Os Trabalhadores do Mar

Part 8

Chapter 83,910 wordsPublic domain

Diga-mol-o uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o antigo Guernesey que já não existe e seria impossivel achal-o hoje, a não ser no campo. É ahi que elle existe vivo, mas nas cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. St. Helier vale Dieppe; St. Pierre Port vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admiravel espirito de iniciativa daquelle valente povo insular, tranformou-se tudo em quarenta annos no archipelago da Mancha. Onde havia sombra ha luz. Dito isto, continuemos. Naquelles tempos que, pelo affastado, já são historicos, o contrabando activava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa de oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as minucias o que se passava ha quasi meio seculo, chegam a citar os nomes de muitos desses navios quasi todos asturianos. O que é fora de duvida é que não se passava semana, sem que apparecesse um ou dous, ora na bahia dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a _loja_, porque era nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse commercio fallava-se na Mancha uma especie de lingua contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o hespanhol como o levantino para o italiano.

Em muitos pontos do littoral inglez e francez o contrabando estava em boa harmonia com o negocio licito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, ás escondidas, é verdade; e dilatava-se subterraneamente na circulação commercial e por todas vias de industria. Negociante em publico, contrabandista ás escondidas, eis a historia de muitas fortunas. Seguin dizia isto de Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez se calumniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei estava sem contestação muito aparentado no commercio. Carteava-se com a gema da sociedade. A caverna onde Maudrin acotovelava outr'ora o conde de Charolais, era honesta exteriormente e tinha uma fachada irreprehensivel para o lado da sociedade.

Daqui resultaram muitas connivencias necessariamente mascaradas. Taes mysterios exigiam sombra impenetravel. Um contrabandista sabia de muitas cousas e devia guardar segredo; a sua lei era uma fé inviolavel e rigida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não ha contrabando. Havia o segredo da fraude como ha o Segredo da confissão.

Esse segredo era imperturbavelmente guardado. O contrabandista jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguem inspirava mais confiança do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e poz-lhe a questão para obrigal-o a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista não confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dous cumplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia para cumprir a lei aos olhos de todos ordenar a tortura, á qual o segundo resistia para cumprir o juramento.

Os dous mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquella época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocayos. Parentesco hespanhol e catholico que consiste em ter o mesmo patrão no paraiso, cousa não menos digna de consideração que ter o mesmo pae na terra.

Quem estava pouco mais ou menos ao facto do furtivo itinerario do contrabando e queria fallar a esses homens, era isso a cousa mais facil e mais difficil. Bastava não ter preconceitos nocturnos, ir a Plainmont, e affrontar o mysterioso ponto de interrogação que alli se levanta.

IV

PLAINMONT

Plainmont, perto de Torteval, é um dos tres angulos de Guernesey. Ha, na extremidade do cabo, uma corôa de relva que domina o mar.

O cume é deserto.

Tanto mais deserto quanto ha alli uma casa.

Aquella casa augmenta o horror da solidão.

Dizem que é mal assombrada.

Assombrada ou não, o aspecto é medonho.

É feita de granito, tem um só andar, e está no meio da relva. Não tem aspecto de ruina. É perfeitamente habitavel. As paredes são grossas e o tecto solido. Não falta uma só pedra ás paredes, nem uma só telha ao telhado. Tem uma chaminé de tijolo. A casa está de costas para o mar. A fachada do lado do mar é apenas uma parede. Examinando bem essa parede vê-se uma janella murada. Ha tres trapeiras, uma a leste, duas a oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma só porta e janellas. A porta é murada e as duas janellas de baixo tambem. No primeiro andar, e é isso que espanta logo ao principio, ha duas janellas abertas; mas as janellas tapadas são menos assustadoras que as janellas abertas. Por estarem abertas, apparecem negras em pleno dia. Não tem vidros nem caixilhos. Abrem para as trevas do interior. Dissera-se umas orbitas vasias de olhos arrancados. Nada ha naquella casa. Vê-se pelas janellas abertas o descalabro de dentro. Nem retabulos, nem entalhos de madeira, pedra núa. Parece um sepulchro com janellas para deixar que os espectros olhem para fóra. As chuvas alluem os alicerces do lado do mar. Algumas ortigas agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No horisonte, nenhuma habitação humana. Aquella casa é uma cousa vasia e silenciosa. Mas quem pára e põe o ouvido á parede ouve confusamente um bater de azas assustadas. Por cima da porta tapada, na pedra que faz a architrava, estão gravadas estas letras; ELM--PBILG, e esta data 1780.

De noite o luar lugubre penetra na casa.

Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnifica, e por consequencia, sinistra. A belleza do lugar torna-se um enigma. Por que motivo aquella casa não é habitada por nenhuma familia humana? O lugar é bonito, a casa é boa. Donde procede esse abandono? Ás perguntas da razão ajuntam-se as perguntas da superstição. O campo é cultivavel, por que motivo está inculto? Não ha dono. A porta murada. Que tem pois este lugar? porque foge o homem? que se faz aqui? Se não ha nada, porque é que não ha ninguem? Quando todos dormem ha alguem acordado? A lufada tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animaes escondidos, os entes ignorados, apparecem ao pensamento e misturam-se aquella casa. A que passageiros serve ella de hospedaria? a gente imagina trevas de graniso e de chuva mettendo-se pela janella dentro. Ha na parte interior uns vagos signaes de chuva que gotejou: Os quartos fechados e abertos são visitados pelo furacão.

Commetter-se-hia algum crime alli? Parece que aquella casa, á noite, entregue ás trevas, deve chamar por soccorro. Será muda? Sahem vozes de dentro? Que faz ella na solidão? O mysterio das horas negras existe alli facilmente. A casa assusta ao meio dia: que será ella á meia noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se,--porque a superstição tem a sua logica e o possivel a sua inclinação,--o que será aquella casa entre o crepusculo da noite e o crepusculo da manhã. A immensa dispersão da vida extra-humana tem acaso naquelle cume deserto um vinculo em que ella pára, e que a obriga a fazer-se visivel e a descer? O esparso vai redomoinhar alli? o impalpavel vai alli condensar-se? Enigmas. Sahe daquellas pedras o horror sagrado. A treva que está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o desconhecido. Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra, calam-se os passaros, o cabreiro que está atraz do rochedo vai-se com as suas cabras, as fendas das pedras darão passagem aos reptis mais animados, as estrellas começarão a olhar, soprará o vento, far-se-ha plena escuridão, as duas janellas estarão alli escancaradas. Abrem-se para o sonho; e é por apparições, larvas, phantasmas mal distinctos, sombras cobrindo luzes, mystenosos tumultos de almas e espectros, que a crença popular, estupida e profunda, traduz as sombrias intimidades daquella casa com a noite.

A casa é mal assombrada, esta palavra explica tudo.

Os espiritos credulos dão a sua explicação; mas os espiritos positivos dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem elles. É um antigo posto de observação, do tempo das guerras da revolução e do imperio, e dos contrabandos. Foi construida para isso. Acabada a guerra, foi abandonado o posto. Não se demolio a casa por que pode tornar-se util. Taparam-se as portas e as janellas do rez do chão contra os stercorarios humanos, e para que ninguem podesse entrar; taparam-se as janellas do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento de oeste. Eis tudo.

Os ignorantes e os credulos insistem. Em primeiro lugar a casa não foi construida no tempo das guerras da revolução. Traz a data de 1780, anterior á revolução. Depois, não foi construida para ser posto; tem as letras ELM-PBILG que são o duplo monogramma de duas familias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi construida para algum joven casal. Portanto foi habitada. Porque não o é agora? Se se tapou a porta e as janellas para que ninguem entrasse, porque motivo deixaram-se abertas duas janellas? Deviam tapar tudo ou nada. Porque não ha vidros nem caixilhos, nem postigos? Porque fecha-las de um lado, sem fecha-las de outro? A chuva não entra pelo sul, mas entra pelo norte.

Os credulos não têm razão, e certo; mas os positivos também não a tem. O problema persiste.

O que é certo é que a casa, dizem ter sido mais util que nociva aos contrabandistas.

Quando o medo cresce os factos perdem a verdadeira proporção. Não ha duvida que muitos phenomenos nocturnos, entre aquelles de que a pouco e pouco se compoz o _assombramento_ da casa, poderia explicar-se por presenças fugitivas e obscuras, curtas estações de homens logo embarcados, já pelas precauções, já pela ousadia de certos commerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.

Naquella época já remota, muitas audacias eram possiveis. A policia, sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é hoje.

Ajunte-se a isto que se a casa era commoda aos contrabandistas, as suas entrevistas alli deviam ser francas, exactamente porque a casa era mal vista. O ser mal vista impedia que fosse denunciada. Ninguem pede á policia soccorro contra os espectros. Os supersticiosos persignam-se, mas não fazem processos. Vêem ou acreditam vêr, fogem e calam. Existe uma convivencia tacita involuntaria, mas real, entre os que fazem medo e os que tem medo. Os assustados sentem que fizeram mal em se assustarem, imaginam ter sorprehendido um segredo, receiam aggravar a posição mysteriosa para elles, e enfadar as apparições. Isto fal-os discretos. E ainda fóra deste calculo, o instincto dos credulos é o silencio; o medo é mudo; os atterrorisados fallam pouco; parece que o horror diz: _silencio!_

Devem recordar-se que isto remonta á época em que os camponezes guernesianos acreditavam que o mysterio do presepio era repetido todos os annos pelos bois e pelos asnos; época em que ninguem, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria com receio de encontrar os animaes ajoelhados.

Se se deve acreditar nas legendas locaes e narrativas dos camponezes a superstição chegou a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem vestigios, ratos sem pés, morcegos sem azas, arcabouços de animaes mortos, sapos esmagados entre as paginas de uma Biblia, febras de tremoços amarellos, estranhos ex-voto pendurados por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma cousa, e por meio desses presente contavam obter perdão e conjurar o máo humor das stryges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em congressos de feitiçaria, e alguns desses credulos altamente collocados. Cesar consultava Sagana, e Napoleão mademoiselle Lenormand. Ha consciencias tão inquietas que chegam a procurar indulgencias de diabo. _Faça-o Deos, mas não o desfaça Satanaz_, era uma das orações de Carlos V.

Ha espiritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o mal pode ter razão contra elles. Ser irreprehensivel para com o demonio é uma das suas preoccupações. Dahi vem as praticas religiosas voltadas para a immensa malicia obscura. É uma carolice como qual quer outra. Os crimes contra o demonio existe ein certas imaginações doentias; violar a lei do inimigo é uma cousa que faz soffrer os estranhos casuitas da ignorancia; ha escrupulos para com as regiões das trevas. Crer na efficacia da devoção aos mysterios do Brocken e de Armuyr, imaginar que se pecca contra o inferno recorrendo a penitencias chimericas por infracções chimericas, confessar a verdade ao espirito da mentira, fazer o _mea culpa_ diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou existio. Os processos de magia provam-no em cada uma de suas paginas. Vai até esse ponto o sonho humano. Quando o homem começa a assustar-se não pára mais. Sonha culpas imaginarias, sonha purificações imaginarias, e faz limpar a sua consciencia com a vassoura das feiticeiras.

Fosse como fosse, se aquella casa teve aventuras, é cousa que lá ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas excepções, ninguem subio a ver o que era; a casa ficou só; ninguem gosta de arriscar-se aos encontros infernaes.

Graças ao terror que a cerca e affasta dalli todo aquelle que pudesse observar e testemunhar, facil foi em todos os tempos entrar de noite naquella casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse nas hortas visinhas. Levava-se um rancho de viveres, o que dava lugar a esperar alli com toda a segurança a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradição que ha 40 annos um fugitivo, dizem uns que da politica, outros que do commercio, lá esteve algum tempo escondido, e dalli embarcou n'um barco de pesca para Inglaterra. De Inglaterra é facil passar á America.

A mesma tradição affirma que as provisões depositadas naquelle albergue lá se conservam sem que ninguem as toque, visto como Lucifer e os contrabandistas têm interesse em que a pessoa que lá as põem, vá buscal-as.

Do lugar em que existe aquella casa, vê-se ao sudueste, a uma milha da costa, o escolho de Hanois.

É celebre aquelle escolho. Fez todas as más acções que um rochedo pode fazer. Era um dos mais temiveis assassinos do mar. Esperava perfidamente os navios á noite. Entulhou os cemiterios de Torteval e de Rocquaine.

Em 1862 pôz-se alli um pharol.

Hoje o escolho de Hanois allumia a navegação que elle proprio extraviava outr'ora; a emboscada traz agora um archote na mão. Procura-se hoje como protector e guia o rochedo do qual fugia-se outr'ora como de um malfeitor. O escolho tranquilisa aquelles vastos espaços nocturnos onde outr'ora inspirava o medo. Assemelha-se a um salteador feito soldado de policia.

Ha tres Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mauve. No pequeno Hanois é que existe hoje o Light Red.

O escolho faz parte de um grupo de picos, uns submarinhos, outros acima d'agua. Domina-os. Como se fôra uma fortaleza, tem baterias avançadas; do lado do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte dous cachopos, Hautes-Fourquies e Aiguillons, e um banco d'arêa; Heronée; ao sul tres rochedos, Cat-Rock, Percée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue Mouet, e além disso em frente de Plainmont, á flor d'agua o Tas de Pois d'Aval.

Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é cousa incommoda, mas não impossivel. O leitor lembra-se que era essa uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios tem duas estações em que pode descançar, a Roque redonda, e mais longe obliquando um pouco á esquerda, a Roque vermelha.

V

OS FURTA-NINHOS

Pouco mais ou menos naquelle dia de sabbado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um facto singular, pouco assoalhado em principio e que só transpirou muito depois. Como dissemos, ha muitas cousas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspira ás suas proprias testemunhas.

Na noite de sabbado ao domingo, (precisamos o dia e cremol-o exacto) tres meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam á villa. Vinham do mar. Eram o que na lingua local chamam _deniquoi-oiseaux_; lêa-se _deniche-oiseaux_ (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar ha furta-ninhos em abundancia. Já fallamos delles. O leitor lembra-se que Gilliatt preoccupava-se com isto, por causa dos passaros e por causa das crianças.

Os furta-ninhos, são especies de _gaiatos_ do occeano, pouco timidos.

A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam o zenith. Tres horas da manhã soavam no sino de Torteval que é redondo e pontudo, semelhante a um chapéo de magico.

Porque voltavam tão tarde aquelles pequenos? Nada mais simples. Tinham ido á caça dos ninhos de cotovias no Tas de Pois d'Aval. Como a estação tinha sido amena, começaram cedo os amores dos passaros. Os pequenos, espreitando os machos e as femeas á roda dos ninhos, e distrahidos pela tenacidade da empreza tinham esquecido as horas. Foram cercados pela maré. Não poderam voltar a tempo para a canoa e tiveram de esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas do Tas de Pois. Tal foi o motivo da volta nocturna. Estas voltas são esperadas sempre pela febril inquietação das mães que, uma vez tranquillas, manifestam a alegria por meio da colera, e lacrimosas dissipam o terror a cachações. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.

Só um dos meninos nada receiava; era um orphão. Era francez e ia bem contente de não ter naquelle dia nem pae nem mãe. Não tendo ninguem que se interessasse por elle, escapava á bordoada. Os outros dous eram guernezianos e da parochia de Torteval.

Escaladas as rochas, os tres furta-ninhos, chegaram á planura onde estava a casa mal assombrada.

Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianças, aquella hora e naquelle lugar.

Quizeram fugir e quizeram parar afim de contemplar a casa.

Pararam.

Contemplaram a casa.

Era negra e formidavel.

Era, naquelle deserto, um montão escuro, uma escrescencia symetrica e hedionda, uma alta massa quadrada de angulos rectilinios, uma cousa semelhante a um enorme altar de trevas.

O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi approximar-se. Nunca tinham visto aquella casa áquella hora. A curiosidade de ter medo existe. Havia entre elles um francez, donde resultou que os pequenos approximaram-se da casa.

É sabido que os francezes não acreditam em cousa alguma.

Demais, quando são muitos todos se tranquillisam; o medo dividido por tres dá animação.

E depois, eram curiosos; eram crianças, sommada a idade dos tres não dava trinta annos; era a idade de prescrutar, de escavar, esquadrinhar as cousas occultas; deve-se acaso parar no meio? Mette-se a cabeça neste buraco, porque não mette-la no outro? a caça arrasta; andar em uma descoberta é o mesmo que metter-se em um moinho. Ter olhado para o ninho dos passaros dá vontade de olhar um pouco para o ninho dos espectros. Investigar o inferno, porque não?

De caça em caça, chega-se ao demonio. Depois dos pardáes os diabretes. Ha vontade de saber o que é esse medo inspirado pelos paes. Andar na pista dos contos de carocha é o que ha mais resvaladiço. Saber tanto como as contadeiras de historias é cousa que tenta.

Todo este amalgama de idéas no estado de confusão e instincto, na cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade delles. Caminharam para a casa.

Demais, o pequeno que lhes servia de apoio nesta bravura, era digno disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crianças que já são homens, dormindo no estaleiro em cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando ás arvores e ás paredes sem escrupulos a respeito das fructas que encontrava, tendo trabalhado em concertos de navios de guerra, filho do acaso e do bamburrio, orphão alegre, nascido em França, sem se saber em que ponto, duas razões para ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito máo, muito bom, louro rastejando a ruivo, tendo já fallado aos parisienses. Agora ganhava um scheling por dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha-se em férias e ia tirar os ninhos dos passaros. Tal era o francez.

A solidão do lugar tinha um não sei quê de funebre. Sentia-se a inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquella planura silenciosa e nua escondia no precipicio a sua curva declive. Embaixo callava-se o mar. Não havia vento. As ervas não se mechiam.

Os furta-ninhos avançavam de vagar com o francez á frente, contemplando a casa.

Um delles contando depois o facto ou o pouco que lhe restava na memoria, acerescentava: a casa não dizia nada.

Approximavam-se retendo a respiração, como quem se approxima de um animal feroz.

Tinham subido o comoro que fica atraz da casa, e que vai ter a um pequeno isthmo de rochedos pouco praticavel; estavam perto da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada; não tinham ousado voltar á esquerda, o que os teria exposto a ver a outra fachada em queha apenas duas janellas, o que é terrivel. Entretanto atreveram-se, por que o aprendiz de callafate disse-lhes baixinho: viremos de bombordo; daquelle lado é que é bonito; é preciso ver ás duas janellas negras.

Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.

As duas janellas estavam illuminadas.

Os meninos fugiram.

Qando estavam longe, voltou-se o francez.

--Olhem, disse elle, já não ha luz.

Com effeito, não havia luz nas janellas. A casa desenhava-se na lividez diffusa do céo.

O medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos approximaram-se.

De repente appareceram as luzes outra vez.

Os dous rapazes de Torteval tornaram a pôr sebo ás canellas. O pequeno Satanaz francez, não avançou, mas não reccuou.

Ficou immovel, em frente da casa, olhando para ella.

Extinguio-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrivel. O reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva humida pelo orvalho. Em certo momento, o clarão desenhou na parede interior da casa grandes perfis negros que se mechiam e sombras de cabeças enormes.

Demais, a casa não tinha tecto nem tabiques, e tendo apenas as quatro paredes e o telhado, uma janella não pode ser illuminada sem que a outra o seja.

Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dous voltaram tremulos, curiosos. O aprendiz de calafate, disse-lhes baixinho:--Ha almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma dellas.--Os dous pequenos agruparam-se atraz do francez, e levantando-se sobre a ponta dos pés, por cima do hombro, abrigados por elle, fazendo delle um escudo, oppondo-o á casa, tranquillisados por tel-o entre si e a visão, olharam tambem.

A casa a seu turno parecia olhar para elles. Tinha naquella vasta obscuridade muda, duas orbitas vermelhas. Eram as janellas. A luz eclipsava-se, reapparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes costumam fazer. Estas intermittencias sinistras representavam provavelmente as alternativas do inferno. Abre-se, fecha-se. O respiradouro do sepulchro tem effeitos de lanterna surda.

De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se em uma das janellas, como se viesse de fora, depois mergulhou no interior da casa. Parece que alguem chegava.

Entrar pela janella era o habito dos visitantes.

O clarão appareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não reappareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores. Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se vê, não se ouve; quando não se vê, ouve-se.

O mar tem á noite uma taciturnidade particular. O silencio da sombra é ahi mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não ha nem vento nem marulho, naquella agitada extensão de aguas, onde de ordinario não se ouvem as aguias voar, ouvir-se-hia voar uma mosca. Aquella paz sepulchral dava um relevo lugubre aos rumores que sahiam da casa.

--Vejamos, disse o francez.

--E deu um passo para a casa.