Part 12
Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas elle avançava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.
Perdia-se o tempo naquellas manobras que difficilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em Fevereiro.
O guernesiano comtemplava a bruma. Disse aos maloenses:
--É atrevido este nevoeiro.
--Desaceio do mar, observou um dos maloenses.
O outro accrescentou:
--Isto atraza a viagem.
O guernesiano aproximou-se de Clubin.
--Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.
Clubin respondeu:
--Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.
--Quem?
--Veteranos do mar.
--Fez bem em partir, continuou o guernesiano. Quem sabe senão haverá tempestade amanhã? Nesta estação espera-se o peior.
Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.
Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na pôpa ficou de repente sem ver a gente que ia na prôa. Tenue tabique cinzento cortou o navio ao meio.
Depois todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Subito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quasi sem uma dobra, tinha a fria ameaça da tranquillidade. Parece que ha conluio neste excesso da calma. Tudo estava pallido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.
A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo sobre Guernesey e augmentou o vapor.
O passageiro guernesiano, andando á roda da machina, ouvio o negro Imbrancam que fallava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:
--Quando havia sol iamos devagar; agora que ha nevoeiro, vamos depressa.
O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.
--Capitão Clubin, não ha cuidado; mas não acha que vamos depressa demais?
--Que quer senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquelle bebado.
--É verdade, capitão Clubin.
E Clubin accrescentou.
--Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite ficariamos aceiados.
O guernesiano foi ter com os maloenses e disse-lhes:
--Temos um excellente capitão.
De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapparecia mais pallido, e como que enfermo. O pouco céo que se via assemelhava-se ás fachas de ar sujas e manchadas de uma velha decoração de theatro.
A Durande passou junto de um cuter que tinha ancorado por prudencia. Era o _Shealtiel_, de Guernesey. O patrão do cuter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exacto; affigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquelle navio, andando a todo o vapor no meio do novoeiro, o homem pasmou.
Pelas duas horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiára; tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma especie de escuridão branca. Navegava-se na pallidez diffusa. Já se não via nem o céo nem o mar.
Não ventava.
A ancoreta da therebentina suspensa em uma argola ao pé da caixa das rodas já não tinha oscillação.
Os passageiros tornaram-se silenciosos.
Comtudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de Béranger _Un jour le bon Dieu s'éveillant._
Um dos maloenses dirigio-lhe a palavra.
--O senhor vem de Paris?
--Sim senhor. _II mit la tête à la fenêtre._
--Que se faz por lá?
--_Leur planète a péri peut-être._ Lá em Paris tudo anda mal.
--Então é tanto lá em terra como aqui no mar.
--Realmente, este nevoeiro é o diabo.
--E póde causar desgraças.
O parisiense exclamou:
--Mas, porque desgraças! a proposito de que? de que servem desgraças? É o caso do incendio do Odeon! Ficou uma porção de familias reduzidas á miseria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou contente.
--Nem eu, disse o maloense.
--Tudo o que se passa neste mundo, continuou o parisiense, parece um desconcerto. Creio que Deos não entra nisto.
O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura comprehender. O parisiense continuou.
--Deos está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obriga-lo a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa comnosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que Deos já não está no governo, está em ferias, e é o vigario, algum anjo seminarista, algum bocio com azas de pardal, quem dirige os negocios.
O capitão Clubin, que se aproximara, pôz a mão no hombro do parisiense.
--Silencio, disse elle. Cuidado nas palavras. Estamos no mar.
Ninguem mais fallou.
No fim de cinco minutos, o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes.
--É um capitão religioso.
Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o navio descrevia por uma especie de máo-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emmudece o oceano, adormenta a vaga e supita o vento. Naquelle silencio, o rumor da Durande tinha um não sei que de inquieto e lamentoso.
Já se não encontravem navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fóra do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visivel, e a sua longa fumaça, presa a cousa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céo branco.
De repente Clubin exclamou:
--Com seiscentos! estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco! Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bebado!
E tomou a canna do leme.
O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da prôa.
Disse o guernesiano:
--Estamos salvos.
A marcha continuou rapida.
Pelas tres horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e vio-se o mar.
--Máo! disse o guernesiano.
Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol é bom signal; quando é o vento, não é tão bom signal. Era tarde já para ser o sol. Ás tres horas, em Fevereiro, o sol está fraco. Não era cousa desejavel a volta do vento naquella situação critica. Muitas vezes annuncia o furacão.
Verdade seja, que, se havia brisa, mal se sentia.
Clubin, com o olhar na bitacula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos:
--Não ha tempo a perder. Aquelle bebado demorou a viagem.
O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.
O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas. Luzes geladas fluctuavam na agua. Essas placas de clarão nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cahir mais densa. As vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquelle circulo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horisonte, e fechava-se depois.
O guernesiano, armado de um oculo, estava como uma vedeta, na frente do navio.
Clareou, depois escureceu outra vez.
O guernesiano voltou-se assustado:
--Capitão Clubin!
--Que é?
--Vamos direito aos cachopos de Hanois.
--É engano, disse Clubin friamente.
O guernesiano insistio:
--Estou certo.
--Impossivel.
--Vi uma pedra no horisonte.
--Onde?
--Alli?
--É ao largo. Impossivel.
E Clubin continuou a pôr o navio no ponto indicado pelo passageiro.
O guernesiano travou do oculo.
Minutos depois correu para o capitão.
--Capitão!
--Que é?
--Vire de bordo.
--Por que?
--Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.
--Ha de ser algum nevoeiro mais escuro.
--É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céo!
Clubin deu uma volta á canna do leme.
V
CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CUMULO
Ouvio-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lugubres que se póde imaginar. A Durande parou.
Com o choque muitos passageiros cahiram e rolaram no tombadilho.
O guernesiano levantou as mãos para o céo.
--Nos Hanois! eu bem dizia!
Longo grito soou no navio.
--Estamos perdidos.
A voz de Clubin, secca e breve, dominou o grito.
--Ninguem está perdido! E silencio!
O corpo negro de Imbrancam, nú até a cintura, sahio do espaço da machina.
O negro disse com calma:
--Capitão, a agua está entrando. A machina vai apagar-se.
Terrivel foi o momento.
O choque assemelhava-se a um suicidio. Se fosse de proposito não seria mais terrivel. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma pontada rocha penetrou no navio como um prego. Mais de uma toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de prôa, fracassou a quilha, partio-se o gurupés, o casco aberto bebia agua aos borbotões. Era uma chaga por onde entrava o naufragio. A reacção foi tão violenta que quebrou na pôpa a caixa do leme que ficou solto e oscillante. O cachopo arrancara o fundo, e á roda do navio, não se via nada, além do nevoeiro espesso e compacto e agora quasi negro. Chegava a noite.
A Durande mergulhava pela prôa. Era o cavallo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.
Sentia-se no mar a hora da maré.
Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguem fica bebado em um naufragio; desceu abaixo, subio e disse:
--Capitão, a agua enche o porão. Dentro de dez minutos está nos embornaes.
Os passageiros corriam no tombadilho fóra de si, torcendo os braços, inclinando-se na amurada, olhando para a machina, fazendo todos os movimentos inuteis do terror. O tourista desmaiou.
Clubin fez um signal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam:
--Quanto tempo pode a machina trabalhar ainda?
--Cinco ou seis minutos.
Depois interrogou o passageiro guernesiano:
--Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos nós?
--Na Mauve. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.
--Sendo a Mauve, continuou Clubin, temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a uma milha de terra.
A equipagem e os passageiros escutavam, tremulos de anciedade e de attenção, com os olhos fixos no capitão.
Allijar o navio era inutil, e demais, impossivel. Para pôr a carga ao mar, era preciso abrir as portinholas e augmentar as probabilidades de entrar agua. Atirar a ancora era inutil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava avariada a machina, e continuando á disposição do navio emquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns minutos, podia-se á força de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo immediatamente. O rochedo até certo ponto tapava o rombo e tolhia a passagem da agua. Servia de obstaculo. Desobstruida a abertura, seria impossivel impedir a entrada da agua. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido. Sahir do cachopo era ir ao fundo.
Os bois, atacados pela agua, começavam a mugir.
Clubin ordenou.
--A chalupa ao mar.
Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulação olhava petrificado.
--Todos á obra, gritou Clubin.
Desta vez obdeceram todos.
Clubiu, impassivel, continuou a dar ordens, naquella velha lingua do mar, que os marinheiros de hoje não comprehenderiam.
A chalupa estava no mar.
No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de agua.
Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enxarcias, deixavam-se antes cahir que descer na chalupa. Imbrancam apanhou o tourista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subio ao navio.
Os marinheiros atiravam-se apoz os passageiros. O grumete rolou; elles pisavam o rapaz.
--Ninguem antes do moço, disse elle.
Afastou com os braços negros os marinheiros, apanhou o grumete, e estendeu-o ao passageiro guernesiano, que, de pé na chalupa, recebeu o rapaz.
O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse:
--Passem.
Entretanto, o Sr. Clubin, foi ao seu camarote e fez um embrulho dos papeis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bussola da bitacula. Entregou os papeis e os instrumentos a Imbrancam e a bussola a Tangrouille, e disse-lhes:
--Desçam á chalupa.
Elles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quasi rasa.
--Agora, disse Clubin, vão embora.
--E o senhor, capitão?
--Fico.
As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de internecer-se. Entretanto os que estavam na chalupa, e relativamente com segurança, tiveram uma commoção que não era por elles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo.
--Venha comnosco, capitão.
--Fico.
O guernesiano, que conhecia o mar, replicou:
--Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado ha apenas uma milha até Plainmont. Mas na chalupa só se póde abordar na Roquaine, e são duas milhas. Ha cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega á Roquaine antes de duas horas. Não tarda a anoitecer. Enchendo á maré refresca o vento. Está proxima a borrasca. É nosso desejo vir buscal-o depois, mas se romper o temporal, não será possivel. Se fica está perdido. Venha.
O parisiense interveio:
--A chalupa está cheia, e cheia de mais, é verdade, e um homem de mais seria ainda peior. Mas nós somos treze, é máo numero para a barça, e é melhor sobrecarregal-a de um homem que de um algarismo.
Trangouille accrescentou:
--A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.
--Fico, disse Clubin. O navio será despedaçado pela tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão. Dir-se-ha de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.
E crusando os braços gritou:
--Attenção ás ordens. Larguem a banda da amarra. Partam!
Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: Hourrah para o capitão Clubin!
--Eis um homem admiravel, disse o americano.
--É o mais honrado homem do mar, respondeu o guernesiano.
Trangouille chorava.
--Eu devia ter ficado com elle.
A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desappareceu.
Não se vio mais nada.
O rumor dos remos diminuio e perdeu-se.
Clubin estava só.
VI
ALLUMIA-SE O INTERIOR DE UM ABISMO
Quando aquelle homem achou-se naquelle rochedo, debaixo daquella nuvem, no meio daquella agua, longe do contacto humano, deixado por morto, sósinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo jubilo.
Alcançara o que queria.
Realisara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo praso que elle saccou sobre o destino.
Para elle, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a uma milha de terra; tinha setenta e cinco mil francos. Nunca se realisou mais acertado naufragio. Nada falhou; é verdade que tudo estava previsto. Desde a juventude Clubin teve uma idéa; fazer da honestidade uma parada no jogo da _roulette_ da vida, passar por homem probo, e partir dahi, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atraz os papalvos. Assentava que devia alcançar de uma vez aquillo que os larapios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, emquanto estes vão ter á forca, elle iria á fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construio immediatamente o plano: obrigar Rantaine á restituição; quanto ás suas revelações possiveis, annulal-as desapparecendo; passar por morto, que é a melhor desapparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufragio era necessario. Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua existencia uma obra prima. Quem podesse ver Clubin naquelle naufragio acreditaria ver um demonio feliz.
Viveu toda a sua vida naquelle minuto.
Toda a sua pessoa exprimia esta palavra; Emfim! Tremenda serenidade empallideceu aquella fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quaes parecia haver um tabique, tornou-se profundo e terrivel. O abrasamento interno daquella alma reverberou-se nelles.
O foro intimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elastica. Uma idéa é um meteóro; no momento do triumpho, entreabrem-se as meditações acumuladas que o preparam, e jorra uma faisca; ter em si uma garra do mal, e sentir nella uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; máo pensamento que triumpha illumina o rosto daquelle que o concebeu; certas combinações triumphantes, certos desejos realisados, certas felicidades ferozes, fazem apparecer e desapparecer nos olhos dos homens, lugubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sahe da consciencia, que se faz sombria e ennevoada.
Foi esse fulgor que illuminou aquelles olhos.
Relampago que não se parecia com cousa alguma do que se póde ver no céo e na terra.
O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.
Clubin fitou a immensa obscuridade, e não pôde reter uma gargalhada baixa e sinistra.
Estava livre! estava rico!
Achara a incognita. Resolvera o problema.
Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte sustentava a Durande, e afinal devia pol-a a nado. Mas o navio adheria solidamente ao rochedo; não havia perigo de sossobrar. Além disso, era preciso deixar á chalupa o tempo de affastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.
De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquelle abandono nas trevas.
A hypocrisia pesou áquelle homem durante trinta annos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um odio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera homem, trazia aquella armadura rigida, a apparencia. Era monstro internamente; vivia em uma pelle de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade; estava fechado naquelle caixão de mumia, a innocencia; tinha nas costas azas de anjo, esmagadoras para um velhaco. Pesava-lhe de mais a estima publica. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilibrio, pensar mal e fallar bem, que labutação! Clubin era o phantasma da rectidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino delle. Era-lhe preciso mostrar ares apresentaveis, escumar por baixo do nivel, sorrir em vez de ranger. A virtude para elle, era cousa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquella mão que lhe tapava a boca.
E querendo mordel-a, foi obrigado a beijal-a.
Ter mentido, é ter soffrido. O hypocrita é um paciente na dupla accepção de palavra; calcula um triumpho e soffre um supplicio. A premeditação indefinida de uma acção ruim acompanhada por dóses de austeridade, a infamia interior temperada de excellente reputação, enganar continuadamente, não ser jámais quem é, fazer illusão, é uma fadiga. Compôr a candura com todos os elementos negros que trabalham no cerebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compôr o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma belleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cocegas com o punhal, pôr assucar no veneno, velar na franqueza do gesto e na musica da voz, não ter o proprio olhar, nada mais difficil, nada mais doloroso. O odioso da hypocrisia começa obscuramente no hypocrita. Causa nauseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astucia disfarça a malvadeza repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e ha momentos de enjôo em que o hypocrita vomita quasi o seu pensamento. Engulir essa saliva é cousa horrivel. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hypocrita se estima. Ha um _eu_ desmedido ao impostor. O verme resvala como o dragão e como elle retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um despota tolhido que não póde fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hypocrita é um titão-anão.
Clubin imaginava de boa fé que tinha sido opprimido. Porque razão não nascèra rico? O que elle queria era que os paes lhe houvessem deixado cem mil libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa delle. Porque motivo, não lhe dando todos os gosos da vida, forçaram-n'o a trabalhar, isto é, a enganar, a trahir, a destruir? Porque motivo condemnaram-n'o assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não ere delle? Dissimular é uma violencia imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soára emfim a hora. Clubin vingava-se.
De quem? De todos e de tudo.
Lethierry não lhe fez senão bem: queixa de mais; vingava-se de Lethierry.
Vingava-se de todos aquelles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem delle, era seu inimigo, porque elle foi captivo desse homem.
Clubin achava-se livre. Realisára-se a fuga. Estava fóra dos homens. O que se tinha por morte, era vida; elle ia começar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry á ruina, a justiça humana ás trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.
Quanto a Deos, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.
Passou como religioso. Que importa?
Ha cavernas no hypocrita ou antes, o hypocrita é uma caverna.
Quando Clubin ficou só, abrio-se-lhe o antro. Teve um instante de delicias; arejou a alma.
Respirou largamente o seu crime.
O fundo do mal tornou-se visivel naquelle rosto. Clubin abrio-se. Nesse momento, o olhar de Rantaine ao pé daquelles olhos pareceria um olhar de recem-nado.
Arrancar a mascara, que livramento! A consciencia de Clubin alegrou-se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignobil no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gosto violento á impudencia. Chega-se a uma certa lascivia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas moraes tão pouco sondadas, uma não sei que ostentação atroz e agradavel que é a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá appetite de vergonha. Desdenha-se os homens a ponto tal que se deseja o despreso delles. Ser estimado, aborrece. Admira-se a franquesa da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gosto na ignominia. Os olhos obrigados a baixar-se, tem muitas vezes destes olhares obliquos. Nada se approxima tanto de Messalina como Maria Alacope. Vede Capiere e a religiosa de Louviers.
Clubin vivera debaixo do véo. O descaramento foi sempre a sua ambição. Invejava a mulher publica e a fronte de bronze do opprobrio aceito; sentia-se mais mulher publica do que ella e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tantalo do cynismo. Emfim naquella solidão, podia ser franco; era-o. Que volupia não é sentir-se sinceramente abominavel! Todos os extasis possiveis no inferno, teve-os Clubin naquelle momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hypocrisia é um adiantamento; Satanaz embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento, pois que os homens tinham desapparecido e apenas ficara o céo. Disse comsigo: Sou um picaro! e ficou satisfeito.
Jamais houve cousa igual em uma consciencia humana.
Erupção de um hypocrita, não ha rompimento de cratera igual a esse.
Achava-se feliz por não haver ali ninguem, e não desgostaria que alguem o visse. Teria prazer em ser medonho á vista de uma testemunha.
Teria prazer em dizer ao espirito humano: és idiota!
A ausencia de homens assegurava-lhe o triunpho, mas diminuia-o.
Só elle era o espectador da sua gloria.
Ha certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.
Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé, sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o despota de todos os olhares que elle obriga a voltarem-se para si. Aquelle cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais bello triumpho do que esse de ficar no centro de convergencia para a attenção geral? Obrigar o olhar publico é uma das formas da supremacia. Os que tem o mal por ideal acham no opprobrio uma auréola. Domina-se dahi. Olha-se de cima de alguma cousa. Mostra-se com soberania. Um poste, á vista de todo o universo, tem alguma analogia com um throno.
Estar exposto, é ser contemplado.