Part 2
Muita gente experta, e digna de credito, affirmava ter visto, perto dessas pedras, Gilliatt conversando com um sapo. Ora, não ha sapos em Guernesey; Guernesey tem todas as cobras, e Jersey todos os sapos. Aquelle sapo veio naturalmente de Jersey, a nado, para fallar a Gilliatt. A conversa era amigavel.
Todos estes factos estavam averiguados; e a prova disso é que as tres pedras lá estão. Quem duvidar póde ir vel-as, e mesmo á alguma distancia, ha uma casa em cuja esquina lê-se isto: _mercador de gado morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e fumo de mascar; é prompto na paga e na attenção._
Só de má fé se póde contestar a existencia daquellas pedras e daquella casa. Tudo isso fazia mal a Gilliatt.
Só os ignorantes não sabem que o maior perigo dos mares da Mancha é o que se chama _rei dos Auxcriniers._ Não ha personagem maritimo mais temivel. Quem o vê naufraga logo entre uma e outra Saint Michel. É pequeno e surdo, por ser anão e rei. Sabe o nome de quantos morreram no mar, e em que lugar estão. Conhece a fundo o cemiterio Oceano. Cabeça larga em baixo, e estreita em cima, corpo cheio, barriga viscosa e disforme, nodosidades no craneo, pernas curtas, braços compridos, barbatanas em vez de pés, garras em vez de mãos, cara larga e verde, tal é aquelle rei. As garras são achatadas, as barbatanas tem unhas. Imaginem um peixe, com cara de homem, e fórma de espectro. Para vencel-o, é preciso exorcismal-o ou pescal-o. Fóra disso, é sinistro. Vel-o é perigoso. Descobre-se acima das ondas e do marulho, atravez da espessura do nevoeiro, umas feições de gente; testa curta, nariz esborrachado, orelhas chatas, boca immensa e sem dentes, beiços esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e grandes. O rei torna-se vermelho quando o relampago é livido, descorado quando o relampago é vermelho. Tem barba gotejante e rigida, cortada em quadro, que lhe cahe sobre uma membrana em fórma de mantéo de peregrino; o mantéo é adornado de quatorze conchas, sete na frente, sete nas costas. As conchas são extraordinarias para os que conhecem conchas. O rei só é visivel no mar violento. É o dansarino lugubre da tempestade. Vê-se a fórma delle esboçada no nevoeiro e na chuva. O umbigo é hediondo. Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris á semelhança de collete. O rei levanta-se de pé, sobre as vagas que irrompem á pressão dos ventos e vão rolar-se como os cavacos que sahem do rabote do marcineiro. Conserva-se todo fora da espuma, e quando avista ao longe navios em perigo, entra a bailar, descorado na sombra, com a face illuminada por um vago sorriso, feio e demente no aspecto. Máo encontro esse.
Na epocha em que Gilliatt era uma das preoccupações de Saint-Sampson, as ultimas pessoas que tinham visto o rei da Mancha, declaravam que já não havia no mantéo mais de treze conchas. Treze; era mais perigoso ainda. Mas onde foi parar a outra concha? Deu-a a alguem? A quem seria? Ninguem podia dizel-o, todos se limitavam ás conjecturas. O que é certo é que o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem de posição, proprietario taxado em quatorze bairros, estava prompto a jurar que vira uma vez, nas mãos de Gilliatt, uma concha muito exquisita.
Não raras vezes se ouviam os camponios conversarem entre si:
--Visinho, não é verdade que este boi é magnifico?
--Inchado, visinho.
--Homem, é verdade.
--Tem mais sebo do que carne.
--Devéras!
--Estaes certo de que Gilliatt não lhe pôz os olhos em cima?
Gilliatt parava nos campos, ao pé dos lavradores, e nos jardins ao pé dos jardineiros, e dizia-lhes palavras mysteriosas:
--Quando florecer a scabiosa, semea o centeio.
--O freixo enfolha, acaba-se a neve.
--Solsticio de verão, cardo em flôr.
--Se não chover em Junho, o trigo ha de espigar. Tomem cuidado com as plantas nocivas.
--A cerejeira está dando fructos, desconfia da lua cheia.
--Se o tempo, no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto dia ou como no quinto, ha de ser o mesmo em toda a lua, nove vezes em doze no primeiro caso, e onze vezes em doze no segundo.
--Vigia o teu visinho com quem andas em processo. Cautella com as espertezas. Porco que bebe leite quente, estoira. Vacca que leva alho nos dentes, não come.
--O peixe está gerando, guarda-te das febres.
--As rãs apparecem, semea os melões.
--A anemona enflora, semea a cevada.
--A tilia enflora, ceifa os campos.
--O choupo enflora, fecha as estufas.
E, cousa terrivel, quem seguisse os seus conselhos acha-los-hia muito bons.
Uma noite de Junho, em que elle tocava _o bug pipe_, sobre os cabedellos da praia, do lado da Damie de Fontenelle, não se pode pescar uma só cavalla.
Outra noite, vasando a maré, aconteceu tombar na praia, em frente da casa mal assombrada, uma carreta cheia de sargaço. Gilliatt receiou naturalmente ser chamado á justiça, pois atirou-se a levantar a carreta, pondo-lhe outra vez toda a carga que se espalhara no chão.
Uma menina da visinhança tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a Saint-Pierre Port, trouxe de lá um unguento e esfregou a cabeça da pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova que foi elle quem lh'os deitou.
Sabe toda a gente que ha feitiço para fazer criar piolhos na cabeça dos outros.
Dizia-se que Gilliatt olhava para os poços, o que é perigoso quando é máo olhado; e o caso é que um dia, nos Arculons, a agua de um poço tornou-se doentia. A dona do poço disse a Gilliatt: _veja esta agua._ E apresentou-lhe um copo cheio. Gilliatt confessou. _A agua está grossa_, disse elle; _é exacto._ A boa mulher que desconfiava disse-lhe. _Pois cure-a._ Gilliatt perguntou-lhe se ella tinha algum curral, se o curral tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do poço. A boa mulher disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o rego do esgoto, e a agua do poço ficou boa. Ora, pensava a gente da terra, nenhum poço fica insalubre, nem é curado depois, sem motivo; a doença do poço não é natural; é difficil não acreditar que Gilliatt tenha enguiçado a agua.
De uma vez, tendo ido a Jersey, foi alojar-se em S. Clemente, em uma rua cujo nome quer dizer _almas do outro mundo._
Nas aldeâs, colhem-se os indicios, comparam-se: o total faz a reputação de um homem.
Aconteceu um dia que Gilliatt foi sorprehendido a deitar sangue pelo nariz. Cousa grave. Um patrão de lancha, grande viajante, que fez quasi a volta do mundo, afirmou que havia uma terra, onde todos os feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um homem deita sangue pelo nariz, já toda a gente sabe como se haver com elle. Todavia algumas pessoas de juizo observaram que aquillo que caracterisa os feiticeiros em uma terra, pode não caracterisa-los em outra.
Nos arredores de Saint-Michel, vio-se Gilliatt parado em uma horta dos Huriaux, ao pé da estrada real de Videclins. Gilliatt assobiou, e pouco depois veio um corvo, e depois uma pega. O facto foi attestado por um homem notavel que pertenceu depois a uma commissão encarregada de fazer um novo livro de medidas.
No Hamel, ha mulheres velhas que diziam estar certas de ter ouvido, ao romper da manhã, umas andorinhas chamando por Gilliatt.
A isto deve accrescentar-se que Gilliatt não era bom.
Um dia um pobre homem battia um asno, que tinha empacado. Deu-lhe algumas tamancadas na barriga, o animal cahio. Gilliatt correu para levanta-lo; estava morto. Gilliatt esbofeteou o pobre homem.
N'outra occasião, vendo um rapaz descer de uma arvore com um ninho de passarinhos ainda implumes, Gilliatt tirou o ninho ao rapaz, e levou a crueldade ao ponto de restitui-lo ao seu lugar na arvore.
Uns viandantes censuraram-no por isso; Gilliatt não fez mais do que apontar para o pai e a mãe dos passarinhos que guinchavam por cima da arvore e voltavam para o ninho. Tinha queda pelos passaros. É um signal este que faz conhecer geralmente os bruxos.
Os rapazes gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelandos no penedio das costas. Trazem comsigo grande porção de ovos azues, amarellos, e verdes, para armar com elles a frente das lareiras. Como os penedos estão a pique, acontece-lhes ás vezes escorregarem, cahirem e morrerem. Nada mais lindo que uma varanda adornada com ovos de passaros do mar. Gilliatt já não sabia que inventar para fazer mal aos rapazes. Trepava, com risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava ahi molhos de feno, com chapéos velhos em cima, e tudo quanto pudesse servir de espantalho, para arredar os passaros, e por consequencia as crianças.
Por tudo isto Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por todos. Não precisava tanto para se-lo.
V
OUTROS PONTOS AMBIGUOS DE GILLIATT
Não estava fixa a opinião acerca de Gilliatt.
Geralmente era tido por _marcou._ Outros acreditavam mesmo que fosse filho do diabo.
Quando uma mulher, tem do mesmo homem, sete filhos machos consecutivos, o setimo é _marcou._ Mas para isso, é necessario, que nenhuma filha venha interromper a serie dos rapazes.
O _marcou_,--tem uma flôr de liz impressa em uma parte do corpo, donde resulta que aproveita tanto aos escrophulosos como aos reis de França. Em França ha _marcous_ em toda a parte, especialmente na provincia de Orleans. Cada aldêa do Gatinais tem o seu _marcou._ Para curar os doentes basta que o _marcou_ sopre nas chagas ou lhes faça tocar a flôr de liz. O remedio é efficaz, principalmente quando applicado na noite de sexta-feira maior. Ha uma dezena de annos, o _marcou_ d'Ormes, no Gatinais, appellidado o _Formoso Marcou_, e consultado por toda a Beauce, era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavallo e carruagem. Para pôr cobro aos seus milagres foi preciso intervir a policia. Tinha elle a flôr de liz embaixo do peito esquerdo. Outros _marcous_ têm-n'a em lugar diverso.
Ha _marcous_ em Jersey, em Aurigny, e em Guernesey. Parece que isto procede dos direitos que tem a França sobre o ducado da Normandia. A não ser assim, porque haveria ali a flôr de liz?
Como ha tambem nas ilhas da Mancha muitos escrophulosos, os _marcous_ são necessarios.
Em um dia estando Gilliatt a banhar-se no mar, diante de algumas pessoas, julgaram estas ter-lhe visto no corpo a flôr de liz. Interrogado a esse respeito, por unica resposta pôz-se a rir. Gilliatt ria ás vezes como os outros homens. Mas desde esse dia nunca mais o viram tomar banho. Começou então a banhar-se em lugares solitarios e perigosos. Provavelmente á noite, e em noites de luar; o que, hão de convir, é cousa um tanto suspeita.
Os que se obstinavam em crê-lo filho do diabo (_cambiou_), enganavam-se evidentemente. Deviam saber que só os ha na Allemanha. Mas o Valle e Saint-Sampson eram ha cincoenta annos paizes ignorantes.
Acreditar em Guernesey que alguem é filho do diabo, por força que ha nisso exageração.
Por isso mesmo que Gilliatt inquietava o populacho era muito consultado. Os camponios aterrorisados iam conversar com elle acerca dos seus achaques. Aquelle terror equivalia a meia confiança, e no campo, quanto mais suspeito é o medico mais efficaz é o remedio que elle dá. Gilliatt tinha medicamentos propriamente seus, herdados da finada velha. Dava-os a quem lh'os pedia, e não recebia dinheiro. Curava os panaricios com applicações de hervas; o liquido de um dos seus frascos cortava a febre; o chimico de Saint-Sampson, que chamariamos pharmaceutico em França, pensava que era uma decocção de quina. Os menos benevolos convinham em que Gilliatt era excellente diabo para os doentes, quando se tratava de seus remedios ordinarios; mas, como _marcou_ não queriam ouvir nada; se algum escrophuloso pedia-lhe para tocar a flôr de liz, a resposta de Gilliatt era fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer milagres, cousa ridicula em um feiticeiro. Não sejas feiticeiro, mas se o és, faze o teu officio.
Havia uma ou duas excepções nesta antipathia universal. O Sr. Landoys, do Clos-Landés, era escrivão da parochia de Sain-Pierre Port, encarregado das escripturas, e guarda dos registros dos nascimentos, casamentos e obitos. Jactava-se o escrivão de descender do thesoureiro da Bretanha, Pedro Landoys, enforcado em 1485.
Estando uma vez a banhar-se, o Sr. Landoys affastou-se da praia, e quasi se affogou; Gilliatt atirou-se á agua, affogou-se quasi, mas salvou Landoys. Desde esse dia Landoys não fallou mal de Gilliatt. Aos que se admiravam disso, respondia elle: _Como hei de aborrecer um homem que não me fez mal, e até me prestou um serviço?_ O escrivão chegou mesmo a ser amigo de Gilliatt. Não era homem de preconceitos. Não acreditava em feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro mundo.
Tinha uma canôa, pescava nas horas de descanço para divertir-se, e nunca vio cousa alguma extraordinaria, a não ser, em certa noite de luar, um vulto branco de mulher, que pulava na agua, e ainda assim não estava muito certo. Moutonne Gahy, feiticeira de Torteval, dera-lhe um saquinho para atar debaixo da gravata, afim de afugentar os espiritos; Landoys zombava do sacco, e não sabia o que havia dentro; mas sempre andava com elle, e sentia-se assim mais seguro.
Algumas pessoas audazes, acompanhando o Sr. Landoys, arriscaram-se a reconhecer em Gilliatt certas circumstancias attenuantes, algumas apparencias de qualidades, a sobriedade, a abstinencia do _gin_ e do tabaco, e chegavam ás vezes a fazer delle este bello elogio. _Não bebe, não fuma, nem masca._
Mas a sobriedade é uma qualidade, quando o individuo possue outras.
Gilliatt inspirava a aversão publica.
Fosse o que fosse, como _marcou_, Gilliatt podia prestar serviços. Em uma sexta-feira maior, á meia noite, dia e hora usados para esses curativos, todos os escrophulosos da ilha, por inspiração, ou combinação, foram em massa á casa mal assombrada, e com as mãos postas, pediram a Gilliatt que os curasse. Gilliatt recusou. Reconheceu-se nisto a sua perversidade.
VI
A _PANÇA_
Tal era Gilliatt.
As raparigas achavam-n'o feio.
Gilliatt não era feio. Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do barbaro antigo. Quieto, parecia um Dacio da columna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admiravel forma acustica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem audacioso e perseverante. Cahiam-lhe os dous cantos da boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar sahia-lhe firme de dentro da palpebra franca, posto que elle tivesse aquelle piscar d'olhos que os pescadores adquirem com a reverberação das vagas. O riso era pueril e delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus dentes. Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quasi negro. Não se affronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta annos, mostrava quarenta e cinco. Tinha a sombria mascara do vento e do mar.
Puzeram-lhe a alcunha de Finorio.
Diz uma fabula da India: Um dia Brahma perguntou á Força: quem é mais forte que tu? A Força respondeu: É a Astucia. Diz um proverbio chinez: Quanto não poderia o leão, se fosse macaco?
Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as cousas que elle fazia apoiavam o proverbio chinez e a fabula indiana. De estatura commum e força ordinaria, Gilliatt, tão inventiva e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar prodigios de athleta.
Era um pouco gymnasta; servia-se tanto da mão direita como da esquerda.
Não caçava, pescava. Poupava os passaros, não os peixes. Ai dos que são mudos!
Era nadador excellente.
A solidão faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dous aspectos. Ás vezes mostrava o _ar espantado_, de que fallámos, e dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma certa profundidade no olhar. A antiga Chaldea teve homens assim: a certas horas, a opacidade do pastor tornava-se transparente e deixava vêr o mago.
Em summa, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. É provavel que estivesse no limite que separa o sonhador do pensador. O pensador impõe, o sonhador obedece. A solidão domina os animos simplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A sombra em que entrava o espirito de Gilliatt compunha-se, em partes quasi iguaes, de dous elementos, obscuros ambos, mas differentes; dentro delle, a ignorancia,--enfermidade; fóra delle, o mysterio,--immensidade.
Á força de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar no archipelago, qualquer que fosse o tempo, de manobrar a primeira embarcação que apparecesse, de arriscar-se dia e noite nos canaes mais difficeis, tornou-se, sem tirar lucro disso, e só por fantasia e satisfação, um admiravel homem do mar.
Nasceu piloto. O verdadeiro piloto é o marinheiro que navega mais no fundo que na superficie. A vaga é um problema exterior, continuamente complicado pela configuração sub-marina dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos baixios e atravez dos arrecifes do archipelago normando, que elle tinha debaixo da aboboda do craneo um mappa do fundo do mar. Sabia tudo e affrontava tudo.
Conhecia as balisas melhor do que os corvos marinhos que lá se vão empoleirar. As differenças imperceptiveis que distinguem as quatro balisas do Creux, do Alligande, de Tremies e da Sardrette eram perfeitamente claras para elle, ainda no meio do nevoeiro. Não hesitava sobre a estaca de cabeça oval, de Anfré, nem o chuço tridente, de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de Longue-Pierre, e não havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada fincada no chão, de Platte, nem a balisa-martello, de Barbées com a balisa cauda de andorinha, de Moulinet.
Mostrou singularmente a sua rara sciencia de maritimo num dia em que houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam regatas.
A questão era esta: ir só em uma embarcação de quatro velas; leval-a de Saint-Sampson á ilha de Herm, distante uma legua, e trazel-a de novo de Herm a Saint-Sampson. Manobrar sosinho um barco de quatro velas, não ha pescador que o não faça, e a differença não é grande; mas eis o que aggravava o caso; primeiramente, a embarcação era uma dessas chalupas de outro tempo, com grande bojo, á moda de Rotterdam, que os marinheiros do seculo passado appellidavam _panças hollandezas._ Acha-se ainda algumas vezes no mar essa velha construcção da Hollanda, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas azas que se vão abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha. A segunda difficuldade, era a volta de Herm, volta complicada por um pesado lastro de pedras.
O premio da justa era a chalupa. De antemão estava dada ao vencedor. A _pança_ servira de barco-piloto; o piloto que navegara nella durante vinte annos era o mais robusto marinheiro da Mancha; quando morreu não houve ninguem que quizesse governar o barco e decidiram fazer delle um premio de regata. A _pança_, embora não tivesse coberta, tinha qualidades boas e podia tentar um manobrista. Era mastreada na frente, o que augmentava a força de tracção do velame. Outra vantagem, o mastro não impedia a carga. Era uma concha solida; pesada, mas vasta, e supportando bem o mar. Houve empenho em disputal-a; a luta era rude, mas o premio era magnifico. Apresentaram-se sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram um por um; nenhum delles pôde ir a Herm. O ultimo que luctou era conhecido por ter passado a remos, com tempo máo, o terrivel redomoinho, que ha entre Serk e Brecq-Hou. Escorrendo em suor, trouxe elle a _pança_ e disse: É impossivel. Foi então que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e depois a grande escota, e fez-se ao largo. Depois, sem atar a escota, o que seria imprudencia, e sem largal-a, o que lhe dava o dominio da vela grande, deixando a escota rolar á feição do vento sem descahir, segurou com a mão esquerda a cana do leme. Dentro de tres quartos de hora estava em Herm. Tres horas depois, posto que soprasse então um forte vento do sul, atravessando a barra, a _pança_, governada por Gilliatt, entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt trouxe, por luxo e bravata, além do carregamento, um pequeno canhão de bronze de Herm, com que a gente da ilha salvava todos os annos, a 5 de Novembro, em regosijo pela morte de Guy Fawkes.
Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu ha duzentos e sessenta annos; foi uma grande satisfação.
Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o canhão na barca, e o vento sul na vela, voltou a Saint-Sampson.
Vendo isto, mess Lethierry exclamou: ora aqui está um marinheiro atrevido!
E estendeu a mão a Gilliatt.
Tornaremos a fallar de mess Lethierry.
A _pança_ foi entregue a Gilliatt.
Esta aventura não lhe destruio a alcunha de Finorio.
Algumas pessoas declararam que a cousa não era para admirar, visto que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira sylvestre. Mas ninguem pôde provar isso.
Desde esse dia, Gilliatt não teve outra embarcação. Naquella pesada chalupa é que elle ia á pesca. Amarrava-a no excellente ancoradourosinho que tinha só para seu uso, debaixo do muro da casa mal assombrada. Ao cahir da noite, atirava a rede ás costas, atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras seccas, rolava de rochedo em rochedo, e saltava na barca. Dahi fazia-se ao mar.
Pescava muito peixe, mas affirmava-se que o galho de nespereira estava sempre atado á chalupa. Ninguem o vio nunca, mas toda a gente acreditava.
Não vendia, dava o peixe que lhe sobrava.
Os pobres acceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa do ramo embruchado. Não se deve trapacear com o mar.
Era pescador, mas não era só isso. Tinha aprendido por instincto ou por distrahir-se, tres ou quatro officios. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate e até um pouco mecanico. Ninguem concertava uma roda como elle. Fabricava de um modo especial, todos os seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja e uma bigorna, e, não tendo a chalupa mais que uma ancora, fez-lhe outra, elle só. Excellente ancora era essa; a argola tinha a força requerida, e Gilliatt, sem que ninguem lh'o ensinasse, achou a dimensão exacta que devia ter o cepo da ancora para que ella não voltasse.
Substituio com toda a paciencia, os pregos das bordas por cavilhas, tornando assim impossivel a ferrugem.
Deste modo augmentou muito as boas qualidades da _pança._ Aproveitava-se della para ir de quando em quando passar um ou dous mezes em alguma ilhota solitaria como Chousey ou Casquets. Dizia-se então: Olhem, Gilliatt está fóra. Ninguem se incommodava por isso.
VII
CASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONARIO
Gilliatt era o homem do sonho. Vinham dahi as suas audacias e as suas hesitações. Tinha idéas propriamente suas.
Havia talvez nelle a ligação do allucinado e do illuminado. A allucinação entra na cabeça de um camponio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz sorprezas ao espirito do homem. Rasga-se bruscamente a sombra, deixa ver o invisivel; depois fecha-se. Taes visões são ás vezes transfiguradoras; de um conductor de camellos faz Mahomet, de uma cabreira faz Joanna d'Arc. A solidão desprende uma certa quantidade de desvario sublime. É o fumo da sarça ardente. Resulta dahi um mysterioso extremecer de idéas: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o propheta; resulta Horeb, Cédron, Ombos, a embriaguez do louro mastigado da Castalia, as revelações do mez Busion; resulta Peleia em Dodona, Phemonoë em Delphos, Trophonius em Lebadéa, Ezequid no Kebar, Jeronymo na Thebaida. Na maior parte dos casos o estado visionario abate o homem, e o embrutece. O embrutecimento sagrado existe. O fakir carrega a sua visão, como o habitante alpino a sua papeira. Luthero fallando aos diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o biombo do seu gabinete, o abi negro dialogando com o deos branco, chamado Bossum, é o mesmo phenomeno, diversamente produzido, segundo a força e a dimensão de cada cérebro. Luthero o Pascal são e ficam sendo grandes; o abi negro é imbecil.
Gilliatt não era tanto, nem tão pouco. Era um pensativo. Nada mais.
Contemplava a natureza de um modo singular.