Os Trabalhadores do Mar

Part 20

Chapter 203,890 wordsPublic domain

Um dia, o ultimo de Abril creio, ou o 1.° de Maio, tudo estava prompto. O assoalho da machina estava como que mettido entre os oito cabos das polés, quatro de um lado, quatro de outro. As dezeseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e á carena. A madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a faca e, o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a machina, foi cortada em quadro e estava prompta para resvalar com a machina sustentando-a. Todo esse grupo assustador só estava preso por uma corrente, a qual dependia só de um golpe de lima. Tão perto do remate, a pressa era prudencia.

A maré estava baixa, o momento era bom.

Gilliatt, tinha conseguido desmontar a arvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obstaculo e impedir, aquelle levantar de ancora. Tinha conseguido amarrar vertical mente a pesada peça na propria machina.

Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava cançado porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se impossivel a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se quebrado. O folles começava a trabalhar mal. Como a pequena queda hydraulica era de agua marinha, formaram-se depositos salinos nas junturas do apparelho e impediam-lhe o jogo.

Gilliatt foi á angra do Homem, passou revista á _pança_ assegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e a estibordo, levantou a ancora e remando voltou com a _pança_ ás duas Douvres.

O intervallo das Douvres podia admittir a _pança._ Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que podia-se levar a _pança_ até debaixo da Durande.

A manobra era comtudo excessiva, exigia uma precisão de joalheiro e esta inserção do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necessario entrar pela pôpa com o leme na prôa. Era necessario que o mastro e os apparelhos da _pança_ ficassem áquem do casco do vapor, do lado da entrada.

Este aggravo na manobra, tornou a operação difficil ao proprio Gilliatt. Já não era, como na angra do Homem, uma questão de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puchar, remar e sondar. Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguio.

Em quinze ou vinte minutos a _pança_ ficou collocada debaixo da Durande. Ficou quasi atravessada. Gilliatt por meio de duas ancoras, segurou a _pança._ A maior ficou collocada de modo a trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois por meio de uma alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para a _pança_ as duas caixas contendo as rodas desmontadas cujos cabos de guindar estavam promptos. As duas caixas fizeram lastro.

Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.

Para a obra de Gilliatt os defeitos da _pança_ tornavam-se qualidades; não tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no porão. Era mastreada na prôa, muito na prôa talvez, o carregamento achava mais facilidade e o mastro ficava fóra da machina, de modo que nada impedia a sahida; era uma especie de concha, e nada mais estavel e solido no mar como uma concha.

De repente Gilliatt vio que a maré enchia. Tratou de ver donde soprava o vento.

VII

SURGE UM PERIGO

Havia pouca brisa, mais vinha do oeste. É um máo costume de vento no equinoxio.

A maré enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquelle corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a agua é boa e molle, se entra por oeste é furiosa. A razão disto é que o vento de leste, vindo de terra tem pouco alento, emquanto que o vento de oeste, que atravessa o Atlantico, traz comsigo todo o sopro da immensidade. Mesmo quando a brisa é fraca assusta quando vem do oeste. Róla largas ondas da extençáo illimitada e cospe grossas vagas no estreito.

A agua que se engolpha é sempre terrivel. A agua é como a multidão; uma multidão é um liquido; quando a quantidade que póde entrar é menor que a quantidade que deseja entrar, a multidão machuca-se e a agua convulsiona-se. Emquanto sopra o vento do poente, ainda a mais fraca brisa, ha nas Douvres este assalto, duas vezes por dia. A maré levanta-se, a rocha resiste, a abertura é pequena, a onda entrando á força salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viéla. De modo que as Douvres ao menor vento do oeste, offerecem este espectaculo singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e circumscripto, não é uma tormenta; é apenas uma revolta de vagas, mas terrivel. Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada por leste, é preciso lembra-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura temivel do oeste fica na extremidade opposta exactamente entre as duas Douvres.

Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande naufragada e a _pança_ ancorada.

Parecia inevitavel uma catastrophe, esta catastrophe imminente, tinha, embora pouco, o vento de que precisava.

Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta no estreito das Douvres. As primeiras vagas já começavam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o Atlantico que teria atraz de si a totalidade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma cólera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma força de impulsão que, partindo da America para chegar á Europa, tinha duas mil leguas de jacto. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiate do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito, inchada pela maré, inchada pelo obstaculo, repellida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria violencia ao escolho, penetraria, com todos os torções do obstaculo encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas, encontraria a _pança_ e a Durande, e as estrangularia.

Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt tinha-o.

Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, previnir a compressão da onda na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrupção pela introducção, conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquella furia a ser tranquilla. Era preciso substituir ao obstaculo que irrita, o obstaculo que applaca.

Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força, executando uma manobra de camello na montanha ou de macaco na floresta, utilisando com saltos oscilantes e vertiginosos a menor saliencia de pedra, pulando na agua, nadando nos rodomoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martello na mão, desatou o cabo que prendia á pequena Douvre o pedaço da amurada de prôa da Durande, fez com as pontas da maroma uma especie de gonzos prendendo aquelle pedaço de madeira aos grandes pregos mettidos no granito, fez voltar naquelles gonzos aquella armadura de taboas semelhante ao alçapão de um dique, expôl-o em flanco, como se faz com um leme, á onda que impellia, e applicou essa extremidade á grande Douvre, emquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande Douvre, por meio de prégos, postos do antemão, a mesma fixação que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte n'uma couraça, e em menos de uma hora, levantou-se o obstaculo contra a maré, e a viella do escolho ficou fechada como por uma porta.

Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de pé era uma parede, foi, com auxilio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quasi que a cousa foi feita antes que o mar se apercebesse disso.

Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que elle dirigia á vaga do mar, cada vez que esquivava um naufragio: _Apanhei-te, inglez!_ Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o oceano chamava-o _inglez._

Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da _pança._ Dividio o cabo nas duas ancoras para que ella podesse subir com a maré. Operação analoga a que os antigos maritimos chamavam: _mouiller avec des embossures._

Em tudo isto Gilliatt não foi sorprehendido, o caso estava previsto; um homem do officio reconhecel-o-hia vendo as duas roldanas de guindar mettidas por traz da pança, nas quaes passavam dous pequenos cabos cujas pontas estavam presas ás argolas das duas ancoras.

Entretanto crescia a maré; já subira metade; é nesse momento que os choques das ondas, mesmo placidos, podem ser rudes. O que Gilliatt combinára realisou-se. A onda rolava violentamente para a porta, encontrava-a, inchava epassava por cima. Fóra era o marulho. Dentro a infiltração. Gilliatt imaginou alguma cousa semelhante ás forcas caudinas do mar. A maré estava vencida.

VIII

MAIS PERIPECIA QUE DESENLACE

Chegára o tremendo instante.

Tratava-se agora de pôr a machina na _pança._

Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovello do braço esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda.

Depois subio á Durande cuja metade, que era a machina, devia sahir e cujo casco devia ficar.

Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda bastou-lhe a faca.

As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.

Do navio subio elle ao apparelho que construira, bateu com o pé em todas as pranchas, examinou as roldanas, vio as polés, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame não estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das peças sobre o tombadilho, tomou posição, ao pé do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.

Grave, sentindo sómente a commoção util, lançou um ultimo olhar ao apparelho, depois tomou uma lima e pôz-se a cortar a corrente que sustentava tudo.

Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmurio do mar.

A corrente do cabrestante presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da mão de Gilliatt.

De repente houve um estalo. A argola que a lima cortava, já limada por metade, tinha-se quebrado; todo o apparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.

A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retezaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abrio-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da machina, pesando sobre os cabos, appareceu debaixo da quilha.

Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua mão terrivel estava lá; foi apenas uma descida.

Quando o irmão de Jean Bart, Pieter Bart, aquelle bebado possante e sagaz, aquelle pobre pescador de Dunkerque que tratava o grande almirante por tu, salvou a galera _Langeron_ perdida na bahia de Ambleteuse, quando para tirar aquella pesada massa fluctuante dos cachopos da bahia furiosa amarrou a vella grande com juncos marinhos, quando elle quiz que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vella ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fractura da corrente, e foi a mesma estranha audacia coroada pela mesma victoria surprehendente.

A corda motora segura por Gilliatt operou admiravelmente. Devem lembrar-se que essa corda tinha por fim diminuir as forças convertidas em uma só e reduzidas a um movimento de conjuncto. Aquella corda tinha alguma relação com uma bolina; sómente em vez de onentar uma vela, equilibrava um machinismo.

Gilliatt de pé, e com a mão no cabrestante, tinha por assim dizer a mão no pulso do aparelho.

Aqui a invenção de Gilliatt, manifestou-se toda.

Produzio-se uma notavel coincidencia de forças.

Emquanto a machina da Durande, separada em massa, descia para a _pança_, a _pança_ subia para a machina. O navio naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se. Poupavam-se deste modo metade do trabalho.

A maré enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarcação e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do machinismo.

A vaga subindo, levantava a _pança_ sem choque, brandamente, quasi com precaução e como se ella fosse de porcellana.

Gilliatt, combinava e proporcionava os dous trabalhos, o da agua e o do apparelho, e, immovel no cabrestante, especie de estatua temivel obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentidão da descida pela lentidão da subida.

Nenhum abalo na agua, nenhum balanço nas pranchas. Era uma estranha collaboração de todas as forças naturaes dominadas. De um lado a gravitação levava a machina; do outro a maré trazia o barco. A attracção dos astros, que é o flux, e a attracção do globo, que é a gravidade, pareciam harmonisar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinação, não tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão de uma alma, aquellas duas potencias passivas, tornavam-se activos auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervallo entre a _pança_ e a Duraude diminuia insensivelmente. Fazia-se a aproximação em silencio e com uma especie de terror pelo homem que estava alli. O elemento recebia uma ordem e executava-a.

Quasi no momento em que a maré cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem commoção; as roldanas pararam. A machina, como se fosse collocada á mão assentou-se no fundo da _pança._ Estava direita, de pé, immovel, solida. A placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro angulos e aprumo no porão.

Estava prompto.

Gilliatt olhou attonito.

A pobre creatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentio o alquebramento de uma immensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triumpho, elle que não se perturbara até então, começou a tremer.

Contemplou a _pança_ debaixo do navio e a machina dentro da _pança._ Parecia não acreditar. Dissera-se que elle não contava com aquillo. Sahira-lhe um prodigio das mãos, e elle contemplava-o com espanto.

Mas esse espanto durou pouco.

Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da _pança_ apenas uns dez pés, deu um salto, cahio dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão, e prendeu por ambos os lados da _pança_, as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na amurada da Durande.

Amarrado o cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da machina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda alli estava preso. Gilliatt, despregou-o e limpou a _pança_ daquella porção de taboas e vergas que atirou sobre os rochedos. Util allivio.

Demais, como é de prever a _pança_ sustentou com firmeza a carga da machina. Mergulhou muito pouca cousa. A machina da Durande, embora massiça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazidos outrora de Herm pela _pança._

Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.

IX

INTERROMPE-SE O EXITO

Nem tudo estava acabado.

Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da amurada da Durande, e levar immediatamente a _pança_ para fóra do escolho, nada mais claro do que isto.

No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bella tarde promettia uma bella noite. O mar era de rosas, mas o reflux começava; excellente momento para partir. Gilliatt teria a vasanto para sahir das Douvres, e a enchente para entrar era Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.

Mas apresentou-se um obstaculo inesperado, Houve uma lacuna na providencia de Gilliatt.

A machina estava livre, o cano estava preso.

A maré approximando a _pança_ da Durande, tinha diminuido os perigos da descida; mas essa diminuição de intervallo deixou a parte superior do cano mettida na especie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.

O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação. Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.

É verdade que aquillo que a enchente fizera, ia desfazel-o a vasante.

O cano, tendo mais de tres toezas de altura, tinha uns oito pés mettidos na Durande; o nivel d'agua abi baixaria doze pés; o cano descendo com a _pança_, teria quatro pés de espaço acima de si, e poderia sahir.

Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.

D'ahi a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sahir áquella hora, que canal tomaria atravez daquelles cachopos, já tão inextrincaveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?

Era força esperar até o dia seguinte. Aquellas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.

Era mesmo necessario não adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso até a maré proxima.

Gilliatt devia repousar.

Cruzar os braços, era a unica cousa que elle não tinha feito desde que estava no escolho Douvres.

Irritou-o, indignou-o quasi, como se fosse culpa delle, aquelle descanso. Disse comsigo: Que pensaria de mim Deruchette se me visse aqui sem fazer nada?

Comtudo não lhe era inutil refazer as forças.

Estando a _pança_ á sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite á bordo.

Foi buscar a pelle de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou tres castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os ultimos goles da agua doce do pichel quasi vasio, embrulhou-se na pelle cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da machina, abaixou o chapéo sobre os olhos e adormeceu.

Dormio profundamente. Tem-se daquelles somnos depois das obras acabadas.

X

AS ADVERTENCIAS DO MAR

No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.

Abrio os olhos.

As Douvres, acima da cabeça delle, estavam illuminadas como pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.

D'onde vinha o fogo?

Da agua.

O mar estava extraordinario.

Parecia que a agua incendiava-se. Aonde os olhos alcançavam, no escolho e fora do escolho, flammejava o oceano. Não era uma flamma vermelha; não se parecia com a grande flamma viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruido. Rastilhos azulados imitavam n'agua as dobras de uma mortalha. Um grande clarão livido, estremecia n'agua. Não era incendio; era o espectro delle.

Era uma cousa semelhante ao abrazamento livido do interior de um sepulchro por uma chamma ideal.

Imaginai trevas accesas.

A noite, a vasta noite turva e diffusa, parecia ser um combustivel daquelle fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquella luz phantasma.

Os marinheiros da Mancha, conhecem todas essas indescriptiveis phosphorescencias, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais surprehendentes, do que no Grande V, perto de Isigny.

Diante desta luz as cousas perdem a realidade. Uma penetração phantastica toma-as como que transparentes. Os rochedos são apenas lineamentos. Os cabos das ancoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo d'agua. Metade do remo é de ebano, a outra metade debaixo d'agua é de prata. Os pingos d'agua que cahem dos remos fazem estrellas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sahe calçada de chamma: é uma chamma morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vê-se as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas. A espuma scintilla. Os peixes são linguas de fogo, e uns pedaços de relampago serpenteam n'aquella pallida profundidade.

Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as palpebras fechadas.

Acordou a tempo.

A maré tinha descido; começava a encher de novo.

O cano da machina, solto durante o somno de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.

Subia lentamente.

Mais palmo e meio e o cano estaria dentro da Durande.

Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt se quizesse aproveitar a occasião tinha essa meia hora diante de si.

Levantou-se sobresaltado.

Por mais urgente que fosse a situação, elle não pôde deixar de ficar alguns instantes de pé, contemplando a phosphorescencia e meditando.

Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por elle, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt. Aquelle ente mysterioso que se chama oceano, não podia ter nenhuma idéa que Gilliatt não a adevinhasse. Gilliatt, á força de observação, de scisma e de solidão, tornára-se um vidente do tempo, aquillo que se chama em inglez um _wheater wise._

Gilliatt correu ás amarras e guindou-as; depois já não estando retido pelas ancoras, travou do croque da _pança_, e apoiando-se nas rochas affastou-a para fóra algumas braças distante da Durande perto do tapamento de taboas. Havia _rang_, como dizem os maritimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a _pança_ estava fóra do casco. Já não havia receio de que o cano podesse ficar preso.

Entretanto Gilliatt, não se mostrava disposto a partir.

Contemplou ainda a phosphorescencia e levantou as ancoras; mas não era para navegar, era para ancorar de novo a _pança_, e muito solidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.

Até então só tinha usado das duas ancoras da _pança_, e não tinha ainda empregado a pequena ancora da Durande, achada como se sabe nos cachopos. Essa collocou-a elle, prompta para as urgencias, num canto da _pança_ entre maromas e polés, e juntamente o cabo guarnecido de boças. Gilliatt deitou ao mar essa terceira ancora tendo cuidado de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da ancora ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a _pança_ com tres ancoras o que era mui forte. Indicava isto uma viva preoccupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria nessa operação, alguma cousa semelhante a um deitar ferros obrigado, quando ha a receiar uma corrente que possa fazer garrar o navio.

A phosphorescencia sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos, ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo servia-o. Se não fosse ella, Gilliatt era prisioneiro do somno e victima da morte. Ella não só o dispertou, senão que o alumiava tambem.

Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe util porque tornou-lhe o perigo visivel e a manobra possivel.

Agora quando Gilliatt quizesse abrir vella, a _pança_, carregando a machina, estava livre.

Sómente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a pança, foi elle buscar a mais forte corrente que tinha no deposito e prendeu-a nos pregos mettidos nas duas Douvres, fortificou com ella o baluarte de vergas e barrotes já protegido pela lado de fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.

A phosphorescencia ainda illuminava, mais ia diminuindo. É verdade que o dia começava a romper.

De repente Gilliatt prestou ouvidos.

XI

PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA

Pareceu-lhe ouvir, immensamente longe, um quê fraco e indistincto.

As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.

Gilliatt attentou pela segunda vez. O rumor longiquo recomeçou. Gilliatt sacudio a cabeia como quem sabia o que era.

Momentos depois, estava elle na outra extremidade da viella do escolho, na entrada de leste, livre até alli, e com grandes martelladas, metteu grossos prégos no granito dos portaes daquella abertura visinha do rochedo Homem.