Os Trabalhadores do Mar

Part 24

Chapter 243,772 wordsPublic domain

Uma fórma cinzenta oscilla n'agua, da grossura de uma braça e de meia vara de comprido; é um trapo; essa fórma assemelha-se a um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o homem. De repente abre-se, oito raios sahem bruscamente da roda de uma face que tem dous olhos; esses raios vivem; flammejam ondeando; é uma especie de roda desenrolada, tem quatro ou cinco pés de diametro. Desentolamento medonho. Atira-se ao infeliz.

A hydra harpôa o homem.

Este animal applica-se á sua presa, cobre-a, envolve-a com os seus longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é terrea; nada póde imitar esse inexplicavel matiz de poeira; dissera-se um animal feito de cinza, e morando n'agua. É arachnida pela fórma, e cameleão pelo colorido. Irritada, torna-se roxa. Cousa horrivel, é flacida.

Os seus nós garroteara; o seu contacto paralysa.

Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a molestia feita monstruosidade.

Não se póde arrancal-a; agarra-se estreitamente á sua presa; como? Pelo vacuo.

As oito antenas largas na origem, vão estreitando-se e terminam como agulhas: debaixo de cada uma dellas alongam-se parallelamente duas filas de pustulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fila tem vinte e cinco. Ha cincoenta pustulas em cada antenna, e todo o animal tem quatrocentas. Essas pustulas são ventosas.

As ventosas são cartilagens cilyndricas e lividas. Na grande especie vão diminuindo de diametro--desde uma moeda de cinco francos até á grossura de uma lentilha. Esses pedaços de tubos sahem e entram no animal. Podem metter-se no corpo de um homem mais de uma pollegada.

Este apparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece á menor intensão do animal. As sensibilidades mais delicadas não igualam á contractibilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. Este dragão é uma sensitiva.

Este monstro é aquelle que os marinheiros chamam polvo, que a sciencia chama cephalopode, e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros inglezes chamam-no _devil-fish_, o peixe diabo. Chamam-no tambem _blood-sucker_, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na pieuvre.

É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e frequente em Serk.

Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um cephalopode estreitanto uma fragata. Dionizio Monfort pensa que na verdade o polvo das altas latitudes póde metter um navio a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas attesta que nas nossas regiões o polvo attaca o homem. Quem for a Serk verá perto de Brecq-Hou o buraco do rochedo onde uma pieuvre ha annos agarrou, reteve e affogou um pescador de lagostas. Peron e Lamarck, enganam-se quando duvidam que o polvo não tendo barbatanas possa nadar. Aquelle que escreve estas linhas, vio com seus proprios olhos em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir a nado um homem que tomava banho. Foi morta e medida; tinha quatro pés inglezes de largura e pôde-se contar quatrocentos chupadores. O bicho agonisante atirava-os para longe de si convulsamente.

Segundo Dionizio Montfort, um desses observadores, cuja alta intuição faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quasi as paixões de homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo é odiar.

O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação que o torna hostil.

A pieuvre nadando conserva-se por assim dizer na bainha. Nada com as antennas fechadas. Imaginem uma manga cozida com um punho dentro. Esso punho, que é a cabeça, impelle o liquido e avança com um vago movimento ondulatorio; os dous olhos, embora grandes, são pouco distinctos por serem da côr da agua.

A pieuvre quando espreita caça esquiva-se; diminue-se, condensa-se; reduz-se á mais simples expressão. Confunde-se com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo, excepto a cousa viva.

A pieuvre é o hypocrita. Não se rapara nella; repentinamente abre-se.

Que ha ahi de mais medonho que isso; uma viscosidade com uma vontade! O viscoso amaçado de odio.

É no mais bello azul d'agua limpida, que surge essa hedionda estrella voraz do mar. O que é terrivel, é que não se sente de longe. Quando a gente a vê, já está agarrada.

Comtudo á noite, e particularmente na estação do desejo, a pieuvre é phosphorica; aquelle pavor tem os seus amores. Aguarda o hymeneu. Faz-se bella, illumina-se, e do alto de algum rochedo, póde-se vel-a nas profundas trevas aberta n'uma irradiação, sol espectro.

A pieuvre anda; tambem nada. É um tanto peixe e um tanto reptil. Arrasta-se no fundo do mar. Utilisa as suas oito pernas. Roja-se como a lagarta.

Não tem osso, nem sangue e nem carne. É flacida. Não tem nada dentro. É uma pelle. Póde-se virar-lhe os tentaculos de dentro para fóra, como dedos de uma luva.

Tem um só orificio no centro dos oito raios.

É fria toda ella.

Repelente bicho, é um do mediterraneo. É um contacto hediondo, essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se pucha sem tirar, especie de creatura resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os dedos; mas nada iguala a subita apparição da pieuvre, Medusa servida por oito serpentes.

Não ha aperto igual ao do cephalopode.

É uma machina pneumatica que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma scarificação indisivel. Uma mordedura é temivel; é menos ainda que uma sucção. A garra não iguala a ventosa. A garra, é o animal que entra na carne; a ventosa é o homem que entra no bicho. Incham-se os musculos, torcem-se as fibras, rebenta a pelle, debaixo de um peso immundo, jorra o sangue, mistura-se horrivelmente á limpha do mollusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames; a hydra iucorpora-se ao homem; o homem amalgama-se á hydra. Ficam sendo um só. Pesa aquelle sonho. O tigre póde apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Pucha o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvasiado naquelle terrivel sacco, que é um monstro.

Além do terrivel, que é ser comido vivo, ha o inexprimivel, que é ser bebido vivo.

Essas estranhas animações são ao principio regeitadas pela sciencia, segundo o habito de sua excessiva prudencia; depois estuda-os, descreve-os, classifica-os, inscreve-os, põe-lhes rotulos, procura exemplares; expõe-nos em museos; elles entram na nomenclatura; ella os qualifica molluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as fronteiras; um pouco além os calmares, um pouco aquem os depiarios; para estas hydras da agua salgada acham um analogo na agua doce, o argyronete; divide-as em grande, media e pequena especie; admitte mais facilmente a pequena especie que a grande, o que é, em todas as regiões, a tendencia da sciencia, a qual é mais microscopica que telescopica; olha a sua construcção e chama-os cephalopodes; contam-se as suas antennas e chama-os octopedes. Feito isto, deixa-os assim. Onde a sciencia os larga, a philosophia os retoma.

A philosophia estuda por sua vez esses entes. Ella vae menos longe e mais longe que a sciencia. Não os disseca, medita-os. Onde o scalpello trabalhou, immerge a hypothese. Procura a causa final. Profundo tormento de pensador. Essas creaturas o inquietam quasi sobre o creador. São as sorprezas hediondas. São os perturbadores do contemplativo. Elle as verifica desvairado. São as formas intencionaes do mal. Que fazer diante dessas blasphemias da creação contra si propria? A quem deve elle queixar-se?

O possivel é uma matriz formidavel. O mysterio concreta-se em monstros. Lanhos de sombra sahem deste penedo,--a imminencia,--rasgam-se, destacam-se, rolam, fluctuam, condensam-se, enchem-se do negrume ambiente, recebem as polarisações desconhecidas, tomam vida, compõem uma forma com a obscuridade e uma alma com o miasma, e vão-se, larvas, atravez da vitalidade. É alguma cousa semelhante ás trevas feitas animaes. Porque? para que? Volta a questão eterna.

Esses animaes são fantasmas e monstros, a um tempo. São provados e improvaveis. Ser, é o facto, não ser, é o direito. São os amphibios da morte. A sua inverosimilhança complica a sua existencia. Tocam a fronteira humana e povoam o limite chimerico. Negaes o vampiro, apparece a pieuvre. É uma certeza que desconcerta a nossa segurança. O optimismo, que é a verdade, perde-se quasi diante delles. São a extremidade visivel dos circulos negros. Marcam a transição da nossa realidade a outra. Parecem pertencer a esse começo de entes terriveis que o sonhador entrevê confusamente na noite.

Esses prolongamentos de monstros, no invisivel, no principio, no possivel depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo extasis severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos philosophos. Dahi a conjectura de um inferno. O demonio é o tigre do invisivel. A besta feroz das almas foi denunciada ao genero humano por dous visionarios, um que se chama João, outro que se chama Dante.

Se com offeito os circulos da sombra continuam indefinidamente, se depois de um annel ha outro, se isto vai em progressão illimitada, se existe a cadêa, de que estamos resolvidos a duvidar, é certo que a pieuvre numa extremidade prova Satanaz na outra.

É certo que o mal n'um limite prova a maldade no outro.

Todo o animal feroz, como toda intelligencia perversa, é sphynge.

Sphynge terrivel, propondo o enigma terrivel. O enigma do mal.

Essa perfeição do mal é que faz inclinar ás vezes os grandes espiritos para a crença do Deos duplo, para o tremendo bifronte dos manicheos.

Uma rede chineza, roubada na ultima guerra, no palacio do imperio da China, representa o tubarão comendo o crocodilo, o qual come a serpente, a qual come a aguia, a qual come a andorinha, a qual come a lagarta.

Toda a natureza devora ou é devorada. As prezas mastigam-se umas ás outras.

Entretanto os sabios que tambem são philosophos, e por consequencia benevolos para a creação acham ou acreditam achar a explicação disto. O fim destas cousas apparece, entre outros, a Bonnet de Genebra, aquelle mysterioso espirito exacto, que foi opposto a Buffon, como mais tarde Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explicação dizem ser esta: a morte exige a inhumação. Esses vorazes são coveiros.

Todas as creaturas entram umas nas outras. Podridão é alimentação. Assustadora limpeza do globo. O homem, carnivoro, também é coveiro. A nossa vida é feita de morte. Tal é a lei terrifica. Somos sepulchros.

No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz monstros. Perguntais: Porque? É por isto.

Será isto a explicação? Será esta a resposta? Mas então porque não será outra a ordem? Reapparece a questão.

Vivamos, seja.

Mas façamos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos mundos menos tenebrosos.

Sigamos a consciencia que nos leva para lá.

Porquanto, não o esqueçamos nunca, o preferivel só é achado pelo melhor.

III

OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABYSMO

Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt pertencia.

Aquelle monstro era o habitante daquella grota. Era o medonho genio do lugar. Especie de sombrio demonio da agua.

Todas essas magnificencias tinham por centro o horror.

Um mez antes, no dia em que pela primeira vez Gilliatt penetrou na caverna, a fórma escura, entrevista por este nas dobras da agua secreta, era aquella pieuvre.

Estava ella em sua casa.

Quando Gilliatt entrando pela segunda vez na caverna, em busca do carangueijo, vio o buraco onde pensou que o carangueijo se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco á espreita.

Póde-se imaginar esta espera?

Nenhum passaro ousaria chocar, nenhum ovo ousaria abrir, nenhuma flôr ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum coração ousaria amar, nenhum espirito ousaria voar, se se pensasse nas sinistras emboscadas do abysmo.

Gilliatt mettêra o braço no buraco; a pieuvre agarrou-o.

Gilliatt estava preso.

Era a mosca daquella aranha.

Gilliatt tinha agua até á cintura, os pés agarrados nos seixos arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas corrêas da pieuvre, e o tronco do corpo desapparecendo quasi debaixo das dobras e crusamentos daquella atadura horrivel.

Dos oito braços da pieuvre, tres adheriam á rocha, cinco adheriam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um lado e ao homem pelo outro, encadeava Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em si duzentos e cincoenta chupadores. Complicação de angustia e de enjôo. Estava apertado dentro de uma grande mão, cujos dedos elasticos e do comprimento de um metro, são inteiramente cheios de pustulas vivas que lhe foçavam na carne.

Já o dissemos, não se pode arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ella aperta-se mais. O seu esforço cresce na razão do esforço do homem. Quanto maior é a sacudidella, maior é a constricção.

Gilliatt só tinha um recurso, a faca.

Tinha a mão esquerda livre; é sabido que elle usava della poderosamente. Podia dizer-se que tinha duas mãos direitas.

Nessa mão, tinha elle a faca aberta.

Não se cortam as antennas da pieuvre; é um couro impossivel de cortar, resvala debaixo da lamina; demais a superposição é tal que um córte nessas corrêas iria até á carne.

O polvo é formidavel, ha comtudo uma maneira de vencê-lo. Os pescadores de Serk o sabem; quem os vio executar no mar certos movimentos bruscos, tambem o sabe. Os ouriços do mar tambem conhecem esse modo; têm uma maneira de morder a siba que lhe córta a cabeça. Dahi vem que se encontram muitas sibas e pieuvres sem cabeça no mar alto.

O polvo, na verdade, só é vulneravel na cabeça.

Gilliatt não o ignorava.

Nunca tinha visto uma pieuvre daquelle tamanho. Logo da primeira vez, achava-se agarrado pela grande especie. Qualquer outro ter-se-hia perturbado.

Ha um momento para vencer a pieuvre, como o touro; é o instante em que o touro curva o pescoço, é o instante em que a pieuvre estica a cabeça; instante rapido. Quem o deixa escapar está perdido.

Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos. Gilliatt sentia crescer a sucção das duzentas e cincoenta ventosas.

A pieuvre é traidora. Procura apavorar a presa. Agarra, e espera o mais que póde.

Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções augmentavam.

Elle olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para elle.

De repente o bicho desprendeu do rochedo a sexta antenna e atirando-a sobre Gilliatt procurou agarra-lhe o braço esquerdo.

Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo, e a sua boca applicar-se-hia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt sangrado no corpo e preso pelos braços, estava morto.

Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.

Evitou a antenna, e no momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua mão armada abateu-se sobre o bicho.

Houve duas convulsões em sentido inverso, a da pieuvre e a de Gilliatt.

Foi luta de dous relampagos.

Gilliatt mergulhou a ponta da faca na viscosidade chata e com um movimento giratorio semelhante á torção de uma chicotada, fazendo um circulo á roda dos dous olhos arrancou a cabeça como quem arranca um dente.

Estava acabado.

O bicho cahio.

Parecia uma roupa que se desprende. Destruida a bomba aspirante, desfez-se o vacuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquelle andrajo foi ao fundo d'agua.

Gilliatt, offegante da luta, pôde vêr a seus pés em cima das pedras do fundo dous montes gelatinosos e informes, a cabeça de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque não se poderia dizer corpo.

Gilliatt, com tudo, receiando algum ataque convulsivo da agonia collocou-se fóra do alcance dos tentaculos.

Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.

IV

NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE

Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quasi sem folego; tinha o braço direito e o corpo rôxos; esboçavam-se nelles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. O remedio para essas lesões é a agua salgada; Gilliatt mergulhou n'agua. Ao mesmo tempo esfregava-se com a palma da mão e os tumores desappareciam.

Recuando e mergulhando n'agua, achou-se elle proximo da especie de cava que ficava ao pé do buraco onde a pieuvre o agarrou.

A cava prolongava-se obliquamente, e a secco, debaixo das grandes paredes da caverna. Os seixos que alli se tinham ajuntado levantavam o fundo acima das marés ordinarias. Essa anfractuosidade, era um largo cimbrio abatido, um homem podia entrar curvando-se. A claridade verde da caverna penetrava ahi e illuminava-a fracamente.

Aconteceu que, esfregando a pelle entumecida, Gilliatt levantou machinalmente os olhos.

Olhou para dentro da cava.

Estremeceu.

Pareceu-lhe vêr no fundo desse buraco, na sombra, uma especie de cara rindo.

Gilliatt ignorava a palavra allucinação, mas conhecia a cousa. Os mysteriosos encontros com o inverosimil que chamamos allucinações, existem na natureza. Illusões ou realidades, as visões apparecem. Quem está presente, vê-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um pensativo. Tinha a grandeza de ser ás vezes allucinado como um propheta. Não se é impunemente sonhador dos lugares solitarios.

Acreditou em uma dessa miragens das quaes, homem nocturno como era, mais de uma vez teve medo.

A anfractuosidade figurava exactamente um forno de cal. Era um nicho baixo, em fórma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas iam extreitando-se até á extremidade da crypta onde os seixos e a abobada se juntavam e fechavam.

Gilliatt entrou, e inclinando a cabeça, dirigio-se para o que estava no fundo.

Era com effeito alguma cousa que ria.

Era uma caveira.

Só havia a cabeça, havia o esqueleto.

Um esqueleto humano estava deitado na cava.

O olhar de um homem audaz, em taes occasiões, quer saber das cousas a fundo.

Gilliatt olhou em roda de si.

Estava cercado de uma porção de carangueijos.

Não se mexiam elles. Era o aspecto de um formigueiro morto. Todos os carangueijos estavam mortos. Estavam vasios.

Os grupos, semeados, faziam no chão de seixos que enchiam a cava, constellações disformes.

Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhára por cima sem reparar.

Na extremidade da crypta onde chegára Gilliatt, havia maior espessura. Era um montão immovel de antennas, de patas, e de mandibulas. Pinças abertas conservavam-se direitas, e já se não fechavam. As caixas de ossos não se mechiam debaixo da sua crosta de espinhos; algumas viradas mostravam o interior livido. Este amontoado parecia uma multidão de sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.

Debaixo desse montão estava o esqueleto.

Via-se debaixo dessa porção de tentaculos e escamas, o craneo com as estrias, as vertebras, os femures, os tibias, os longos dedos nodosos, com unhas. As costellas estavam cheias de caranguejos. Tinha palpitado alli algum coração. Os buracos dos olhos estavam atopetados de bolor marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas fossas nasaes. Não havia nesse recanto da caverna nem sargaços, nem hervas, nem sopro de ar. Nenhum movimento. Os dentes riam.

O lado assustador do riso, é a imitação que faz delle uma caveira.

Aquelle maravilhoso palacio do abysmo, bordado e incrustado de todas as pedrarias do mar, revellava por fim o seu segredo. Era um covil, a pieuvre morava ahi; e era uma tumba, ahi jazia um homem.

A immobilidade espectral do esquelleto, e dos molluscos oscilavam vagamente, por causa da reverberação das aguas subterraneas que tremia naquella petrificação. Os carangueijos, mistura medonha, pareciam ter acabado a sua refeição. Aquellas cascas pareciam comer aquelle esqueleto. Nada mais estranho do que aquella bicharia morta, sobre aquelle homem finado Sombrias continuações da morte.

Gilliatt tinha diante de si, o armario da pieuvre.

Visão lugubre, donde surgia o horror profundo das cousas. Os carangueijos tinham comido o homem, a pieuvre tinha comido os carangueijos.

Não havia nenhum resto de roupa ao pé do cadaver. O homem devia ter sido agarrado nú.

Gilliatt attento e examinando, começou a tirar os carangueijos de cima do homem. Quem era esse homem? O cadaver estava admiravelmente dissecado. Dissera-se uma preparação de anatomia; toda a carne estava eliminada; já não restava nenhum musculo. Se Gilliatt fosse do officio reconheceria isso. Os periostios estavam brancos, polidos e como que lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e alli, seria marfim puro. As divisões cartilaginosas, estavam delicadamente affiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.

O cadaver estava como que enterrado debaixo de carangueijos mortos. Gilliatt desenterrava-o.

De repente inclinou-se vivamente.

Acabava de vêr á roda da columna vertebral, uma especie de atilho.

Era um cinto de couro, que evidentemente fôra atado ao ventre do homem antes de morrer.

O couro estava cheio de mofo. A fivella estava enferrujada.

Gilliatt puchou o cinto; as vertebras resistiram, e Gilliatt teve de quebral-as, para tirar o cinto. O cinto estava intacto. Começava a formar-se nelle uma crosta de conchas.

Gilliatt apalpou o cinto, e sentio um objecto duro de fórma quadrada no interior. Não era possivel abrir a fivella. Gilliatt cortou o couro com a faca.

O cinto continha uma caixinha de ferro, e algumas moedas de ouro. Gilliatt contou vinte guinéos.

A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindo-se por mola. Estava muito enferrujada. A mola completamente oxidada já não funccionava.

A faca veio em auxilio de Gilliatt. Com a ponta da lamina, fez elle pular a tampa da boceta.

A boceta abrio-se.

Só havia papel dentro della.

Um macinho de folhas finas, dobradas em quatro, estava no fundo da boceta. Estavam humidos, mas não alterados. A boceta hermeticamente fechada preservou-as. Gilliatt abrio-as.

Eram tres notas do banco de mil libras esterlinas cada uma, formando uma somma de setenta e cinco mil francos.

Gilliatt dobrou-as, pol-as na caixinha, aproveitou o pouco lugar que restava para deitar dentro os vinte guinéos, e fechou a caixinha o melhor que pôde.

Depois examinou o cinto.

O couro, outr'ora envernisado pela parte de fora, não o era no interior. Ahi estavam traçadas algumas letras com tinta gordurosa. Gilliatt decifrou as letras e leu: _Sr. Clubin._

V

HA LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALLO QUE SEPARA SEIS POLLEGADAS DE DOUS PÉS

Gilliatt metteu outra vez a caixinha no cinto, e poz o cinto na algibeira da calça.

Deixou o esqueleto aos carangueijos com a pieuvre morta ao pé.

Emquanto Gilliat esteve com a pieuvre e o esqueleto, a maré enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pôde sahir mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe facil; conhecia a sahida, e era mestre nessas gymnasticas do mar.

Advinha-se o drama que se passára alli dez semanas antes. Um monstro agarrára o outro. A pieuvre agarrára Clubin.

Foi isso, na sombra inexoravel, o que se poderia chamar o encontro das hypocrisias. Houve no fundo do abysmo, um embate dessas duas existencias feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justiças.

O carangueijo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de carangueijos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um cão, um homem se póde, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo d'agua o corpo morto. Os carangueijos são os escaravelhos necrophoros do mar. Attrahe-os a carne putrida; elles approximam-se, comem o cadaver; a pieuvre os come depois. As cousas mortas desapparecem no carangueijo, o carangueijo desapparece na pieuvre. Já indicamos esta lei.

Clubin foi o engodo da pieuvre.

A pieuvre reteve-o e affogou-o; os carangueijos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquella cava, no fundo da anfractuosidade onde Gilliatt o achou.

Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra cousa que não fosse carangueijos. Parecer-lhe-hia comer carne humana.