Part 15
Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão talvez abertos no espaço, puderam ver no meio do mar, num ponto em que ha mais solidão e ameaça, duas cousas entre as quaes ia diminuindo o intervallo, sendo que uma approximava-se da outra. Uma, quasi imperceptivel no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca havia um homem; era a _pança_ levando Gilliatt. A outra immovel, collossal, negra, tinha, sobranceira ás vagas, uma sorprehendente figura. Dous altos pilares amparavam acima d'agua, no vacuo, uma especie de travessão horisontal que era como que uma ponte entre as duas cumiadas. O travessão, tão informe de longe que seria impossivel advinhar o que era, fazia corpo com os dous pilares. Parecia uma porta. Porque, haveria uma porta naquella abertura de todos os lados do mar? Dissera-se um dolmen titanico plantado alli, em pleno oceano, por uma phantasia magistral, e construido por mãos que leem o habito de apropriar ao abysmo as suas construcções. Aquella medonha forma levantava-se na claridade do céo.
A luz da manhã ia crescendo a leste; a alvura do horisonte augmentava a negridão do mar. Do lado opposto, declinava a lua.
Os dous pilares eram as Douvres. A especie de massa apertada entre elles como uma architrave era a Durande.
Apertando assim a sua victima, e deixando-a ver, o escolho era horrivel. A atitude daquelles rochedos era uma especie de repto. Parecia esperar.
Nada mais altivo e arrogante como tudo aquillo; o navio vencido, o abysmo victorioso. Os dous rochedos, ainda gotejantes da tempestade da vespera, pareciam dous combatentes em suor. Tinha acalmado o vento, o mar dobrava-se placidamente; advinhava-se que havia á flôr d'agua alguns bancos onde os penachos de escuma cahiam com graça; de longe vinha um murmurio semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um nivel, menos as duas Douvres, levantadas e tezas como duas collunas negras. Os flancos escarpados tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta. Comprehendia-se que ellas nasciam de montanhas submarinas. Havia em tudo aquillo uma especie de omnipotencia tragica.
De ordinario, o mar occulta os seus lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incommensuravel sombra guarda tudo para elle. É raro que o mysterio renuncie ao segredo. Ha um quê de monstro na catastrophe, mas em quantidade ignota. 0 mar é patente e secreto; esconde-se, não quer divulgar as suas acções. Produz um naufragio, e abafa-o; engolir é o seu pudor. A vaga é hypocrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois abranda-se.
Nada semelhante nas Douvres. Os dous rochedos, levantando acima das ondas o cadaver da Durande, tinham um ar de triumpho. Dissera-se dous braços sahindo do golphão, e mostrando ás tempestades, o cadaver daquelle navio. Era uma cousa igual ao assassino que se vangloria do crime.
A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada tem uma grandeza mysteriosa que se compõe de um resto de sonho e de um começo de pensamento. Nesse momento turvado, como que fluctua ainda um pouco de espectro. A especie de immenso H maiusculo formado pela duas Douvres com a Durande no centro, apparecia no horisonte no meio de uma certa magestade crepuscular.
Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de lã, meias de lã, sapatos taixeados, japona de lã, calça de panno grosso mal tecido, com bolsos, e na cabeça um daquelles barretes de lã vermelha usados então na marinha, e que se chamavam no seculo passado _galeriennes._
Reconheceu o escolho e avançou.
A Durande estava ao contrario de um navio deitado a pique; era um navio pendurado no ar.
Não havia mais estranho commettimento que o de salvar a machina daquelle navio.
Era dia claro quando Gilliatt chegou ás aguas do escolho.
Como dissemos, havia pouco mar. A agua tinha apenas a quantidade de agitação que lhe dava a estreiteza entre os rochedos. Ha sempre marulho nos espaços d'agua como aquelle, quer sejam grandes, quer pequenos. O interior de um estreito espuma sempre.
Gilliatt não abordou ao Douvres sem precaução.
Deitou a sonda muitas vezes.
Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de matalotagem.
Affeito ás ausencias, tinha sempre prompta em casa a matalotagem. Era um sacco de biscouto, um sacco de farinha de centeio, uma cesta de stok-fisch e de carne fumada, um grande pichel de agua doce, uma caixa norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas de lã, grevas alcatroadas, e uma pelle de carneiro que elle punha de noite em cima da japona. Tinha posto tudo isso, ás carreiras, na _pança_, e mais um bocado de pão fresco. Com a pressa, não levou outra ferramenta mais que o martello da forja, o machado e a picareta, uma serra, e uma corda de nós armada de fateixa. Com uma escada desta ordem, e a maneira de servir della, as subidas escabrosas tornam-se praticaveis nos mais rudes declives.
Póde-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do Havre Gosselin tiram de semelhante corda.
As rêdes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na barca. Pôl-os dentro por costume, e machinalmente, porquanto, tendo de tentar até o ultimo esforço, talvez se demorasse algum tempo no archipelago de cachopos, e o apparelho da pescaria é inutil em taes sitios.
No momento em que Gilliatt abordou o escolho, o mar baixava, circumstancia favoravel. As vagas decrescentes descobriam ao pé da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas, á semelhança de harpéos carregando um pavimento. Essas superficies, umas estreitas, outras largas, encadeando e elevando-se, com espaços desiguaes, ao longo do monolitho vertical, prolongava-se em cornija até debaixo da Durande, que abarcava o espaço entre os dous rochedos. Estava apertada ali como n'um tomilho.
Eram commodas aquellas plataformas para desembarcar e observar. Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o carregamento da _pança._ Mas era preciso apressar-se, porque ellas estariam fóra d'agua pouco tempo. Quando a maré enchesse ficariam outra vez cobertas.
Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que Gilliatt impellio e fez parar a _pança._
Uma espessura de sargaço, humida e escorregadia cobria essas rochas, e a obliquidade de algumas dellas mais escorregadias as tornava.
Gilliatt descalçou-se, saltou sobre o limo, e amarrou a _pança_ em uma ponta de rochedo.
Depois approximou-se o mais devagar que pôde sobre a estreita cornija de granito, chegou debaixo da Durande levantou os olhos e contemplou-a.
A Durande estava preza, suspensa, e como que ajustada entre os dous penedos, vinte pés acima das vagas. Era preciso que fosse atirada ali por uma furiosa violencia do mar.
Tão impetuoso empurrão não faz pasmar a gente do mar. Para citar apenas um exemplo, a 25 de Janeiro de 1840, no golpho de Itora, uma tempestade, já espirante, fez saltar um brigue, de um só pulo, por cima do casco naufragado da corveta _La Marne_, e incrustou-o com o gurupés á frente, entre dous penedios.
Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.
O navio arrancado ás vagas foi de algum modo desenraisado da agua pelo furacão. O turbilhão do vento tinha-o torcido, o turbilhão do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso pelas duas mãos da tempestade, quebrou-se como se fôra uma ripa. O pedaço da popa, com a machina e as rodas, arrebatado das aguas e impellido por toda a furia do cyclone para a garganta das Douvres, lá ficou. O vento foi acertado; para metter aquelle casco entre os dous rochedos o furacão transformou-se em massa. A proa, levada e rolada pelo vento, deslocou-se nos bancos de pedra.
O porão, que estava arrombado, esvasiara no mar os bois, mortos.
Um grande pedaço da amurada da proa, ainda estava preso ao casco, mas pendurada nas caixas das rodas por algumas lascas, faceis de quebrar com um machado.
Via-se aqui e ali, nas anfractuosidades longinquas do escolho, barrotes, taboas, pedaços de vela, pedaços de correntes, todos os destroços, tranquillos nos rochedos.
Gilliatt comtemplava com attenção a Durande. A quilha era o tecto que lhe ficava sobre a cabeça.
O horisonte, onde a agua illuminada apenas se mechia, estava sereno. O sol sahia explendidamente daquella vasta massa azul.
De tempos a tempos uma gota de agua destacava-se do navio e cahia no mar.
II
AS PERFEIÇÕES DO DESASTRE
As Douvres eram differentes de fórma como de altura.
Na pequena Douvre, recurvada e aguda, via-se ramificar-se, da base ao cimo, longas veias de uma rocha côr de tijolo, relativamente tenra, que fechava com as suas laminas o interior do granito. Nessas laminas avermelhadas havia, de espaço a espaço, fendas próprias para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada pelos arremeços do mar, que tornou-se uma especie de nicho, onde podia guardar-se uma estatua. O granito da pequena Douvre era arredondado na superficie e macio como pedra de toque, o que não lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava om ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um só jacto e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ella era impossivel: não podia servir nem á fuga de um criminoso, nem ao ninho de um passaro. No cume havia como no rochedo Homem, uma plata-fórma; era porém inaccessivel.
Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá, podia-se ficar na grande Douvre, mas não se podia subir.
Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquillo voltou á _pança_, descarregou-a na mais larga das cornijas á flôr d'agua, fez de todo o carregamento, aliás pequeno, uma especie de pacote, atou-o n'um panno alcatroado, depois içou-o por meio de um cabo até um ponto da rocha onde o mar não podia chegar; feito isto, abraçou-se á pequena Douvre, e com pés e mãos, de fenda em fenda, trepou por ella até a Durande que estava no ar.
Chegando a altura das caixas das rodas saltou dentro.
O interior do navio era lugubre.
A Durande apresentava todos os vestigios de um arrombamento medonho. Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um attentado que um naufragio. Nuvens, trovão, chuva, vagas, tufões, rochedos, horrivel multidão de cumplices é esta.
No meio daquelles destroços, pensava-se em alguma cousa semelhante ao tripudio furioso dos espiritos do mar. Tudo eram vestigios de raiva. As torções estranhas de certos ferros, indicavam a acção impectuosa dos ventos. O convéz assemelhava-se á célula de um louco; tudo estava despedaçado.
Nenhum animal estrangula uma pedra como o mar. A agua regorgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É um sacar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual á pata do leão.
O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma especie de terrivel descascamento. Muitas cousas pareciam feitas de proposito. Que maldade! podia dizer-se. As fracturas das amuradas eram feitas com arte. Este genero de destruição é proprio do cyclone. Retalhar e adelgaçar tal é o capricho desse desvastador enorme. O cyclone usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres parecem supplicios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufragio, vinga-se, diverte-se; é mesquinhamente cruel.
Raros são os cyclones em nossos climas, e tanto mais terriveis quanto que são inesperados. Um rochedo encontrado póde fazer andar á roda a tempestade. É provavel que a borrasca tivesse feito espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que esplicava o salto do navio a tamanha altura naquellas rochas. Quando o cyclone sopra, um navio peza tanto como a pedra de uma funda.
A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de destroços semelhante a entranhas. O cordoame fluctuava e estremecia; as correntes balançavam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nús e pendiam no ar. O que não estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a fórma de ruina; uma barra de pé de cabra não era menos que um simples pedaço de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma drissa era apenas uma ponta de canhamo; uma tralha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentavel da destruição; nada havia que não estivesse despregado, desenganchado, rachado, roido, recurvado, aniquilado; nenhuma adhesão naquelle feio montão de destroços; em tudo o deslocamento e a ruptura, esse aspecto de inconsistente e liquido que caracteriza todas as confusões, desde as refregas dos homens que se chamam batalhas, até ás refregas dos elementos que se chamara cahos. Tudo esboroava, tudo cahia, e uma torrente de taboas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava daquella poderosa carena tão triumphante outr'ora, toda aquella parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cahir, tudo estava roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.
Debaixo cuspia a espuma sobre aquella cousa miseravel.
III
SÃ, MAS NÃO SALVA
Gilliatt não esperava achar sómente metade do navio. Nas indicações, aliás tão precisas, do capitão do _Shealtiel_, nada fazia presentir aquella divisão do casco pelo meio. Foi talvez na occasião em que o navio partio-se, debaixo da immensa espessura da espuma, que houve aquelle _estallo diabolico_ ouvido pelo capitão do _Shealtiel._ O capitão affastava-se sem duvida no momento do ultimo sopro do vento, e não vio que era uma tromba que impellia o navio. Mais tarde, approximando-se para observar o desastre, vio apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe escondido pelo rochedo o lado fracturado donde se rompera metade do navio.
Excepto isto, o patrão do _Shealtiel_ disse tudo exacto. O casco estava perdido, a machina estava intacta.
São frequentes estes acasos nos naufragios como nos incendios. Não se pode comprehender a logica do desastre.
Os mastros quebrados tinham cahido; o cano nem mesmo envergou; a grande placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o intacto e completo. O revestimento de taboas das rodas estava destruido como as laminas de uma persiana; mas atravez das fendas viam-se as rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns raios.
Além da machina, tinha resistido o grande cabrestante da popa. Tinha ainda a corrente, e graças ao seu robusto encaixe em um quadro de tabuões, ainda podia prestar serviços, uma vez que se não rompesse a prancha. O pedaço do casco mettido entre as Douvres estava firme, já o dissemos, e parecia solido.
A conservação da machina tinha um que de irrisorio e acrescentava a ironia á catastrophe. A sombria malicia do desconhecido mostra-se ás vezes nessas especies de zombarias amargas. A machina estava salva, o que não impedia que estivesse perdida.
O oceano guardava-a para demolil-a aos poucos. Divertimento de gato.
A machina ia agonisar e desfazer-se peça por peça. Ia diminuir dia a dia, e por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco ás selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquelle pesado montão de mecanismos e encaixes, massiço e delicado a um tempo, condemnado á immobilidade por seu peso, entregue na solidão ás forças demolidoras, posto pelo cachopo a discrição do vento e do mar, podesse, sob a pressão daquelle lugar, implacavel, escapar á destruição lenta, era até loucura imaginal-o.
A Durande estava prisioneira das Douvres.
Como tiral-a dali?
Como libertal-a?
A evasão de um homem é difficil; mas que problema não é este: a evasão de uma machina!
IV
PREVIO EXAME LOCAL
Gilliatt estava cercado de urgencias. O mais urgente era achar ancoradouro para a _pança_, e depois abrigo para si.
A Durande, estava mais carregada a bombordo que a estibordo, e por isso a roda da direita ficava mais elevada que a da esquerda.
Gilliatt subiu á caixa das rodas da direita. Dahi dominava a parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em angulos por traz das Douvres, fizesse muitos cotovellos, Gilliatt pôde estudar o plano geometrico do escolho.
Começou por ahi.
As Douvres, como indicámos, eram duas altas pilastras marcando a entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na frente. Não é raro achar nas formações submarinhas primitivas, esses corredores singulares feitos como que a machado.
Aquelle, que era tortuoso, nunca estava a secco, mesmo nas marés baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A impetuosidade do rodomoinho era boa ou má, segundo o rumo do vento reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cahir; ora exasperava-a. Este ultimo caso era o mais frequente; o obstaculo encolerisa a vaga eleva-a aos excessos; a espuma é a exageração da vaga.
O vento da tempestade, naquelles estrangulamentos entre duas rochas, soffre a mesma compressão e adquire a mesma malignidade. É a tempestade no estado de estranguria. O sopro immenso fica immenso, mas faz-se agudo. É ao mesmo tempo massa e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o furacão fazendo-se vento coado.
As duas cadeias de rochedos, deixando entre si, essa especie de rua do mar, terminava em degráos mais baixos que as Douvres, gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma certa distancia. Havia ahi outra foz menos elevada que a das Douvres, porém mais estreita ainda e que era a entrada, a Este, daquella garganta. Advinhava-se que o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua debaixo da agua até o rochedo Homem collocado como uma cidadella quadrada na outra extremidade do escolho.
Nas marés baixas, e era nessa occasião que Gilliatt observava, as duas fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a secco, todos visiveis, e coordenando-se sem interrupção.
O Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.
Todo o escolho, visto a vôo de passaro, apresentava um rosario recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na outra o Homem.
O escolho Douvres, visto em seu conjuncto, era apenas a immersão de duas gigantescas laminas de granito tocando-se quasi e cahindo verticalmente, como uma crista de montes que estão no fundo do oceano. Ha fora do abysmo essas exfoliações immensas. A lufada e a onda tinham recortado essa cristã como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. O que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a tempestade tinha atirado a Durande, era o centro dessas duas laminas collossaes.
Essa viela, em zig-zag como o relampago, tinha quasi em todos os pontos a mesma largura. O oceano fel-a assim. O eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe d'agua uma geometria.
De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha faziam-se face paralellamente a uma distancia que a Durande media quasi com exactidão entre as duas Douvres; o esvasamento da pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar ás caixas das rodas. Em qualquer outro lugar as caixas ficariam quebradas.
A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na exploração do deserto de agua chamado Oceano, chega-se ás cousas ignotas do mar, torna-se tudo surprehendente e disforme. Aquillo que Gilliatt, do alto do casco, podia vêr na garganta fazia horror. Ha muitas vezes nas gargantas graniticas do oceano uma estranha imagem permanente do naufragio. A garganta das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os oxydos da rocha davam-lhes aqui e alli umas vermelhidões imitando placas de sangue coalhado. Era uma especie de transudação sangrenta de um matadouro. Havia um ar de açougue naquelles parceis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela decomposição dos amalgamas metalicos misturados á rocha, alli pelo bolor, ostentava vermelhidões hediondas, esverdeamentos suspeitos, despertando uma idéa de morte e de exterminio. Acreditava-se vêr uma parede ainda não enxuta do quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aquelles os vestigios de um despedaçamento de homens; a rocha ingreme tinha um cunho de agonias accumuladas. Em certos lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e parecia impossivel apoiar o dedo sem tiral-o sangrento. Por toda a parte apparecia uma ferrugem de morticinio. Ao pé do duplo declivio paralello, esparso á flôr d'agua ou debaixo da vaga, ou a secco nas excavações, monstruosos seixos redondos, uns escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhanças de visceras; acreditava-se vêr pulmões frescos ou figados putridos. Dissera-se que alli se tinham esvasiado ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por distillações funebres, riscavam o granito de alto a baixo.
Esses aspectos são frequentes nas cavernas do mar.
V
UMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLLABORAÇÕES SECRETAS DOS ELEMENTOS
A fórma de um escolho não é cousa indifferente para os que, nos riscos das viagens, podem ser condemnados á habitação temporaria de um escolho no oceano.
Ha o escolho pyramide, um cimo fóra da agua; ha o escolho circulo, cousa semelhante a uma roda de pedras grandes; ha o escolho corredor. O escolho corredor é o peior de todos. Não somente por causa da angustia das ondas entre as rochas e do tumulto das aguas apertadas, mas tambem por causa das propriedades meteorologicas que parecem desprender-se do paralellismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes rectas são um verdadeiro aparelho de Volta.
Orienta-se o escolho corredor, e isso é importante. Resulta dahi uma primeira acção sobre o ar e a agua. O escolho corredor actua na agua e no vento mecanicamente, pela forma, galvanicamente, pela attração diversa dos seus planos verticaes, massas sobrepostas e contrariadas umas pelas outras.
Esta especie de escolhos atrahe todas as forças furiosas esparsas no furação, e tem sobre a borrasca uma singular força de concentração.
Donde resulta que nas paragens desses cachopos, ha uma certa accentuação da tempestade.
Cumpre saber que o vento é composito. Acredita-se que o vento é simples; engano. Essa força não é sómente dynamica, é chimica; não é sómente chimica, é magnetica. Tem alguma cousa que é inexplicavel.
O vento é tão eletrico como aereo. Certos ventos coincidem com auroras boreaes. O vento do banco das Arguilles, rola vagas de cem pés de altura, espanto de Dumontd'Urville. _A corveta_, disse elle, _não sabia a quem havia de attender._
Debaixo das lufadas austraes, verdadeiros tumores doentios sopram no oceano, e o mar torna-se tão horrivel que os selvagens fogem para não vêl-o.
As lufadas boreaes são outras; misturam-se de pontas de gelo, e esses furações irrespiraveis impellem para a neve os trenós dos esquimós. Outros ventos queimam. É o simoun da Africa, é o typhon da China e o samiel da India. Simoun, Typhon, Samiel; parece que são demonios estes nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulcão de Tulucea. Este vento quente, turbilhão côr de tinta atirando-se sobre as nuvens encarnadas fez dizer aos Vedas: _Eis ahi o Deos negro que vem roubar as vaccas encarnadas._ Sente-se em tudo isto a pressão do mysterio eletrico.
O vento é cheio desse mysterio. Do mesmo modo o mar. Tambem elle é complicado; debaixo das suas vagas de aguas, que se veem, ha outras vagas de forças, que se não veem. Compõe-se de tudo. De todas as misturas, a do oceano é a mais invisivel e a mais profunda.