Os Trabalhadores do Mar

Part 22

Chapter 223,819 wordsPublic domain

Agora, a machina, a _pança_, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. A _pança_ esmigalhada no escolho, a machina mettida a pique, Gilliat, affogado, era negocio de um esforço unico num só ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispersão; tudo podia ser destruido de um lance.

Não ha situação mais critica do que a de Gilliatt.

A sphynge possivel, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe este dilemma.

Fica ou parte.

Partir era insensato, ficar era medonho.

VI

O COMBATE

Gilliatt trepou á grande Douvre.

Dahi via todo o mar.

Era sorprehendente o oeste. Sahia delle uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extenção, subia lentamente do horisonte para o zenith. Essa muralha rectilinea, vertical, sem um rombo no alto, sem um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda. Era nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na estremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e offerecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a cymalha deixasse um instante de ser paralella á linha do horisonte, quasi indistincta na obscuridade que se ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e silenciosamente. Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma saliencia. Era lugubre aquella immobilidade em movimento. O sol, livido por traz de uma certa transparencia morbida, alumiava aquelle lineamento de apocalipse. A nuvem invadia já quasi metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do abysmo. Era uma como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o céo.

Era em pleno dia a ascenção da noite.

Havia no ar um calor de fogão. Uma lixivia de estufa sahia daquelle amontoado mysterioso. O céo, que de azul tornára-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardosia. Embaixo o mar escuro e de chumbo, era outra ardosia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela. Os passaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.

O crescimento de toda aquella sombra amplificava-se insensivelmente.

A montanha movediça de vapores que se dirigia para as Douvres, era uma dessas nuvens que se podem chamar nuvens de combate. Nuvens vesgas. Atravez daquelles amontoados escuros, extranho estrabismo fita o homem.

Temivel era a approximação.

Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: «Tenho sede, vás dar-me agua.»

Ficou alguns momentos immovel com os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.

Tinha o barrete no bolso, tirou-o e pol-o na cabeça. Tirou do buraco, onde por tanto tempo dormira, o fato de reserva, e vestio tudo, grevas e capotão, como um cavalleiro veste a armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os pés descalços tinham-se endurecido nos rochedos.

Preparado o vestuario de guerra, contemplou elle o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de nós, desceu da platafórma das Douvres, tomou pé nas rochas debaixo, e correu ao deposito. Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pôde ouvir-lhe os sons do martello. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos prégos, cordas e vigas, construia na abertura de leste uma segunda porta de dez a doze pés por traz da primeira.

Profundo era o silencio. Os talos de herva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.

Subitamente o sol desappareceu. Gilliatt levantou a cabeça.

A nuvem ascendente acabava de attingir o sol. Foi como que uma extinção da luz substituida por uma reverberação mesclada e pallida.

A muralha de nuvem mudara de aspecto. Já não tinha unidade. Encrespara-se horisontalmenle tocando o zenith, pendendo em todo o resto do céo. Tinha agora divisões. A formação da tempestade desenhava-se como em uma secção dividida. Distinguia-se as camadas da chuva e os jazigos do granito. Não havia relampago, mas um horrivel clarão espesso; porque a idéa do horror póde ligar-se á idéa da luz. Ouvia-se o vago respirar da tempestade. Aquelle silencio palpitava obscuramente. Gilliatt, tambem silencioso, via agruparem-se por cima delle todos aquelles montões de bruma e compôr-se a difformidade das nuvens. No horisonte pesava e estendia-se uma facha de nevoeiro côr de cinza, e no zenith uma facha côr de chumbo; lividos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os nevoeiros debaixo. O fundo, que era a parede de nuvens, estava baço, leitoso, terreo, livido, indescriptivel. Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na compressão das nuvens, via-se na obscuridade, um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem pallida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras como se não soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes a um tempo, augmentava o eclipse, e continuava a sua interposição lugubre. A leste, por traz de Gilliatt, havia apenas um portal de céo claro que ia ser fechado. Sem a menor impressão de vento, passou uma extranha diffusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum passaro gigantesco acabasse de ser depennado por traz daquelle muro de tenebras. Formou-se um tecto de negrume compacto que, no extremo horisonte tocava no mar e misturava-se na noite. Sentia-se alguma cousa que se avançava. Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade lornava-se mais espessa. De subito roncou immenso trovão.

Gilliatt sentio o abalo. Ha sonho no trovão. Essa realidade brutal na região visionaria tem alguma cousa de terrifico. Acredita-se ouvir a queda de um movel no aposento dos gigantes.

Nenhum flammejar electrico acompanhara o som. Foi um trovão negro. Voltou o silencio. Houve uma especie de intervallo como quando se toma posição. Depois um após outro, e lentamente, romperam-se informes relampagos. Eram todos mudos. Nenhum rugido. Cada relampago illuminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nella abobadas, e arcarias. Viam-se traços. Esboçavam-se monstruosas cabeças; distendiam-se pescoços; entreviam-se e desappareciam elephantes carregados de torres. Uma columna de bruma, recta, redonda, com uma fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor collossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem. Acreditava-se vêr dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas espessuras, mergulhava-se, immovel, um caroço de nevoeiro denso, inerte, impenetravel ás faiscas electricas, especie de feto hediondo no ventre da tempestade.

Gilliatt sentio subitamente que um vento lhe agitou os cabellos. Tres ou quatro largas aranhas de chuva despedaçaram-se em roda delle na rocha. Depois houve um segundo trovão. Começou o vento.

A espera da sombra chegara ao cumulo; o primeiro trovão agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto abaixo, abrio-se uma fenda, toda a batega suspensa jorrou por esse lado, o buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o vomito da tempestade começou.

Tremendo foi o instante.

Aguaceiro, furacão, relampagos, raios, vagas até ás nuvens, espuma, detonações, torções freneticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.

O vento fulminava. A chuva não cahia, desabava.

Para um pobre homem, mettido, como Gilliatt, com um barco carregado, no intervallo de dous rochedos, em pleno mar, não ha crise mais ameaçadora. O perigo da maré, de que Gilliatt triumphára, nada era ao pé do perigo da tempestade. Eis a situação:

Gilliatt, em volta de quem tudo era precipicio, descobrio, no ultimo momento, e diante do risco supremo, uma estrategia engenhosa, Fez ponto de apoio no proprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversario, era agora o seu padrinho naquelle immenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquelle sepulchro uma fortaleza. Assestou-se naquelle pardieiro formidavel do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, aggregado ao escolho, face a face com o furacão. Pôr barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a unica cousa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um despota pode ser tambem vencido pelas barricadas. A _pança_ podia ser considerada segura por tres lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais affeitos a produzir naufragios que a impedil-os. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude flux do alto mar, verdadeira porta de cidadella tendo por hombreiras as proprias columnas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que receiar por esse lado. O perigo estava a leste.

A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de pulverisação. Precisa ao menos duas lumieiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construia a segunda mesmo com a tempestade.

Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descahidas. Aquelle vento, que era o galerno antigo, tinha pouco effeito nas Douvres. Assaltava o escolho de travez, e não impeilia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua, esbarrava-se n'uma muralha. A tempestade atacava mal.

Mas os attaques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma viravolta subita. Se essa viravolta se fizesse a leste antes que a segunda claraboia do quebra-mar estivesse construida, o perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.

Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. Á força de ser uma raiva, dá lugar á intelligencia, e o homem defende-se; mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégoa, nenhum descanço para tomar alento. Ha uma não sei que de covardia nessa prodigalidade do inexgotavel.

Toda a immensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres. Ouviam-se vozes sem numero. Quem gritava assim? Estava alli o antigo terror panico. De quando em quando, parecia que era alguem que fallava, como se fizesse um commando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquelle grande e magestoso urro que os marinheiros dizem ser a _chamada do oceano._

As espiraes indefinidas e fugazes do vento assoviavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daquelles torneamentos, eram atiradas contra os parceis como chapas gigantescas por athletas invisiveis.

A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva em baixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar idéa dos fracassos misturados áquellas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam immoveis, em outros o vento fazia vinte toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; dez léguas de agua de sabão enchiam o horisonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas semelhantes ás brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.

Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma agua incommensuravel, ouviam-se fogos de pelotão no firmamento. Havia no meio do tecto de sombra uma especie de vasta alcofa virada, donde cahiam em confusão, a tromba, a chuva, as nuvens, as côres rubras, os relampagos, a noite, a luz, os raios, tão formidaveis são essas inclinações do golphão!

Gilliatt parecia não attender a nada. Tinha a cabeça inclinada no trabalho. A segunda claraboia começava a levantar-se. A cada trovão respondia elle com uma martellada. Ouvia-se essa cadencia naquelle cahos. Estava com a cabeça descoberta. Uma lufada levou-lhe o chapéo.

Tinha uma sêde ardente. Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de chuva tinham-se formado á roda delle nas covas do rochedo. De quando em quando tirava agua com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.

Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não terminasse a tempo o quebra-mar. Porque motivo perder um minuto para ver approvimar-se a face da morte?

A desordem em torno delle era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. Ás vezes o raio parecia descer uma escada. As percursões electricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Haviam pedras de chuva da grossura de uma mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras tinham pedras.

O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvres; mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com rasão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da prôa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistencia; os calculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si propria elastica, uma reunião de pãos, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obstaculo que um breack-water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era além disso tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martello que mette o prego apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demolil-o, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguio atirar á _pança_, por cima do obstaculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças ao tapamento a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforço. Sentia tranquillamente atraz de si essa raiva inutil.

Os frocos de espuma, sahindo de todos os lados, assemelhavam-se a lã. A agua vasta e irritada afogava os rochedos, trepava por elles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e sahia das massas graniticas por fendas estreitas, especies de bocas inexgotaveis que faziam naquelle diluvio pequenas fontes placidas. Filetes de agua cahiam graciosamente daquelles buracos no mar.

A claraboia de reforço do tapamento de leste estava quasi concluida. Mais umas voltas de cordas e correntes, e approximava-se o momento de tambem lutar esse tapamento.

De subito, fez-se um grande clarão, a chuva e as nuvens separaram-se, era o vento que mudava, uma especie de janella grande crepuscular abrio-se no zenith, e apagaram-se os relampagos; pareceu que estava acabado. Era o começo.

O vento mudou de sudoeste para nordeste.

A tempestade ia recomeçar com uma nova matilha de furacões. Vinha do norte, violento assalto. Os marinheiros chamam a isso _o vento de esboroar._ O vento do sul tem mais agua, o vento do norte tem mais raios.

Vindo do nordeste, a aggressão ia dirigir-se ao ponto fraco.

Desta vez Gilliatt parou o trabalho, e olhou.

Collocou-se de pé sobre uma saliencia de rochedo inclinado por traz da segunda claraboia quasi terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e debaixo dessa demolição, esmagaria Gilliatt, Gilliatt no lugar que escolhera, seria achatado antes de ver a _pança_ e a machina e toda a sua obra abysmar-se no golphão. Tal era a eventualidade. Gilliatt, acceitou-a, e, terrivel, elle a queria.

Nesse naufragio de todas as suas esperanças, morrer primeiro, convinha-lhe a elle; morrer primeiro, porque a machina fazia-lhe o effeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda os cabellos collados aos olhos pela chuva, apertou o martello, inclinou-se para traz, ameaçante, e esperou.

Não esperou muito.

Um ribombo deu o signal, fechou-se a abertura pallida do zenith, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tomou-se escuro, e não houve outro facho mais que o relampago. Começava o sombrio ataque.

Possante vagalhão, visivel entre os relampagos, levantou-se a leste além do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro. Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cylindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.

Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partio-se em dous e continuou. Os dous pedaços juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande montanha de agua, e de parallela que estava ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a fórma de uma viga.

Atirou-se ao quebra-mar aquelle ariete. Rugia o choque. Tudo desappareceu em espuma.

Não se póde imaginar o que são essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quaes engole rochedos de mais de cem pés de altura, taes, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o Pinaculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagascar, saltam por cima da ponta de Pintingue.

Durante alguns instantes, o rolo de mar tapou tudo. Só ficou visivel um montão furioso, uma escuma immersa, a alvura de um sudario fluctuando no vento do sepulchro, uma mistura de ruido e de tempestade debaixo da qual trabalhava o exterminio.

Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.

O tapamento resistira. Nenhuma corrente arrebentou, nenhum prégo sahio. O tapamento mostrou á prova as duas qualidades do quebra-mar; foi flexivel como um caniço e solido como uma parede. O vagalhão dissolveu-se em chuva.

A espuma escorrendo ao longo dos zig-zags do estreito foi morrer debaixo da _pança._

O homem que fizera aquelle açamo ao oceano não repousou.

A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarniçamento das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma tregoa. Gilliatt aproveitou-a para completar a claraboia de traz.

O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas violencias no flanco do escolho com uma solemnidade lugubre. A urna de agua e a uma de fogo que existem nas nuvens, esvasiava-se sem esgotar nunca. As ondulações altas e baixas do vento, pareciam movimentos de um dragão.

Quando a noite chegou já havia noite; não se pôde reparar nella.

Mas não era obscuridade completa. As tempestades illuminadas e cégas pelo relampago, têm intermittencias de visivel e invisivel. Tudo está claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se á sahida das visões, e á entrada das trevas.

Uma zona de phosphoro, côr da aurora boreal, fluctuava como um farrapo de flamma spectral por traz das espessuras de nuvens. Resultava uma vasta pallidez. As chapas de chuva eram luminosas.

E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Elle voltou-se para o relampago e disse: segura-me a vela!

Com o auxilio dessa claridade póde elle levantar a claraboia de traz, ainda mais acima da da frente. O quebra-mar estava quasi completo. Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de reforço, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabeça. O vento voltára bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste recomeçava. Gilliatt olhou para o mar. O quebra-mar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo vagalhão.

Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quasi juntos; finalmente um ultimo e tremendo.

Este que era um como que total de forças, tinha a figura de uma cousa viva. Não era difficil imaginar naquella intumescencia e naquella transparencia, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partio-se no quebra-mar. A sua forma quasi animada dilacerou-se num esguicho. Naquelle montão de rochedos e taboas, foi uma especie de esmagamento de hydra. A onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se á saliva de um leviathan.

A espuma que cahia deixava vêr uma devastação. O vagalhão fez obra. Dessa vez o quebra-mar soffreu um pouco. Uma longa e pesada viga, arrancada da claraboia da frente, foi lançada por cima do tapamento de traz, sobre a rocha inclinada escolhida por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez não estava elle ahi. Ficaria morto.

Houve na queda da viga uma singularidade, que, impedindo qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobresalto perigoso. Foi ainda util por outro modo como se vai vêr.

Entre a saliencia da rocha e o declive interno da garganta, havia um intervallo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou á alveola de um canto. Uma das extremidades da prancha atirada ao ar pela vaga, cahio no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.

Gilliatt teve uma idéa.

Pesar na outra extremidade.

A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, sahia d'ahi como um braço estendido. Essa especie de braço alargava-se paralellamente á facha interna da garganta, e a extremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de dezoito ou vinte pollegadas. Boa distancia para fazer o exforço.

Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o rochedo e metteu hombros á enorme viga. A viga era comprida, o que augmentava a força do peso. A rocha já estava abalada. Comtudo Gilliatt teve de tentar a cousa quatro vezes. Cahia-lhe dos cabellos mais suor do que chuva. O quarto exforço foi frenetico. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como uma boca, e a pesada massa cahio no estreito intervallo com um ruido terrivel, replica aos trovões.

Cahio direita, se esta expressão é possivel, isto é sem quebrar-se.

Imaginae um menhir precipitado todo inteiro.

A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt cedendo ao mesmo tempo, escapou de cahir tambem.

O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca agua. O monolitho, n'uma agitação de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralellas da garganta e fez uma parede transversal, especie de linha de união dos dous rochedos. Tocavam as duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma especie de beco sem sahida que ainda hoje pode ser visto. A agua por detraz dessa barra de pedra, é quasi sempre tranquilla.

Era um baluarte aquelle ainda mais invencivel que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres. Esse tapamento interveio a proposito.

Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obstaculo. A primeira claraboia começava a desarticular-se. Uma malha de quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitavel o alargamento do buraco, e nenhum meio póde remediar logo. A vaga carregaria o trabalhador.

Uma descarga electrica, que illuminou o escolho, descobrio a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas e correntes começando a fluctuar ao vento, um rasgão no centro do aparelho. A segunda claraboia estava intacta.

O penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervallo das rochas, por traz do quebra-mar, era a mais solida barreira, mas tinha um defeito; era demaziado baixo. As vagas não podiam rompel-o, mas podiam galgal-o.

Era impossivel faze-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser utilmente sobrepostas áquelle tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas, como arrastal-as, como levantal-as, como collocal-as, como fixal-as? Pregam-se taboas, não se pregam rochedos.

Gilliatt não era Encelado.

A pouca elevação daquelle pequeno isthmo de granito preocupava Gilliatt.

Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o quebra-mar; já se não encarniçavam, parecia que se applicavam. Ouvia-se naquella construcção abalada uma especie de escouceamento regular.

De repente um pedaço de peça de viga, destacado da dislocação, pulou por cima da segunda claraboia, voou por cima da rocha transversal, e foi cahir na garganta do rochedo, onde a agua a levou pelas sinuosidades da viella. É provavel que fosse esbarrar na _pança._ Felizmente, no interior do escolho, a agua fechada por todos os lados, mal se resentia da agitação exterior. Havia pouco marulho, e o choque não devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de occupar-se com essa avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto vulneravel, a imminencia estava diante delle.