Os Trabalhadores do Mar

Part 21

Chapter 213,832 wordsPublic domain

Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quasi tudo carvalho. O escolho desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pôde metter ahi mais pregos ainda que no esvasamento das Douvres.

N'um momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a phosphorescencia apagou-se; o crepusculo, cada vez mais luminoso, substituia-a.

Mettidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrahir um momento, começou a construir na abertura do Homem, com taboas fixadas horisontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de claraboia, que a sciencia já adoptou, e qualifica de quebra-mar.

Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Boury-d'eau em França, o effeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo, comprehendem a força desses trabalhos simplices. O quebra-mar é a combinação daquillo que em França se chama _epi_, e daquillo que na Inglaterra se chama _dick._ O quebra-mar são os cavallos de frisa das fortificações contra as tempestades. Não se póde lutar contra o mar senão aproveitando a divisibilidade dessa força.

Entretanto levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.

Gilliatt apressava o trabalho. Tambem elle estava calmo, mas na sua pressa havia anciedade.

Passava, em grandes pulos de rocha em rocha, do tapamento ao deposito e do deposito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se então a necessidade daquelle deposito de destroços. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade prevista.

Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.

O trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um crescimento que uma construcção. Quem não vio trabalhar um postageiro militar não póde fazer idéa daquella rapidez.

A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha apenas cinco ou seis pés de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e fechar, a armadura seria mais solida e podia ser mais simples. Bastavam pois vigas horisontaes; as peças verticaes eram inuteis.

Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.

O rugido tornava-se expressivo.

Gilliatt continuou a construcção. Accrescentou-lhe dous cepos da Durande ligados ás pontas das vigas com adrissas passadas nas tres rodas das polés. Ligou tudo com correntes.

Essa construcção era nada menos que uma especie de grade collossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.

Parecia entrançado como parecia construido.

Gilliatt multiplicou os laços e pôz mais prégos onde era preciso.

Tendo muito ferro redondo na Durande, pôde fazer uma grande provisão desses pregos.

Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando biscouto. Tinha sede, mas não podia beber, por já não ter agua doce. Esgotára o pichel na noite anterior.

Accrescentou ainda quatro ou cinco taboas, depois trepou em cima de tudo. Escutou.

Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.

O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigaes que lhe dirigem os burguezes quando estão contentes com elle,--_um espelho,--um mar de rosas,--um tanque,--um mar de leite._--O azul profundo do céo correspondia ao verde profundo do oceano. Aquella saphira e aquella esmeralda podiam admirar-se ambas. Não tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma em baixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o sol de Abril. Era impossivel ver mais bello dia.

No extremo horisonte uma fila negra de aves de arribação atravessava o céo. Iam depressa. Dirigiam-se para a terra. Parecia uma fuga.

Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.

Levantou-o o mais que pôde, tão alto como lhe permittio a curvatura dos rochedos.

Ao meio-dia o sol pareceu-lhe mais quente do que devia estar. Meio-dia é a hora critica do dia. Gilliatt, de pé na robusta clara-boia que acabava de construir, entrou a contemplar a extensão.

O mar estava mais que tranquillo, estava estagnado. Não se via uma vela. O céo estava limpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horisonte, a oeste, havia uma manchasinha de apparencia ruim. Essa mancha estava immovel, mas crescia. Junto dos cachopos o mar palpitava brandamente.

Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.

Approximava-se uma tempestade.

O abysmo resolvera dar batalha.

FIM DO 2° VOLUME.

TRABALHADORES DO MAR

POR

VICTOR HUGO

traduzido por Machado de Assis

3° TOMO

RIO DE JANEIRO

TYP.--PERSEVERANÇA--RUA DO HOSPICIO N. 91.

1866.

SEGUNDA PARTE

O engenhoso Gilliatt

LIVRO TERCEIRO

A luta

I

O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRARIO ANNUNCIA O CONTRARIO

Nada tão ameaçador como o equinoxio que retarda.

Ha no mar um phenomeno medonho que se póde chamar a chegada dos ventos do largo.

Em todas as estações, especialmente na época das syzygias, no momento em que menos se espera, o mar apresenta uma subita e estranha tranquillidade. Applaca-se aquelle prodigioso movimento continuo; cahe em madorna e languidez; parece que vai descançar: crer-se-hia que está fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flamulas de pesca, até ás insignias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões almirantes, reaes, imperiaes, dormem todos.

De repente esses pannos começam a mexer-se discretamente.

É a hora, se ha nuvens, de espreitar a formação dos cirrus; se o sol se põe, é a hora de examinar a côr da tarde; se é de noite e ha luar, é a hora de estudar as aureolas planetarias.

Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade cujo inventor não se conhece, observa o vidro com o microscopio e toma as suas precauções contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de assucar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em crystallisações semelhantes aos tuffos de hervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado o gnomon mysterioso gravado pelos romanos, ou pelos demonios, n'uma dessas estreitas pedras enigmaticas que na Bretanha se chama menhir, e na Irlanda cruach, o pobre pescador irlandez ou bretão retira a sua barça do mar.

Persiste entretanto a serenidade do céo e do oceano. A manhã rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos poetas e os antigos adevinhos, assustados de que se podesse crer na deslealdade do sol. _Solem quis dicere falsum audeat._

A sombria visão do possivel latente é interceptada ao homem pela opacidade fatal das cousas. O mais temivel e o mais perfido aspecto é a mascara do abysmo.

Diz-se: _anguis in herba_; devia dizer-se: _borrasca na calma._

Assim se passam horas, e ás vezes dias. Os pilotos assestam os seus oculos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se prende á colera secreta da expectação.

De subito ouve-se um grande murmurio confuso. Ha uma especie de dialogo mysterioso no ar.

Não se vê cousa alguma.

A extensão fica impassivel.

Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Accentua-se o dialogo.

Ha alguem por traz do horisonte.

Pessoa terrivel essa, é o vento.

O vento, isto é, a populaça de titães que chamamos Tufões.

Immensa plebe da sombra.

A India chamava-os Morouts, a Judéa Keroubins, a Grecia Aquilões. São os invisiveis passaros ferozes do infinito. Esses Boreas precipitam-se.

II

OS VENTOS DO LARGO

Donde vem elles? Do incomensuravel. Os seus grandes vôos exigem o diametro do golphão. As suas azas desmedidas precisam das solidões indefinidas. O Atlantico, o Pacifico, essas vastas aberturas azues, eis o que lhes convém. Fazem-n'as sombrias. Voam em bandos. O commandante Page vio de uma vez no mar alto, sete trombas a um tempo. Ahi são medonhas. Premeditam os desastres. Tem por trabalho delles o entumecimento ephemero e eterno dos vagalhões. Ignora-se o que elles podem, desconhece-se o que elles querem. São as sphynges do abysmo; e Vasco da Gama é o seu Œdipo. Faces de nuvens apparecem nessa obscuridade da extensão sempre em movimento. Quem descobre os seus lineamentos lividos nessa dispersão que é o horisonte do mar sente-se em presença da força irreductivel. Dissera-se que a intelligencia humana os assusta, e eriçam-se contra ella. A intelligencia é invencivel, mas o elemento é indomavel. Que fazer contra a ubiquidade que se não sujeita? O vento faz-se massa e torna-se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se. Quem depara com elles só póde lançar mão de expedientes. Elles frustam-nos pelo assalto diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpaveis tenazes. Como vence-los? A prôa do navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo prôa e piloto, costumava fallar-lhes. Elles maltratavam aquella prôa deosa. Christovão Colombo, vendo-os vir de encontro á _Pinta_ subio ao tombadilho e dirigio-lhes os primeiros versiculos do Evangelho de S. João. Surcouf insultava-os. _Ahi vem a pandilha_, dizia elle. Napier descarregava-lhes tiros em cima. Elles tem a dictadura do chaos.

Tem o chaos. Que fazem delle? Fazem uma cousa implacavel. A cova dos ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos cadaveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas elles não ouvem a ninguem. Commettem cousas que parecem crimes. Não se sabe sobre quem atiram elles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade impia no naufragio! Que affronta á Providencia! Ás vezes parecem que cospem em Deos. São os tyrannos dos lugares desconhecidos. _Luoghi spaventosi_, murmuravam os marinheiros de Veneza.

Os espaços tremulos supportam os seus ataques. É inesprimivel o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se á sombra um elemento equestre. O ar faz um rumor de floresta. Não se vê nada, mas ouve-se um ruido de cavallos. É meio dia, de subito anoitece; passa um _tornado_; é meia noite, de repente esclarece, accende-se o effluvio polar. Alternam em sentido inverso os turbilhões, especie de dansa hedionda, tripudeo dos flagellos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens purpureadas, illuminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem esvasiada de raio, é carvão apagado. Saccos de chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As alvuras do mar debaixo do aguaceiro illuminam sorprehendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se reproduzem as semelhanças. Monstruoso umbigo vai rompendo as nuvens. Volteam os vapores, saracoteam as vagas; rolam embriagadas as nayades; a perder de vista, o mar massiço e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo é livido; desesperados gritos sobem desse palor.

No fundo da obscuridade inaccessivel tremem grandes germens de sombra. De quando em quando ha paroxismo. O rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horisonte, superposição confusa de vagas, oscillação sem fim, murmura continuamente; alli arrebentam extranhamente uns arremeços de fracaço; parece-se ouvir as hydras espirrando; sopram palitos frios, seguem-se halitos quentes. A trepidação do mar annuncia um medo que tudo espera. Inquietação. Angustia. Terror profundo das aguas. Subitamente, o furacão, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a agua sóbe para a boca invisivel, fórma-se uma ventosa, incha o tumor; é a tromba, o Prester dos antigos, stalactite em cima, stalagmite em baixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a columna da Biblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o trovão. Parece que tem medo.

Ha uma escala na vasta turvação das solidões; temivel _crescendo_; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lyra do vento, as sete notas do abysmo. O céo é uma largura, o mar é um arredondado; passa um vento, já não ha nada disso, tudo é furia e confusão.

Taes são aquelles severos sitios.

Os ventos correm, voam, abatem-se expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: freneticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascivel. Tem harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céo. Sopram nas nuvens como n'um metal; embocam o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma especie de tangeres prometheanos. Quem os ouve, ouve Pan. O que mais assusta é vêl-os assim. Tem uma colossal alegria composta de sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem tregoas, noite dia, em todas as estações, no tropico como no polo, tocando a trombeta delirante, vão elles, por meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos naufragios. São os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os seus cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens. Amassam como se tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da agua immensa.

A agua é flexivel porque é incompressivel. Resvala debaixo do esforço. Apertada por um lado, escapa por outro. É assim que a agua se faz onda. A vaga é a sua liberdade.

III

EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT

A grande approximação dos ventos para a terra faz-se nos equinoxios. Nessas épocas o grande balanço do tropico e do polo, e a collossal maré atmospherica derrama o seu flux em um hemispherio, e o reflux em outro. Ha constellações que significam esses phenomenos. Libra e Aquario.

É a hora das tempestades.

O mar espera silencioso.

Ás vezes o céo tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto por um grande panno obscuro; os marinheiros contemplam anciosos o ar opprimido de sombra.

Mas o que elles mais temem é o ar alegre. Céo risonho no equinoxio é a tempestade com pés de lã. Com céos desses, a Torre das Carpideiras de Amsterdão enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.

Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está ajuntando uma massa ainda maior. Enthesoura para destruir. Desconfia da acumulação de juros. Ango dizia: _O mar é bom pagador._

Quando a demora é demasiado longa, o mar trahe a sua impaciencia pela calma. Sómente a tenção magnetica se manifesta naquillo que se póde chamar a inflamação da agua. Rompem clarões da vaga. Ar electrico, agua phosphorica. Os marinheiros sentem-se estafados. É uma hora especialmente perigosa para os encouraçados; o casco de ferro póde produzir falsas indicações da bussola e perdel-os. Assim pereceu o paquete transatlantico _Yowa._

Para os que estão familiarisados com o mar, o seu aspecto nesses momentos é extranho; dissera-se que o mar deseja e receia o cyclone. Certos hymeneus, aliás impostos pela natureza, são acolhidos assim. A leôa desejosa foge diante do leão. Tambem a agua tem o seu calor, e dahi lhe vem o estremecimento.

Vae realisar-se o immenso consorcio.

Este consorcio, como as nupcias dos antigos imperadores, celebra-se com exterminações. É uma festa temperada de desastres.

Attenção, ahi vem o facto equinoxial.

Conspira a tempestade. A velha mythologia entrevia essas personalidades indistinctas misturadas á grande natureza diffusa. Eolo harmonisa-se com Boreas. O accordo do elemento com o elemento é necessario. Distribuem entre si a tarefa. Ha impulsões para a vaga, para a nuvem, para o effluvio; a noite é um auxiliar; deve ser empregada. Ha bussolas para desviar, pharóes para apagar, estrellas para esconder. É preciso que o mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um murmurio. Por traz do horisonte ha o cochicho prévio dos furacões.

É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do silencio assustado do mar.

Gilliatt ouvio esse chochichar tremendo. A phosphorescencia foi a primeira advertencia; o rumor foi a segunda.

Se existe o demonio Legião, esse demonio é o Vento, com certeza.

O vento é multiplo, mas o mar é um.

Dahi esta consequencia: toda tempestade é mixta. A unidade de ar o exige.

Abismo implica tempestade. O oceano inteiro está n'uma borrasca. A totalidade das suas forças entra em linha e toma parte nella. Uma vaga é o golphão de baixo; um tufão é o golphão de cima. Lutar com uma tempestade é lutar com o mar inteiro e o céo inteiro.

Messier, o homem da marinha, o astronomo pensativo da choça de Clerny, dizia: _O vento de toda a parte está em todas as partes._ Elle não acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados. Para elle não haviam ventos mediterraneos. Dizia que os conhecia na passagem. Affirmava que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constança, o antigo Favonio de Lucrecio, atravessara no horisonte de Paris; em outro dia era o Bora do Adriatico; em outro era o Noto giratorio que se pretende estar encerrado nas Cyclades. Especificava os effluvios. Não pensava que o vento que gira entre Malta e Tunis, e o vento que gira entre a Corsega e as Baleares, estivessem na impossibilidade de se libertarem. Não admittia os ventos, como ursos, fechados em jaula. Dizia: «Todas as chuvas vem do tropico, e todos os raios do polo.» O vento, com effeito, satura-se de electricidade na intercessão dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da agua no equador; traz-nos da linha o liquido e dos polos o fluido.

Ubiquidade é o vento.

Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada mais demonstrado que as correntes continuas, e dia virá em que a navegação aérea, servida pelos navios do ar (_air-navires_) que chamamos, por mania de grego, aeroscaphos, utilisará as linhas principaes. A canalisação do ar pelo vento é incontestavel; ha rios de vento, ribeiros de vento, riachos de vento; sómente ao invez das ramificações da agua, são os riachos que sahem dos ribeiros, e os ribeiros que sahem dos rios, em vez de serem affluentes: em vez de concentração, dispersão.

Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da atmosphera. Uma molecula deslocada desloca outra molecula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas do amalgama, acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosphera com todas as suas montanhas, fazendo nós e torções nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as contra-correntes. Irradiação illimitada.

O phenomeno do vento é a oscilação de dous oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de agua, apoia-se nessa fuga e vacilla nessa vacillação.

O indivisivel não usa compartimentos. Não ha tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do Cabo de Boa Esperança. A navegação universal faz frente a um monstro unico. Todo o mar é uma só hydra. As vagas cobrem o mar de uma especie de escama. Oceano é Ceto.

Nessa unidade abate-se o inumeravel.

IV

TURBA, TURMA

Para a bussola ha trinta e dous ventos, isto é, trinta e duas direcções; mas essas direcções podem subdividir-se indefinidamente. O vento classificado por direcções, é o incalculavel; classificado por especies, é o infinito.

Homero recuaria ante esse recenceamento.

A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equilibrio começa pelo choque, sahe a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispersão dos tufões sacode nos quatro cantos do horisonte o prodigioso esgadelhado do ar.

Ahi estão todos os rumos; o vento de Gulf-Stream que despeja tanta nevoa na Terra Nova: o vento do Perú, região de céo mudo onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Escocia onde vôa o grande Auk, _Alca impennis_, de bico riscado; os turbilhões de Ferro dos mares da China; o vento de Moçambique que maltrata os juncos; o vento electrico do Japão denunciado pelo gong; o vento da Africa que habita entre a montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadea dahi; o vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça uma parabola cujo cimo fica a oeste; o vento plutonico que sahe das crateras e que é o temivel sopro das chammas; o extranho vento proprio do volcão Awa que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a monção de Java, contra a qual estão construidas aquellas casamatas chamadas _casas do furacão_; a brisa ramificada que os inglezes chamam _busk_, bebida; os grãos arqueados do estreito de Malaca observados por Horsfurgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampero no Chile, e Rebojo em Buenos-Ayres, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pelle de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os pés; o vento chimico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoada; o hermatan do Caffres; o sopra-neves polar, que se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golpho de Bengala que vai até Nijni-Novogorod devastar o triangulo das barracas de pão onde se faz a feira da Asia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos archipelagos da Australia onde os caçadores de mel arrancam as colmêas silvestres escondidas nos galhos do eucalyptus gigante; o sirocco; o mistral; o hurricana; o vento de secca; os ventos de innundação; os diluvianos; os torridos; os que lançam nas ruas de Genova a poeira das planicies do Brazil; os que obedecem á rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer a Herrera: _Malo viento torna contra el sol_; os que vão aos pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aquelles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de Outubro a 28 de Novembro de 1520, puzeram em questão Magalhães abordando o Pacifico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Philippe II.

Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chama _salto de vento_ e que tem por tarefa acabar com os naufragos; os que, com um sopro unico, deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que construem os circumcumuli; os ventos que construem os circumstrati; os pesados ventos cegos, tumidos de chuva; os ventos do graniso; os ventos da febre; os ventos cuja approximação faz ferver os salsos e os solfatarios de Calabria; os ventos que fazem brilhar o pello das pantheras de Africa andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vem sacudindo fóra da sua nuvem, como uma lingoa trigonocephala, o temivel relampago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal é o exercito.

O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt construia o quebra-mar, ouvia-lhes o galopo longinquo.

Já o dissemos, o Vento compõe-se de todos os ventos.

Acercava-se toda aquella horda.

De um lado, essa legião.

Do outro, Gilliatt.

V

GILLIATT PÓDE ESCOLHER

As mysteriosas forças escolheram bem o momento.

O acaso, se é que existe, é habil.

Emquanto a _pança_ esteve guardada na angra do Homem, emquanto a machina esteve mettida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugnavel. A _pança_ estava em segurança, a machina estava abrigada; as Douvres, que sustentavam a machina, condemnavam-n'a a uma destruição lenta, mas protegiam-n'a contra uma surpreza. Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso. A machina destruida não destruia a Gilliatt. Tinha a _pança_ para salvar-se.

Mas esperar que a _pança_ estivesse fóra do ancoradouro, onde era inaccessivel, deixal-a pôr entre as Douvres, esperar que ella lá estivesse presa tambem pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse o salvamento e o transporte da machina, não impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triumpho, esse era o laço. Via-se agora, como uma especie de lineamento sinistro, a sombria astucia do abysmo.