Part 10
No alto de um rochedo desse genero, achava-se em pé, pelas quatro horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de uniforme, e provavelmente armado, o que era facil de reconhecer por certas dobras rectas e angulosas do manto. O sitio em que estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de cubos á semelhança de seixos immensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde brotava uma hervasinha estreita e curta, terminava do lado do mar por um espaço livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns sessenta pés de altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo. Entretanto, o angulo da esquerda ia-se arruinando e offerecia uma dessas escadas naturaes proprias aos granitos marinhos, cujos degraos pouco commodos exigem ás vezes pernas de gigante ou pulos de downs. Descia perpendicularmente ao mar e mergulhava nas aguas. Era um quebra-costas. Podia-se, comtudo, a rigor, ir por alli embarcar na muralha da lingua de rochas.
Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o cotovello direito na mão esquerda, piscava um olho e applicava ao outro um oculo. Parecia absorto em uma attenção séria. Approximou-se da borda do rochedo, e alli estava immovel com o olhar imperturbavelmente fito no horisonte. A maré estava cheia. A vaga batia por baixo delle no sopé do rochedo.
O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras singulares.
Esse navio, que apenas uma hora antes sahira de Saint-Malo, tinha parado por traz dos Banquetiers. Era uma galera. Não tinha deitado ancora, talvez porque o fundo não lh'o permittisse, e porque o navio teria prendido a ancora de baixo do gurupés. Limitou-se a pôr-se á capa.
O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente. O navio tinha atravessado: era o que indicava a vela ré alada a barlavento, e as de prôa largas por mão; tinha braceado o panno de ré o mais que lhe foi possivel, de forma que neutralisava a força dos de prôa. Deste modo, cahindo a sotavento, não perdia mais de milha e meia por hora.
O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas. Mas ao pé das costas começava a escurecer.
O guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente ao largo, não tinha pensado em examinar o rochedo ao lado e em baixo. Dava as costas para a escada pouco praticavel que punha em communicação a plataforma com o mar. Não reparou que alguma cousa andava alli em movimento. Havia nessa escada, por traz da anfractuosidade, alguma pessoa, um homem escondido alli, segundo parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos a tempos, na sombra, apparecia uma cabeça por baixo da rocha, olhava para cima e espiava o espião. Essa cabeça coberta por um largo chapéo americano, era a cabeça do quaker, que, uns dez dias antes, fallara nas pedras do Petit Bey, ao capitão Zuela.
De repente pareceu redobrar a attenção do guarda-costa.
Limpou rapidamente com a manga o vidro do oculo e firmou-o com energia sobre o navio.
Destacara-se um ponto negro.
O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaça.
A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripolada por alguns marinheiros que remavam vigorosamente.
Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decollé.
A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior gráo de fixidez. Elle não perdia nenhum dos movimentos da barcaça. Approvimou-se mais ainda da borda do rochedo.
Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgio por traz do guarda-costa, no alto da escada. O espião não via o quaker.
Parou este alguns instantes, com os braços cahidos, e os punhos crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as costas do espião.
Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um pé, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o unico movimento que fazia era andar, o resto do corpo era estatua; o pé firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo, e parou; estava quasi tocando o guarda-costa, sempre immovel, com o oculo fixo. O homem ajuntou as duas mãos fechadas na altura das suas claviculas, depois, bruscamente, abateram-se os antebraços, e os dous punhos, como que soltos por uma mola, bateram nos hombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Cahio de cabeça no mar. Viram-se-lhe os pés durante o tempo de um relampago. Foi uma pedra n'agua. A agua cerrou-se depois, descrevendo dous ou tres grandes circulos.
Ficou apenas o oculo escapo ás mãos do guarda-costa e cahido no chão.
O quaker inclinou-se á borda das rochas, vio acalmar-se a agua, esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os dentes:
_Monsieur de la police est mort_ _En perdant la vie._
Inclinou-se outra vez. Nada reappareceu. Sómente no lugar onde o guarda-costa tinha cahido, formou-se na superficie da agua uma especie de espessura negra, que se alargava no movimento da vaga. Era provavel que o guarda-costa tivesse quebrado o craneo em alguma rocha sub-marinha. O sangue subira e fazia aquella mancha na espuma. O quaker, contemplando aquella mancha, continuou:
_Un quart d'heure avant sa mort,_ _Il était encore...._
Não acabou.
Ouvio atraz de si unia voz doce que lhe dizia:
--Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem.
Elle voltou-se, e vio a quinze passos, no intervallo de dous rochedos, um homem baixo que tinha um revolver na mão.
Respondeu:
--Como vê. Bom dia. Sr. Clubin.
O homem baixo estremeceu.
--Reconheceu-me?
--Não me reconheceu o senhor? disse Rantaine.
Entretanto ouvio-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça observada pelo guarda-costa que se approximava.
O Sr. Clubin disse a meia voz como se fallasse comsigo:
--A cousa foi rapida.
--Em que precisa de mim? perguntou Rantaine.
--Pouca cousa. Ha quasi dez annos que nos não vemos. O senhor ha de ter feito bons negocios. Como está de saude?
--Bem, disse Rantaine. E o senhor?
--Perfeitamente, respondeu Clubin.
Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.
Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin que armava o revolver.
--Rantaine, estamos a 15 passos. É uma boa distancia. Fique onde está.
--Ah! mas o que quer o Sr. de mim?
--Venho conversar.
Rantaine não se mecheu. O Sr. Clubin coutinuou:
--O senhor matou agora mesmo um guarda-costa, Rantaine levantou a aba do chapéo e respondeu:
--Já me fez a honra de dizel-o.
--Em termos menos precisos. Disse ha pouco: um homem; agora digo: um guarda-costa, O quarda-costa tinha o n. 619. Era um pai de familia. Deixa mulher e cinco filhos.
--Deve ser assim, disso Rantaine.
Houve um imperceptivel tempo de silencio.
--São homens escolhidos estos guarda-costas, disse Clubin, quasi todos antigos maritimos.
Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos. Clubin continuou:
--Advinhe quanto me custou este revolver.
--É um lindo instrumento, respondeu Rantaine.
--Quanto vale?
--Vale muito.
--Custou-me cento e quarenta e quatro francos.
--Comprou naturalmente na loja de armas da rua Contanchez.
Clubin continuou:
--O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.
--Sr. Clubin, hade ventar esta noite.
--Eu sou o unico que sei do segredo.
--Continúa a morar na pousada João?
--Sim. Vive-se bem alli.
--Já lá comi muito boa couve fermentada.
--Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espadua! Não seria eu quem lhe levaria um piparote. Era tão rachitico quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.
--Felizmente, criou-se.
--Sim, e continúo a morar na pousada João.
--Sabe porque motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me tinha reconhecido. Disse comigo: Só Clubin póde reconhecer-me.
E adiantou um passo.
--Fique onde estava, Rantaine.
Rantaine recuou e disse aparte:
--A gente torna-se criança diante destes instrumentos.
O Sr. Clubin continuou.
--Situação. Temos aqui á direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos passos, outro guarda-costa, numero 618, que está vivo, e á esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de alfandega. Sete homens armados que podem estar aqui dentro em cinco minutos. O rochedo ficará cercado. O desfiladeiro ficará guardado. Impossivel fugir. Ha um cadaver ao pé da rocha.
Rantaine deitou um olhar obliquo ao revolver.
--Como diz, Rantaine. É um lindo instrumento. Talvez esteja carregado com polvora secca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer correr a força armada. Tenho seis tiros.
O choque alternativo dos remos tornava-se mais distincto. A barcaça não estava longe.
O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. O Sr. Clubin fallava com um ar cada vez mais tranquillo e doce.
--Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que fez ha pouco, ajudar-me-hiam a prende-lo. O senhor paga 10,000 francos de passagem ao capitão Zuela. Entre parenthesis, a passagem ficaria mais barata se tratasse com os contrabandistas de Plainmont, mas estes só o levariam para Inglaterra, e demais o senhor não póde arriscar-se a ir a Guernesey onde ha quem tenha a honra de conhecel-o. Volto á situação. Se eu disparar prendem-n'o. Nesse caso pagará a Zuela 10,000 francos de fuga. Já lhe deu 5,000 mil francos; Zuela guardará esses 5,000 trancos e vai-se embora. É isto. Rantaine acho-o bem rebuçado. Esse chapéo, esse casaco, e essas polahias disfarçam-n'o. Esqueceram-lhe os oculos. Fez bem em deixar erescer as suisas.
Rantaine sorrio como quem range os dentes. Clubin continuou:
--Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas algibeiras. N'uma dellas tem o seu relogio. Guarde-o.
--Obrigado, Sr. Clubin.
--Na outra ha uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas. É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso, e atire-a para cá.
--Mas isto é um roubo!
--Póde chamar a guarda.
E Clubin fixou os olhos em Rantaine.
--Olhe, mess Clubin.... disse Rantaine dando um passo e estendendo a mão aberta.
_Mess_ era uma lisonja.
--Fique onde está, Rantaine.
--Mess Clubin, arranjemos as cousas. Offereço-lhe metade.
Clubin executou um crusar de braços, mostrando a bocca do revolver.
--Rantaine, quem pensa que eu sou? Sou um homem honrado.
E acrescentou depois de uma pausa.
--Quero tudo.
Rantaine disse entre dentes:
--É temivel este.
Entretanto acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o aço. Disse elle:
--Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é Restituição. Ouça, Rantaine. Ha dez annos, sahio o senhor de Guernesey á noite tomando da caixa de uma sociedade cincoenta mil francos que lhe pertenciam, e esquecendo de lá deixar cincoenta mil francos que pertenciam a outro. Esses cincoenta mil francos roubados ao seu socio, o excellente e digno mess Lettierry, fazem hoje com os juros accumulados de dez annos oitenta mil seiscentos e sessenta e seis francos e sessenta e seis centimos. O senhor entrou hontem na casa de um cambista. Reluchet, chama-se elle, rua de S. Vicente. Deu-lhe setenta e seis mil francos em bilhetes de banco francezes, e em troca deu-lhe elle tres bank-notes de Inglaterra de mil libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor poz essas bank-notes na boceta de ferro, e a boceta de ferro na algibeira direita. As tres mil libras esterlinas fazem setenta e cinco mil francos. Em nome de mess Lethierry, contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e vou levar-lh'os. Rantaine, a galera que alli está á capa é o _Tamaulipas._ O senhor embarcou alli esta noite as malas misturadas com os saccos e canastras da equipagem. Quer sabir de França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A barcaça vem buscal-o. Está á espera della. Ella ahi vem. Já a estamos ouvindo. Depende de mim deixal-o partir ou obrigal-o a ficar. Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.
Rantaine abrio o bolso, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.
Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta, tendo dirigidos contra Rantaine os dous olhos e os seis canos do revolver.
Depois disse:
--Meu amigo, volte as costas.
Rantaine voltou as costas.
O Sr. Clubin poz o revolver debaixo do braço, e apertou a mola da caixinha. A caixinha abrio-se.
Havia dentro quatro bank-notes, tres de mil libras, e uma de dez libras.
Clubin dobrou as tres notas de mil libras, pol-as outra vez na caixinha, fechou-a, e metteo-a no bolso.
Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de dez libras e disse:
--Volte para cá.
Rantaine voltou-se.
O Sr. Clubin continuou;
--Disse-lhe que me contentava com as tres mil libras. Aqui vão as dez libras.
E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.
Rantaine com um pontapé deitou o bilhete e a pedra ao mar.
--Como queira, disse Clubin. Vamos lá, o senhor hade estar rico. Estou tranquillo.
O rumor dos remos que se tinha approximado durante o dialogo, cessou. Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.
--Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.
Rantaine dirigio-se para a escada e desceu.
Clubin foi com precaução até a borda do rochedo, e adiantando a cabeça, vio descer Rantaine.
A barcaça tinha parado ao pé do ultimo degráo do rochedo, no mesmo lugar em que tinha cahido o guarda-costa.
Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou:
--Bom numero seiscentos e desenove! Pensava que estava só. Rantaine pensava que eram apenas dous. Só eu sabia que eramos tres.
Clubin vio no chão o oculo do guarda-costa; apanhou-o.
Começou o ruido dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça, e esta tomava o largo.
Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o punho e gritou:
--Ah! o proprio diabo é um canalha!
Instantes depois, Clubin do alto das rochas, e fixando o oculo na barcaça, ouvio distinctamente estas palavras, articuladas por uma voz grossa, meio do rumor do mar:
--O Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva a Lethierry para participar-lhe o facto, e aqui vai nesta barcaça um marinheiro de Guernesey que é da equipagem do _Tamaulipas_, que se chama Ahier Tortevin, o que ha de voltar a Saint-Malo, na proxima viagem de Zuela, e que será testemunha de que eu lhe entreguei para mess Lethierry a somma de tres mil libras esterlinas.
Era a voz de Rantaine.
Clubin era o homem das cousas bem feitas. Immovel como estivera o guarda-costa, e no mesmo lugar, com o oculo no olho, não perdeu de vista a barcaça. Vio diminuir-se os remos, desapparecer, reapparecer, approximar-se a barcaça do navio; e pôde reconhecer a alta corpulencia de Rantaine no tombadilho do _Tamaulipas._
Quando a barcaça foi içada, o _Tamaulipas_ entrou a preparar-se. A brisa soprava de terra, o navio abrio as velas todas, o oculo de Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado, e, meia hora depois o _Tamaulipas_ era apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no céo amarello do crepusculo.
IX
INFORMAÇÃO UTIL ÁS PESSOAS QUE ESPERAM, OU RECEIAM CARTAS DE ALEM-MAR
Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.
Uma das causas da sua demora, é que antes de recolher-se, foi elle até á porta Dinan onde haviam tavernas. Tinha comprado em uma dessas tavernas onde não era conhecido, uma garrafa de aguardente que pôz em uma larga algibeira da japona como se quizesse escondel-a; depois, devendo a Durande sahir no dia seguinte de manhã, foi a bordo para ver se tudo estava em ordem.
Quando o Sr. Clubin entrou ua pousada João, já não havia na sala baixa senão o velho capitão de longo curso, Gertrais-Gaboureau, bebendo e fumando cachimbo.
O capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.
--Good bye, capitão Clubin.
--Boa noite, capitão Gertrais.
--Com que então, lá se foi o _Tamaulipas._
--Ah! disse Clubin, não reparei.
O capitão Gertrais-Gaboureau cuspio e disse:
--Raspou-se o Zuela.
--Quando?
--Esta noite.
--Onde vai?
--Vai ao diabo.
--Sim; mas onde?
--A Arequipa.
--Não sabia, disse Clubin.
Accrescentou:
--Vou dormir.
Accendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.
--Já foi a Arequipa, capitão Gertrais?
--Sim. Ha annos.
--Onde se costuma a arribar?
--Em diversos portos. Mas o _Tamaulipas_ não arribará em parte alguma.
O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo, e continuou:
--Conhece o _Cheval-de-Troie_ e o _Trentemousin_ que foram a Cardiff. Não opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em bello estado. _Cheval-de-Troie_ levava therebentina e abrio agua, e fazendo trabalhar as bombas, perdeu no meio da agua todo o carregamento. Quanto ao _Trentemousin_, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da ancora, o botalós, ovens; não soffreu o mastro de mesena, mas teve um forte abalo. Cahio o ferro do gurupés que aliás só ficou machucado, mas completamente nú. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.
Clubin tinha posto a vela na mesa, e pôz-se a pregar de novo uma porção de alfinetes que tinha na japona. Disse:
--Não dizia, capitão, que o _Tamaulipas_ não arriba em porto algum?
--Não. Vai direito ao Chile.
--Neste caso não pode mandar noticia alguma em caminho.
--Perdão, capitão Clubin. Primeiramente póde entregar despachos a todos os navios que encontrar em caminho para a Europa.
--É justo.
--Depois, tem a caixa de cartas do mar.
--A que chama o Sr. caixa de cartas do mar?
--Não sabe, capitão Clubin?
--Não.
--É quando se passa pelo estreito de Magalhães.
--Que ha então?
--Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de tresentos diabos.
--Depois?
--Quando se dobra o cabo Monmouth.
--Bem. Depois?
--Depois dobra-se o cabo Valentin.
--E depois?
--Depois dobra-so o cabo Izidoro.
--E depois?
--Dobra-se a ponta Anna.
--Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar?
--Chegamos á caixa. Montanhas á direita, montanhas á esquerda. De todos os lados aves marinhas. Terrivel sitio! Ah! com um milhão de diabos! que chusma, e que matinada! A borrasca alli não precisa de auxilio. Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas! Da vela grande passava ao juanete! Lufada sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um vellame novinho em folha não nos fica senão o fio. Que dansa! furacões capazes de fazer saltar uma galera como se fosse uma pulga. Já vi n'um brigue inglez, o _True Blue_, um grumette occupado com o páo da giba ser levado por um milheiro de ventos, com páo e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contra-mestre da _Revenue_, ser arrancado do navio e morrer. A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as peças de madeira do convez ficaram despedaçadas. A gente sahe dalli com as velas comidas, até fragatas de cincoenta fazem agua como se fossem cestos. E a endiabrada costa! É o que ha de mais damnado. Rochedos retalhados como por criancice. Approxima-se a gente do Porto Fome. Ahi é peor que peor. São as laminas mais agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente vê-se estas duas palavras escriptas com tinta vermelha: _Post-Office._
--Que quer dizer, capitão Gertrais?
--Quero dizer, capitão Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Anna vê-se em uma pedra de cem pés de altura um grande páo. É um poste com uma barrica no alto. Essa barrica é a caixa das cartas. Os inglezes escreveram em cima: _Post-Office._ Porque se metteram elles nisto? Aquillo é o correio do oceano; não pertence a esse honrado gentleman, o rei de Inglaterra. A caixa das cartas é commum. Pertence a todas as bandeiras. _Post-Office_, ha nada mais chinez! parece uma chicara de chá que o diabo offerece em pleno oceano. Eis como se faz o serviço. Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os seus despachos. O navio que vem do Atlantico envia cartas para Europa, e o navio que vem do Pacifico manda cartas para a America. O official que commanda o escaler põe na barrica o maço de cartas e tira o maço que lá encontra. Toma-se conta dessas á espera que o proximo navio tome conta das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contrario, o continente d'onde o senhor vem é aquelle para onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica está presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! O _Tamoulipas_ ficará ahi. A barrica tem uma tampa, mas sem fechadura nem cadeado. Bem vê que se póde escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.
--É esquisito, murmurou Clubin pensativo.
O capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.
--Supponhamos que o bregeiro do Zuela me escreva, mette as suas garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro mezes tenho as cartas do patife. Diga-me lá, capitão Clubin, sahe amanhã?
Clubin absorto em uma especie de somnambulismo, não ouvio. O capitão Gertrais repetio a pergunta. Clubin despertou.
--Sem duvida, capitão Gertrais. É o dia marcado. Devo sahir amanhã de manhã.
--Pois olhe, eu não sahia. Capitão Clubin, os cães tem o pello molhado. As aves marinhas andam ha duas noites á roda do pharol. Máo signal. Tenho um storm-glass que faz das suas. Estamos no segundo, quarto da lua; é o maximum da humidade. Vi ha pouco pimpinellas que fechavam as folhas e um campo de trevo cujas hastes estavam retezadas. Os vermes sabem do chão, as moscas mordem, as abelhas não se affastam dos cortiços, os pardaes consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao pôr do sol havia muitas nuvens no horisonte. Amanhã hade haver grande nevoeiro. Não lhe digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furacão. Grande sonso é o nevoeiro.
FIM DO 1° TOMO.
TRABALHADORES DO MAR
POR
VICTOR HUGO
traduzido por Machado de Assis
2° TOMO
RIO DE JANEIRO
TYP.--PERSEVERANÇA--RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.
PRIMEIRA PARTE
O Sr. Clubin.
NOTA
O Diario do Rio de Janeiro obteve do editor Lacroix (de Pariz e Bruxellas), por meio de um contracto celebrado entre esse editor e o correspondente do _Diario do Rio_, em Pariz, o direito de publicar a tradução portugueza deste romance, nas suas collumnas, começando mesmo antes que o 1° volume apparecesse em Pariz. O romance começou a ter a publicidade no _Diario do Rio_ no dia 16 de Março de 1866.
LIVRO SEXTO
O timoneiro ebrio e o capitão sobrio
I
OS ROCHEDOS DOUVRES
Cerca de cinco leguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plainmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, ha um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.
Esta denominação, Douvre, _Dover_, pertence a muitos cachopos e rochedos. Ha especialmente perto das costas do Norte uma rocha Douvre na qual se construe agora mesmo um pharol, escolho perigoso, mas que não deve ser confundido com este.
O ponto de França mais proximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira ilha do archipelago normando. A distancia deste escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbière tomo sobre um eixo, a ponta de Santa Catharina iria quasi bater nos Douvres. É uma distancia de quasi quatro leguas.
Nesses mares da civilisação os rochedos mais selvagens são raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfandega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos em Cesambre, ilha de Cesar, apanhadores de caraguejos em Brecqhou, pescadores de rêde em Minquiers e Ecrehou. Nos rochedos Douvres, ninguem.
As aves marinhas estão alli em sua casa.