Os Trabalhadores do Mar

Part 29

Chapter 293,818 wordsPublic domain

Ebeneser e Deruchette tiveram uma especie de deslumbramento. Tranquillisaram-se. Na sua decrescente perturbação, iam entendendo as palavras de Gilliatt. Ainda havia alguma nuvem, mas a obrigação delles dous não era resistir ao conselho. Quem salva domina sempre. Fracas são as objecções quando se trata de voltar ao Eden. Havia na attitude de Deruchette, imperceptivelmente apoiada em Ebeneser, alguma cousa que fazia causa commum com o que dizia Gilliatt. Quanto ao enigma da presença daquelle homem e das suas palavras que, no espirito de Deruchette em particular, produziam muitas especies de assombro, eram questões á parte. Aquelle homem dizia-lhes: Casem-se. Era claro. Se houvesse uma responsabilidade era elle quem a tomava sobre si. Deruchette sentia confusamente que, por diversas razões, elle tinha o direito de faze-lo. O que elle dizia de mess Lethierry era verdade, Ebeneser pensativo murmurou:

--Um tio não é um pai.

Ebeneser sentia a corrupção de uma peripecia subita e feliz. Os escrupulos provaveis do padre fundiam-se e dissolviam-se naquelle pobre coração apaixonado.

A voz de Gilliatt tomou-se breve e dura; sentia-se nella umas pulsações de febre:

--Immediatamente. O _Cashmere_ parte daqui a duas horas. Tem tempo, mas não de sobra; venham ambos.

Ebeneser examinava-o attentamente.

De subito exclamou:

--Conheço-o. Foi o senhor quem me salvou a vida.

Gilliatt respondeu:

--Não creio.

--Lá adiante, na ponta dos Bancos.

--Não conheço esse lugar.

--No mesmo dia em que cheguei.

--Não percamos tempo, disse Gilliatt.

--E não me engano, o senhor é o homem de hontem á noite.

--Talvez.

--Como se chama?

Gilliatt alçou a voz:

--Ó do bote, espere-nos. Já voltamos. Miss, a senhora perguntou-me porque motivo estava eu aqui, é simples, eu acompanhei-os. A senhora tem vinte e um annos. Nesta terra quem chega a maioridade e depende de si casa-se em um quarto de hora. Tomemos o caminho da praia. Está praticavel, a maré ha de encher lá para o meio dia. Mas vamos já. Venham comigo.

Deruchette e Ebeneser pareciam consultar-se com o olhar. Estavam de pé, juntinhos, sem mecher-se; pareciam ébrios. Ha dessas tentações extranhas á beira desse abysmo que se chama felicidade. Comprehendiam sem comprehender.

--Elle chama-se Gilliatt, disse Deruchette baixinho a Ebeneser.

Gilliatt continuou com uma especie de autoridade:

--Que esperam? Já lhes disse que me acompanhassem.

--Aonde? perguntou Ebeneser.

--Alli.

E Gilliatt mostrou com o dedo a torre da igreja.

Os dous acompanharam-n'o.

Gilliatt ia adiante. O seu passo era firme. Os dous vacillavam.

Á proporção que se approxiraavam da torre, via-se despontar naquelle puros e bellos rostos de Ebeneser e Deruchette alguma cousa que seria dentro de pouco tempo o sorriso. A proximidade da igreja illuminava-os. Nos olhos fundos de Gilliatt haviam trevas.

Dissera-se um espectro levando duas almas ao paraiso.

Ebeneser e Deruchette não comprehendiam muito o que se estava passando. A intervenção daquelle homem era o ramo a que se agarra o affogado. Elles acompanhavam Gilliatt com a docilidade que o desespero tem para com a primeira pessoa que lhe apparece. Quem se sente morrer não é difficil em aceitar os incidentes. Deruchette, mais ignorante, era mais confiante. Ebeneser pensava. Deruchette era maior. As formalidades do casamento inglez são simplissimas, sobretudo nos paizes autochthones onde os parochos tem quasi um poder discricionario; mas o decano celebraria o casamento sem saber se o tio consentia? Havia uma questão nisto. Comtudo, podia-se tentar. Em todo o caso era uma delonga.

Mas quem era aquelle homem? e se era elle quem na vespera, foi declarado genro de mess Lethierry, como explicar o que estava fazendo? Elle, que era o obstaculo, tornava-se a providencia. Ebeneser prestava-se a tudo, mas dava ao que se estava passando o consentimento tacito e rapido do homem que se sente salvo.

O caminho era desigual, ás vezes molhado e difficil. Ebeneser absorto não prestava attenção aos charcos de agua e ás pedras. De quando em quando, Gilliatt, voltava-se e dizia a Ebeneser: Cuidado com essas pedras, dê-lhe a mão.

III

PREVIDENCIA DA ABNEGAÇÃO

Soavam dez horas e meia quando elles entravam na igreja.

Por causa da hora, e tambem por causa da solidão da cidade naquelle dia, a igreja estava vasia.

No fundo, porém, perto da mesa que, nas igrejas reformadas, substitue o altar, haviam tres pessoas; eram o decano, o seu evangelista, e mais o lançador dos registros. O decano, que era o reverendo Jaquemin Herodes, estava assentado; o evangelista e o lançador estavam de pé.

O Livro, aberto, estava sobre a mesa.

Ao lado havia outro livro, era o registro da parochia, igualmente aberto, e no qual um olhar attento poderia notar uma pagina escripta de fresco. Uma penna e um tinteiro ficavam ao lado do registro.

Vendo entrar o reverendo Ebeneser Caudray, o reverendo Jaquemin Herodes levantou-se.

--Esperava-o, disse elle. Tudo está prompto.

O decano, com effeito, estava com o habito de officiante.

Ebeneser olhou para Gilliatt.

O reverendo Herodes continuou:

--Estou ás suas ordens, meu collega.

E fez-lhe uma cortezia.

A cortezia não foi nem para a esquerda nem para a direita. Era evidente, pela direcção do raio visual do decano, que, para elle, só Ebeneser existia. Ebeneser era clergyman e gentleman. O decano não comprehendia no seu comprimento nem Deruchette que estava ao lado, nem Gilliatt que estava atraz. Havia no seu olhar um parenthesis em que só Ebeneser era admittido. A manutenção destas distincções faz parte da boa ordem e consolida as sociedades.

O decano continuou com uma amenidade graciosamente altiva:

--Meu collega, faço-lhe o meu duplo comprimento. Morreu-lhe o tio, e o senhor casa-se; fica rico por um lado e feliz por outro. Demais, agora, graças a este vapor que vai ser restabelecido, miss Lethierry tambem é rica, o que eu approvo. Miss Lethierry nasceu nesta parochia, verifiquei a data do nascimento no livro dos assentos. Miss Lethierry é maior e dispõe de si. Depois, seu tio, que é toda a sua familia, consente. Querem casar-se já por causa da viagem, comprehendo, mas sendo este casamento o do cura da parochia, eu quizera mais alguma solemnidade. Abrevio para fazer-lhes o gosto. O essencial póde fazer-se no summario. O acto já está escripto no livro do registro que está aqui, e falta só pôr os nomes. Nos termos da lei e do costume, o casamento pode ser celebrado logo depois da inscripção. A declaração necessaria para a licença já foi feita. Tomo a responsabilidade de uma pequena irregularidade, porque o pedido de licença devia ser previamente registrado sete dias antes; mas eu reconheço a necessidade e a urgencia da partida, Seja. Vou casal-os. O meu evangelista, será a testemunha do esposo; quanto á da esposa...

O decano voltou-se para Gilliatt.

Gilliatt fez um signal de cabeça.

--Basta, disse o decano.

Ebeneser ficara immovel. Deruchette era o extasis petrificado.

O decano continuou:

--Ha porém um obstaculo.

Deruchette fez um movimento.

O decano continuou:

--O enviado de mess Lethierry, que aqui está presente, e pedio a licença e assignou a declaração no registro,--e com o polegar da mão esquerda o decano indicou Gilliatt, o que o isentava de articular nenhum nome,--o enviado de mess Lethierry disse-me esta manhã que mess Lethierry, por muito occupado, não podia vir, e desejava que o casamento se fizesse incontinenti. Esse desejo, verbalmente expresso, não é sufficiente. Não posso, por causa das dispensas e da irregularidade que tomo sobre mim, ir além disto sem imformar-me de mess Lethierry, a menos que não me mostrem a assignatura delle. Qualquer que seja a minha boa vontade, não posso contentar-me com uma palavra que me repetem. Preciso de um escripto.

--Não sirva isso de empecilho, disse Gilliatt.

E apresentou ao decano um papel.

O decano pegou no papel, percorreu com um olhar, pareceu passar algumas linhas, sem duvida, inuteis, e leu alto:

--«...Vai ter á casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se faça o mais cedo possivel, e já, será melhor.»

Poz o papel em cima da mesa e continuou:

--Assignado Lethierry. A cousa seria mais respeitosa se fosse dirigida a mim. Mas como se trata de um collega, não exijo mais.

Ebeneser olhou de novo para Gilliatt. Ha almas que se entendem. Ebeneser sentia naquillo uma fraude; e não teve força, não teve mesmo idéa, de denuncial-a. Ou fosse obediencia a um heroismo latente que elle antevia, ou fosse que se lhe aturdisse a consciencia pela ventura subita, Ebeneser não teve palavras.

O decano tomou a penna e encheu, com auxilio do lançador dos assentos, os claros da pagina escripta no livro, depois levantou-se, e com o gesto, convidou Ebeneser e Deruchette, a aproximar-se da mesa.

Começou a ceremonia.

Ebeneser e Deruchette estavam ao pé um do outro diante do ministro. Quem tiver sonhado que se está casando saberá o que elles sentiam.

Gilliatt estava a alguma distancia na obscuridade dos pillares.

Deruchette ao levantar-se da cama, desesperada, pensando no tumulo e no sudario, vestira-se de branco. Esta idéa de morte veio a proposito para as nupcias. O vestido branco fez della uma noiva. Tambem os tumulos são esponsaes.

Deruchette irradiava. Nunca foi o que era naquelle instante. Deruchette tinha o defeito de ser demasiado linda e não bastante formosa. A sua belleza peccava, se é peccar, por excesso de graça. Deruchette em repouso, isto é, fóra da paixão e da dôr, já o dissemos, era sobretudo gentil. A transfiguração da moça encantadora é a virgem ideal. Deruchette, engrandecida pelo amor e pelo soffrimento, tinha tido esse progresso, deixem passar a palavra. Tinha a mesma candura, com mais dignidade, a mesma frescura com mais perfume. Era uma especie de bonina que se torna lyrio.

Tinha no rosto signaes de lagrimas estanques. Havia ainda talvez uma lagrima no canto do sorriso. As lagrimas estanques, vagamente visiveis, são um sombrio e doce ornato da felicidade.

O decano, de pé perto da mesa, poz um dedo na Biblia aberta e perguntou em voz alta:

--Ha opposição?

Ninguem respondeu.

--Amen, disse o decano.

Ebeneser e Deruchette deram um passo para o Rev. Jaquemin Herodes.

O decano disse:

--Joë Ebeneser Caudray, queres esta mulher por tua esposa?

Ebeneser respondeu:

--Quero.

O decano contiunou:

--Durande Deruchette Lethierry, queres este homem por teu marido?

Deruchette na agonia da alma demasiado feliz, como a da lampada demasiado cheia de oleo, murmurou em vez de pronunciar:

--Quero.

Então, segundo o bello rito do casamento anglicano, o decano olhou em roda de si, e fez na sombra da igreja esta solemne pergunta:

--Quem dá esta mulher a este homem?

--Eu, disse Gilliatt.

Houve um momento de silencio. Ebeneser e Deruchette sentiram uma vaga oppressão atravez da sua felicidade.

O decano poz a mão direita de Deruchette na mão direita de Ebeneser, e Ebeneser disse a Deruchette:

--Deruchette, tomo-me por minha mulher, quer sejas melhor ou peior, mais rica ou mais pobre, doente ou com saude, para amar-te ate á morte, e dou-te a minha fé.

O decano pôz a mão direita de Ebeneser na mão direita de Deruchette, e Deruchette disse a Ebeneser:

--Ebeneser, tomo-te por meu marido, quer sejas melhor ou peior, mais rico ou mais pobre, doente ou com saude, para amar-te e obedecer-te até á morte, e dou-te a minha fé.

O decano continuou:

--Onde está o annel?

Isto era o imprevisto. Ebeneser não tinha annel.

Gilliatt tirou o annel de ouro que tinha no dedo minimo e apresentou ao decano. Era provavelmente o annel de casamento comprado de manhã ao ourives de Commercial--Arcade.

O decano pôz o annel no livro, depois entregou-o a Ebeneser.

Ebeneser pegou na mãosinha esquerda, tremula, de Deruchette, metteu o annel no quarto dedo, e disse:

--Desposo-te com este annel.

--Em nome do Padre, do Filho e do Espirito-Santo, disse o decano.

--Assim seja, disse o evangelista.

O decano alçou a voz:

--Estaes casados.

--Assim seja, disse o evangelista.

O decano continuou:

--Oremos.

Ebeneser e Deruchette voltaram-se para a mesa e ajoelharam-se.

Gilliatt que estava de pé inclinou a cabeça.

Elles ajoelhavam-se diante de Deos, Gilliatt curvava-se ao destino.

IV

«PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES»

Sahindo da igreja viram o _Cashmere_ que começava a apparelhar.

--Chegam a tempo, disse Gilliatt.

Seguiram pelo caminho da Angrazinha.

Os dous iam adiante, Gilliatt agora caminhava atraz.

Eram dous somnambulos. Mudára apenas o atordoamento. Não sabiam nem onde estavam nem o que faziam; apressavam-se machinalmente, não se lembravam da existencia de cousa alguma, sentiam-se um outro, não podiam ligar duas idéas. Não póde pensar quem está em extasis, como não póde nadar quem está n'uma torrente. Pareciam ir penetrando n'um paraiso. Não se fallavam, conversavam com a alma. Deruchette apertava contra si o braço de Ebeneser.

O passo de Gilliatt atraz delles fazia-lhes ver que elle estava presente. Iam profundamente commovidos, mas sem dizer palavra; o excesso da commoção transforma-se em estupefacção. A delles era deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto, esperavam voltar, o que Gilliatt fez era bem feito, eis tudo. O fundo desses dous corações agradecia-lhe ardente e vagamente. Deruchette dizia comsigo que havia alguma cousa para deslindar, mais tarde. Entretanto, aceitavam o facto. Sentiam-se á discrição daquelle homem decisivo e subito, que, por autoridade, fazia a felicidade delles dous. Fazer-lhes perguntas, conversar com elle, era impossivel. Eram de sobejo as impressões que se lhes precipitavam em cima ao mesmo tempo. Estavam engolphados; era perdoavel.

Os factos são ás vezes uma saraiva. Crivam a creatura. Ensurdecem. A precipitação dos incidentes, cahindo em existencias habitualmente calmas, tornam logo inintelligiveis os acontecimentos aos que os soffrem ou delles se aproveitam. Não se póde conhecer a sua propria ventura. Fica-se esmagado sem adivinhar, venturoso sem comprehender. Deruchette, em particular, desde algumas horas recebera todas as commoções; primeiramente a fascinação, Ebeneser no jardim; depois o pesadelo, aquelle monstro declarado seu marido; depois a desolação, o anjo abrindo as azas e prestes a partir; agora era a alegria, uma alegria inaudita, com um fundo indecifravel; o monstro dava-lhe o anjo; o casamento sahia da agonia; o Gilliatt, catastrophe de hontem, salvação de hoje. Deruchette não comprehendia nada. Era evidente que desde manhã Gilliatt não teve outra occupação se não a de casal-os; fez tudo; respondeu por mess Lethierry, fallou ao decano, pedio licença, assignou a declaração necessaria; eis-ahi como se realisou o casamento. Mas Deruchette não comprehendia nada; de mais, mesmo quando ella comprehendesse o como, não comprehenderia o porque.

Fechar os olhos, agradecer mentalmente, esquecer a terra e a vida, deixasse levar para o céo por aquelle bom demonio, eis o que lhe cumprir fazer. Esclarecer seria longo, agradecer não seria bastante. Deruchette calava-se naquelle doce embrutecimento da ventura.

Restava-lhe ainda algum pensamento, sufficiente para guial-a. Debaixo d'agua ha pedaços de esponja que ficam brancos. Elles tinham a somma de lucidez necessaria para distinguir o mar da terra e o _Cashmere_ de qualquer outro navio.

Dentro de poucos minutos estavam elles na Angrazinha.

Ebeneser foi o primeiro a entrar no bote. No momento em que Deruchette ia acompanhal-o, sentio a sua manga docemente puxada. Era Gilliatt que tinha posto um dedo numa dobra do vestido.

--Senhora, disse elle, não esperava partir. Eu cuido que naturalmente ha de precisar de vestidos e roupa. Achará a bordo do Cashmere um caixotinho com objectos de mulher. Foi minha mãe quem m'o deu. Era destinado á mulher com quem eu casasse. Consinta que lh'o offereça.

Deruchette accordou a meio do sonho em que estava. Voltou-se para Gilliatt. Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia, continuou:

--Agora, não é para demoral-a, mas, olhe, eu creio que devo explicar-lhe uma cousa. No dia em que houve aquella desgraça, a senhora estava assentada na sala baixa, e disse umas palavras. Não se lembra disso, é natural. Ninguem é obrigado a lembrar-se das palavras que diz. Mess Lethierry soffria muito. A verdade é que era um bello navio e prestimoso. O desastre aconteceu; a terra estava alvoroçada e compungida, são cousas que naturalmente se esquecem. Só havia aquelle navio perdido na costa. Não se pode pensar sempre em um accidente. Sómente o que eu queria dizer é que, como se dizia que ninguem era capaz de lá ir, eu fui. Diziam elles que era impossivel; não era impossivel aquillo. Agradeço-lhe o prestar-me attenção por alguns instantes. Comprehende a senhora que se eu lá fui ao escolho, não foi para offendel-a. Demais, a cousa data de longe. Eu sei que está com pressa. Se houvesse tempo, fallariamos, recordariamos, mas isso de nada serve. A cousa data de um dia em que cahio neve. E depois eu passei uma vez, e cuido tel-a visto sorrir. É assim que tudo se explica. Quanto ao que se passou hontem, eu não tive tempo de ir á casa, acabava do trabalho, estava todo rasgado, metti-lhe medo, a senhora desmaiou, fiz mal, não se entra assim na casa dos outros, peço-lhe que me perdôe. É isto mais ou menos o que eu queria dizer-lhe. Vai partir. Tem um bello tempo. Acha justo que eu lhe fallo, não? é o ultimo minuto.

--Penso na caixinha, respondeu Deruchette. Por que não hade guardal-a para sua mulher, quando se casar?

--Senhora, disse Gilliatt, provavelmente eu não me casarei nunca.

--Pois é pena, porque é uma boa alma. Obrigada.

E Deruchette sorrio. Gilliatt retribuio-lhe com outro sorriso.

Depois ajudou Deruchette a entrar no escaler. Menos de um quarto de hora depois, o escaler onde iam Ebeneser e Deruchette atracava ao _Cashmere._

V

A GRANDE TUMBA

Gilliatt seguio pela praia, parou rapidamente em Saint-Pierre Port, depois caminhou para Saint-Sampson ao longo do mar, fugindo aos encontros, evitando as estradas cheias de caminhantes, por culpa delle.

Desde muito tempo, como se sabe, Gilliatt tinha um modo de atravessar a terra em todos os sentidos sem ser visto por ninguem. Conhecia os atalhos, fez para si itinerarios isolados e em zig-zags: tinha o habito feroz do ente que não se julga estimado; andava de longe. Ainda criança, vendo pouco agasalho no rosto dos homens, tomou o costume, que depois tornou-se-lhe instincto, de andar sempre affastado.

Passou a Esplanada, depois a Saleria. De tempos a tempos, voltava-se e olhava para o _Cashmere_ na barra, que lhe ficava por traz; e o _Cashmere_ abria as velas. Havia pouco vento, Gilliatt ia mais depressa que o _Cashmere._ Gilliatt caminhava nas rochas extremas da praia, com a cabeça baixa. A maré começava a subir.

Em certo momento parou, e voltando as costas para o mar, contemplou durante alguns minutos, além dos rochedos que escondiam a estrada do Valle, uma moita de carvalhos. Eram os carvalhos do lugar chamado Baisses Maisons. Foi alli, debaixo daquellas arvores, que outrora o dedo de Deruchette escreveu o nome de Gilliatt na neve. Havia muito tempo que essa neve estava desfeita.

Proseguio no caminho.

O dia estava mais bello que nenhum outro naquelle anno. A manhã tinha um quê de nupcial. Era um desses dias vernaes em que Maio ostenta-se todo inteiro; a creação parecia não ter outro fim que dar uma festa e fazer a propria felicidade. Sob todos aquelles rumores, da floresta como da aldêa, da vaga como da athmosphera, sentiam-se uns sons de arrulho. As primeiras borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo era novo na natureza, as hervas, os musgos, as folhas, os perfumes, os raios. Parecia que o sol nunca tinha sorvido. Os seixos estavam lavados de fresco. A profunda canção das arvores era cantada por aves nascidas na vespera. Era provavel que a casquinha do ovo quebrada pelo biquinho dessas aves, ainda estivesse no ninho. Ensaios de azas romurejavam nas folhas tremulas. Cantavam o primeiro canto, davam o primeiro vôo. Era uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos, pintasilgos, barbiruivos, pardaes. Os lilases, os lyrios, os daphnes, as glycinas, compunham nas moitas uma deliciosa variedade de côres. Uma linda lentilha aquatica que ha em Guernesey cobria as lagôas de uma toalha de esmeralda. Banhavam-se as arveloas nas lagôas, onde costumam fazer tão graciosos ninhos. Via-se o céo atravez de todas as falhas da vegetação. Algumas nuvens lascivas perseguiam-se no ar ondeando como nymphas. Como que se sentia a passagem de beijos mandados por bocas invisiveis. Nenhum velho muro deixava de ter, como um noivo, o seu ramalhete de gyrofleas. Os abrunheiros sylvestres e os codeços estavam em flôr; viam-se aquelles montinhos brancos luzindo e aquelles montinhos amarellos fulgurando atravez do cruzamento dos ramos.

A primavera atirava toda a sua prata e ouro no immenso cesto rasgado dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes de fresco. Ouvia-se no ar um grito de saudação. Estio hospitaleiro abria a porta aos passaros longinquos. Era a hora da chegada das andorinhas. Os thyrsos dos juncos orlavam os caminhos cavados, esperando os thyrsos dos pilriteiros. O bello e o lindo faziam boa visinhança: o soberbo completava-se pelo gracioso; o grande não tolhia o pequeno; não se perdia nenhuma nota do concerto; as magnificencias microscopicas estavam em plano proprio naquella vasta belleza universal; distinguia-se tudo como n'uma agua limpida. Por toda a parte uma divina plenitude e um entumecimento mysterioso faziam advinhar o exforço panico e sagrado da seiva em acção. O que brilhava, brilhava mais; o que amava, amava melhor. Havia um hymno na flôr e uma irradiação no ruido. Escutava-se a grande harmonia diffusa. O que começava a despontar procurava o que começava a surdir. Uma turvação, que surgia debaixo, e vertia tambem de cima, agitava vagamente os corações, corruptiveis á influencia espessa e subterranea dos germens. A flôr promettia obscuramente o fructo, todas as virgens scismavam, a reproducção dos seres, premeditada pela immensa alma da sombra, esboçava-se na irradiação das cousas. Era o universal noivado. A vida, que é a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo. O dia estava claro, formoso, e ardente; atravez das sebes, nas cercas, viam-se rir as crianças Algumas jogavam a palheta. As macieiras, os pecegueiros, as cerejeiras, as pereiras, cobriam os vergeis com os seus grossos tuffos pallidos ou vermelhos. Na relva, as primaveras, as pervincas, as mil-folhas, as margaridas, os amaryles, os jacinthos, as violetas e as veronicas. As borragens azues, os iris amarellos, pululavam, com as bollas estrellinhas côr de rosa que florecem sempre aos bandos e que por esse motivo chamam-se as companheiras. Animaculos dourados corriam por entre as pedras. O sayão florescente purpureava os tectos das cabanas. As operarias das colmeas andavam por fóra. A abelha trabalhava. A extensão estava cheia do murmurio dos mares e do zumbido das moscas. A natureza, permeavel na primavera, estava humida de voluptuosidade.

Quando Gilliatt chegou a Saint-Sampson, ainda a maré não enchera e elle pôde atravessar a praia a pé secco, desapercebido por traz dos cascos de navios no estaleiro. Um cordão de pedras chatas, postas de espaço a espaço, auxiliava a passagem.

Gilliatt não foi observado. O povo estava do outro lado do porto, perto da sahida, junto á casa de Lethierry. Ahi andava o nome delle, de boca em boca. Fallava-se tanto delle que o não chegavam a ver. Gilliatt passou escondido de algum modo pelo proprio rumor que causava.

Vio de longe a pança no lugar onde a amarrára, com o cano da machina entre as quatro correntes, com um movimento de carpinteiros trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que iam e vinham de um para outro lado, e ouvio a voz tonante e alegre de mess Lethierry dando ordens.

Metteu-se pelas ruelas dentro.