um rumor de respirações juntas, e se houvesse bastante luar ou estrellas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o que veria:
O páteo. O poço. Em roda do páteo, em frente á porta, uma palhoça figurando uma especie de ferradura quadrada, galeria carunchosa, toda aberta, com tecto de vigas, sustentada por pilares de pedra desigualmente espaçados; no centro, o poço; á roda do poço, em uma liteira de palha, e fazendo como que um rosario circular, viam-se solas de sapato, umas direitas, outras acalcanbadas, dedos apparecendo pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos nús, pés de homem, pés de mulher, pés de criança. Todos esses pés dormiam.
Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça, distinguiam-se corpos, fórmas, cabeças adormecidas, prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade no monturo, um sinistro jazigo humano. Era um quarto de dormir para todos. Pagava-se dous soldos por semana. Os pés tocavam no poço. Nas noites de tempestade, chovia sobre os pés; nas noites de inverno, cabia neve sobre os corpos.
Quem eram aquellas creaturas? Os desconhecidos. Iam alli de noite e sabiam de manhã. A ordem social anda misturada com aquellas larvas. Alguns esgueiravam-se alli de noite e não pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os vicios, todas as abjecções, todas as supposições, todas as miserias, o mesmo somno de prostração no mesmo leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa visinhança. Funebre entrevista em que se remechiam e se amalgamavam no mesmo miasma, os cançassos, os desfallecimentos, as borracheiras, incubadas as marchas e contra-marchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um bom pensamento, as noites lividas e somnolentas, remorsos, cobiças, cabellos immundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas da treva. A podridão humana fermentava naquella tina. Eram atiradas áquelle alvergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na vespera, por uma sahida de prisão, pelo acaso, pela noite. O destino vasava alli, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falhava quem ousava. Era proprio para cochichar. Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no somno, visto que não podiam perder-se na sombra. Tiravam á morte aquillo que podiam. Fechavam os olhos naquella agonia confusa que todas as noites começava. Donde sahiam? Da sociedade, porque eram a miseria; da vaga, porque eram a espuma.
Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava alli no chão; deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O poço sem parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha trinta pés de profundidade. Cahia alli a chuva, escorriam as immundicies, filtravam todos os escoamentos do pateo. A caçamba para tirar agua ficava a um lado. Quem tinha sede, bebia. Quem estava aborrecido, afogava-se. Do somno do monturo passava-se ao somno do poço. Em 1819 tirou-se dalli um menino de 14 annos.
Para não correr risco naquella casa era preciso ser _da laia._ Os estranhos eram mal vistos.
Conheciam-se acaso entre si, aquellas creaturas? Não; farejavam-se.
A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um barrete ornado de fitas, lavada ás vezes com agua do poço, e tendo uma perna de páo.
Desde madrugada esvasiava-se o pateo; iam-se embora os freguezes.
Havia no pateo um gallo e algumas gallinhas, que esgaravatavam no esterco durante o dia. O pateo era atravessado por um barrote horisontal, collocado sobre postes, figura de força, que não estava alli em terra estranha. Via-se ás vezes estendido no barrote, no dia seguinte ás noites chuvosas, um vestido de seda molhado e enlameado, pertencente á mulher da perna de páo.
Acima da palhoça, e, circulando o pateo, havia um andar superior e acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de madeira podre que furava o tecto; escada vacillante por onde subia com estrepito a mulher côxa.
Os locatarios de arribação, por semana ou por noite, moravam no pateo; os locatarios residentes moravam na casa.
Janellas, nem um caixilho; portas, nem uma hombreira; lareiras, nem um fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indifferentemente por um buraco quadrado e comprido que fôra porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas pilastras do tabique. A caliça cahida cobria o assoalho. Não se sabia como aquella casa estava em pé. O vento não a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta, e escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como agua em esponja. A abundancia das aranhas tranquillisava os moradores contra o desmoronamento immediato. Mobilia, nenhuma. Dous ou tres enxergões nos cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e alli uma bilha e um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro insipido e hediondo.
As janellas davam sobre o pateo. De cima o pateo assemelhava-se a um carro de lama. As cousas, aem contar os homens, que alli apodreciam e enferrujavam-se, eram indescriptiveis. Os destroços fraternisavam: cahiam paredes, cabiam creaturas. Os trapos semeavam entulhos.
Além da população fluctuante alojada no pateo, a Jacressarde tinha tres inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro. O carvoeiro e o trapeiro, occupavam dous enxergões no primeiro andar; o fabricante de ouro, chimico, morava nas aguas furtadas, que tambem se chamava sotão. Não se sabia em que lugar dormia a mulher. O fabricante de ouro era um tanto poeta. Habitava debaixo das telhas n'um quarto em que havia uma trapeira estreita e uma grande chaminé de pedra, golphão onde ia rugir o vento. A trapeira não tinha caixilhos; o fabricante de ouro pregou em cima um pedaço de ferro em folha, proveniente de um rasgão de navio. A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O carvoeiro pagava a casa com um sacco de carvão de quando em quando; o trapeiro pagava com um cestario de grãos para as gallinhas, cada semana; o fabricante de ouro não pagava nada. Entretanto ia queimando a casa. Já tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante tirava da parede, ou do tecto uma ripa para aquecer a caldeira do ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro, viam-se em duas columnas algarismos feitos com greda, escriptos pelo trapeiro todas as semanas, uma columna de tres e uma columna de cinco, conforme o cestario de grão custasse tres liards ou cinco centimos. A caldeira do chimico era uma velha bomba quebrada, promovida por elle ao cargo de caldeira, e que lhe servia para combinar os ingredientes. A transmutação absorvia-a. Algumas vezes fallava nisso aos maltrapilhos do pateo, que deitavam a rir. Dizia elle: _aquella gente está cheia de preconceitos._ Estava resolvido a não morrer sem atirar a pedra phylosophal ás vidraças da sciencia. O forno com que trabalhava comia muita lenha. Já o patamar da escada tinha desapparecido. Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia-lhe a hoteleira: _Neste andar só me fica o casco._ O chimico abrandava-lhe a colera fazendo-lhe versos.
Tal era a Jacressarde.
O criado da casa era um menino, talvez anão, contando doze annos ou sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo sempre uma vassoura na mão.
Os frequentadores entravam pela porta do páteo; o publico entrava pela porta da loja.
O que era a loja?
A alta parede que dava para a rua tinha á direita da entrada do páteo uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo porta e janella, tendo postigo e caixilhos; o postigo era o unico da casa que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o unico que tinha vidros. Por traz da janella que abria sobre a rua havia um pequeno quarto que tomava uma parte do telheiro de dormir. Lia-se na porta da rua este distico feito com carvão: _Aqui encontram-se as curiosidades._ A palavra já corria mundo. Sobre tres taboas que fingiam prateleiras collocadas por traz de vidraças, viam-se alguns potes de porcellana falsa, sem aza, um chapéo de sol chinez feito de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos pontos, impossivel de abrir e fechar, cadinhos de ferro, louça informe, chapéos de homem e mulher estragados, tres ou quatro conchas, alguns embrulhos de botões de osso e de cobre já velhos, uma boceta com o retrato de Maria Antoinette, e um volume trancado da algebra de Boisbertrand.
Tal era a loja. Aquelle sortimento era a curiosidade. A loja communicava por uma porta do fundo com o páteo onde estava o poço. Tinha uma mesa e um escabello. A mulher do perna de páo era a moça do balcão.
VII
COMPRADORES NOCTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO
Clubin não foi á pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na noite de quarta-feira.
Nesta noite, ao escurecer, dous homens entraram pela viella Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um delles bateu na vidraça. Abrio-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de páo deu-lhes o sorriso reservado aos burguezes. Havia uma vela sobre uma mesa.
Os dous homens eram effectivamente burguezes.
O homem que tinha batido na vidraça disse:
--Boa noite, mulher. Venho por aquillo.
A mulher da perna de páo sorrio segunda vez e sahio pela porta que dava para o páteo. Minutos depois abrio-se de novo a porta, e appareceu um homem pela fresta, trazendo bonet e blusa, debaixo da qual havia um objecto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.
O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.
--O senhor é o armeiro? disse elle.
O homem que tinha batido respondeu.
--Sim. O senhor é o Parisiense?
--Chamado Peaurouge. Sim.
--Deixe vêr.
--Aqui está.
O homem tirou debaixo da blusa um instrumento; muito raro na Europa naquella época, um revolver.
O revolver era novo e brilhante. Os dous burguezes examinaram-no. O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro, fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burguez, que parecia não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.
O armeiro perguntou:
--Quanto custa?
O homem da blusa respondeu.
--Venho da America. Ha pessoas que trazem macacos, papagaios, animaes, como se os francezes fossem selvagens. Eu trouxe isto. É uma invenção util.
--Quanto custa? perguntou de novo o armeiro.
--É uma pistola que faz molinete.
--Quanto custa?
--Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.
--Quanto custa?
--Tem seis canos.
--Mas quanto custa?
--Seis canos são seis luizes.
--Quer cinco luizes?
--Impossivel. Um luiz por cada bala. É o preço.
--Quer fazer negocio, seja razoavel.
--Já disse o preço. Examine-me esta obra, Sr. arcabuzeiro.
--Já examinei.
--O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam pôr este molinete no diccionario das ventoinhas. É uma joia.
--Já vi.
--Os canos são de fabrica hespanhola.
--Já reparei.
--São lavrados. A cousa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas...
--E velhas laminas de fouces.
--Ia dizel-o, Sr. armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de fogo, e sahe disto tudo um magnifico instrumento de ferro.
--Sim, mas póde ter gretas e buraquinhos; póde sahir esconço.
--Sim. Mas tudo se arranja.
--O senhor é do officio?
--Tenho todos os officios.
--Os canos são brancos.
--É belleza, Sr. armeiro. Faz-se isto com borra de antimonio.
--Diziamos nós que isto custa cinco luizes...
--Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer seis luizes.
O armeiro abaixou a voz.
--Ouça, Parisiense. Aproveite a occasião. Desfaça-se disto. Isto para vocês não vale nada. Chama a attenção.
--Na verdade, disse Parisiense, é um tanto vistoso. É melhor para um burguez.
--Quer cinco luizes?
--Não, seis. Um por cada buraco.
--Pois bem, seis napoleões.
--Quero seis luizes.
--Não é bonapartista. Prefere um luiz a um napoleão?
Parisiense sorrio.
--Napoleão é melhor, disse elle, mas luiz vale mais.
--Seis napoleões.
--Seis luizes. É para mim uma differença de oitenta francos.
--Então não fazemos nada.
--Pois sim. Guardo o revolver.
--Guarde.
--Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem menos de uma invenção destas!
--Então, boa noite.
--É um progresso sobre a pistola, que os indios chesapoakes chamam Nortay-u-Hoh.
--Cinco luizes á vista, é ouro.
--Nortay-u-Hoh, quer dizer espingarda pequena. Muitas pessoas ignoram isto.
--Quer cinco luizes e mais um escudo?
--Eu já disse que custa seis.
O homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha fallado, fazia mover o mecanismo. Approximou-se do armeiro e disse-lhe ao ouvido:
--A arma é boa?
--Excellente.
--Eu dou os seis luizes.
Cinco minutos depois emquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa, os seis luizes de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o revolver sahiram da viella Coutanchez.
VIII
CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA
No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distancia de Saint Malo, perto da ponta do Decolé, n'um lugar em que as rochas das praias são altas, e o mar profundo, passou-se uma cousa tragica.
Nada mais frequente na architectura do mar, que uma lingua de rochedos em fórma de lança, que se prende á terra por um isthmo estreito, prolonga-se na agua e acaba-se ahi bruscamente em forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida é ás vezes assaz difficil.