Os Trabalhadores do Mar

Part 7

Chapter 73,831 wordsPublic domain

Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Ha nevoeiros que trazem suspensos prismas microscopicos de gelo, aos quaes Mariotti attribue as auréolas, os parhelios e os paraselenes. Os nevoeiros tempestuosos são compositos; vapores diversos de peso especifico desigual combinam-se com o vapor da agua e superpõem-se em uma ordem que devide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira formação.

Em baixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o phosphoro.

Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão electrica e magnetica, explica muitos phenomenos, o santelmo de Colombo e de Magalhães, as estrellas volantes de que falla Seneca, as duas chammas, Castor e Pollux, de que falla Plutarcho, a legião romana que a Cesar pareceu ver arderem os dardos, a lança do castello do Duino no Frioul, que a sentinella acendia tocando com o ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os antigos chamavam relampagos terrestres de Saturno.

No equador, immensa bruma permanente parece cingir o globo, é o _Cloud-ring_, annel de nuvens.

O Cloud-ring resfria o tropico, do mesmo modo que o Gulf-Stream aquece o polo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é fatal. São essas as latitudes dos cavallos, _Horse latitude_; os navegadores dos ultimos seculos quando passavam ali atiravam os cavallos ao mar, em occasião de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economisar a agua.

Dizia Colombo: _Nube abaxo es muerte._ «Nuvem baixa, morte certa.» Os Etruscos, que são para a metereologia o que os Chaldeos são para a astronomia, tinham dous pontificados--o pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam o relampago, outros o nevoeiro. O collegio dos augures de Tarquinas era consultado pelos Tyrios, Phenicios e Pelasgios, e de todos os navegadores primitivos da antiga Marinterne. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e a bem dizer, é o mesmo phenomeno. Existem no mesmo oceano tres regiões de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome--_le pot au noir._

Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinoxio são mui perigosos. Fazem anoitecer de subito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da côr da agua resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parceis. O navegador approxima-se de um escolho sem ser advertido.

Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja pôr-se á capa ou ancorar. Ha tantos naufragios causados pelo nevoeiro como pelo vento.

Entretanto após uma violentissima borrasca que succedeu a um dia de nevoeiro, a chalupa _Cashmere_ chegou perfeitamente da Inglaterra. Entrou em Saint-Pierre Port aos primeiros raios dos dia no momento em que o castello Cornet salvava o sol com um tiro. Illuminava-se o horisonte. A chalupa _Cashmere_ era esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa espalhou-se o boato de que encontrara á noite no mar outra chalupa com uma equipagem naufragada.

VII

BOA FORTUNA DE APPARECER A TEMPO

Naquella noite Gilliatt, quando o vento amainou, sahio a pescar, sem affastar-se muito da costa.

Na volta, estando a maré a encher, pelas duas horas da tarde, e fazendo um sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de la Bette para entrar na angra, em que ficava a _pança_, pareceu-lhe ver na projecção da cadeira Gild-Holm'Ur uma sombra que não era a do rochedo. Deixou a _pança_ chegar até alli, e reconheceu que um homem estava assentado na cadeira Gild-Holm'Ur. O mar já estava alto, a rocha estava cercada pela agua, não era possivel ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou immovel. Gilliatt approximou-se. O homem estava adormecido.

Tinha elle vestuario preto. Parece padre, pensou Gilliatt. Approximou-se ainda mais e vio um rosto de adolescente.

Não conheceu quem era.

A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava para que Gilliatt pondo-se de pé, sobre a _pança_, pudesse tocar os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se cahisse naquelle momento, é duvidoso que tornasse a apparecer. A vaga batia entre a _pança_ e o rochedo era inevitavel ser esmagado.

Gilliatt puchou o pé do homem adormecido.

--Olá! que faz ahi?

O homem acordou.

--Estou olhando, disse elle.

Depois acordando de todo, continuou:

--Cheguei ha pouco á terra, vim passeiar aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cançado, adormeci.

--Dez minutos mais, afogar-se-hia, disse Gilliatt.

--Ah!

--Salte para a barca.

Gilliatt susteve a barca com o pé, pôz uma das mãos no rochedo, e estendeu a outra ao homem que pulou lestamente na barca. Era um bonito rapaz.

Gilliatt tomou o leme; em dous minutos, a _pança_ chegou á angra da casa mal assombrada.

O moço tinha chapéo redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabellos louros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.

Entretanto a _pança_ tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e vio a mão do moço que lhe apresentou um soberano de ouro.

Gilliatt repellio docemente a mão.

Houve um silencio. O moço fallou:

--Salvou-me a vida, disse elle.

--Talvez, respondeu Gilliatt.

A _pança_ estava amarrada. Sahiram da barca.

O moço continuou:

Devo-lhe a vida, senhor.

--Que importa isso?

Esta resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silencio.

--É desta parochia o senhor? perguntou o mancebo.

--Não, respondeu Gilliatt.

--De que parochia é então?

Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céo e disse:

--Daquella.

O moço comprimentou e foi caminho.

Depois de alguns passos voltou, metteu a mão no bolso, tirou um livro, e voltou-se para Gilliatt.

--Consinta que lhe offereça isto.

Gilliatt tomou o livro

Era uma Biblia.

Instantes depois, Gilliatt encostado ao parapeito, olhava para o moço que voltava o angulo do caminho que ia ter a Saint-Sampson.

A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se existia a cadeira Gild-Holm'Ur, e tudo desappareceu na immersão sem fundo o scismar. Gilliatt tinha um abysmo, Deruchette. Tirou-o daquelle abysmo uma voz que lhe gritou:

--Olá, Gilliatt!

Reconheceu a voz e ergueu os olhos.

--Que ha, Sr. Landoys?

Era com effeito o Sr. Landoys que passava na estrada a cem passos da casa, no seu phaeton, com um pequeno cavallo. Parou afim de chamar Gilliatt á falla, mas parecia atarefado e apressado:

--Ha novidade, Gilliatt.

--Onde?

--Na casa de mess Lethierry.

--O que ha?

--Estou longe para lhe contar o caso.

Gilliatt estremeceu.

--Casa-se miss Deruchette?

--Não. Mas ...

--Que quer dizer?

--Vá lá a casa delle, que ha de saber.

E o Sr. Landoys chicoteou o cavallo.

LIVRO QUINTO

O revolver.

I

A PALESTRA NA POUSADA JOÃO

O Sr. Clubin era o homem que espera a occasião.

Era baixo e amarello, com a força de um touro. O mar não podia com elle. Tinha uma carne que parecia cera. Era da côr de uma tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua memoria tinha um quê de imperturbavel e especial. Vêr um homem uma vez era conserval-o como se fosse uma nota em um registro. O olhar laconico apunhalava. A palpebra tirava a prova de um rosto, e conservava-o; não importava que o rosto envelhecesse depois, o Sr. Clubin não deixava de reconhecel-o. Era impossivel fugir áquella memoria tenaz. O Sr. Clubin era breve, sóbrio, e frio; não fazia gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas acreditavam-n'o simplorio; trazia no rosto uma certa, ruga que indicava uma espantosa estupidez. Não havia melhor marinheiro do que elle. Não havia reputação de religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade com o Sr. Rebuchet, cambista em S. Malo, rua de S. Vicente, ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a sua fabrica a Clubin. O Sr. Clubin era viuvo. A mulher foi tão honesta como elle. Morreu com a fama de uma virtude invencivel. Se o bailio lhe fizesse uma declaração ella iria conta-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ella iria contal-o ao padre vigario. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do epitheto inglez _respectable._ A Sra. Clubin era o cysne; o Sr. Clubin era o arminho. Morreria se lhe puzessem uma nodoa. Nunca achou um alfinete que não fosse logo á cata do proprietario. Era capaz de pôr em almoeda uma caixa de phosphoros se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: almocei aqui ha tres annos e você enganou-se na conta; e dizendo isto restituio ao taberneiro 75 centimos. Era uma grande probidade, mordendo attentamente os beiços.

Parecia estar sempre á espera. De quem? Provavelmente dos velhacos.

Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a S. Malo. Chegava a S. Malo na terça-feira á noite, demorava-se dous dias para fazer o carregamento, e voltava a Guernesey na sexta-feira de manhã. Havia então em S. Malo uma pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a pousada João.

A construcção dos cáes actuaes fez demolir a pousada. Naquella época vinha o mar até a porta S. Vicente e a porta de Dinan; S. Malo e S. Servan communicavam-se nas marés baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em secco, evitando as boias, as ancoras e os maçames, e arriscando-se às vezes a rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa. No intervallo de duas marés, os cocheiros fustigavam os cavallos, naquella mesma arêa, onde, seis horas depois, vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outr'ora os vinte e quatro cães, porteiros de S. Malo, que devoraram um official de marinha em 1770. Tamanho zelo fez suprimir os cães. Já não se ouve agora latidos nocturnos entre o pequeno e o grande Tallard.

O Sr. Clubin ia á pousada João. Era alli o escriptorio francez da Durande. Os guardas da alfandega e os guardas da costa ião comer e beber na pousada João. Faziam rancho á parte. Os guardas da alfandega de Binic encontravam-se, vantajosamente para o serviço, com os guardas da alfandega de S. Malo.

Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.

O Sr. Clubin assentava-se ora n'uma, ora n'outra, mas preferia a dos guardas á dos mestres. Era bem recebido em ambas.

As mesas eram bem servidas. Haviam as mais apuradas bebidas estrangeiras para os maritimos expatriados. Um marinheiro gamenho de Bilbáo acharia alli um copo de _helada._ Bebia-se _stuol_ como em Greenwich, e _gueuse_, como em Anvers.

Capitães de longo curso e armadores tomavam ás vezes lugar na mesa dos mestres de navio. Trocavam-se ahi noticias:

--Como vai o assucar?

--Pequenos lotes. Vende-se bem o assucar bruto; tres mil saccas de Bombay e quinhentas barricas de Sagua.

--Ha de ver que o partido da direita ainda derruba o ministerio Villele.

--E o anil?

--Venderam-se apenas uns sete surrões de Guatemala.

--A _Nanine Julie_ ancorou. Lindo navio de Bretanha.

--As duas cidades do Rio da Prata estão outra vez desavindas.

--Quando Montevidéo engorda, Buenos-Ayres emmagrece.

--Foi preciso deitar ao mar a carga do _Regina Coeli_ condemnado em Calháo.

--O cacáo vai andando; os saccos Caracas são cotados a 234, e os saccos Trindade a 73.

--Parece que na revista do Campo de Marte ouvio-se gritar: abaixo os ministros.

--Os couros salgados saladeros vendem-se, os dos bois a 60 frs. e o das vaccas a 48.

--Já passaram o Balkan? O que faz Diebitsch?

--Em S. Francisco ha falta de anisette. O azeite Plagniol está calmo. O queijo de Gruyére está a 32 frs. o quintal.

--Com que então Leão XII morreu?

--Etc., etc., etc.

Todas estas cousas eram ditas e commentadas no meio de grande barulho. Á mesa dos guardas da alfandega e dos guardas da costa fallava-se menos.

A policia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza no dialogo.

A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era um homem, era um barometro. Os habitos do mar deram-lhe uma espantosa infallibilidade de prognostico. Elle decretava o tempo que devia haver no dia seguinte; ascultava o vento; tomava o pulso á maré. Dizia á nuvem; mostra-me a tua lingua. A lingua era o relampago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada. O oceano era o seu doente; fez uma viagem á roda do mundo como quem faz uma clinica, examinando todos os climas na sua boa e má saude; sabia a fundo a pathologia das estações. Enunciava factos como este:--o barometro desceu uma vez em 1796 a tres linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente a marinha ingleza para conhecer os seus lados fracos. Explicava em que ponto o _Sovereign_ de 1637 differia do _Royal William_ de 1670 e de _Victory_ de 1755. Comparava os castellos de pôpa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de gavea afunilados do _Great Harry_ de 1514, provavelmente no ponto de vista da bala franceza que se aninhava perfeitamente naquellas superficies. Para elle as nações só existião por suas instituições maritimas; fazia synonymias extravagantes. Chamava a Inglaterra _Trinity House_, a Escossia _Northern Commissioners_, e a Irlanda _Ballast Board._ Abundava de informações; era alphabeto e almanack. Sabia de cór a portagem dos pharoes, principalmente inglezes; um _penny_ por tonelada ao passar diante deste, um _farthing_ ao passar diante daquelle. Dizia: o pharol de _Smalt Rock_, que consumia apenas duzentos galões de azeite, consome agora quinhentos. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a tripulação que já o tinha por defunto, estava á roda de sua maca, quando elle interrompeu os soluços da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem relativa a um concerto do navio.

Era raro que o assumpto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos capitães e na mesa dos guardas. Apresentou-se, porém, o seguinte caso nos primeiros dias do mez de Fevereiro, em que se passam os factos que estamos contando. A gallera _Tamaulipas_, capitão Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a attenção das duas mesas. Na mesa dos mestres fallou-se do carregamento, e na mesa dos guardas fallou-se dos ares suspeitos do navio.

O capitão Zuela, de Copiapó, era chileno, um pouco columbiano; tinha feito com independencia as guerras da independencia, acompanhando, ora Bulivar, ora Morillo, conforme os lucros a haver. Tinha-se enriquecido obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais bourbonico, mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais atheu e mais catholico. Elle pertencia a este grande partido que se póde chamar o partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia apparições commerciaes em França; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou proscriptos politicos, fossem quem fossem, com tanto que pagassem. O meio de embarcal-os era simples. O fugitivo esperava n'um ponto deserto da costa, e no momento de apparelhar, Zuela destacava um escaler que ia buscal-o. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar pessoas compromettidas na questão da Bidassoa. A policia, já avisada, estava com o olho n'elle.

Era um tempo de fugas aquelle. A restauração era uma reacção; ora as revoluções trazem emigrações, e as restaurações arrastam proscripções. Durante os sete ou oito primeiros annos, depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finanças, na industria, no commercio, que sentiam tremer a terra e viam multiplicar-se as falencias. Havia um _salve-se quem puder_ na politica. Lavalette fugira; Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira. Os tribunaes de excepção trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se á ponte de Saumur, á explanada de Reole, ao muro do observatorio de Paris, á torre de Taurias d'Avignon, tudo isso que se conserva de pé na historia, vestigios da reacção, aonde se distingue ainda a sua mão sanguinolenta.

Em Londres, o processo Thisthewood, ramificado em França, em Paris o processo Trogoff, ramificado na Belgica, na Suissa e na Italia, multiplicaram os motivos da inquietação e desapparecimento, e augmentaram essa profunda derrota subterranea, que deixava vasios os mais altos lugares da ordem social de então. Pôr-se em segurança, era a preoccupação universal. O espirito dos tribunaes prebostaes sobrevivera á instituição. As condemnações eram feitas por complacencia. Fugiam para o Texas, para o Perú, para o Mexico. Os homens da Loire, salteadores então, paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asylo. Dizia uma canção de Beranger:

_Sauvages, nous sommes français;_ _Prenez pitié de notre gloire._

Expatriar-se era o recurso; porém, nada menos simples que fugir; este monosyllabo encerra abysmos. Tudo é obstaculo para quem se esquiva. Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e até illustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim sahiam-se mal. Eram inverosimeis. Os seus habitos de franqueza tornava-lhes difficil resvalar pelas malhas da evasão. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais correcto aos olhos da policia do que um general. Imaginem a innocencia constrangida a disfarçar-se, a virtude contrafazendo a voz, a gloria mascarando o rosto. Algum individuo que passasse com ar suspeito, era uma reputação á cata de um passaporte falso. O ar embaraçado de um fugitivo, não provava que elle deixasse de ser um heróe. Traços fugazes e caracteristicos dos tempos, que a historia regular esquece, mas que o verdadeiro pintor de um seculo deve rememorar. Atraz dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos. Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confusão, fazia parte dos proscriptos, e muitas vezes, graças a uma arte apurada, parecia naquelle crepusculo mais honesto que o honesto. Que ha ahi mais acanhado que a probidade diante da justiça? Nada entende, nada finge. Um falsario escapa-se mais facilmente que um convencional.

Cousa estranha! especialmente em relação aos tratantes, quasi se póde dizer, que a evasão fazia subir o individuo. A quantidade de civilisação que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe por dote nos paizes primitivos ou barbaros, recommendava-o e fazia delle um iniciador. Era facil que um aventureiro, escapando ao codigo, chegasse depois ao sacerdocio. Havia phantasmagoria na desapparição, e mais de uma evasão tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste genero levava ao desconhecido e ao chimerico. Tal bancarroteiro sahia de Europa e apparecia mais tarde grão-visir em Mogol ou rei na Tasmania.

Ajudar as evasões era uma industria, e, visto a frequencia do facto, uma industria lucrativa. Esta especulação completava certos generos de commercio. Quem queria fugir para Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas quem queria fugir para a America dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, taes como Zuela.

II

CLUBIN DESCOBRE ALGUEM

Zuela ia comer algumas vezes á pousada João. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.

E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava conhecer de vista um tratante. Ás vezes chegava mesmo a conhecel-os de facto, dando-lhes a mão em plena rua. Fallava inglez com o smogler e engrolava hespanhol com o contrabandista.

A este respeito tinha elle as seguintes maximas:

--Póde-se adquirir o bem, pelo conhecimento do mal.--O monteiro conversa proveitosamente com o ladrão de caça.--O piloto deve sondar o pirata; o pirata é um escolho.--Trato de provar um velhaco como o medico prova o veneno.

Não tinha replica. Todos davam razão ao capitão Clubin. Era approvado por não ter escrupulos tolos. Quem ousaria dizer mal delle? Tudo quanto fazia era _para bem do serviço._ Nelle tudo era simples. Nada podia compromettel-o. O crystal querendo manchar-se não pode. Esta confiança era a justa recompensa de uma longa honestidade e é essa a excellencia das reputações firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe viam malicia no sentido da virtude; tinha adquirido a impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou daquelle encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade sahia sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradicção alguma. Ingenuo habil é cousa que existe. É uma das variedades do homem honesto e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados em conversa intima com um larapio, ou um bandido, são recebidos, comprehendidos, e mais respeitados, e têm ainda por si o piscar de olhos satisfeito da estima publica.

O _Tamaulipas_ tinha completado o carregamento. Estava proximo a partir e ia aparelhar.

Em uma terça-feira á tarde, ainda com sol, chegou a Durande a Saint-Malo. O Sr. Clubin de pé no passadiço e dirigindo a manobra da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dous rochedos, em um lugar muito solitario, dous homens conversando. Deitou-lhes o oculo e reconheceu um dos homens. Era o capitão Zuela. Parece que reconheceu tambem o outro.

O outro era alto, um pouco grizalho. Trazia o chapéo largo e o vestuario grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava os olhos com modestia.

Chegando á pousada João, o Sr. Clubin soube que o _Tamaulipas_ ia aparelhar dentro de 10 dias.

Soube-se depois que elle tomara outras informações.

Á noite, entrou em casa do armeiro da rua de S. Vicente, e disse-lhe:

--Sabe o que é um revolver?

--Sei, respondeu elle, é americano.

--É uma pistolla que renova sempre a conversação.

--Na verdade, ella tem pergunta e resposta.

--E replica.

--É justo, Sr. Clubin. O cano é gyrante.

--E cinco ou seis balas.

O armeiro levantou o cantinho do beiço e fez ouvir aquelle estalo de lingua, que, acompanhado de um movimento de cabeça, exprime a admiração.

--A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que ha de vir a ser universal.

--Eu queria um revolver de seis tiros.

--Não tenho desses.

--Pois que, o Sr. não é armeiro?

--Mas ainda não tenho disso. Bem vê que é cousa nova. Em França só se fazem pistolas.

--Diabo!

--É cousa que ainda não está no commercio.

--Diabo!

--Tenho pistolas excellentes.

--Quero um revolver.

--Convenho que é melhor. Mas, espere Sr. Clubin.

--O que é?

--Creio que ha um em Saint-Malo.

--Revolver?

--Sim.

--Para vender?

--Sim.

--Onde?

--Creio que sei. Hei de informar-me.

--Quando me dá a resposta?

--O revolver é bom.

--Quando devo voltar?

--Se eu lhe arranjo um revolver, é porque é bom.

--Quando me dá a resposta?

--Na sua primeira viagem.

--Não diga que é para mim.

III

CLUBIN LEVA UNS OBJECTOS E NÃO OS TRAZ

O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o gado e alguns passageiros, e, como de costume, sahio de Saint Malo para Guernesey na sexta-feira de manhã.

Nesse mesmo dia quando o navio já estava ao largo o que permitte ao capitão ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou em um saco de viagem que tinha, metteu alguma roupa no compartimento elastico, biscoutos, latas de conserva, algumas libras de cacáo, um chronometro e um oculo no compartimento solido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para içal-o se fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no deposito dos cabos e viram-n'o subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no mar e aos ladrões em terra. Essas cordas facilitam a escalada.

Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou ahi trinta e seis horas. Levou o saco e a corda, mas não voltou com elles.