Os Trabalhadores do Mar

Part 4

Chapter 43,870 wordsPublic domain

Deruchette tinha o olhar indolente, e aggressivo sem que o soubesse. Não conhecia talvez o sentido da palavra amor, e fazia com que a gente se apaixonasse por ella. Mas era sem má intenção. Deruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fôra residir em Saint-Sampson, dizia: _Esta rapariga seduz a matar._

Deruchette tinha as mais lindas mãosinhas deste mundo, e pés iguaes ás mãos, _quatro pésinhos de mosca_, dizia mess Lethierry. Tinha em si a bondade e a doçura: o tio Lethierry era toda a sua familia e riqueza: o trabalho della, era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por sciencia a belleza, por espirito a innocencia, por coração a ignorancia; tinha a graciosa indolencia creoula, mesclada de travessura e de vivesa, a jovialidade traquinas da infancia com um pendor á melancolia, vestuarios um pouco insulares, elegantes, mas incorrectos, chapéos de flôres todo o anno, fronte ingenua, pescoço flexivel e tentador, cabellos castanhos, pelle branca com alguns toques arruivados no verão, bocca grande e sã, e nessa bocca o adoravel e perigoso explendor do sorriso. Eis o que era Deruchette.

Algumas vezes, á noite, após o pôr o sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, á hora em que o crepusculo dá uma especie de terror as vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas uma certa massa informe, uma cousa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um volcão, uma especie de hydra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atirando-se sobre a cidade com um horrivel movimento de barbatanas e uma goela donde as chammas irrompiam. Era Durande.

II

A ETERNA HISTORIA DA UTOPIA

Era uma prodigiosa novidade o apparecimento de um navio a vapor nas aguas da Mancha em 182... Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horisonte do mar, sem attrahir os olhos de ninguem! Quando muito, algum observador especialista distingue pela côr da fumaça, se o carvão que consome o navio é de Galles ou de Newcastle. Passam; é quanto basta. Se partem:--_Boa viagem!_ se chegam:--_Welcome!_

Não era tão grande a calma a respeito de taes invenções no primeiro quarto do nosso seculo, e estas machinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha. Neste archipelago puritano, onde a rainha de Inglaterra foi censurada por violar a Biblia[1] narcotisando-se para dar á luz, o navio a vapor teve como primeiro comprimento, o ser baptisado com este nome: _Devil Boat--Navio-Diabo._

A esses bons pescadores de então, outr'ora catholicos, agora calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquillo o inferno fluctuante. Um pregador da terra tratou da questão:--_Temos nós o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a agua que Deos separou?_[2] Aquelle animal de ferro e fogo não era a imagem de Leviathan? não era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo cahos? Não é a primeira vez que acontece qualificar a ascensão do progresso de retrogradação ao cahos.

_Idéa louca, erro grosseiro, absurdo_: tal foi o veredicto da academia das sciencias consultada por Napoleão no começo deste seculo, acerca do vapor. Os pescadores de Saint-Sampson teem desculpa de se acharem, em materia scientifica, ao nivel dos geometras de Paris; e em materia religiosa, uma pequena ilha como Guernesey não tem obrigação de ser mais illustrada que um grande continente como a America. Em 1807 quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da machina de Wat mandada da Inglaterra, e tripulado, além da equipagem, por dous francezes sómente, André Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de New-York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de Agosto. Esta coincidencia deu origem a que o methodismo tomasse a palavra, e em todas as capellas os pregadores amaldiçoaram a machina, declarando que o numero dezesete era o total das dez antenas e das sete cabeças da besta do Apocalipse. Na America invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do Genesis. Nisto consistia toda a differença.

Os sabios havião rejeitado o vapor como impossivel; os padres, a seu turno, rejeitavão-n'o como impio. A sciencia condemnava; a religião anathematisava. Fulton era uma variante de Lucifer. Os habitantes simplorios das costas e dos campos adheriam á reprovação pelo incommodo que lhes causava a novidade. Na presença do vapor, o ponto de vista religioso era este:--a agua e o fogo são um divorcio. Este divorcio é ordenado por Deos. Não se deve desunir o que Deos unio, nem unir o que elle desunio. O ponto de vista do camponez era:--isto mette-me medo.

Para commetter, naquella época remota, a empreza de uma navegação a vapor entre Guernesey e S. Malo, nada menos era preciso que um homem como mess Lethierry. Só elle podia concebê-la na qualidade de livre pensador, e realiza-la na qualidade de marinheiro atrevido. O seu _eu_ francez concebeu a idéa; o seu _eu_ inglez executou-a.

Em que occasião? Digamo-lo.

[1]_Genesis_, cap. 3.°, v. 16: Parirás com dôr.

[2]_Genesis_, cap. 1.°, v. 4.

III

RANTAINE

Quarenta annos antes da época em que se passam os factos que narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre a _Fosse-aux-Loups_ e a _Tombe-Issoire_, um albergue suspeito. Era uma casinha isolada e baixa. Morava ahi com a mulher e o filho, uma especie de burguez bandido, antigo escrevente de tabellião no Chatelet, e ao depois ladrão descarado. Já havia figurado no tribunal criminal. O appellido da familia era Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma commoda de mogno, viam-se duas chicaras de porcelana pintada: em uma dellas lia-se em letras douradas o seguinte distico--_lembrança de amizade_; na outra--_signal de estima._ A criança vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pae e a mãe pertenciam á burguezia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A mãe pallida, quasi esfarrapada, dava machinalmente--educação--a seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a _Cruz de Jesus_, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao pé do livro o menino pensativo.

O pae e a mãe presos em algum flagrante delicto, desappareceram na noite penal. A criança desappareceu tambem.

Lethierry, em suas excursões, encontrou um aventureiro como elle, livrou-o, não se sabe de que aperto, prestou-lhe serviços, affeiçoou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o intelligente para a navegação costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.

Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabeça robusta, espaduas largas e possantes, e quadris de Hercules Farnese. Lethierry e elle tinham o mesmo ar e a mesma apparencia; Rantaine era mais alto. Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro, dizia: lá estão os dous irmãos. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circumspecto. Rantaine era esgrimista, tocava harmonica, espivitava uma vela com uma balla, a vinte passos, dava um soco magnifico, recitava versos da _Henriada_, e adivinhava os sonhos. Sabia de cór os _Tumulos de S. Diniz_, por Treneuil; dizia ter tido amizade com o sultão de Calicut--a quem os portuguezes chamam Camorim. Se se podesse folhear a carteira de lembranças que andava sempre no bolso delle, ter-se-hia encontrado entre outras notas, algumas do genero desta:_--em Lyão, n'uma das frestas da parede do calabouço de S. José, ha uma lima escondida._ Fallava com uma lentidão discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de S. Luiz. A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciaes differentes. Ninguem mais susceptivel em cousas de honra. Batia-se e matava.

A força servindo de envolucro á astucia, tal era Rantaine.

A belleza de um sôco applicado por elle, n'uma feira, sobre uma _Cabeza de moro_, conquistara-lhe outr'ora a sympathia de Lethierry.

Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos teem um traje, o destino de Rantaine vestia á moda de arlequim. Tinha visto o mundo; tinha trabalhado muito. Era um circumnavegador. Teve innumeraveis officios. Foi cozinheiro em Madagascar, creador de passaros em Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas de Gallapagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro livre no Haiti. Neste ultimo emprego, pronunciara no _Grande Goave_ uma oração funebre de que os jornaes locaes conservaram este fragmento: ... «Adeus, pois, bella alma! na abobada azulada dos céos onde agora desferes o vôo, encontrarás sem duvida o bom padre Leandro Crameau do _Pequeno Goave._ Dize-lhe que, graças a dez annnos de esforços gloriosos, terminaste a igreja de _Anse-à-Veau!_ Adeos! genio transcendente, maçon modelo!» A mascara de pedreiro-livre não lhe impedia, como se vê, trazer o nariz catholico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de raça pura, odiava os negros: apezar disso teria admirado a Soluque. Em Bordeaux, em 1815, foi elle _verdet._ Naquella época a fumaça do seu realismo sahia-lhe pela cabeça fora, na forma de um immenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses, apparecendo, desapparecendo e tornando a apparecer. Era um velhaco a gyrar como uma rodinha de fogo. Sabio o turco: em vez de _guilhotinado_ dizia: _neboissé._ Fora escravo em Tripoli, na casa de um thaleb e ahi aprendera o turco á força de bengaladas; tinha por obrigação ir á noite á porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fieis o Alkorão, escripto em pranchas de madeira ou em omoplatas de camello. Provavelmente era renegado.

Era capaz de tudo e mais alguma cousa.

Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia: _Em politica, só estimo as pessoas inaccessiveis ás influencias._ Dizia: _Sou pelos costumes._ Dizia: _É preciso repor a piramide na base._ Era mais alegre e cordial que outra cousa. A forma da bocca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encrusilhada de rugas onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista. Ahi é que se podia decifrar o segredo da physionomia delle. Assemelhavam-se as taes rugas a uma garra de abutre. O craneo era chato em cima e largo nas temporas. A orelha disforme e embrenhada de cabellos parecia dizer: não falles ao animal que está aqui neste antro.

Rantaine desappareceu um dia de Guernesey.

O socio de Lethierry _raspou-se_ deixando vasia a caixa da sociedade.

Havia dinheiro delle na caixa, é certo; mas havia tambem cincoenta mil francos de Lethierry.

Lethierry, ganhara uns cem mil francos em quarenta annos de industria e de probidade, no seu officio de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.

Lethierry, meio arruinado, não cedeu, e tratou immediatamente de levantar-se. Aos homens de boa tempera arruina-se a fortuna, não a coragem. Começava-se então a fallar do vapor. Lethierry teve a idéa de tentar a machina de Fulton, tão contestada, e ligar por meio de um vapor o archipelago normando á França. Jogou tudo nessa idéa. Applicou-lhe os restos da fortuna. Seis mezes depois da fuga de Rantaine a gente de Saint-Sampson vio estupefacta sahir daquelle porto um navio deitando fumo, e produzindo o effeito de um incendio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as aguas da Mancha.

Aquelle navio, alcunhado _Galeola de Lethierry_, pelo desdem e odios de todos, foi annunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo.

IV

CONTINUAÇÃO DA HISTORIA DA UTOPIA

Comprehende-se que a cousa fosse muito mal recebida. Todos os proprietarios de navios de carreira entre a ilha guernesiana e a costa francesa clamaram immediatamente. Denunciaram aquelle attentado feito ás Santas Escripturas e ao monopolio. Alguns templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao vapor uma _libertinagem._ O barco á vela foi declarado orthodoxo. Vio-se distinctamente que eram pontas do diabo as pontas dos bois que o vapor trazia e desembarcava. Durou o protesto um bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os taes bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a carne mais tenra; que tambem para os homens eram menores os riscos do mar; que a passagem, menos dispendiosa, era segura e mais curta; que eram fixas as horas da sahida e da chegada; que o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se podia levar aos mercados francezes as sobras das grandes pescas, tão frequentes em Guernesey; que a manteiga das admiraveis vaccas de Guernesey fazia mais rapidamente o trajecto no Devil-Boat que nas chalupas á vela, e não perdia na qualidade, de maneira que affluiam as encommendas de Dinan, de Saint-Brieuc e de Rennes; finalmente que, graças ao que se chamava _Galeota de Lethierry_, havia segurança de viagem, regularidade de communicação, trafego facil e prompto, augmento de circulação, multiplicação de mercados, extensão de commercio; em summa que era preciso approveitar o Devil-Boat que violava a Biblia e enriquecia a ilha. Alguns espiritos fortes arriscaram-se a approvar o vapor com certa precaução. O Sr. Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era imparcialidade, porque elle não gostava de Lethierry: primeiro, porque, Lethierry era _mess_, e Landoys era apenas _senhor_; depois, porque, embora escrevente em Saint-Pierre Port, Landoys era parochiano de Saint-Sampson; ora, na parochia, só havia dous homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que podia acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do mesmo navio, distanceam-se duas creaturas.

Comtudo o Sr. Landoys teve o cavalherismo de approvar o vapor. Outras pessoas o imitaram. Insensivelmente o facto foi subindo; os factos são como as marés; e com o tempo, com o successo continuado e crescente, com a evidencia do serviço prestado, o augmento da commodidade publica, lá veio um dia em que, á excepção de alguns homens de juizo, toda a gente admirou a Galeota de Lethierry.

Hoje seria menos admirada. Aquelle vapor de ha quarenta annos faria sorrir os nossos actuaes constructores. Era uma maravilha disforme, um prodigio rachitico.

Entre os nossos grandes paquetes transatlanticos de hoje e o navio de rodas e fogo que Dionysio Papin fez manobrar na Fulde em 1707, não ha menor distancia que entre a náo _Montebello_, de 200 pés de comprimento, 50 de largura, com uma verga de 115 pés, arqueando 2,000 toneladas, levando 1,100 homens, 120 peças, 10,000 balas e 160 volumes de metralha, deitando 3,300 litros de ferro por banda e desenrolando ao vento em viagem, 5,600 metros de lona, e o drouwn dinamarquez do 2.° seculo, que se achou cheio de pedras, arcos, e clavas, nos atoleiros de Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de Flensburgo.

Cem annos justos, 1707--1807, separam o primeiro barco de Papin do primeiro navio de Fulton. A Galeota de Lethierry era de certo um progresso sobre aquelles dous esboços, mas era esboço tambem. Nem por isso deixava de ser uma obra prima. Todo embryão de sciencia tem este duplo aspecto; monstro, como fecto; maravilha, como germen.

V

O NAVIO-DIABO

A Galeota de Lethierry não era mastreada no ponto velico, e não era isso defeito, porque é uma das leis da construcção naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o velame era simplesmente accessorio; um navio de rodas é quasi insensivel ao velame que se lhe põe. A Galeota era demasiado curta e arredondada; grande bochecha e largos quadris; Lethierry não teve a ousadia de faze-la mais ligeira. A Galeota tinha alguns dos inconvenientes e das qualidades da _pança_: arfava pouco, mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga da coberta era maior de que comportava o comprimento. A machina, que era massuda, atravancava o navio, e para torna-lo capaz de um grande carregamento, foi preciso levantar muito a amurada, o que deu á Galeota, mais ou menos, o defeito das náos de 74, que, só arrasando-as, podem navegar e combater.

Sendo curta, devia gyrar depressa, visto que o tempo empregado em uma evolução está na razão do comprimento do navio; mas o peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de ser curta. O pontal era muito largo, o que lhe atrazava a marcha, porque a resistencia da agua é proporcional á maior secção immergida e á velocidade do navio. A proa era vertical, o que não seria defeito hoje, mas naquelle tempo era uso inclina-la uns quarenta e cinco gráos. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas, mas não eram sufficientemente longas para a obliquidade e parallelismo com o lume da agua, que deve ser rechassada lateralmente. No máo tempo, callava muita agua, ora na proa, ora na popa, o que mostrava ter vicio de construcção no centro de gravidade. Não estando o carregamento no lugar proprio, por causa do peso da machina, acontecia que o centro de gravidade passava ás vezes para traz do mastro grande, e então era preciso contar só com o vapor, e desconfiar da vela grande, porque o effeito da vela grande nesses casos fazia antes arribar que sustentar o vento. O recurso era, ao approximar-se do vento, soltar a grande escota; deste modo o vento fixava-se na proa, pela amurada, e a vela grande fazia o effeito de uma vela de popa. A manobra era difficil. O leme era o leme antigo, não de roda como hoje, mas de cana, voltando sobre os eixos firmados no cadaste, e movido por uma trave horisontal que passava por cima da cava da culatra.

Tinha duas falúas suspensas. O navio era de quatro ancoras, a ancora grande, a segunda ancora, que é a que trabalha, _working-anchor_, e duas ancoras de amarra. Essas quatro ancoras, atadas por correntes, eram manobradas, segundo as occasiões, pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da proa. Tendo apenas duas ancoras de amarra, uma a estibordo, outra a bombordo, o navio não podia ancorar em cruz, o que o desarmava quando sopravam certos ventos. Mas neste caso podia usar da segunda ancora. As boias eram normaes, e construidas da maneira a supportar um cabo de ancora, ficando sempre á flôr da agua. A chalupa tinha as dimensões uteis. A novidade do navio é que era, em parte, apparelhado com correntes; o que não lhe diminuia a mobilidade nem a tenção das manobras.

A mastreação, posto que secundaria, não era incorrecta; era facil o manejo dos ovens. As peças de madeira eram solidas, mas grosseiras, pois que o vapor não exige madeiras tão delicadas como exigem as velas. Tinha aquelle navio uma velocidade de duas leguas por hora. Quando pannejava affeiçoava-se bem ao vento. A Galeota de Lethierry supportava bem o mar, mas não tinha boa quilha para dividir o liquido, nem se podia dizer que fosse airosa. Via-se que em occasião de perigo, cachopo ou tromba, não poderia ser bem manobrada. Tinha o ranger de uma cousa informe. Fazia na agua o ruido que fazem as solas novas.

Era navio de commercio e não de guerra, e por isso mais exclusivamente disposto para a arrumação das cargas. Admittia poucos passageiros. O transporte do gado tornava difficil e especial a arrumação das cargas. Punham-se os bois no porão, o que complicava muito. Hoje os bois ficão no convés. As caixas das rodas do Devil-Boat Lethierry eram pintadas de branco, o casco até o lume d'agua de vermelho, e o resto de preto, segundo o uso, assaz feio, deste seculo.

Vasio calava sete pés; carregado, quatorze.

Quanto á machina era poderosa. Tinha a força de um cavallo por tres toneladas, o que é quasi a força de um rebocador. As rodas estavam bem collocadas, um pouco adiante do centro de gravidade do navio. A machina tinha a pressão maxima de duas athmospheras. Gastava muito carvão. O ponto de apoio era instavel, mas remediava-se como ainda hoje se faz, por meio de um duplo apparelho alternado de duas manivelas fixas nas extremidades da arvore de rotação, e disposta de maneira que uma estivesse no ponto forte quando a outra estava no ponto inerte: Toda a machina repousava em uma só placa fundida; de modo que mesmo em caso de grande avaria, nenhum lanço do mar lhe tirava o equilibrio, e o casco disforme não podia deslocar a machina. Para torna-la ainda mais solida, puzeram a redouça principal perto do cylindro, o que transportava do meio á extremidade o centro da oscilação do pendulo. Inventaram-se depois os cylindros oscilantes que suprimem a redouça antiga; mas naquelle tempo parecia que o systema usado era a ultima palavra da mecanica.

A caldeira era dividida, e tinha a bomba competente. As rodas eram grandes, o que diminuia a perda de força, e o cano alto, o que augmentava a extracção da fornalha; mas o tamanho das rodas dava azo ás vagas, e a altura do cano dava azo ao vento. Raios de páo, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que eram as rodas bem construidas, e (o que admira) podendo ser desmontadas. Haviam sempre tres rodisios mergulhados; a velocidade, do centro da roda não passava de um sexto da velocidade do navio, era esse o defeito. Além disso, a trave da manivela era muito comprida, e o vapor era distribuido no cylindro com demasiado atrito. Naquelle tempo a machina parecia e era admiravel.

Foi ella feita em França, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry delineou-a; o machinista que a construio, morreu; de modo que aquella machina era unica e impossivel de ser substituida. Existia o desenhista, mas faltava o constructor.

Custou a machina quarenta mil francos.

Lethierry construio a Galeota ua grande estiva coberta que fica ao lado da primeira torre entre Saint-Pierre Port e Saint-Sampson. Empregou nessa construcção tudo o que sabia em carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na construcção do costado, cujas costuras eram estreitas e iguaes, untadas de _sarangousti_, betume da India, melhor que alcatrão. O forro estava bem pregado. Para remediar a rotundidade do casco, ajustou elle um botaló ao gurupés, o que lhe permittia accrescentar á cevadeira uma cevadeira falsa. No dia do lançamento ao mar, disse Lethierry: estou na agua! E realmente a Galeota foi bem succedida.

Por acaso ou de proposito, a Galeota cahio ao mar no dia 14 de Julho. Nesse dia Lethierry, de pé sobre o convés, entre as duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar e exclamou: Agora tu! os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamos-te nós!

A Galeota de Lethierry fazia uma vez por semana a viagem de Guernesey a Saint-Malo. Partia na quinta-feira e voltava na sexta á tarde, vespera do mercado que era no sabbado. Era uma massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas costeiras do archipelago, e, sendo a sua capacidade na razão das dimensões, uma só das suas viagens valia por quatro viagens de um cuter ordinario. Tirava por isso grandes lucros. A reputação de um navio depende da sua arrumação de cargas, e Lethierry era admiravel neste mister. Quando ficou impossibilitado de trabalhar no mar, ensinou um marinheiro para substitui-lo. No fim de dous annos, o vapor dava liquidas umas setecentas e cinco libras sterlinas por anno. A libra sterlina de Guernesey vale vinte e quatro francos, a de Inglaterra vinte e cinco, e a de Jersey vinte e seis. Estas phantasmagorias são menos phantasmagoricas do que parecem; os bancos é que lucram com ellas.

VI

LETHIERRY ENTRA NA GLORIA

Prosperava a Galeota. Mess Lethierry via chegar o dia em que elle seria _gentleman._ Em Guernesey não se pode ser gentleman da noite para o dia. Ha uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degráo é o nome simplesmente, Pedro, supponhamos; depois, visinho Pedro; terceiro degráo, pai Pedro; quarto degráo, senhor (_sieur_) Pedro; quinto degráo, mess Pedro; ultimo degráo, gentleman (_monsieur_) Pedro.