Part 11
Não ha peor encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a _Blanche Nef_, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Preel que torna tão angustiosa a entrada de Merquel e que obriga a deitar a umas vinte braças a balisa vermelha, as proximidades perfidas de Étables e de Plouha, as duas druidas de granito do Sul ds Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recommendada ao medo por este proverbio:--_Quando passares o Ras, se não morreres, tremerás_;--as Mortes-Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mauvais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal afamados. Vale mais affrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só vez.
Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeo do occidente, o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o escolho Pater Noster, entre Guernesey e Serk.
E ainda no Pater Noster póde-se fazer um signal: quem está ali em perigo póde ser soccorrido. Vê-se ao Norte a ponta Dicard ou de Icaro, ao Sul, o Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.
O vento, a agua, a nuvem, o illimitado, o inhabitado. Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inhospitalidade do abysmo.
É mar alto. A agua é profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, attrahe e abriga os animaes que precisam affastar-se dos homens. É uma especie de vasta madrepora submarinha. É um labyrintho afogado. Ha alli, em profundezas que difficilmente alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pollulam as especies monstruosas. Devoram-se umas ás outras. Os carangueijos comem os peixes, e são devorados tambem. Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquella obscuridade. Vagos lineamentos de guellas, antennas, tentaculos, barbatanas, bocas abertas, escamas, garras, unhas, fluctuam, tremem, engrossam, decompõe-se, e desfazem-se na transparencia sinistra. Tremendos nadadores andam alli na labutação. É uma colmêa de hydras.
Alli o horrivel é ideal.
Imagina, se podes, um formigueiro de holothurias.
Vêr o interior do mar, é vêr a imaginação do Ignoto. É vêl-a do lado terrivel. O golphão é analogo á noite. Tambem ahi ha somno, somno apparente ao menos, da consciencia da creação. Commettem-se alli em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida, phantasmas quasi, completos demonios, vagam alli, em medonha paz, nas sombrias occupações da sombra.
Ha quarenta annos, duas rochas de forma extraordinaria assignalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticaes e recurvadas, tocando-se quasi no cume. Parecia vêr-se irrompendo do mar dous dentes de um elephante engulido. Mas eram dentes do tamanho de torres que só poderiam pertencer a elephantes do tamanho de uma montanha. Essas duas torres naturaes da obscura cidade dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados de comprimento, parecia ura pedaço de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gemeas chamava-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre, uma tinha sessenta pés de altura, a outra quarenta. O vai-vem das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do equinocio de 26 de Outubro de 1859, derrubou uma dellas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.
Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No seculo passado alguns pescadores, perdidos naquelles cachopos, acharam um cadaver. Ao pé do cadaver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado alli um homem, refugiou-se naquelles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. Veio dahi chamar-se Homem ao rochedo.
São singulares as solidões da agua. É o tumulto e o silencio. O que ahi se faz já nada tem com o genero humano. É a utilidade desconhecida. Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o immenso tormento das vagas.
II
COCNAC INESPERADO
Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do _Tamaulipas_, a Durande partio para Guernesey.
Deixou Saint-Malo ás 9 horas.
Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.
As preocupações do Sr. Clubin fez com que embarcasse pouco carregamento. Apenas metteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre Port, tres caixas para o hospital de Guernesey, uma de sabão amarello, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordavão fino. Levava tambem, da precedente viagem, uma caixa de assucar Arushed e tres caixas de chá conjou, que a alfandega franceza não quiz receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.
Haviam a bordo seis passageiros: um guernesiano, dous maloenses vendedores de animaes, um _tourista_, como já se dizia nesse tempo, um parisiense meio burguez, provavelmente tourista do commercio, e um americano distribuidor de Biblias.
A Durande, sem contar Clubin, tinha sete homens de tripolação; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dous trabalhadores da machina e um grumete. Um dos penultimos era tambem mecanico. Era um valente e intelligente negro hollandez, evadido das fabricas de assucar de Surinam; chama-se Imbrancam. O negro Imbrancam comprehendia e servia admiravelmente a machina. Nos primeiros tempos, contribuio elle não pouco, quando apparecia na fornalha, para dar um ar diabolico á Durande.
O timoneiro, jerseyano de nascimento, originario da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.
É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, paizes hierarchicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas idéas, que são os seus dentes. Essas idéas são as mesmas em toda a parte, na India, como na Allemanha. A nobreza conquista-se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer cousa alguma, é viver fidalgamente; quem não trabalha é reverenciado. Officio faz decahir. Na França de outr'ora só se exceptuavam os operarios de vidro. Sendo gloria para os fidalgos esvasiar garrafas, fazel-as não era deshonra alguma.
Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quizer ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Inda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende do cavalheiros e é apenas marujo. Ha trinta annos, em Aurigny, um Gorges authentico que, ao que parece tinha direitos á senhoria de Gorges confiscada por Philippe Augusto, apanhava sargaço com os pés nús. Ha em Serk um Carteret que é carreiro. Existe em Jersey um mercador de pannos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Contances, mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No decimo quinto seculo Johan de Heroudeville, bésteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre comsigo justilhos e arnezes. Em Maio de 1371, em Tontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cabe em pobreza é logo eliminado da fidalguia. Basta uma mudança de nome. De _Tangroville_ faz Taugouille, e tudo se arranja.
Foi o que aconteceu ao timoueiro da Durande.
Ha em Saint-Pierre Port, no Bordage, um mercador de ferros velhos chamado Ingrouille, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luiz o Gordo, os Ingroville possuiam tres parochias em Valognes. Fez um padre Trigan a _Historia ecclesiastica da Normandia._ Este chronisla Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se cahisse no populacho, chamar-se-ha _Digouille._
Tangrouille, Tancarville provavel e Montmorency possivel, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave n'um timoneiro; embriagava-se.
O Sr. Clubin teimava em conserval-o. Respondia por elle a mess Lethierry.
O timoneiro Tangrouille não sahia nunca do navio e dormia a bordo.
Na vespera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bebado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava dispensa. A dispensa secreta de Tangrouille era no porão onde se guardava a agua. Pol-a ahi para tornal-a inverosimil. Estava certo de que só elle conhecia aquelle esconderijo. O capitão Clubin era severo, porque era sobrio. O pouco rhum e gin que o timoneiro podia subtrahir á vigilancia do capitão, punha de reserva naquelle mysterioso cantinho, no fundo de uma celha de sonda, e quasi todas as noites tinha entrevista amorosa com aquella dispensa. Era rigorosa, a vigilancia, pobre devia ser a orgia, e de ordinario os excessos nocturnos de Tangrouille limitavam-se a dous ou tres goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a dispensa estava vasia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de aguardente inesperada. Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que céos lhe cahio aquella garrafa? Não pôde lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a immediatamente. Em parte fêl-o por prudencia: tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte quando tomou a cana do leme Tangrouille tinha certa oscillação.
Todavia governou o barco quasi como nos outros dias.
Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na pousada João.
Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns vinte guinéos, e que só tirava á noite. No interior do cinto estava escripto o nome delle, escripto por elle mesmo no couro bruto com tinta lithographica, que é indelevel.
Ao levantar, antes de partir, poz no cinto a caixinha de ferro contendo os setenta e cinco mil francos em notas do banco, depois atou o cinto, como costumava, á roda do corpo.
III
PALESTRA INTERROMPIDA
Foi alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatoria, tal é o costume. Dous passageiros, o tourista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça por peça, e quasi fio por fio, na coberta e entreponte, todos os apparelhos maritimos, argolas, ganchos, fateixas, cylindros, que á força de precisão e justeza são uma especie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourada com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, «com uma corrente de cão de sentinella,» observou o tourista, e «coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipações» accrescentou o parisiense. Affastando-se de terra, trocaram-se as observações do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emittio o axioma de que as perspectivas do mar illudem, e que, a uma legua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunkerque. Completou-se o que havia a dizer de Dunkerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se,--um _Ruyttngue_ e o outro _Mardyck._
Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.
O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quasi sem torsão a perder de vista.
Guernesey está no centro de uma linha recta tirada de Saint-Malo em França, e Exeter em Inglaterra. A linha recta no mar nem sempre é a linha logica. Entretanto os vapores tem, até certo ponto, o poder de seguir a linha recta que não podem seguir os navios de vela.
O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de machinas. As forças são machinas infinitas, as machinas são forças limitadas. Entre os dous organismos, um inexgotavel, outro intelligente, trava-se o combate que se chama navegação.
Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Tambem o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não ha força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerario.
Emquanto se não descobre a lei, prosegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma especie de victoria perpetua que o genio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admiravel porque disciplina o navio. Diminue a obdiencia ao vento e augmenta a obdiencia ao homem.
Nunca a Durande trabalhou no mar como naquelle dia. Andava maravilhosamente.
Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Minquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e bello estava o céo. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.
A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.
Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume. A tripulação não se preoccupava com isso, era absoluta a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das onze horas, o capitão rectificou a direcção e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um bello sol de Fevereiro.
Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços firmes. Resultava dahi que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrazava a marcha.
O vento ia amainando.
O passageiro guernesiano, que tinha um oculo na mão, firmava-o de tempos a tempos para um froco de espuma coada pelo vento no extremo horisonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado em roda.
O capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de attenção.
Tudo estava calmo e quasi risonho a bordo da Durande; os passageiros conversavam.
Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo tremolo da conversa. A plena liberdade de espirito dos passageiros corresponde á perfeita tranquillidade da agua.
É impossivel, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que não fosse calmo.
--Veja aquella bonita mosca verde e encarnada.
--Perdeu-se no mar e descança no navio.
--As moscas não se cançam muito.
--Pudera! são tão leves. Carrega-as o proprio vento.
--Já se pezou uma onça de moscas, e contadas depois vio-se que eram seis mil duzentas e sessenta e oito.
O guernesiano do oculo tinha-se chegado aos maloenses mercadores de gado, e a conversa delles era pouco mais ou menos esta:
--O boi de Aubrac tom o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pello amarello. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.
--Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.
--Vi dous magnificos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nadegas largas, bom comprimento da nuca á garupa, boa altura no garrote, manejo facil, pelle boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os signaes da um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pelle branca e vermelha, alcatra cahida.
--Isso é raça da costa.
--Sim, mas com certa semelhança com o touro angus ou o touro suffolk.
--Acredite se quer, no meio-dia ha concurso de bestas.
--De bestas?
--De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são bonitas.
--Então são como as jumentas. As feias é que são boas.
--Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.
--A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.
--A belleza dos animaes não é como a belleza dos homens.
--É sobretudo das mulheres.
--Justo.
--Eu cá quero que a mulher seja bonita.
--Prefiro-a bem trajada.
--Sim, limpa, asseiada, esticadinha.
--Ares de mocidade. Uma rapariga deve parecer que sahe do joalheiro.
--Volto aos bois. Vi vender os taes bois no mercado de Thouars.
--Conheço o mercado. Os Boniau de la Rochelle, e os Babu, os mercadores de trigo de Marans, não sei se ouvio fallar delles, devem ter ido a esse mercado.
O tourista e o parisiense conversavam com o americano das Biblias; a conversação ahi era como nos outros grupos.
Dizia o tourista:
--Eis a tonellagem fluctuante do mundo civilisado; França, sete centas e dezeseis mil tonelladas; Allemanha, um milhão; Estados-Unidos, cinco milhões; Inglaterra, cinco milhões e quinhentos mil. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total; doze milhões nove centos e quatro mil tonelladas distribuidas por cento e quarenta e cinco mil navios na agua do globo.
O americano interrompeu.
--Os Estados-Unidos é que tem cinco milhões e quinhentos mil.
--Convenho, disse o tourista. O senhor é americano?
--Sim, senhor.
Houve um silencio; o americano missionario perguntou a si mesmo se era occasião de offerecer uma Biblia.
--Será verdade, continuou o tourista, que os senhores lá na America gostam tanto das alcunhas, a ponto de as pôr em todos os seus homens celebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomaz Benton, _a velha barra de ouro?_
--Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor, _o velho Zach?_
--E o general Harrison, _o velho Tip?_ e o general Jackson _o velho Hickory?_
--Sim, porque Jackson é duro como pão hickory, e Harrison bateu os Pelles Vermelhas em Tippecauve.
--É um costume bysantino esse.
--É costume nosso. Chamamos Van Buren o _feiticeirinho_, Seward, que mandou fazer bilhetes miudos do banco, _o bilhete miudo_, e Douglas, o senador democrata do Illinois, que tem quatro pés de altura e uma grande eloquencia, o _gigantinho._ Percorra do Texas ao Maine, não encontrará ninguem que diga este nome: Cass; todos dizem: _o grande Michigantier_; nem este nome: Clay; dizem todos: o _rapaz do moinho acutilado._ Clay é filho de um moleiro.
--Eu prefiro, Clay ou Cass, observou o parisiense, é mais curto.
--Pois estaria fóra do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretario do thesouro _o rapaz da carreta._ Daniel Webster é o _negro Dan._ Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira idéa, depois de bater os inglezes em Chippeway, foi assentar-se á mesa, chamamo-lo _Da-cá-um-prato-de-sopa-depressa._
Tinha-se agigantado o froco de neve. Occupava no horisonte um segmento de cerca de 15 gráos. Dissera-se uma nuvem arrastada á flôr d'agua por falta de vento. Não havia um sopro de brisa se quer. Embora fosse apenas meio dia, o sol ia empallidecendo. Allumiava, mas já não aquecia.
--Creio, disse o tourista, que o tempo vai mudar.
--Talvez haja chuva, disse o parisiense.
--Ou nevoeiro, disse o americano.
--Na Italia, continuou o tourista, o lugar em que cahe menos chuva é Molfetta, e onde cahe mais é em Tolmezzo.
Ao meio-dia, segundo o uso do archipelago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quiz. Alguns passageiros levavam comida comsigo e comeram no convez. Clubin não jantou.
Ao jantar, a palestra continuou.
O guernesiano, tendo o faro das Biblias, approximou-se do americano. O americano disse-lhe:
--Conhece este mar?
--Sem duvida, sou filho delle.
--E tambem eu, disse um dos maloenses.
O guernesiano adherio com um comprimento, e continuou:
--Agora estamos ao largo, mas não me agradava nada ter nevoeiro emquanto estavamos ao pé dos Minquiers.
O americano disse ao maloense.
--Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.
--É exacto, nós os filhos da costa, temos apenas metade do mar.
--Que cousa é essa dos Minquiers? continuou o americano.
O maloense respondeu:
--São umas pedras ruins.
--Ha tambem os Grelets, disse o guernesiano.
--Ora! disse o maloense.
--E os Chouas, accrescentou o guernesiano.
O maloense deu uma gargalhada.
--Dessa fórma, disse elle, temos tambem os Sauvages.
--E os Maine, observou o guernesiano.
--E o Canard, disse o maloense.
--O senhor tem resposta para tudo, disse o guernisiano com rapidez.
--Maloense, malicioso.
Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.
O tourista interpoz uma pergunta.
--Dar-se-ha caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores fallam?
--Qual! Deixamol-a a sudoeste. Já ficou atraz de nós.
E o guernesiano continuou:
--Entre grandes e pequenos, os Grelets têm cincoenta e sete pontas de rocha.
--E os Minquiers quarenta e oito, disse o maloense.
Aqui o dialogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.
--Parece-me, Sr. de Saint-Malo, que ha tres rochedos que o Sr. deixou de contar.
--Contei tudo.
--A Derée da Maitre-Ile?
--Sim.
--E Maisons tambem?
--Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.
--Já vejo que conhece os cachopos.
--Quem não os conhece não é de Saint-Malo.
--Causa gosto ouvir o raciocinio dos francezes.
O maloense comprimentou, e disse:
--Sauvages são tres rochedos.
--E Maines são dous.
--Canard é um.
--Basta dizer Canard; já se sabe que é um.
--Não, por que a Suarde são quatro rochedos.
--Que é a Suarde? perguntou o guernesiano.
--Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.
--Não é bom passar entre Chouas e Canard.
--Só os passaros podem passar ahi.
--E os peixes.
--Nem sempre. Quando ha máo tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.
--Ha arêa em Minquiers.
--Á roda de Maisons.
--Veem-se oito rochedos de Jersey.
--Da praia de Asette, é justo. Náo são oito, são sete.
--Nas vasantes póde-se passear entre os Minquiers.
--Sem duvida, ha espaço.
--E Dirouilles?
--Dirouilles não tem nada com Minquiers.
--Quero dizer que é perigoso.
--É do lado de Granville.
--Vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.
--Sim, disse o maloense, com a differença de que nós dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem: gostamos.
--São bons marinheiros os senhores.
--Eu sou mercador de gado.
--Quem é que foi tambem de Saint-Malo?
--Surcouf.
--Não, outro.
--Duguay-Trouin.
Aqui o viajante parisiense interrompeu.
--Duguay-Trouin? foi apanhado pelos inglezes. Era tão amavel quão valente. Agradou a uma joven ingleza. Foi ella quem lhe quebrou os ferros.
Neste momento uma voz tremenda gritou:
--Estás bebado!
IV
MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN
Voltaram-se todos.
Era o capitão Clubin que interpellava o timoneiro.
O Sr. Clubin não tratava ninguem por tú. Para que elle atirasse a Tangrouille semelhante apostrophe, era preciso que estivesse colerico ou quizesse mostrar-se assim.
Uma expressão de colera, vindo a proposito, demitte a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.
O capitão, de pé no lugar do commando, entre as caixas, das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetio entre dentes: Beberrão! O honesto Tangrouille abaixou a cabeça.
Desenvolvia-se o nevoeiro. Já occupava metade do horisonte. Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia elle apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ella pela prôa. Era um vasto penedio movediço e vago. Cortava-se no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a agua immensa entrava por baixo do nevoeiro e desapparecia.
Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia legua de distancia. Se o vento mudasse, podia-se evitar a immersão na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia legua de intervallo enchia-se e diminuia a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro tambem. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.
Clubin mandou augmentar o vapor e obliquar a leste.