Part 6
O fleugma allemão accommoda-se com estas propinquidades. Mas em Guernesey, cada religião tem casa propria. Ha parochia orthodoxa e parochia heretica. Póde-se escolher. Nem uma nem outra, foi a escolha de mess Lethierry.
Aquelle marinheiro, aquelle operario, aquelle philosopho, aquelle _parvenu_ do trabalho, simples na apparencia, não n'o era em substancia. Tinha lá as suas contradições e pertinacias. Era inabalavel a respeito do padre. Daria quináos a Montlosier.
Costumava a dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões proprias delle, extravagantes, mas sem eixar de ter um sentido. Ir a confessar-se era para elle: _pentear a consciencia._ Os poucos estudos que tinha, pouquissimos, feitos aqui e alli, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de orthographia. Tinha tambem erros de pronuncia, nem sempre ingenuos. Quando se fez a paz entre a França de Luiz XVIII e a Inglaterra de Wellington, mess Lethierry disse: _Bourmont foi o traitre d'union_ (traidor por traço) _entre os dous campos._ Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (_papauté_) do seguinte modo: _pape ôté_ (papa arrancado). Não acreditamos que elle fizesse isto de proposito.
Este antipapismo não o conciliava com os anglicanos. Os presbyteros protestantes não o estimavam mais que os curas catholicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quasi sem reserva a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno pregado pelo reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnifico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os supplicios, os tormentos, as condemnações, os castigos inexoraveis, os fogaréos sem fim, as maldições inextinguiveis, as coleras do Omnipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, cousas incontestaveis. Lethierry ouvio o sermão e ao sahir com um dos fieis, disse-lhe baixinho: Ora, quer ver? eu cá tenho uma idéa ratona. Supponho que Deos é bom.
Adquirio este germen de atheismo quando residio em França.
Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-n'o na ilha--o _francez_, por causa do seu espirito _improper._ Nem elle o occultava; estava impregnado de ideas subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil-Boat, provava bem isto.
Lethierry costumava dizer: _eu mamei o leite_ 89. Máo leite.
E que despropositos fazia! É difficil viver intacto nos lugares pequenos. Em França, _guardar as apparencias_, na Inglaterra, _ser respeitavel_, é quanto basta para passar a vida tranquilla. Ser respeitavel, é cousa que implica uma immensidade de observancias, desde o domingo bem santificado até á gravata bem atada. «Não te faças apontar com o dedo» eis uma lei terrivel. Ser apontado é o diminutivo do anathema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, são eximias nesta malignidade isoladora, que é a maldição vista ao invez do oculo. Os mais intrepidos arreceiam-se disto. Affronta-se a metralha, affronta-se o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que logico. Mas debaixo dessa pressão dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava _agua no vinho_, locução prenhe de concessões latentes e ás vezes inconfessaveis. Affastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava resolutamente a porta. Nas occasiões officiaes e nas épocas das visitas pastoraes, recebia attenciosamente tanto o presbytero lutherano como o capellão papista. Acontecia-lhe, de quando em quando acompanhar á parochia, anglicana a menina Deruchette, que aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do anno.
Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-n'o, e longe de inclinal-o para os homens da igreja, augmentavam o seu pendor interno. Aquella creatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de emendal-a.
De facto, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.
Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverencia revolucionaria. Distinguia pouco entre duas fórmas de culto. Nem mesmo fazia justiça a este grande progresso: Não acreditar na presença real. A sua myopia nestas cousas chegava ao ponto de não ver a differença entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. _Wesley não vale mais que Loyola_, dizia elle. Quando via passar uni pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos. _Padre casado!_ dizia elle, com o accento absurdo que essas duas palavras tinham em França naquella época. Contava que na sua viagem á Inglaterra tinha visto a _bispa de Londres._ A sua revolta contra essas uniões, iam até á colera.--Vestido não casa com vestido! exclamava elle. O sacerdote fazia-lhe effeito de um sexo. Não teria duvida em dizer: «Nem homem nem mulher; padre.» Applicava com máo gosto, tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos epithetos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma phraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a proposito de padres, quaesquer que fossem, catholicos ou lutheranos, as methonymias soldadescas usadas naquelle tempo.
--Casa-te com quem quizeres, dizia elle a Deruchette comtanto que não seja com algum padreco.
XIII
O DELEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA
Dita uma cousa, mess Lethierry não a esquecia mais; dita uma cousa, miss Deruchette esquecia-a logo. Esta era a differença entre o tio e a sobrinha.
Deruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Ha mais de um perigo latente n'uma educação tomada muito ao sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, talvez uma imprudencia.
Deruchette acreditava, que, estando ella contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ella estava alegre. As suas idéas eram pouco mais ou menos as mesmas de mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo á parochia quatro vezes por anno. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia cousa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Emquanto não chegava esse dia era menina folgazã.
Deruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdadade ingleza. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescencia vai á redéa solta. Taes são os costumes. Mas tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem a boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.
Deruchette acordava todos os dias com a inconsciencia das suas acções da vespera. Bem embaraçado ficaria que lhe perguntasse o que ella havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ella tivesse em certas horas turvas, uma indisposição mysteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade. Ha nuvens dessas nos céos como aquelle. Mas passavam depressa. Deruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem porque estivera triste, nem porque estava serena. Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o proprio diabo se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão innocente que abusava de si propria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto peior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de hontem não existia para ella; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquella moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.
LIVRO QUARTO
O bug-pipe.
I
PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE INCENDIO
Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Deruchette. Conheci-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrella da manhã.
Na época em que Deruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre Port au Valle e fez-lhe a sorpreza de traçar na neve o nome delle, tinha 16 annos. Exactamente na vespera mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:
--Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.
O nome _Gilliatt_, escripto por aquella menina, cahio em uma profundidade desconhecida.
Que eram as mulheres para Gilliatt? nem mesmo elle poderia dize-lo. Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na ultima extremidade fallava ás mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponeza. Quando se achava só em um caminho e ansiava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou mettia-se em uma mouta e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naquelles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortunios: «Estou muito massada, cahiram-me uns choviscos no chapéo, esta côr é muito sujeita a ficar manchada.»
Tendo encontrado tempos depois entre as folhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toilette, pregou-a na parede como lembrança desta apparição. Nas noites de estio escondia-se atraz das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponezas banharem-se no mar. Um dia, atravez de uma cerca, vio a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha cabido. Provavelmente, Gilliatt era virgem.
Naquella manhã de Natal em que Deruchette escrevera rindo o nome delle, Gilliatt voltou para casa não sabendo já porque motivo tinha sabido. Não dormio de noite. Pensou em mil cousas;--que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim;--que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma cousa;--que tinha visto erva pinheiro em flôr, cousa rara naquella estação.
Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre elle e a velha que morrera em casa; disse comsigo que devia ser sua mãe e pensou nella com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Rev. Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre Port, e que a parochia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria vigesimo setimo dia da lua, e que por consequencia a maré enchente seria ás 3 horas e 21 minutos, a média ás 7 horas e 15 minutos, a vasante ás 9 horas e 36 minutos. Recordou, até nas menores particularidades, o vestuario de highlander que lhe vendera o _bug-pipe_ (especie de sanfona), bonet enfeitado com um cardo a claymore, a casaca de ábas curtas e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escosseza, os dous cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dous cairgorums, e os joelhos nús do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquillo tornou-se espectro, perseguio-o, deu-lhe febre até que elle adormeceu.
Gilliatt acordou quando o sol já ia alto, e o seu primeiro pensamento foi Deruchette.
Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escossez. Sonhou tambem com o velho cura Jaquemin Herodes. Quando acordou pensou outra vez em Deruchette e teve contra ella uma violenta colera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.
Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe e entrou a chorar.
Projectou ir passar uns tres mezes em Chausey ou em Minquirs, mas não partio.
Não tornou a pôr os pés na estrada de Saint-Pierre Port au Valle.
Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra, e que todos os viandantes deviam olhar para elle.
II
GILLIATT VAI ENTRANDO PASSO A PASSO NO DESCONHECIDO
Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia de proposito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de Deruchette.
Estando um dia naquetle caminho, ouvio a uma nulher do mercado, que fallava a outra, e vinha da casa de Lethierry: _Miss Lethierry gosta muito de sea kales._
Gilliatt fez no jardim da casa mal assombrada uma fossa de sea kales. O Sea kale é uma couve que tem o sabor do espargo.
O muro do jardim da casa de Deruchette era baixinho; podia-se pular facilmente. Esta idéa pareceu terrivel a Gilliatt. Mas quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que fallavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt não escutava, mas ouvia. De uma vez ouvio disputar as duas criadas, Graça e Doce. Como o rumor vinha daquella casa, soou-lhe como se fosse musica.
De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de Deruchette. Deitou a correr.
As palavras que ouvio á moça ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram: _Faz favor de me dar a vassoura?_
Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar parado. Aconteceu uma vez que Deruchette, que não podia ser vista de fora, embora estivesse a janella aberta, estava ao piano e cantava. Cantava a canção _Bonny Dundee._ Gilliattt empallideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.
Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abrio-se o céo. Gilliatt vio Deruchette regando uns pés de alface.
Dahi a pouco já elle fazia mais do que parar. Observava os habitos da moça, notava as horas em que ella aparecia, e esperava.
Tinha cuidado de não ser visto por ella.
A pouco e pouco, ao tempo em que as moutas se enchem de borboletas e de rosas, immovel e mudo horas inteiras, sem ser visto por ninguem, retendo a respiração, Gilliatt acostumou-se a ver Deruchette andar pelo jardim. É facil acostumar-se ao veneno.
Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Deruchette conversar com mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distinctamente aos ouvidos.
Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar ouvido. Ah! o coração humano é um velho espião!
Havia outro banco visivel e proximo, no fim de uma alameda. Deruchette assentava-se alli algumas vezes.
Pelas flôres que elle via Deruchette colher e cheirar, adivinhou as preferencias da moça a respeito de perfumes.
A moça preferia antes de tudo a campanula, depois o cravo, depois a madresilva, depois o jasmim. A rosa estava em quarto lugar. Quanto aos lyrios, olhava para elles, mas não os cheirava.
Á vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento. Cada cheiro significava para elle uma perfeição.
Só a idéa de fallar a Deruchette fazia-lhe arripiar os cabellos.
Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes á rua que costeava o muro do jardim de Deruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquelle muro e a sua devoção por aquelle lugar deserto. Ligaria ella a presença daquelle homem á possibilidade de uma mulher que estivesse atraz do muro? Descobriria esse vago fio invisivel? Restava-lhe acaso na sua decrepitude mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma cousa dos bellos tempos, e saberia ella já no inverno e na noite, que cousa é o alvor da madrugada? Ignoramol-o, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinella, dirigio para o lado delle toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz, e murmurou entre as gengivas: _aquece, aquece!_
Gilliatt ouvio a palavra que lhe fez impressão, e murmurou com um ponto de interrogação interior; Aquece? Que quer dizer a velha?
Repetio machinalmente a palavra durante todo o dia, mas não chegou a comprehendel-a.
Estando um dia á janella da casa mal assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se, por pagode na angra de Houmet Paradis. Brincavam ingenuamente na agua, a cem passos delle. Gilliatt fechou violentamente a janella. Reparou então que uma mulher núa causava-lhe horror.
III
A CANÇÃO BONNY DUNDEE ACHA UM ECHO NA COLLINA
Atraz do muro do jardim, em um angulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de ortigas, com um pé de malva sylvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quasi todo o verão. Ficava alli inexprimivelmente pensativo. As lagartixas que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O verão foi luminoso e suave. Gilliatt tinha sobre a cabeça as nuvens que perpassavam no céo. Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumurejar de passaros. Punha a cabeça nas mãos e perguntava a si próprio: «Mas porque escreveu ella o meu nome na neve?»
O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longinquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das arvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo; «É isso. Comprehendo. Deruchette ama-me.» Sentia-se profundamente triste. Dizia elle: «Mas tambem ella pensa em mim; faz bem.» Pensava em que Deruchette era rica, e elle pobre. Pensava que o vapor era uma invenção execravel. Não podia lembrar nunca em que dia do mez estava. Contemplava vagamente os grandes zangãos negros, de lombo amarello e azas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.
Deruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Approximou-se da janella para fechal-a. A noite estava escura. De repente, Deruchette applicou o ouvido. Havia uma musica no meio daquella noite profundo. Alguem que provavelmente estava na vertente da collina, ou ao pé das torres do castello do Valle, ou talvez mais longe, executava uma canção n'um instrumento. Deruchette raconheceu a sua melodia favorita _Bonny Dundee_ tocada em bug-pipe. Não comprehendeu nada.
Desde então, ouvio ella muitas vezes a mesma cousa, á mesma hora, especialmente nas noites escuras.
Deruchette não gostava muito daquillo.
IV
Pour l'oncle et le tuteur, bons hommes taciturnes, Les sérénades sont des tapages nocturnes. (_Verso de uma comedia inedita._)
Passaram quatro annos.
Deruchette approximava-se dos vinte e um annos e conservava-se solteira.
Já alguem escreveu algures:--Uma idéa fixa é uma veruma. Vai-se enterrando de anno para anno. Para extirpal-a no primeiro anno é preciso arrancar os cabellos; no segundo rasga-se a pelle; no terceiro anno quebra o osso; no quarto sahem os miolos.
Gilliatt estava no quatro anno.
Não tinha trocado uma só palavra com Deruchette. Pensava nella; era tudo.
Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Deruchette conversando com mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a approximar-se della. Cuidava estar certo de que sorrira quando elle passou. Não era cousa impossivel.
Deruchette continuava a ouvir de tempos em tempos o bug-pipe.
Tambem mess Lethierry ouvia o bug-pipe, e notou a persistencia desta musica perto da janella de Deruchette. Musica terna, circumstancia aggravante. Não lhe agradavam namorados nocturnos. Queria casar Deruchette com dia claro, quando ella e elle quizessem, e simplesmente, sem romance e sem musica. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Metteu as unhas na barba em signal de colera, e disse: por que motivo vem aquelle animal samphonear-me á porta? Ama Deruchette, é claro. Perdes o tempo. Quem quizer Deruchette deve vir fallar-me, e sem musica.
Previsto desde muito, veio a realisar-se um acontecimento importante. Annunciou-se que o reverendo Jacquemin Herodes fôra nomeado delegado do bispo de Winchester, décano da ilha e cura de Saint-Pierre Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de installar o seu successor.
Estava a chegar o novo cura. Era elle gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.
A respeito delle havia circumstancias que a benevolencia e a malevolencia commentavam em sentido inverso. Diziam qua era moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperança. Na lingua especial creada para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer de Caudray era bem aparentado; tinha quasi direito á qualidade de _honorable._ Quanto á sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a expressão do bispo Tilleston, era _muito libertino_, isto é, muito severo. Repudiava o pharisaismo; ligava-se antes ao presbyterio que ao episcopado. Sonhava com a igreja primitiva, onde Adão tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hieropolis, raptava uma moça para ser mulher delle, dizendo aos paes: _Ella quer e eu quero, já não sois nem pae nem mãe, eu sou o anjo de Hieropolis, e esta é minha esposa. O pae é Deos._ A dar credito aos boatos, o Sr. Ebenezer Caudray subordinava o texto: _Honrai pae e mãe_, ao texto, segundo elle superior: _A mulher é a carne do homem. A mulher deixará pae e mãe para acompanhar o marido._ Mas a final de contas, esta tendencia para circumscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o vinculo conjugal, é propria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra, e singularmente na America.
V
JUSTA VICTORIA É SEMPRE MALQUISTA
Eis o balanço de mess Lethierry no tempo em que occorria isto. Durande comprio o que promettera. Mess Lethierry pagou as dividas, reparou os prejuizos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que morava das hypothecas, comprou todas as rendas locaes inscriptas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital productivo, a Durande. O rendimento liquido do navio era então de mil libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna delle. Era tambem a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumação a bordo, e facilitar a entrada e sahida do gado, supprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprudencia. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade que a chalupa era excellente.
--Já havia dez annos que Rantaine tinha roubado mess Lethierry.
A prosperidade da Durande tinha um lado fraco, é que não inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A situação de mess Lethierry era aceita como excepção. Dizia-se que elle fizera uma loucura feliz. Quiz alguem fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve máo exito na tentativa. A tentativa arruinou os accionistas. Dizia Lethierry: É que a machina foi mal construida. Mas os outros abanavam a testa. As novidades tem contra si o odio de todos; o menor erro compromette-as.
Consultado ácerca de um negocio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos oraculos commerciaes do archipelago normando: _É uma conversão o que me propondes. Conversão de dinheiro em fumo._ Entretanto os navios de vela achavam sempre quantas commanditas fossem precisas. Os capitães teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira. Em Guernesey a Durande era um facto, mas o vapor não era um principio. Tal era a pertinacia da negação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: _Fez cousa boa, mas não ha de metter-se em outra._ Longe de animar, o exemplo delle causava medo. Ninguem ousaria arriscar segunda Durande.
VI
FORTUNA DOS NAUFRAGOS ENCONTRANDO A CHALUPA
Cedo annuncia-se o equinoxio na Mancha. É um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde Fevereiro começam ali os ventos do Oeste saccudindo as aguas em todos os sentidos. A navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de signal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar apparece como uma emboscada; invisivel clarim trôa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; é terrivel o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade entumece as bochechas.
O vento é um perigo; o nevoeiro outro.