Os Trabalhadores do Mar

Part 25

Chapter 253,858 wordsPublic domain

Demais, elle tratava de cear o melhor possivel antes de partir. Já nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades são sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias ás vezes. Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no dia seguinte de manhã. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da maré, o tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de madrugada essa tapagem, empurrar a _pança_ para fora, e abrir vela para Saint-Sampson. A brisa de calma que soprava, e que era sudoeste, era exactamente o vento que lhe era preciso.

Entrava o primeiro quarto de lua de Maio; os dias eram longos.

Quando Gilliatt, terminada a pesquiza dos rochedos e mais ou menos satisfeito do estomago, voltou para a garganta das Douvres, onde estava a _pança_, já o sol cahira no poente, e o crepusculo redobrava com aquelle meio luar que se póde chamar o luar do crescente; a maré, que tinha enchido completamente, começava a vasar. O cano da machina de pé acima da _pança_ estava coberto pela espuma da tempestade de uma camada de sal que a lua embranquecia.

Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitára dentro da _pança_ muita agua de chuva e do mar, e que, se quizesse partir no dia seguinte, era preciso esvasiar a barca.

Tinha verificado, ao deixar a _pança_ para ir procurar carangueijos que havia cerca de seis pollegadas de agua no porão. A pá de esgoto bastaria para deitar essa agua fóra.

Chegando á _pança_, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia na _pança_ perto de dous pés de agua.

Incidente terrivel, a _pança_ fazia agua.

Enchera-se pouco a pouco durante a ausencia de Gilliatt. Carregada como estava, vinte polegadas de agua era sobre posse. Mais um pouco e a _pança_ iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora mais tarde, só acharia fóra d'agua o casco e o mastro.

Não podia perder um minuto em deliberação.

Era preciso procurar o buraco, tapa-lo, depois esvasiar a barca, ou ao menos allivia-la. As bombas da Durande tinham-se perdido no naufragio; Gilliat estava reduzido á pá de esgoto.

Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.

Gilliatt poz mãos á obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo tremulo. Já não sentia fome, nem frio.

A _pança_ continuava a encher. Felizmente não havia vento. O menor abalo da onda metteria a _pança_ a pique.

A lua desapparecera.

Gilliatt, ás apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na agua, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.

Durante a tempestade, no momento critico em que a _pança_ se arqueára, robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fractura no casco, a estibordo.

Este buraco estava infelizmente, podia-se quasi dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedira Gilliatt, na revista obscura e rapida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.

A fractura assustava, porque era larga, e tranquillisava porque, embora immersa neste momento pela enchente interna da agua, ficava acima do lume d'agua.

No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida no estreito, e já não havia nivel de fluctuação, a onda penetrára pela effracção na _pança_; a _pança_ com mais essa carga mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do liquido filtrado, fazendo levantar a linha de fluctuação, manteve o buraco debaixo d'agua. Dahi vinha a imminencia do perigo. A cheia augmentára de seis pollegadas a vinte. Mas conseguindo tapar o buraco, podia-se esvasiar a _pança_; esvasiada a _pança_, voltaria á fluctuação normal, a fractura sahiria d'agua, e a secco, a reparação seria facil, ou ao menos possivel. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta de carpinteria em bom estado.

Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas más probabilidades! Gilliatt ouvia a agua correr inexoravelmente. Um empuchão e tudo iria a pique. Que desgraça! Talvez já não fosse tempo.

Gilliatt accusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As seis polegadas d'agua no porão deviam têl-o advertido. Foi estupidez attribuir as seis pollegadas d'agua á chuva e á espuma. Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quasi também a tempestade e a noite. Tudo era culpa delle.

Essas cousas duras, que elle dizia a si proprio, iam de envolta com o vai-vem do trabalho e não o impediam de observar.

Achar o buraco ora o primeiro passo; tapal-o era o segundo. Não se podia mais agora. Não se faz carpintaria debaixo d'agua.

Havia uma circumstancia favoravel, era que o buraco do casco foi aberto no espaço comprehendido entre as duas correntes que prendiam a estibordo o cano da machina. A estopa podia prender-se a essas correntes.

Entretanto a agua subia. Já passava de dous pés.

Gilliatt tinha agua acima dos joelhos.

VI

_DE PROFUNDIS AD ALTUM_

Gilliatt tinha á sua disposição, na reserva do apparelho da _pança_, um grande panno alcatroado com as competentes cordas longas nas quatro pontas.

Pegou nesse panno, amarrou dous cantos pelos cabos ás duas argolas das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o panno por cima da borda. O panno cahio como uma toalha entre a pequena Douvre e a barca, e mergulhou. A agua querendo entrar na pança applicou o panno ao casco sobre o buraco. Quanto mais a agua batia, mas adheria o panno. Foi collocado pela vaga sobre a fractura. A chaga da barca estava pençada.

A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do porão e as vagas de fóra. Jã não entrava nem gotta d'agua se quer.

O buraco estava tapado, mas não estopado.

Era uma espera.

Gilliatt começou a esvasiar a _pança._ Era tempo de allivia-la. O trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gilliatt confessava que não iria ao fim, e não chegaria a estancar o porão. Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilhação de sentir-se extenuado.

Media o progresso dos trabalhos pela baixa do nivel da agua nos seus joelhos. A descida era lenta.

Além disso a entrada da agua estava apenas interrompida. O mal estava palliado, mas não reparado. O panno, empurrado na fractura pela vaga, começava a fazer um tumor pelo lado de dentro. Parecia que havia uma mão fechada debaixo do panno, procurando romper o buraco. A lona, solida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tensão iam augmentando; não era certo que o panno não cedesse, e de um momento para outro o tumor poderia romper. Recomeçaria então a irrupção da agua.

Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, não ha outro recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de toda a especie, o que se acha á mão, tudo quanto a lingua especial chama _forro_, e mete-se o mais que se póde na fenda do tumor da lona.

Desse _forro_ Gilliatt não tinha nenhum. Todos os pannos e estopas armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo vento.

Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. A _pança_ já estava bastante alliviada, e elle podia ausentar-se um quarto de hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escuridão. Já não havia lua; apenas o sombrio céo estrellado. Gilliatt não tinha fios seccos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo para accendêl-a, nem lanterna para abrigal-a. Tudo estava confuso e indistincto na barca e no escolho. Ouvia a agua romurejar á roda do casco ferido, e nem se quer podia vêr o buraco; foi com as mãos que Gilliatt pôde averiguar a tensão crescente do panno. Era impossivel fazer naquella obscuridade uma pesquiza util de pedaços de lona e maçame esparsos nos cachopos. Como colher esses andrajos, sem luz? Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrellas e nem uma vela.

A massa liquida diminuira na barca, a pressão externa augmentára. Crescia o inchamento do panno. Entumescia-se cada vez mais. Era um abcesso prestes a abrir. A situação, um momento melhorada, tornava-se ameaçadora.

Era imperiosamente necessario um batoque.

Gilliatt apenas tinha as suas roupas.

Tinha-as posto a seccar nas saliencias do rochedo da pequena Douvre.

Foi buscal-as, e depositou-as na borda da _pança._

Pegou no capote alcatroado e ajoelhando-se na agua, metteu-o no buraco, empurrando o tumor do panno para fóra, e portanto esvasiando-o. Depois metteu a pelle de carneiro, depois a camisa de lã, depois a japona. Tudo.

Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e com a calça engrossou e apertou o batoque. Estava prompto e não parecia insufficiente.

O batoque sahia pelo buraco tendo o panno por envolucro. A agua, querendo entrar, apertava o obstaculo, alargava-o utilmente na fractura, e consolidava-o. Era uma especie de compressa exterior.

No interior, tendo sido empurrado apenas o centro da lona, ficava á roda do buraco e do batoque um rolete circular do pau no tanto inais adherente quanto que as desigualdades da fractura o retinham. A via d'agua estava tapada.

Mas nada mais precario do que aquillo. Os relevos agudos da fractura que fixavam o panno, podiam fura-lo e por esses buracos entraria a agua. Gilliatt na obscuridade, não descobria isso. Era pouco provavel que o batoque durasse até de manhã. A anxiedade de Gilliatt mudou de forma, mas elle sentia a crescer ao mesmo tempo que sentia quebrarem-se-lhe as forças.

Continuou a esvasiar o porão, mas os seus braços, no extremo esforço, apenas podiam levantar a pá d'agua. Estava nú e tremia.

Gilliatt sentia a approximação sinistrada extremidade. Talvez houvesse uma vela ao largo, um pescador que por acaso passase nas aguas de Douvres podia ajudal-o. Era chegado o momento em que se tornava necessario um collaborador. Um homem e uma lanterna, e tudo estaria salvo. Sendo dous, esvasiava-se facilmente a barca; uma vez estancada, sem aquella sobrecarga liquida, voltaria ao nivel de fluctuação, o buraco sahiria d'agua, o reparo seria exequivel, podia-se immediatamente substituir o batoque por uma peça de madeira, e o aparelho provisorio por um concerto difinitivo. Senão, era preciso esperar até de manhã, esperar a noite toda! Funesta demora que podia ser a perdição. Gilliatt tinha a febre da urgencia. Se por acaso algum pharol de navio estava a vista, Gilliatt poderia fazer signaes, do alto da grande Douvre. O tempo estava calmo, não havia vento, não havia mar, um homem agitando-se no fundo estrellado do céo tinha a possibilidade de ser visto. Um capitão de navio, e mesmo um patrão de lancha, não anda de noite nas aguas das Douvres sem pôr o oculo no escolho; é a precaução.

Gilliatt esperava que o vissem.

Escalou o casco da Durande, empunhou a corda e subio á grande Douvre.

Nenhuma vella no horisonte. Nenhum pharol.

A agua estava deserta a perder de vista.

Nenhuma assistencia possivel e nenhuma resistencia possivel.

Gilliatt, cousa que até então não sentira, sentio-se desarmado.

A fatalidade obscura assenhoreára-se delle. Elle, com a barca, com a machina da Durande, com o trabalho, com o bom exito, com a coragem, tudo isso pertencia ao golphão. Já não tinha recurso de luta; tornava-se passivo. Como impedir a maré e a noite? O batoque era o unico ponto de apoio. Gilliatt exhaurira-se em compol-o e completal-o; fortifical-o é que já não podia; o batoque devia ficar assim e fatalmenle tinha acabado todo o esforço. O mar tinha á sua discrição aquelle apparelho prematuro applicado ao buraco. Como resistiria aquelle obstaculo inerte? Chegára-lhe a vez de combater, depois de Gilliatt. Entrava o trapo, retirava-se o espirito. O entumecimento de uma onda bastava para abrir a fractura. Maior ou menor pressão, a questão era essa.

O desfecho ia nascer por uma luta machinal entre duas quantidades mechanicas. Gilliatt não podia agora, nem ajudar o auxiliar, nem impedir o inimigo. Era apenas o espectador da sua vida ou da sua morte. Aquelle Gilliatt que tinha sido uma providencia foi substituido no supremo instante por uma resistencia inconsciente.

Nenhuma das provas e dos pavores que Gilliatt atravessára era igual a esta.

Chegando ao escolho Douvres, vio-se cercado, como que agarrado pela solidão. A solidão fazia mais que cercal-o, envolvia-o. A um tempo mais de mil ameaças o desafiavam. O vento estava alli, prestes a soprar; alli estava ornar; prestes a rugir. Era impossivel amordaçar a guela ao vento, era impossivel desarmar a bocca do mar. E comtudo tinha elle combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano, engalfinhára-se com a tempestade.

Tinha affrontado outras anciedades e necessidades. Pelejou contra outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem ferramenta, carregar fardos sem auxilio, resolver problemas sem sciencia, comer e beber sem provisões, dormir sem leito e sem tecto.

Naquelle rochedo, eculeo tragico, pozeram-lhe a questão as diversas fatalidades iniquas da natureza, mãe quando quer, algoz quando lhe apraz.

Venceu o isolamento, venceu a fome, venceu a sêde, venceu o frio, venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o somno. Encontrou no caminho os obstaculos coalisados. Depois da nudez, o elemento; depois da maré, a tempestade; depois da tempestade, a pieuvre; depois do monstro, o espectro.

Lugubre ironia final. Naquelle escolho d'onde Gilliatt contava sahir triumphante, Clubin morto olhára rindo para elle.

Tinha razão o riso do espectro. Gilliatt via-se perdido. Via-se tão morto como Clubin.

O inverno, a fome, a fadiga, o desapparelhar do casco, o transporte da machina, o equinoxio, o vento, o trovão, a pieuvre, tudo isso nada era ao pé do arrombamento da _pança._ Podia-se ter, e Gilliatt os teve, contra o frio, o fogo; contra a fome, as conchas; contra a sêde, a chuva; contra as difficuldades, a industria e a energia; contra a maré e a tempestade, o quebra-mar; contra a pieuvre, a faca. Contra o arrombamento, nada.

O furacão deixava-lhe aquelle adeus sinistro. Ultima repetição, perfida estocada, ataque sorrateiro do vencido ao vencedor. A tempestade fugitiva lançava-lhe aquella flecha. A derrota olhava para traz e feria. Era o _coup de jarnac_ do abysmo.

Combate-se a tempestade; mas como combater um esgoto?

Se o batoque cedesse nada podia impedir que a _pança_ fosse a pique. Era a ligadura da arteria que se rompe. E apenas fosse ao fundo d'agua, com a machina dentro, não havia meio de arranca-la. O magnanimo exforço de dous mezes titanicos acabava por um anniquilamento. Recomeçar era impossivel. Gilliatt já não tinha nem forja, nem materiaes. Talvez tivesse elle de ver, ao romper do dia, mergulhar-se lentamente e irremediavelmente toda a sua obra no golphão.

Cousa assustadora é sentir debaixo de si a força sombria.

O golphão attrahia-o.

Engulida a barca, restava-lhe morrer de fome e de frio como o naufrago do rochedo Homem.

Durante dous longos mezes, as consciencias e as providencias que existem no invisivel, tinham assistido a isto: de um lado a extensão, as vagas, os ventos, os relampagos, os meteoros, do outro lado um homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de um lado o infinito, do outro um atomo.

E houve batalha.

E abortava talvez aquelle prodigio.

Assim chegou á impotencia o inaudito heroismo, acabava-se pelo desespero aquelle formidavel combate, aquella luta do Nada contra Tudo, aquella Illiada de um.

Gilliatt desvairado contemplava o espaço.

Nem mesmo tinha roupa, estava nú diante da immensidade.

Então, no acabrunhamento de toda aquella enormidade desconhecida, não sabendo já o que queriam delle, confrontando-se com a sombra, em presença daquella obscuridade irreductivel, no rumor das aguas, das ondas, dos marulhos, das espumas, das lufadas, debaixo das nuvens, debaixo dos ventos, debaixo da vasta força esparsa, debaixo daquelle mysterioso firmamento das azas, dos astros e das tumbas, debaixo da intenção possivel das cousas desmesuradas, tendo á roda de si e era baixo de si o oceano, e acima as constellações, debaixo do insondavel, Gilliatt abateu-se, desistio, deitou-se ao comprido sobre a rocha, voltado para as estrellas, vencido, e pondo as mãos diante da profundeza terrivel, bradou ao infinito: piedade!

Abatido pela immensidade, Gilliatt implorou.

Estava só naquella noite, em cima daquelle rochedo, no meio daquelle mar, cahido de cansaço, semelhante a um fulminado, nú como o gladiador no circo, tendo em vez do circo o abysmo, em vez das feras as trevas, era vez dos olhos do povo o olhar do ignoto, em vez das vestaes as estrellas, em vez de Cezar, Deos.

Pareceu-lhe que se dissolvia no frio, no cansaço, na impotencia, na oração, na sombra e fecharam-se-lhe os olhos.

VII

HA UM OUVIDO NO IGNOTO

Correram algumas horas.

O sol levantava-se deslumbrante.

O seu primeiro raio illuminou na plataforma da grande Douvre, uma forma immovel. Era Gilliatt. Continuava estendido em cima do rochedo.

Já não estremecia aquella nudez gelada e endurecida. Estavam lividas as palpebras fechadas. Era difficil dizer que não era um cadaver.

O sol parecia contempla-lo.

Se aquelle homem nú não estava morto, devia estar tão perto disso que bastaria o menor vento frio para acaba-lo.

Começou a soprar o vento, tepido e vivificante; era o halito vernal de Maio.

Entretanto o sol subia no profundo céo azul; o seu raio menos horisontal ia-se purpureando. A luz fez-se calor. Cingio Gilliatt.

Gilliatt não se mexia. Se respirava, era uma respiração quasi extincta que mal poderia embaciar um espelho.

O sol continuava a sua ascenção cada vez menos obliqua sobre Gilliatt. O vento que era tepido ao principio, tornou-se callido.

Aquelle corpo rigido e nú continuava sem movimento; entretanto a pelle parecia menos livida.

O sol, acercando-se do zenith, cahia a prumo sobre a plataforma da Douvre. Vertia do alto do céo uma prodigalidade de luz; juntava-se a ella a vasta reverberação do mar tranquillo, o rochedo começava a ficar tepido e aquecia o homem.

O peito de Gilliatt levantou-se com um suspiro.

Vivia.

O sol continuava as suas caricias, quasi ardentes. O vento, que já era o vento do meio dia, e o vento de verão, approximava-se de Gilliatt como uma boca, soprando mollemente.

Gilliatt fez um movimento.

Era inexprimivel a tranquillidade do mar, tinha um murmurio de ama ao pé do filho. As vagas pareciam embalar o escolho.

As aves marinhas que conheciam Gilliatt, voavam inquietas por sobre elle. Já não era o medo selvagem do principio. Era um quê de terno e fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam chamal-o. Uma gaivota que o amava sem duvida, teve a familiaridade de descer para junto delle. Começou a fallar-lhe. Elle não parecia ouvil-a.

Ella saltou-lhe sobre o hombro e começou a brincar docemente com o bico nos seus labios.

Gilliatt abrio os olhos.

Os passaros, alegres e ariscos, voaram.

Gilliatt levantou-se e espreguiçou-se como o leão acordando, correu á bordo da plataforma e olhou para o intervallo das Douvres.

A _pança_ estava intacta. O batoque resistira; provavelmente o mar maltratara-o pouco.

Tudo estava salvo.

Gilliatt já não estava cansado. Refizeram-se-lhe as forças. O desmaio foi um somno.

Esvasiou a _pança_, poz a avaria fora da fluctuação, vestio-se, bebeu, comeu, tornou-se alegre.

O buraco examinado de dia demandava mais trabalho de que Gilliatt pensou. Era uma grande avaria. Gilliatt gastou o dia inteiro em reparal-o.

No dia seguinte, de madrugada, depois de desfazer a tapagem e abrir a sahida do estreito, vestido com os andrajos que tinham vencido a avaria, tendo comsigo o cinto de Clubin e os setenta e cinco mil francos, em pé na _pança_ concertada, ao lado da machina salva, com um vento de feição e mar admiravel, Gilliatt sahia do escolho Douvres.

Aproou sobre Guernesey.

No momento em que se a affastava do escolho, alguem que lá estivesse tel-o-hia ouvido entoar a meia voz a canção Bonny Dundee.

FIM DA SEGUNDA PARTE

TERCEIRA PARTE

Deruchette

LIVRO PRIMEIRO

Noite e lua

I

O SINO DO PORTO

O Saint-Sampson de hoje é quasi uma cidade; o Saint-Sampson de ha quarenta annos era quasi uma aldêa.

Chegando á primavera, e acabadas as vigilias de inverno, deitavam-se todos cedo. Saint-Sampson era uma antiga parochia de tocar a recolher, tendo conservado o habito de apagar cedo as luzes. Os habitantes deitavam-se e levantavam-se com o dia. As velhas aldêas normandas são voluntariamente gallinheiros.

Digamos além disso que Saint-Sampson, á excepção de algumas ricas familias burguezas, é uma população de pedreiros e carpinteiros. O porto é um lugar de concertar navios. Durante o dia extrahem-se pedras du trabalham-se pranchas; aqui a picareta, além o martello. Perpetuo meneio de páu e granito. Á tarde tudo cahe de cançasso e dorme como chumbo. Os rudes trabalhos fazem os duros somnos.

Uma noite dos principios de Maio, depois de ter por alguns instantes contemplado o crescente da lua nas arvores e ouvido o passo de Deruchette passeiando sozinha, ao fresco da noite, no jardim de Bravées, mess Lethierry entrou para seu quarto situado sobre o porto e deitou-se. Doce e Graça estavam na cama. Excepto Deruchette, tudo dormia na casa. Portas e postigos estavam fechados. Ninguem andava nas ruas. Raras luzes semelhantes ao piscar de olhos que vão fechar-se, brilhavam aqui e alli nas janellas dos sotãos, annuncio do deitar dos criados. Já nove horas tinham batido na velha torre romana, coberta de hera, que partilha com a igreja de Saint-Brelade de Jersey, a singularidade de ter por data quatro uns: 1111; o que significa _mil cento e onze._

A popularidade de mess Lethierry em Saint-Sampson vinha do bom exito da Durande. Acabado este, fez-se o vacuo. Parece que o enguiço pega, e que as pessoas infelizes tem a peste comsigo, tão rapida é a quarentena em que as mettem. Os lindos filhos-familias evitavam Deruchette. O isolamento em roda da casa de Lethierry era tal que nem mesmo se soube ahi o pequeno grande acontecimento local que nesse dia agitou Saint-Sampson. O cura da parochia, o reverendo Joe Ebeneser Caudray estava rico. O tio delle, o magnifico decano de Saint-Asaph, morrera em Londres. A noticia foi trazida pelo sloop de posta _Cashmere_ chegado de Inglaterra nessa manhã, e cujo mastro via-se no porto de Saint-Sampson. O _Cashmere_ devia voltar para Southampton no dia seguinte ao meio dia, e dizia-se que devia levar o reverendo cura, chamado á Inglaterra sem demora para a abertura official do testamento, sem contar as outras urgencias de uma grande herança para recolher. Durante o dia Saint-Sampson dialogou coufusamente. O _Cashmere_, o reverendo Ebeneser, o tio morto, a riqueza, a partida, as promoções possiveis no futuro, foram o fundo do borborinho. Só uma casa, que nada sabia, ficara silenciosa, a de Lettierry.

Mess Lethierry atirou-se á maca vestido.

Depois da catastrophe da Durande, atirar-se á maca, era o recurso delle. Deitar-se no grabato é o recurso do prisioneiro, e mess Lethierry era prisioneiro da tristeza. Deitava-se; era uma tregoa, um descanço, uma suspensão de idéas. Dormia? Não. Vellava? Não. Propriamente fallando, havia dous mezes e meio,--já dous mezes e meio,--mess Lethierry estava em somnambulismo. Não era ainda senhor de si. Andava nesse estado mixto e diffuso que costumam ter os que soffreram grandes abatimentos. As suas reflexões não eram pensamentos, o seu somno não era repouso. De dia não era um homem acordado, de noite não era um homem adormecido. Estava em pé, estava deitado, eis tudo. Quando estava na maca, esquecia-se um pouco; a isso chamava elle dormir; as chimeras flutuavam nelle e por sobre elle, a nuvem nocturna, cheia de faces confusas, atravessava-lhe o cerebro; o imperador Napoleão dictava-lhe as suas memorias, haviam muitas Deruchettes, extranhos passaros pousavam nas arvores, as ruas de Lons-le-Saulnier toruavam-se serpentes. O pesadelo era o descanço do desespero. Passava as noites a sonhar e os dias a scismar.