Os Trabalhadores do Mar

Part 13

Chapter 133,818 wordsPublic domain

Um máo reinado tem evidentemente jubilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luiz XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicoláu assassinando a Polonia em face da civilisação, deviam sentir um pouco daquella volupia sonhada por Clubin. A immensidade do despreso parece grandesa ao despresado.

Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma victoria. É a ebridade, é a impudencia insolente e satisfeita, é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.

Estas ideas em um hypocrita parecem contradição, e não são. Toda a infamia é consequente. O mel é fel. Escobar confina no marquez de Sade. Prova: Leotade. O hypocrita, sendo o perverso completo, tem em si os dous polos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortezão. O seu sexo de demonio é duplo. O hypocrita é o horrivel hermaphrodita do mal. Fecunda-se a si proprio; gera-se, transforma-se. Queres vel-o formoso? olha-o; queres vel-o horrivel? vira-o.

Clubin tinha em si toda esta sombra de idéas confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.

Uma porção de faiscas do inferno attravessando a noite, era a successão dos pensamentos naquella alma.

Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pelle que despio.

Toda a gente acreditou naquella honestidade, elle proprio acreditou um bocadinho nella.

Deu segunda gargalhada.

Iam pensar que elle estava morto, e estava vivo. Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçoada á tolice universal!

E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdem sem limites. Desdem da fuinha para com o tigre. Tinha conseguido o que falhára a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triumphante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua má acção, e foi elle quem teve a boa fortuna.

Quanto ao fucturo, Clubin não tinha plano. Possuia os bilhetes do banco na boceta de ferro atada á cintura; bastava-lhe esta certeza. Mudaria de nome. Ha paizes onde sessenta mil francos valem seiscentos mil. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negocio, engrossar o capital, tornar-se seriamente millionario, também não era máo.

Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande commercio do café, podia ganhar toneis de ouro. Veria isso.

Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas cousas. O mais difficil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstaculo possivel. Nada de temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria á casa mal assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e viveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas de Hespanha, Blasquito provavelmente; por alguns guineos, far-se-hia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para illudir, mas a Pasages ou a Bilbáo. Dahi iria a Vera-Cruz ou a Nova-Orleans. Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era cousa nenhuma para Clubin, só uma milha o separava de terra, pois que estava no Hanois.

Neste ponto dos seus calculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro. O formidavel rochedo Douvres surgio aos seus olhos.

VII

INTERVEM O INESPERADO

Clubin olhou espantado.

Era o medonho escolho isolado.

Não era possivel a illusão a respeito daquella configuração disforme. As duas Douvres gemeas campeavam horriveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que fallámos. Dissera-se um quebra-costas do oceano.

Estavam perto delle as rochas Douvres; o nevoeiro, como cumplice, escondera-as.

Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apezar de toda a attenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dous grandes navegadores, a Gonzalez que descobrio o Cabo Branco, e a Fernandez que descobrio o Cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excellente para a execução do projecto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

A Durande arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das duas Douvres apenas por algumas centenas de braças.

A duzentas braças mais longe via-se um massiço cubo de granito. Descobria-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgal-a.

Os cantos rectilinios dessas rudes muralhas de angulo recto faziam presentir no cume uma planura.

Era o Homem.

A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessiveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade architectural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranquillas toalhas, nas faces quadradas daquelle enorme rochedo negro, especie de pedestal para os espectros immensos do mar e da noite.

Tudo aquillo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquella superficie muda da agua advinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.

Convenceu-se bem que era ali as Douvres.

Não podia duvidar.

Subita e terrivel mudança. As Douvres em vez dos Hanois. Em vez de uma milha, cinco leguas do mar! o impossivel. A rocha Douvres, para o naufrago solitario, é a presença, visivel e palpavel dos ultimos momentos. É impossivel chegar á terra.

Clubin estremeceu. Tinha se mettido no goela da sombra. Não havia outro refugio além do rochedo Homem. Era provavel que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa de Durande sobrecarregada sossobrasse. Nenhum aviso do naufragio chegaria a terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus setenta e cinco mil francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto elle construira deu em resultado aquella cilada; foi elle proprio o architecto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possivel. O triumpho fazia-se precipicio. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro prospero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edificio. O paraizo sonhado por aquelle demonio retomou a sua verdadeira figura; o sepulchro.

Entretanto soprava o vento. O nevoeiro, saccudido, furado, repuxado, desfazia-se no horisonte em grandes lanhos informes. Reappareceu o mar.

Os bois cada vez mais invadidos pela agua, continuavam a berrar no porão.

Approximava-se a noite; provavelmente a tempestade.

A Durande a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, degois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio, e o levaria agua abaixo.

Havia menos obscuridade do que no momento do naufragio. Apezar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou comsigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepusculo é um vasto céo branco. Essa vasta claridade allumiava o mar.

A Durande naufragara em plano inclinado de pôpa a prôa. Clubin trepou á prôa que estava quasi fóra da agua. Fitou no horisonte os olhos.

É proprio da hypocrisia ater-se á esperança. O hypocrita é o homem que espera. A hypocrisia é uma esperança horrivel: o fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.

Cousa estranha de dizer, ha confiança na hypocrisia. O hypocrita confia-se a certa indifferença do desconhecido, que consente no mal.

Clubin olhava para a extensão.

A situação era desesperada: aquella alma sinistra não desesperou.

Dizia comsigo que depois daquelle longo nevoeiro os navios conservados na bruma, á capa ou ancorados; iam continuar viagem, e algum passaria no horisonte.

E com effeito appareceu uma véla.

Vinha de leste e ia para oeste.

Appoximando-se desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quasi horisontal.

Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.

Clubiu disse comsigo: estou salvo.

Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.

O cuter era quasi estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não sómente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, appressando a conclusão, supprimindo a espera na casa mal assombrada, dando desfecho á aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.

Toda a certeza do bom exito entrou freneticamente naquelle espirito sombrio.

Extranha cousa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem succedidos.

Cumpria fazer apenas uma cousa.

A Durande, mettida nos rochedos, misturava a sua configuração á delles; confundia-se com os seus recortes, sobre os quaes parecia apenas um lineamento, ficava indistincta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para attrahir a attenção da embarcação que ia passar.

Mas uma figura humana desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo signaes de perigo, seria vista, sem duvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o naufrago.

O rochedo Homem ficava a duzentas braças. Era simples attingil-o a nado, facil trepar por elle.

Não havia tempo a perder.

Estando a prôa da Durande sobre a rocha, era do alto da pôpa e do ponto em que estava, que Clubin devia atirar-se ao mar.

Começou por deitar um sonda, e reconheceu que havia ao pé da pôpa muito fundo. As conchas microscopicas de foraminiferos e de polydistineas que a sonda trouxe comsigo estavam intactas, o que indicava que havia alli profundas cavas de rocha, onde a agua, qualquer que fosse a agitação da superficie, era sempre tranquilla.

Despio-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cuter.

Conservou apenas o cinto de couro.

Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direcção que devia seguir no meio dos parceis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.

Como cahio de alto mergulhou muito.

Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinhas, depois fez um movimento para subir á superficie.

Nesse momento sentio-se aggarrado pelo pé.

LIVRO SETIMO

Imprudencia de interrogar um livro

I

A PEROLA NO FUNDO DO PRECIPICIO

Minutos depois do curto colloquio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.

Gilliatt ia inquieto até á anciedade. Que teria acontecido?

Saint-Sampson tinha um rumor de colmêa assustada. Toda a gente estava ás portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma cousa, fazendo gestos; as outras agrupavam-se á roda dessas. Ouviam-se estas palavras: que desgraça! Alguns sorriam.

Gilliatt não interrogou ninguem. Não era proprio delle fazer perguntas. Demais, ia demasiado commovido para fallar a indifferentes. Desconfiava das narrações, preferia saber logo tudo; foi á casa de Lethierry.

A sua anciedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquella casa.

Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; elle entrou.

Entrando, achou encostado á porta o Sr. Landoys que lhe disse a meia voz:

--Então, já sabe do successo?

--Não.

--Eu não quiz dizer-lh'o ha pouco do meio da rua. Pareceria correio de desgraças.

--Que foi então?

--Perdeu-se a Durande.

Havia muita gente na sala.

Os grupos fallavam baixo, como no quarto de um doente.

Os assistentes, que eram os visinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao pé da porta, com uma especie de receio, e deixavam vasio o fundo da sala onde estava, ao lado de Deruchette lacrimosa e assentada, mess Lethierry de pé.

Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O bonet de marujo cahia-lhe nas sombrancelhas; uma mecha de cabellos grisalhos prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços não tinham movimento, a boca parecia não ter alento. Parecia uma cousa encostada á parede.

Ao vê-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha razão de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer. Que faria elle agora? Levantar-se de manhã, deitar-se de noite. Já não podia esperar a Durande, nem vê-la partir, nem voltar. O que é um resto de existencia sem objecto? Beber, comer, e depois? Aquelle homem tinha corôado os seus trabalhos com uma obra prima, e as dedicações com um progresso. Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra prima. Para que viver ainda alguns annos vasios? Não tinha mais nada que fazer. Naquella idade não é possivel recomeçar; de mais a mais estava arruinado. Pobre velho!

Deruchette, assentada ao pé delle, e chorando, tinha entre as suas duas mãos a mão de mess Lethierry. As della estavam postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a differença daquelles dous abatimentos. As mãos postas ainda tem esperança: a apertada, nenhuma.

Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistencia. Estava passivo. Tinha em si apenas aquella porção de vida que póde haver depois do raio.

Ha certas descidas ao fundo do abysmo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e indistinctas; acotovelam-n'o e não lhe chegam. De parte a parte ficam inacessiveis. A ventura e o desespero não são os mesmos centros respiraveis; o desesperado assiste á vida dos outros, mas de muito longe; ignora quasi a sua presença; perde o sentimento da propria existencia; que importa ser de carne e osso, o desesperado já se não sente real; já não é elle proprio, é apenas um sonho.

Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.

Cochichavam os grupos.

Cada qual dizia o que sabia.

Eis as noticias:

A Durande perdera-se na vespera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do pôr do sol. Á excepção do capitão, que não quiz deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma borrasca, vinda do sudueste, depois do nevoeiro, quasi fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo além de Guernesey. De noite tiveram os naufragos a boa fortuna de encontrar o _Cashmere_, que os recolheu elevou a Saint-Pierre Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnanimo.

Os pilotos que abundavam nos grupos, pronunciavam estas palavras _escolho Douvres_, de um modo particular.--Má hospedaria aquella! dizia um delles.

Via-se na mesa uma bussola e um masso de registros e notas; eram sem duvida a bussola de Durande e os papeis de bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magnifica abnegação desse homem, salvando até os papeis no momento em que ia morrer; minuciasinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si proprio.

Todos eram unanimes em admirar Clubin, e igualmente unanimes em julga-lo salvo. O cuter _Shealtiel_ chegára poucas horas depois do _Cashmere_, e esse cuter trazia as ultimas informações. Esteve vinte o quatro horas nas mesmas aguas da Durande. Parou e bordejou durante o nevoeiro e a tempestade. O patrão do _Shealtiel_ estava tambem na sala do Lethierry.

No momento em que Gilliatt entrou, acabava elle de fazer a sua narração a mess Lethierry. Era um verdadeiro relatorio. De manhã, tendo cessado a borrasca o acalmado o vento, o patrão do _Shealtiel_ ouvio mugido de bois em pleno mar. Este rumor proprio das campinas, ouvido alli nas vagas, surprendeu o patrão. Descobrio a Durande nos rochedos Douvres. A calma era sufficiente para que elle podesse acercar-se dos rochedos. Chamou o navio á falla. Só lhe respondeu o mugido dos bois que se afogavam no porão. O patrão do _Shealtiel_ estava certo de que não havia ninguem á bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais violenta que fosse a borrasca; devia ter passado a noite á bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava á bordo, logo estava salvo.

Muitos sloops e lugars de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fóra de duvida que deviam ter costeado as Douvres. Evidentemente algum delles recolheu o capitão Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um homem poderia fazel-a sossobrar, e foi isso sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande: mas, cumprido esse dever, se apparecesse um navio salvador, Clubin, não teria difficuldade de aproveitar-se delle. Deve-se ser heróe, não se deve ser pascacio. Um suicidio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portára-se com dignidade. O culpado era Tangrouille, não Clubin. Tudo isto era consequente; o patrão do _Shealtiel_ tinha razão, e toda a gente esperava vêr Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebel-o em triumpho.

Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.

Quanto a Durande estava decidido que a catastrophe era irremediavel. O patrão do _Shealtiel_ assistira á ultima phase do naufragio. O grandissimo rochedo em que naufragara a Durande, resistira ao choque da tempestade, como se quizesse guardar comsigo o navio; mas de manhã, no momento em que o _Shealtiel_, verificando que não havia ninguem para salvar affastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os ultimos arrancos da colera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a rectidão de uma flexa disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouvio-se um estalo «diabolico» dizia o patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, metteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou ahi deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.

A Durande, no dizer da equipagem do _Shealtiel_ já estava quasi toda despedaçada. Teria sossobrado, com certeza, de noite, se o cachopo não a sustivesse. O patrão do _Shealtiel_ com o seu oculo estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão maritima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes dos ovens quasi todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente possivel desde o meio do mastro até acima; o lugar dos viveres arrombado, os cavaletes da chalupa destruidos, a arvore do leme rôta, os cabos despregados, os pavezes arrasados, as abitas levadas pelo vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação frenetica da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de prôa, já não existia, não havia noticia delle, completamente limpo, levaram-n'o os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava deslocada; a agua começava agora a sargal-a. Dentro de alguns dias nada mais restaria della.

E comtudo a machina, cousa notavel, e que provava a sua perfeição, soffreu pouco com a tempestade. O patrão do _Shealtiel_ affirmava que a manivella não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da machina resistio. Os baluartes de ferro do lugar do com mando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas soffreram, mas as rodas pareciam não ter um só raio de menos. A machina estava intacta. Era a convicção do patrão do _Shealtiel._ O machinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquelle negro, mais intelligente que muitos brancos, era o admirador da machina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: meu amo, a machina está viva.

O salvamento de Clubin parecia cousa segura; o casco da Durande estava sacrificado; a conversação dos grupos recahio sobre a machina. Interessavam-se por ella, como se fosse uma pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da machina.--Solida comadre aquella, dizia um marinheiro francez.--É magnifica! exclamava um pescador guernesiano.--Deve ter sido muito astuciosa, accrescentava o patrão, para escapar apenas com alguns arranhões.

A pouco e pouco tornou-se a machina a preoccupação unica. Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cuter de vela, e esperava apanhar a freguezia da Durande, alegrou-se por vêr o escolho Douvres fazer justiça á nova invenção. O cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era com tudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do silencio sepulcral de Lethierry.

Do colloquio havido em todos os pontos resultava isto:

A machina era o essencial. Refazer o navio era possivel, não a machina. Era unica. Para fabricar outra faltava o dinheiro e o fabricante. Lembram-se que o constructor tinha morrido. Custou quarenta mil francos. Ninguem arriscaria agora aquelle capital naquella eventualidade; tanto mais quando acabava de provar-se que os vapores naufragam como navios de vela; o accidente actual da Durande mettia á pique o seu passado succedimento. E era doloroso pensar que naquelle momento a machina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Emquanto existia a machina, podia dizer-se que não havia naufragio. Só a perda da machina era irremediavel. Salvar a machina era reparar o desastre.

Salvar a machina, é facil dizel-o. Mas quem ousaria? era acaso possivel? Fazer e executar, são cousas differentes, e a prova é que é facil _formular uma aspiração_ e difficil executal-a. Ora, se houve jámais um sonho impraticavel e insensato era este; salvar a machina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquellas rochas um navio e uma equipagem seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação dos temporaes: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nos pontos submarinhos e o navio despedaçava-se. Era mandar um naufragio em soccorro do primeiro. Na especie de buraco da planura superior onde se abrigára o naufrago legendario morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso pois que, para salvar essa machina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, só naquelle mar, só naquelle deserto, só a cinco leguas da costa, naquelle medo, só durante semanas inteiras, só diante do previsto e do imprevisto, sem vitualhas nas angustias da privação, sem soccorro nos incidentes da desgraça, sem outro vestigio humano que o do antigo naufrago morto alli, sem outro companheiro além daquelle finado.

E como salvaria elle a machina? Era preciso que fosse, não sómente marujo, senão tambem ferreiro. E quantas difficuldades! O homem que o tentasse seria mais que um heróe. Seria um louco. Porquanto, em certos commettimentos desproporcionados, onde parece necessario o sobrehumano, a bravura tem acima de si a demencia. E com effeito, sacrificar-se por um pouco de ferro não era estravagante? Não, ninguem iria aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar á machina do mesmo modo que ao navio. O salvador que era preciso não apparecia. Onde encontrar esse homem?

Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquella multidão.

O patrão do _Shealtiel_ que era um antigo piloto, resumio o pensamento de todos, exclamando em alta voz:

--Não! está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a machina!

--Se eu não vou, disse Imbrancam, é que é impossivel ir.

O patrão do _Shealtiel_ sacudio a mão esquerda com aquelle arrebatamento que exprime a convicção do impossivel, e repetio:

--Se existisse...

Deruchette voltou a cabeça.

--Casava-me com elle.

Houve um silencio.

Um homem pallido sahio do meio dos grupos e disse:

--A senhora casava-se com elle, miss Deruchette?

Era Gilliatt.

Entretanto todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endireitou-se. Tinha nos olhos uma luz estranha.