Part 18
A abobada com os seus lobulos quasi cerebraes e as suas ramificações semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de chrysopraso. O chamalote da onda, reverberado no tecto, decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com um movimento de dansa mysteriosa. Sahia dalli uma impressão espectral; o espirito podia perguntar que preza ou que espera era aquella que fazia tão alegremente aquelle magnifico filete de fogo vivo. Nos relevos da abobada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegetações banhando provavelmente as raizes atravez do granito em alguma toalha de agua superior, e desbagando, nas pontas, uma gota d'agua, uma perola. Essas perolas cahiarn no golphão com um pequeno rumor. Todo esse conjuuto era inexprimivel. Não se podia imaginar nada mais lindo nem mais lngubre.
Era alli o palacio da Morte, alegre.
XIII
O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ
Sombra que deslumbra, tal era aquelle sitio sorprehendente.
A palpitação do mar fazia-se sentir naquella cava. A oscillação externa inchava e depremia a toalha de agua interior com a regularidade de uma respiração. Cuidava-se vêr uma alma mysteriosa naquelle grande diaphragma verde elevando-se e abaixando-se em silencio.
A agua era magicamente limpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estações immersas, superficie de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondaveis.
Dos dous lados do portico sub-marinho, esboços de cimbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas lateraes, pontos inferiores da caverna central, accessiveis talvez na época das marés extremamente baixas.
Essas anfractuosidades tinham tectos em plano inclinado, em angulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas excavações do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliquidades.
Longas hervas expessas, de mais de uma toeza, ondulavam debaixo d'agua como um balancear de cabellos ao vento. Entreviam-se florestas de sargaço.
Fóra d'agua, e dentro d'agua, toda a muralha da cava, de alto abaixo, desde a abobada até ao desapparecimento no invisivel, era tapetada dessas prodigiosas florescencias do oceano, tão raramente viaveis ao olho humano, que os velhos navegadores hespanhóes, chamaram _praderias del mar._ Expesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava as exostosis de granito. De todos os declives rompiam os delgados lóros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem barometros. O halito obscuro da caverna agitava essas correas luzentes.
Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo, as mais raras joias do escrinio do oceano, os marfins, as mitras, os elmos, as purpuras, os buzios, os strultiolarios, as conchas univalvulas. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscopicas, adheriam ao rochedo e grupavam-se em aldèas, em cujas ruas rolavam as multivalvulas, esses escarabeos da vaga. Não podendo os seixos de marisco entrar facilmente nessa grota, ahi se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contacto do populacho das pedras. A fulgida reunião das conchas fazia debaixo d'agua, em certos lugares, ineffaveis irradiações atravez das quaes entrevia-se um grupo de azues e vermelhos, e todos os reflexos da agua.
Na parede da caverna, um pouco ácima da linha de flutuação da maré, uma planta magnifica e singular, prendia-se como um debrum á tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quasi negra, offerecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas côr de lapiz lazuli. Na agua parecia que essas flôres accendiam-se, e cuidava-se vêr brazas azues. Fóra da agua eram flôres, dentro da agua eram saphyras, de modo que a onda, subindo e innundando o esvazamenlo da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbunculos.
A cada enchimento da vaga tumida como um pulmão, essas flôres banhadas, resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancolica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração que é a morte.
Uma das maravilhas daquella caverna era a rocha. Essa tocha, ora muralha, ora cymbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturaes. Um não sei quê, aliás de espirito, misturava-se á estupidez massiça da pedra. Que artista não é o abysmo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro e cheio de altos e baixos, representando attitudes, figurava um vago baixo-relevo; ante essa esculptura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometteo esboçando para Miguel Angelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o genio poderia acabar o que o gigante começara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinham almofadas que pareciam bronze de Corintho, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra runica tinha signaes de unha obscuros e improvaveis. Plantas com ramos torcidos em forma do verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na filagranas. Era um antro e uma alhambra. Era o encontro da selvageria e da ourivesaria na augusta e disforme architectura do acaso.
O magnifico bolor do mar avelludava os angulos do granito. As pedras estavam adornadas de lianas grandi-flôres, tão destras que não cahiam, e pareciam intelligentes tão bem adornavam ellas.
Parietarias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tuffos a proposito e com gosto. Havia alli a casquilhice possivel numa caverna. A sorprehendente luz edenica que vinha debaixo d'agua, a um tempo penumbra marinha e radiação paradisiaca, esfumava todos os lineamentos em uma especie de diffusão visionaria. Cada vaga era um prisma. O contorno das cousas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o chrosmatismo das lentes d'optica demasiado convexas; spetros solares fluctuavam debaixo da agua.
Acreditar-se-hia ver torcer-se nessa diaphaneidade auroreal pedaços de arco-iris afogados. Em outros lugares havia nagua um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados alli para fazer um quê de cego e de nocturno. Nada mais impossivel e enigmatico do que aquelle fasto naquella cava. O que dominava alli era o encanto. A vegetação phantastica e a stratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de bello effeito aquelle consorcio de cousas medonhas. Penduravam-se as ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o affago da rocha selvagem e da flôr ruiva.
Pilares massiços tinham por capiteis e por ligaduras, frageis e tremulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo cocegas nas patas de um hypopotamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.
Resultava dessa difformidade mysteriosamente ajustada uma belleza soberana. As obras da natureza, não menos supremas que as obras do genio, contém o absoluto e impoem-se. O inesperado dellas faz-se obedecer imperiosamente pelo espirito; sente-se uma premeditação que fica fora do homem, e ellas não são mais sorprehendentes do que quando fazem subitamente sahir o delicado do terrivel.
Aquella grota estava por assim dizer, e se tal expressão é admissivel, sederalisada. Sentia-se alli o imprevisto do espanto. O que enchia aquella crypta, era luz do apocalypse. Não havia certeza de que aquillo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de impossivel. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difficil crer.
Era luz aquillo que jorrava daquella janella debaixo d'agua? Era agua aquillo que tremia naquella bacia obscura? Aquelles cimbrios e porticos não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquella que se pisava? Aquelle apoio não ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era aquella que se entrevia? Que distancia havia dalli á vida, á terra, aos homens? Que encanto era aquelle misturado áquellas trevas? Commoção inaudita, quasi sagrada, á qual misturava-se a doce inquietação das hervas no fundo d'agua.
Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma archivolta cyclopica singularmente correcta, em um buraco quasi indistinto, especie de antro no antro, especie de tabernaculo no sanctuario, atraz de uma toalha de luz verde, interposta como um véo de templo, descobria-se fora d'agua uma pedra de angulos cortados em quadro com uma parecença de altar. A agua circumdava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido d'alli. Era impossivel deixar de pensar, debaixo d'aquella crypta, em cima daquelle altar, em alguma nueza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era difficil conceber aquella celula augusta sem uma visão dentro della; a apparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um rorejar de casta luz sobre espaduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto olympico, uns mysteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparra em uma aurora, uns quadris ineffaveis modelados em luz pallida, no meio da sagrada bruma, umas fórmas de nympha, um olhar de virgem, uma Venus sahindo do mar, uma Eva sahindo do cahos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação. Era inverosimil que não estivesse antes um phantasma naquelle lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter occupado aquelle altar. Sobre aquelle pedestal, d'onde emanava um estasis inexprimivel, imaginava-se uma alvura, viva e de pé. O espirito creava, no meio da adoração muda daquella caverna, uma Amphitrite, uma Tethys, alguma Diana que podesse amar, estatua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ella quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquella claridade, especie de perfume--luz sahido daquelle corpo-estrella. A fascinação daquelle fantasma já não estava alli; já se não via a figura, feita para ser vista sómente pelo invisivel, mas sentia-se; recebia-se aquelle estremecimento que é uma volupia. A deosa estava ausente, mas a divindade estava presente.
A bellesa do antro parecia feita para aquella presença. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos nacares, dessa rainha das brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa delia, ao menos suppunha-se isto, que o subterraneo estava religiosamente murado, afim de que nada perturbasse nunca, em derredor daquelle divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o silencio que é uma magestade.
Gilliatt, que era uma especie de vidente da naturesa, scismava, confusamente commovido.
De subito, alguns palmos abaixo delle, na transparencia encantadora daquella agua, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt vio alguma cousa inexprimivel. Uma especie de longo andrajo movia-se na oscillação das vagas. Esse andrajo não fluctuava, vogava; tinha a fórma de um sceptro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossivel de molhar-se cobria aquelle todo. Era mais que horrivel, era nojento. Tinha um quê de chimerico; era um ente, a menos que não fosse uma apparencia. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se alli. As espessuras da agua tornaram-se sombrias sobre aquella cousa que resvalou e desappareceu, sinistra.
LIVRO SEGUNDO
O trabalho
I
OS RECURSOS DAQUELLE QUE NÃO TEM RECURSOS
A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco commoda, a sahida foi ainda peior. Gilliatt entretanto safou-se, mas não voltou lá. Nada encontrou do que procurava, e não tinha tempo para ser curioso.
Poz immediatamente a forja em actividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.
Tinha por combustivel os destroços, a agua por motor, o vento por folles, uma pedra por bigorna, por arte o instincto, por força a vontade.
Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.
O tempo mostrava-se complacente. Continuava bello, e o menos equinoxial possivel. Chegára o mez de Março, mas tranquillamente. Os dias tornavam-se compridos. O azul do céo, a vasta doçura dos movimentos da extensão, a serenidade do meio dia, pareciam excluir qualquer intensão má. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um affago previo tempera as traições. A agoa marinha não é avara desses affagos. Com aquella mulher é preciso desconfiar do sorriso.
Havia pouco vento; a hydraulica soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.
Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra attacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas mãos do ferreiro, uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a pinça maneja; uma trabalha como a mão, a outra como o dedo. A ferramenta é um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construia as suas armaduras. Com um pedaço de ferro em folha fez uma anteparo na forja.
Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação das roldanas. Concertou as caixas e as rodas das polés. Cortou a exfoliação de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria, grande cópia de peças de madeira armazenadas, e apparelhadas, segundo as formas, as dimensões e as essencias, o carvalho de um lado, o pinheiro do outro, as peças curvas, como as porcas, separadas das peças direitas, como as que ligam as escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia precisar em um momento dado.
Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e polés mas não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as vellas rasgadas, e conseguio extrahir excellente fio com que compoz uma sarja, e cirzio o cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pôde fazer o massame sem ter alcatrão.
Concertou as cordas, concertou as correntes.
Pôde, graças á ponta lateral da bigorna, fazer aneis grosseiros, mas solidos; com esses aneis, prendeu uns aos outros os pedaços de corrente quebrados, e fez correntes compridas.
Forjar só, e sem auxilio, é mais do que incommodo. Comtudo Gilliatt conseguio fazêl-o. É certo que só teve de trabalhar na forja, peças de pequeno volume; podia meneal-as com uma mão, e martellar com a outra.
Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do commando; forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um lado uma ponta, do outro uma larga cabeça chata, e desse modo fez grandes prégos de palmo e meio. Esses prégos, muito usados em trabalhos maritimos, são uteis para fixar os páos nas pedras.
Porque motivo Gilliatt tomava todo este trabalho? Vêr-se-ha.
Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima triangular.
Servia-se tambem do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliat fez outra.
Com ajuda da pinça e da tenaz, e servindo-se da faca como de um virador emprehendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguio. É preciso não esquecer que isso era exequivel; essa era a particularidade da construcção das rodas. As caixas que as tinham coberto, serviram-lhes de capas; com as taboas das caixas, Gilliatt arranjou dous caixotes onde metteu peça por peça, as duas rodas cuidadosamente numeradas.
O pedaço de giz servio-lhe para essa numeração.
Arranjou os dous caixotes na parte mais solida do convez da Durande.
Terminados estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da difficuldade suprema. Surgio a questão da machina.
Desmontar as rodas foi possivel; desmontar a machina, não.
Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquelle mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconcerto irreparavel. Depois, mesmo para tentar desmontal-a peça por peça, se tivesse esta imprudencia, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que elle podia fazer n'uma caverna por officina, com o vento por folles, e uma pedra por bigorna. Tentando desmontar a machina arriscava-se a despedaçal-a.
Aqui podia-se crêr que estava diante do impraticavel.
Affigurou-se-lhe que estava ao pé deste muro: o impossivel.
Que fazer?
II
DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCONTRAR-SE COM ESCHYLO
Gilliatt tinha uma idéa.
Desde aquelle carpinteiro de Salbris que, no VI seculo, na infancia da sciencia, muito antes que Amoutons tivesse achado a primeira fricção, Labire a segunda, e Coulomb a terceira, sem conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho delle, com uma ferramenta informe, resolveu em massa, arreando o grande relogio da igreja de Charité-Sur-Loire, cinco ou seis problemas de statica e de dynamica, todos juntos, como as rodas de carros embaraçados; desde esse trabalhador extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de latão e sem desfazer um encaixe, arrear de uma só vez, por uma simplificação prodigiosa, do segundo andar da torre ao primeiro, aquella massiça gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma guarita, com o seu movimento, cylindros, tambores, ganchos, mostrador, pendula horisontal, ancoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos quaes um pesava quinhentas libras, tympano, carrilhão; desde esse homem que fez esse milagre, e cujo nome já se não sabe, jámais houve nada igual á empreza que Gilliatt commettia.
A operação de Gilliatt era talvez peior, isto é, mais bella ainda que a outra.
O peso, a delicadeza, o conjuncto das difficuldades, não eram menores na machina da Durande que no relogio de Charité-Sur-Loire.
O carpinteiro gothico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era só.
Havia uma população, vinda de Menug-Sur-Loire, de Nevers, e mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar o carpinteiro de Salbris, e animal-o com os seus rumores benevolos; Gilliatt só tinha á roda de si o rumor do vento e a multidão das ondas.
Nada se compara á timidez da ignorancia, a não ser a sua temeridade. Quando a ignorancia começa a ousar é que tem uma bussola comsigo. Essa bussola é a intuição da verdade, mais clara ás vezes num espirito simples que n'um espirito complicado.
Ignorar convida a tentar. A ignorancia é um devaneio, e o devaneio curioso é uma força. Saber, desconcerta ás vezes, e desaconselha muitas. Se Vasco da Gama soubesse recuára ante o Cabo das Tormentas. Se Christovão Colombo fosse bom cosmographo não teria descoberto a America.
O segundo que subio ao Monte Branco foi um sabio, Saussure; o primeiro foi um pastor, Balmat.
Taes casos, digamol-o de passagem, são a excepção, e tudo isto não tira nada á sciencia, que fica sendo a regra. O ignorante póde achar, só o sabio inventa.
A _pança_ continuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o mar a deixava tranquilla. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo de modo a ficar em livre pratica com a barca. Foi alli e mediu-a em diversos pontos. Depois voltou á Durande e mediu o grande diametro da machina. O grande diametro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto dous pés que o espaço da pança. Portanto, a machina podia entrar na barca.
Mas como metel-a ahi?
III
A OBRA PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA PRIMA DE LETHIERRY
Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir perlustrar aquellas paragens, em semelhante estação, teria pago a sua ousadia com a visão de uma cousa singular entre as Douvres.
Veria isto o pescador: quatro roubustas pranchas com espaços iguaes entre si, indo de uma Douvre á outra, e como que forçadas entre os rochedos, o que é a melhor solidez deste mundo. Do lado da pequena Douvre as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas da rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido violentamente espetadas na columna com um martello por um robusto trabalhador trepado na propria prancha. Essas pranchas eram um pouco mais longas que o intervallo das Douvres; dahi, a segurança e o plano inclinado em que estavam, formando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre em angulo agudo e a pequena em angulo obtuso. Era suave o declive, mas desigual, o que se tornava defeito. A essas quatro pranchas prendiam-se quatro polés guarnecidas todas de corda e boça, e tendo esta singularidade e ousadia, que a polé de rodas estava em uma extremidade da prancha e a polé simples na extremidade opposta. Este desvio de arte, tamanho que era perigoso, era provavelmente exigido pela necessidade da operação. As polés compostas eram fortes e as siraplices eram solidas. A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por baixo desse aparelho aereo de guindastes e taboas, o massiço casco da Durande parecia suspenso a esses fios.
Ainda não estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das pranchas, oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a bombordo e quatro a estibordo da machina, e mais oito debaixo dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no convez, depois sahiam pela carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e da machina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e subindo, atravessando, o convez, voltavam a prender-se nos quatros guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um rolo de um cabo unico podendo ser dirigido por um só braço. Um gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o cabo unico completavam o apparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta combinação obrigava as quatro polés a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de forças pendentes, leme de dynamica na mão do piloto da operação, mantinha a manobra em equilibrio. O ajustamento engenhoso do guincho tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Werton de hoje, e do antigo polypastono de Vitruvio. Gilliatt descobrio isso, sem conhecer Vitruvio, que já não existe, nem Werton, que não existia ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o desigual declive das pranchas, e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram perigosas, o maçame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas as correntes não poderiam passar com facilidade nas polés.
Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um só homem, era sorprehendente.
De mais, abreviemos a explicação. Comprehender-se-ha que ommittimos muitos pormenores que tornariam a cousa clara para as pessoas do officio, e obscura para as outras.
O cimo do cano da machina passava por entre as duas pranchas do meio.
Gilliatt, sem dar por isso, plagiario inconsciente do desconhecido, refez, a tres seculos de distancia, o mechanismo do carpinteiro de Salbris, mechanismo rudimentario e incorrecto, assustador para quem ousasse manobral-o.
Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros não impedem que um mechanismo funccione. O obelisco da praça de S. Pedro de Roma foi levantado contra todas as regras da statica. O coche do czar Pedro era construido de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto andava. Quantas difformidades na machina de Marly. Tudo alli era mal feito. Nem por isso deixou de dar de beber a Luiz XIV.
Fosse como fosse, Gilliatt tinha confiança. Contava até com o successo ao ponto de fixar na borda da _pança_, no dia em que lá foi, dous pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos dous lados da barca, nos mesmos espaços que as quatro argolas da Durande ás quaes se prendiam as quatro correntes do cano.
Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e definitivo. Tendo contra si todas as probabilidades, queria pôr todas as precauções do seu lado.
Fazia cousas que pareciam inuteis, signal de uma premeditação attenta.
A sua maneira de proceder desviava um observador, e mesmo um conhecedor.
Uma pessoa que o visse, por exemplo, com exforços inauditos e em risco de quebrar o pescoço, pregar com um martello oito ou dez grandes pregos que elle forjou, no esvasamento das duas Douvres, na entrada da garganta do escolho, comprehenderia difficilmente o motivo desses pregos, e perguntaria provavelmente porque razão fazia todo aquelle trabalho.