Part 17
Era um começo de hostilidades. Gilliatt comprehendeu isso.
É difficil, quando se vive em familiaridade com o mar não vêr no vento e nas rochas creaturas e personagens.
Só restava a Gilliatt, além do biscouto e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o naufrago morto de fome no rochedo Homem.
A pesca era impossivel. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha só servem para rasgar as redes.
Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com difficuldade escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo _lunch_ ouvio um estranho tumulto no mar. Olhou.
Era o bando de goelanos e gaivotas que cahia sobre uma das rochas baixas, batendo as azas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquella horda de bicos e unhas saqueava alguma cousa.
Essa cousa era o cesto de Gilliatt.
O cesto lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os passaros correram logo. Levaram no bico toda a especie de pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfisch.
Era a vez de entrarem tambem em luta os passaros. Faziam represalias. Gilliatt tomara-lhes a casa; elles tomavam-lhe a comida.
IX
O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR DELLE
Passou-se uma semana.
Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.
Mas o que elle emprehendia estava acima da força humana, em apparencia ao menos. O successo era de tal modo inverosimil que a tentativa parecia louca.
As operações encaradas de perto mostram os seus impecilhos e perigos. Basta começar para ver como é difficil concluir. Todo começo resiste. O primeiro passo que se dá é um revelador inexoravel. A difficuldade que se toca fere como um espinho.
Gilliatt teve logo de contar com o obstaculo.
Para salvar a machina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquelle lugar e naquella estação, parecia que seria necessario uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e machinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martello; precisava ter uma boa officina e um bom telheiro, Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e viveres, Gilliatt não tinha pão.
Alguem que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia elle. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava occupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufragio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufragio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar ahi depuzera, pedaços de velame, pedaços do corda, pedaços de ferro, taboas rasgadas, vergas destruidas, aqui um barrete, alli uma corrente, além uma roldana.
Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidades do escolho. Nenhum delles era habitavel, com grande decepção de Gilliatt que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.
Duas dessas anfractuosidades eram assaz espaçosas posto que o chão de rocha natural fosse quasi geralmente obliquo e desigual, podia-se andar alli de pé. A chuva e o vento entravam alli a gosto, as altas marés não lhes chegavam. Eram visinhas da pequena Douvre, e faceis de trepar á qualquer hora. Gilliatt decidio que uma seria um deposito e a outra uma forja.
Com todos os cabos que pôde recolher, fez pacotes dos restos do naufragio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos. Apertou tudo cuidadosamente. Á proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliat arrastava-os atravez dos recifes até o deposito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.
Gilliatt era tenaz e admiravel nesse trabalho. Fazia quanto queria. Nada resiste a um encarniçamento de formiga.
No fim da semana, Gilliatt tinha nesse deposito de granito todo o arsenal de objectos destruidos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as adrissas; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papafigos, as machadinhas, os cabos, e mil outros objectos, occupavam, urna vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos differentes; tudo quanto era de carpintaria estava á parte; de cada vez que era possivel, as taboas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas ás outras; não havia confusão de rises com viradores, nem pateraces, com enxarcias, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado á tabuiga da Durande, que apoiava os ovens do cesto de gavea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufragio estava alli classificado e com o rotulo competente. Era uma cousa semelhante ao cahos armazenado.
Uma vela de estaes, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.
Por mais quebrada que estivesse a prôa da Durande, Gilliatt conseguio salvar os dous cêpos da ancora, com as tres rodas de polé.
Achou o gurupés, e teve muito trabalho em desvencilhal-o das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo secco. Gilliatt, porém, tirou-as, porque o maçame podia ser-lhe util.
Recolheu igualmente a pequena ancora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar encalhara.
Achou no que fôra camarote de Tangrouille um pedaço de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.
Uma celha de couro para incendio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.
O resto do carvão que havia na Durande foi levado para o armazem.
Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho estava limpo, e a Durande alliviada. No casco só restava a machina.
O pedaço da amurada que ainda adheria ao resto não fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentado embaixo por uma saliencia de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no armazem. Parecia uma jangada aquelle pedaço de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.
Gilliatt profundamente pensativo neste labor, procurou em vão a _boneca_ da Durande. Era uma dessas cousas que a onda tinha levado para sempre, Gillatt para achal-a daria os seus dous braços, se não precisasse tanto delles.
Na entrada do armazem, e fóra, viam-se dous montes de rebutalho, um de ferro, para fundir, outro de páo, para queimar.
Gilliatt trabalhava desde madrugada. Fóra do tempo do somno, não descançava nunca.
Os corvos marinhos, voando aqui e alli, contemplavam-n'o a trabalhar.
X
A FORJA
Feito o deposito, Gilliatt fez a forja.
A segunda anfractuosidade escolhida por Gilliatt offerecia ura refugio, especie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve ao principio a idéa de dormir ahi, mas o vento, renovando-se constantemente, era tão continuo e teimoso nesse corredor que elle teve de renunciar á morada. O vento deu-lhe idéa de fazer forja. Se a caverna não podia ser quarto, podia ser officina. Utilisar o obstaculo é um grande passo para o triumpho. O vento era o inimigo do Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer delle o seu lacaio.
O que se diz de certos homens:--proprios para tudo, bons para nada,--póde-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que offerecem. Tal cava de rochedo é uma banheira, mas deixa escapar a agua; outra é um leito de musgo, porém molhado; outra é uma cadeira, mas de pedra.
A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela natureza; mas domar esse esboço, até torna-lo appropriado, e transformar a caverna em laboratorio, nada mais áspero e difficil. Com tres ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera alli um vasto foles informe, muito melhor que os antigos foles de quatorze pés de comprimento, que davam por cada vez, noventa e oito mil polegadas de ar. Aquillo era outra cousa. As proporções de operação não se calculam.
O excesso de força era incommodo; era difficil regularisar aquelle sopro.
A caverna tinha dous inconvenientes; o ar e a agua atravessavam de um lado para o outro.
Não era a onda, era um pequeno esgoto perpetuo, mais semelhante a uma distillação que a uma torrente.
A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de cem pés no ar, acabara por encher de agua do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a excavação. A abundancia de agua nesse reservatorio fazia, um pouco atraz, no declive, uma pequena quéda d'agua, de cerca de uma polegada, cahindo de quatro a cinco toezas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos, uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquelle reservatorio inexgotavel, e sempre transbordando.
A agua era salobra, não potavel, mas limpida, embora salgada. A quéda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabelleira.
Gilliatt pensou em servir-se dessa agua para disciplinar o vento. Por meio de um funil de dous ou tres tubos de taboas, arranjados á pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatorio inferior, sem contrapeso, Gilliatt que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecanico, conseguio compor, para substituir o folle da forja, que não tinha, um apparelho menos perfeito do que aquelle que se chama hoje _cagniardelle_, porém menos rudimentario do que o que se chamava outrora nos Pyreneos uma trompa.
Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa. Com essa estopa e essa cola, e alguns pedacinhos de pão, tapou elle todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e que servira á pedra de signal. O bico ficava horisontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt poz a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.
Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no proprio rochedo, fez cahir a faisca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.
Experimentou o folle. Era admiravel.
Gilliatt sentio essa altivez de cyclope, senhor do ar, da agua e do fogo.
Senhor do ar, deu ao vento uma especie de pulmão, creou no granito um apparelho respiratorio, e fez um folle; senhor da agua, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flamma daquelle rochedo inundado.
Estando a escavação quasi toda aberta, o fumo sahia livremente, enegrecendo o rochedo. Aquelle rochedo que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.
Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor offerecendo a forma e as dimensões que se quizesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conoide, mas faltava a bigorna pyramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos Troglodytas. A superficie polida pela agua, tinha a rigidez do aço.
Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente collocada no porão da prôa. Ora, era exactamente a prôa que faltava.
As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram visinhas uma da outra. O deposito e a forja communicavam-se.
Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de biscouto molhado em agua, um ursosinho d'agua, ou algumas castanhas do mar, caça unica daquelle rochedo, e tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.
A especie de abstracção em que Gilliatt vivia, augmentava-se pela materialidade das suas occupações. A realidade era em alta doze. O trabalho corporal com os seus pormenores innumeraveis não diminuia a estupefacção que sentia de achar-se alli, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cançasso material é um fio que puxa para terra; mas a propria singularidade do trabalho emprehendido por Gilliatt, mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular. Parecia-lhe ás vezes estar dando martelladas nas nuvens. Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que elle repellia ou prevenia. Tecer maçame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar machinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precauções contra as aggressões intelligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéas, mas percebia as idéas. Sentia-se cada vez menos operario e cada vez mais pelejador.
Entrou alli como um domador. Comprehendia isso quasi. Estranha ampliação para o seu espirito.
Além disso, tinha á roda de si, a perder de vista, o immenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que vêr manobrar a diffusão das forças no insondavel e no illimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a agua infatigavel, as nuvens que parecem affadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz este perpetuo tremor? que construem estes ventos? que levantam estes abalos? Em que se occupam os choques, os soluços, os gritos? que faz todo esse tumulto? O flux e reflux dessas questões é eterno como a maré. Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação da extenção era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma fascinação inconsciente, e quasi feroz, Gilliatt pensativo ajuntava ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inutil do mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar alli á vista, o mysterio da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar, na proporção, da meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptivel do rochedo, o esfalfamento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpetuo, o oceano poço, as nuvens Danaydes, todo esse trabalho para cousa nenhuma!
Para cousa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!
XI
DESCOBERTA
Um escolho proximo da costa é algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar ahi? não é uma ilha. Não se pode contar com vitualhas, nem arvores com fruta, nem pastos, nem animaes, nem fontes de agua potavel. É uma nueza n'uma solidão. É uma rocha, com declives fóra d'agua, e pontas debaixo d'agua. Nada se encontra ahi a não ser o naufragio.
Essa especie de escolhos que a velha lingua marinha chama os Isolados, são, como dissemos, lugares estranhos. Só ha o mar. O mar faz alli o que lhe parece. Nenhuma apparição terrestre o perturba. O homem assusta o mar; o mar desconfia delle; esconde-lhe o que é e o que faz. No escolho, está seguro; lá não vai o homem. Não será perturbado o monologo da onda. A agua trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, aguça-lhe as pontas, eriça-o, concerta-o. Emprehende a abertura do rochedo, desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remeche, fura, esboraca, canalisa, põe os intestinos em communicação, enche o escolho de cellulas, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.
Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros, sanctuarios, palacios; tem uma vegetação hedionda e esplendida; compõe-se de hervas fluctuantes que mordem e monstros que se enraizam; mette na sombra da agua essa horrivel magnificencia. No escolho isolado, ninguem o espreita, nem o incommoda; o mar desenvolve ahi a gosto o seu lado mysteriosa inaccessivel ao homem. Depõe ahi as secreções vivas e horriveis. Acha-se alli todo o ignorado do mar.
Os promontorios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são verdadeiras construcções. A formação geologica é pouca cousa, comparada á formação oceanica. Os escolhos, casas da vaga, pyramides da espuma, pertencem á arte mysteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e tem uma especie de estylo enorme. Alli o fortuito parece intencional. Essas construcções são multiformes. Tem o embaraçado do polypo, a sublimidade da cathedral, a extravagancia do pagode, a amplidão da montanha, a delicadeza da joia, o horror do sepulchro. Tem velaolas como uma colmêa, latibulo como um páteo de bichos, tuneis como um combro de toupeiras, carceres como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tem portas, mas tapadas columnas, mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despedaçadas. Os seus compartimentos são inextrincaveis; isto é só para os passaros; aquillo é só para os peixes. Não se passa. A figura architectural transforma-se, desconcerta-se, affirma e nega a estatica, quebra-se, detem-se, começa em archivolta, acaba em architrave; seixo sobre seixo. Encelado é o pedreiro. Uma dynamica extraordinaria ostenta alli os seus problemas resolvidos. Terriveis abobadas pendentes ameaçam cahir, mas não cahem. Ninguem sabe como se seguram estes edificios vertiginosos. Declives, lacunas, suspensões insensatas; desconhece-se a lei desse babelismo. O Ignoto, immenso architecto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos, construidos confusamente, compõem um monumento monstro; nenhuma logica, um vasto equilibrio. É mais do que a solidez, é a eternidade. É a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um escolho é a tempestade petrificada. Nada mais impressivel para o espirito do que essa medonha architectura, sempre esboroante, sempre de pé. Tudo alli se ajuda e se contraria. É um combate de linhas donde resulta um edificio. Reconhece-se a collaboração dessas duas querellas, o oceano e o furacão.
Architectura que tem terriveis obras primas. O escolho Douvres era uma dellas.
Esse foi construido e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidavel. Lambia-o a agua rabugenta. Era hediondo, perfido, obscuro; cheio de cavas.
Tinha um systema de veias que eram fendas submarinas, ramificando-se em profundezas insondaveis. Muitos orificios desse rasgão inextrincavel ficavam a secco nas vasantes.
Podia-se entrar então, com risco.
Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma dellas deixava de ser temivel. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquelle aspecto de matadouro e açougue extranhamente imitado do centro das Douvres. Quem não vio as excavações desse genero, na parede do eterno granito, esses horriveis _frescos_ da natureza, não póde fazer uma idéa do que é.
Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar-se nellas. A maré enchente invadia-as até o tecto.
Abundavam os mariscos e os fructos do mar.
Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de uma tonelada. Eram de todas as proporções e de todas as côres, a maior parte pareciam ensanguentados, alguns cobertos de filamentos pelludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no rochedo.
Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, arterias de uma circulação mysteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golphão. Essas fendas estreitavam-se constantemente de modo a não deixar passar um homem. Um brandão aceso deixava ver obscuridades gotejantes.
Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da maré prestava-se a isso. Era bello dia de calma e de sol. Não havia que temer nenhum accidente do mar que pudesse complicar o perigo.
Duas necessidades como dissemos, levavam Gilliatt a essas explorações: procurar os destroços uteis, e achar lagostas para comer. Já lhe faltavam conchas nas Douvres.
A fenda era estreita e a passagem quasi impossivel. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como pôde, e entrou até onde lhe foi possivel.
Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin atirára-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta. O rochedo, abrupto exteriormente, e inaccessivel, era vasio no interior. Tinha galerias, poços e quartos como o tumulo de um rei do Egypto. Aquelle dedalo era dos mais complicados, trabalho da agua, infatigavel solapa do mar. As divisões daquelle subterraneo submarinho, communicavam provavelmente com a agua immensa do exterior por mais de uma sahida, umas abertas ao nivel da agua, outras profundos funis invisiveis. Perto dalli, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin atirou-se ao mar.
Gilliatt, naquella fisga de crocodillos, onde na verdade não havia medo de achal-os, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o pé, encontrava o chão, avançava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, appareceu uma meia luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordinaria.
XII
O INTERIOR DE UM EDIFICIO DEBAIXO DO MAR
A luz vinha a proposito.
Um passo mais, e Gilliatt estaria em uma agua talvez sem fundo. As aguas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralysia tão subita, que lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.
Demais, não havia meio de subir e agarrar ás rochas entre as quaes ficaria preso.
Gilliatt parou.
Á grota, donde elle sahira, ia ter a mesma saliencia estreita e viscosa, especie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt encostou-se á muralha e olhou.
Estava n'uma grande cava. Tinha acima de si alguma cousa semelhante ao interior de um craneo dissecado. E parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das strias do rochedo imitavam na abobada as fibras dentadas de uma bola. Por tecto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota, pareciam vastos ladrilhos fluctuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. À luz vinha debaixo atravez da agua. Era um resplendor tenebroso.
Gilliatt cujas pupillas se dilataram durante o trajecto obscuro do corredor, distinguia tudo naquelle crepusculo.
Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de Plenmont em Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques em Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que alli depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era comparavel ao quarto subterraneo e submarinho onde penetrára.
Gilliatt via diante delle, debaixo da vaga, uma especie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era brilhante entre as suas duas columnas profundas e negras. Era por aquelle portico submergido que entrava na caverna claridade do alto mar. Luz estranha que vinha por um buraco na agua.
Essa claridade esvasava-se debaixo da agua como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios rectilineos, cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma anfractuosidade a outra, immilavam interposicões de laminas de vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde clarão da pupilla de uma sphynge. A cava figura o interior de uma caverna enorme; a esplendida abobada era o craneo, e a arcada era a bocca; não havia buracos dos olhos. A boca engulindo e vomitando o flux e o reflux, aberta em pleno meio dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.
Certos entes, intelligentes e máos, assemelham-se a isto. O raio do sol, atravessando aquelle portico obstruido de uma espessura vidrenta da agua do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebaran. A agua, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fusão. Um reflexo de agua-marinha de incrivel delicadeza tingia brandamente toda a caverna.