Os sonetos completos de Anthero de Quental

Part 4

Chapter 4 4,075 words Public domain Markdown

D'aquella primavera venturosa Não resta uma flor só, uma só rosa... Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel--tu, como d'antes, Inda volves teus olhos radiantes... Para ver o meu mal... e escarnecel-o!

A uma mulher

Para tristezas, para dor nasceste. Podia a sorte por-te o berço estreito N'algum palacio e ao pé de regio leito, Em vez d'este areal onde cresceste:

Podia abrir-te as flores--com que veste As ricas e as felizes--n'esse peito: Fazer-te... o que a Fortuna ha sempre feito... Terias sempre a sorte que tiveste!

Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos, Que não são d'este mundo e onde eu leio Uns mysterios tão tristes e infinitos,

Tua voz rara e esse ar vago e esquecido, Tudo me diz a mim, e assim o creio, Que para isto só tinhas nascido!

Voz do Outomno

Ouve tu, meu cançado coração, O que te diz a voz da Natureza: --«Mais te valera, nú e sem defeza, Ter nascido em asperrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão Frio e cruel da mais cruel deveza, Do que emballar-te a Fada da Belleza, Como emballou, no berço da Illusão!

Mais valera á tua alma visionaria Silenciosa e triste ter passado Por entre o mundo hostil e a turba varia,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste) Com odio e raiva e dor... que ter sonhado Os sonhos ideaes que tu sonhaste!»--

Sepultura romantica

Ali, onde o mar quebra, n'um cachão Rugidor e monotono, e os ventos Erguem pelo areal os seus lamentos, Ali se ha-de enterrar meu coração.

Queimem-no os sóes da adusta solidão Na fornalha do estio, em dias lentos; Depois, no inverno, os sopros violentos Lhe revolvam em torno o arido chão...

Até que se desfaça e, já tornado Em impalpavel pó, seja levado Nos turbilhões que o vento levantar...

Com suas luctas, seu cançado anceio, Seu louco amor, dissolva-se no seio D'esse infecundo, d'esse amargo mar!

1864--1874

A IDEA

I

Pois que os deuses antigos e os antigos Divinos sonhos por esse ar se somem, E á luz do altar da fé, em Templo ou Dolmen, A apagaram os ventos inimigos;

Pois que o Sinai se ennubla e os seus pacigos, Seccos á mingua de agua, se consomem, E os prophetas d'outrora todos dormem Esquecidos, em terra sem abrigos;

Pois que o céo se fechou e já não desce Na escada de Jacob (na de Jesus!) Um só anjo, que acceite a nossa prece;

É que o lyrio da Fé já não renasce: Deus tapou com a mão a sua luz E ante os homens velou a sua face!

II

Pallido Christo, oh conductor divino! A custo agora a tua mão tão doce Incerta nos conduz, como se fosse Teu grande coração perdendo o tino...

A palavra sagrada do Destino Na bocca dos oraculos seccou-se: A luz da sarça ardente dissipou-se Ante os olhos do vago peregrino!

Ante os olhos dos homens--porque o mundo Desprendido rolou das mãos de Deus, Como uma cruz das mãos d'um moribundo!

Porque já se não lê seu nome escrito Entre os astros... e os astros, como atheus, Já não querem mais lei que o infinito!

III

Força é pois ir buscar outro caminho! Lançar o arco de outra nova ponte Por onde a alma passe--e um alto monte Aonde se abre á luz o nosso ninho.

Se nos negam aqui o pão e o vinho, Avante! é largo, immenso esse horizonte... Não, não se fecha o mundo! e além, defronte, E em toda a parte ha luz, vida e carinho!

Avante! os mortos ficarão sepultos... Mas os vivos que sigam, sacudindo Como o pó da estrada os velhos cultos!

Doce e brando era o seio de Jesus... Que importa? havemos de passar, seguindo, Se além do seio d'elle houver mais luz!

IV

Conquista pois sósinho o teu futuro, Já que os celestes guias te hão deixado, Sobre uma terra ignota abandonado, Homem--proscrito rei--mendigo escuro!

Se não tens que esperar do céo (tão puro, Mas tão cruel!) e o coração magoado Sentes já de illusões desenganado, Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te, então, na magestade estoica D'uma vontade solitaria e altiva, N'um esforço supremo de alma heroica!

Faze um templo dos muros da cadeia, Prendendo a immensidade eterna e viva No circulo de luz da tua Idea!

V

Mas a Idea quem é? quem foi que a vio, Jámais, a essa encoberta peregrina? Quem lhe beijou a sua mão divina? Com seu olhar de amor quem se vestio?

Pallida imagem, que a agua de algum rio, Reflectindo, levou... incerta e fina Luz, que mal bruxulêa pequenina... Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio...

Estendei, estendei-lhe os vossos braços, Magros da febre d'um sonhar profundo, Vós todos que a seguis n'esses espaços!

E emtanto, oh alma triste, alma chorosa, Tu não tens outra amante em todo o mundo Mais que essa fria virgem desdenhosa!

VI

Outra amante não ha! não ha na vida Sombra a cobrir melhor nossa cabeça, Nem balsamo mais doce, que adormeça Em nós a antiga, a secular ferida!

Quer fuja esquiva, ou se offereça erguida, Como quem sabe amar e amar confessa, Quer nas nuvens se esconda ou appareça, Será sempre ella a esposa promettida!

Nossos desejos para ti, oh fria, Se erguem, bem como os braços do proscrito Para as bandas da patria, noite e dia.

Podes fugir... nossa alma, delirante, Seguir-te-ha a travez do infinito, Até voltar comtigo, triumphante!

VII

Oh! o noivado barbaro! o noivado Sublime! aonde os céos, os céos ingentes, Serão leito de amor, tendo pendentes Os astros por docel e cortinado!

As bodas do Desejo, embriagado De ventura, a final! visões ferventes De quem nos braços vae de ideaes ardentes Por espaços sem termo arrebatado!

Lá, por onde se perde a phantasia No sonho da belleza: lá, aonde A noite tem mais luz que o nosso dia;

Lá, no seio da eterna claridade, Aonde Deus á humana voz responde; É que te havemos abraçar, Verdade!

VIII

Lá! Mas aonde é _lá_?--Espera, Coração indomado! o céo, que anceia A alma fiel, o céo, o céo da Idea. Em vão o buscas n'essa immensa esphera!

O espaço é mudo: a immensidade austera De balde noite e dia incendeia... Em nenhum astro, em nenhum sol se alteia A rosa ideal da eterna primavera!

O Paraiso e o templo da Verdade, Oh mundos, astros, sóes, constellações! Nenhum de vós o tem na immensidade...

A Idea, o summo Bem, o Verbo, a Essencia, Só se revela aos homens e ás nações No céo incorruptivel da Consciencia!

A um crucifixo

Lendo, passados 12 annos, o soneto da parte 1.^a que tem o mesmo titulo

Não se perdeu teu sangue generoso, Nem padeceste em vão, quem quer que foste, Plebeu antigo, que amarrado ao poste Morreste como vil e faccioso.

D'esse sangue maldito e ignominioso Surgio armada uma invencivel hoste... Paz aos homens e guerra aos deuses!--poz-te Em vão sobre um altar o vulgo ocioso...

Do pobre que protesta foste a imagem: Um povo em ti começa, um homem novo: De ti data essa tragica linhagem.

Por isso nós, a Plebe, ao pensar n'isto, Lembraremos, herdeiros d'esse povo, Que entre nossos avós se conta Christo.

DIALOGO

A cruz dizia á terra onde assentava, Ao valle obscuro, ao monte aspero e mudo: --Que és tu, abysmo e jaula, aonde tudo Vive na dor e em lucta cega e brava?

Sempre em trabalho, condemnada escrava. Que fazes tu de grande e bom, comtudo? Resignada, és só lodo informe e rudo; Revoltosa, és só fogo e horrida lava...

Mas a mim não ha alta e livre serra Que me possa igualar!.. amor, firmeza, Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!

Sou o espirito, a luz!.. tu és tristeza, Oh lodo escuro e vil!--Porêm a terra Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza!

MAIS LUZ!

(A Guilherme de Azevedo)

Amem a noite os magros crapulosos, E os que sonham com virgens impossiveis, E os que inclinam, mudos e impassiveis, Á borda dos abysmos silenciosos...

Tu, lua, com teus raios vaporosos, Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis, Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis, Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada, E o meio-dia, em vida refervendo, E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois, Seja-me dado ainda ver, morrendo, O claro sol, amigo dos heroes!

These e Antithese

I

Já não sei o que vale a nova idea, Quando a vejo nas ruas desgrenhada, Torva no aspecto, á luz da barricada, Como bacchante após lubrica ceia...

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia; Respira fumo e fogo embriagada: A deusa de alma vasta e socegada Eil-a presa das furias de Medea!

Um seculo irritado e truculento Chama á epilepsia pensamento, Verbo ao estampido de pelouro e obuz...

Mas a idea é n'um mundo inalteravel, N'um crystallino céo, que vive estavel... Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

N'um céo intemerato e crystallino Póde habitar talvez um Deus distante, Vendo passar em sonho cambiante O Ser, como espectaculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino O lançou, vive e agita-se incessante: Enche o ar da terra o seu pulmão possante... Cá da terra blasphema ou ergue um hymno...

A idea encarna em peitos que palpitam: O seu pulsar são chamas que crepitam, Paixões ardentes como vivos soes!

Combatei pois na terra arida e bruta, Té que a revolva o remoinhar da lucta, Té que a fecunde o sangue dos heroes!

Justitia Mater

Nas florestas solemnes ha o culto Da eterna, intima força primitiva: Na serra, o grito audaz da alma captiva, Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constellado passa o vulto Do innominado Alguem, que os soes aviva: No mar ouve-se a voz grave e afflictiva D'um deus que lucta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde sôlta Se ergue, de sangue medida, a revolta, Como incendio que um vento bravo atiça,

Ha mais alta missão, mais alta gloria: O combater, á grande luz da historia, Os combates eternos da Justiça!

Palavras d'um certo Morto

Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto, Posto sobre um rochedo, á chuva e ao vento: Não ha como eu espectro macilento, Nem mais disforme que eu nenhum aborto...

Só o espirito vive: vela absorto N'um fixo, inexoravel pensamento: «Morto, enterrado em vida!» o meu tormento É isto só... do resto não me importo...

Que vivi sei-o eu bem... mas foi um dia, Um dia só--no outro, a Idolatria Deu-me um altar e um culto... ai! adoraram-me.

Como se eu fosse _alguem_! como se a Vida Podesse ser _alguem_!--logo em seguida Disseram que era um Deus... e amortalharam-me!

A UM POETA

_Surge et ambula_!

Tu, que dormes, espirito sereno, Posto á sombra dos cedros seculares, Como um levita á sombra dos altares, Longe da lucta e do fragor terreno,

Accorda! é tempo! O sol, já alto e pleno, Afugentou as larvas tumulares... Para surgir do seio d'esses mares, Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões! São teus irmãos, que se erguem! são canções... Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz sonho puro, Sonhador, faze espada de combate!

Hymno á Razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça, Mais uma vez escuta a minha prece. É a voz d'um coração que te appetece, D'uma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça De astros e soes e mundos permanece; E é por ti que a virtude prevalece, E a flor do heroismo medra e viça.

Por ti, na arena tragica, as nações Buscam a liberdade, entre clarões: E os que olham o futuro e scismam, mudos,

Por ti, podem soffrer e não se abatem, Mãe de filhos robustos, que combatem Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

1874--1880

HOMO

Nenhum de vós ao certo me conhece, Astros do espaço, ramos do arvoredo, Nenhum adivinhou o meu segredo, Nenhum interpretou a minha prece...

Ninguem sabe quem sou... e mais, parece Que ha dez mil annos já, neste degredo, Me vê passar o mar, vê-me o rochedo E me contempla a aurora que alvorece...

Sou um parto da Terra monstruoso; Do humus primitivo e tenebroso Geração casual, sem pae nem mãe...

Mixto infeliz de trevas e de brilho, Sou talvez Satanaz;--talvez um filho Bastardo de Jehovah;--talvez ninguem!

Disputa em familia

Dixit insipiens in corde suo: non est Deus.

I

Sae das nuvens, levanta a fronte e escuta O que dizem teus filhos rebellados, Velho Jehovah de longa barba hirsuta, Solitario em teus Céos acastellados:

«--Cessou o imperio emfim da força bruta! Não soffreremos mais, emancipados, O tyranno, de mão tenaz e astuta, Que mil annos nos trouxe arrebanhados!

Emquanto tu dormias impassivel, Topámos no caminho a liberdade Que nos sorrio com gesto indefinivel...

Já provámos os fructos da verdade... Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrivel. Não passas d'uma van banalidade!--»

II

Mas o velho tyranno solitario, De coração austero e endurecido, Que um dia, de enjoado ou distrahido, Deixou matar seu filho no Calvario,

Sorrio com rir extranho, ouvindo o vario Tumultuoso côro e alarido Do povo insipiente, que, atrevido, Erguia a voz em grita ao seu sacrario:

«--Vanitas vanitatum! (disse). É certo Que o homem vão medita mil mudanças, Sem achar mais do que erro e desacerto.

Muito antes de nascerem vossos paes D'um barro vil, ridiculas crianças, Sabia em tudo isso... e muito mais!--»

Mors liberatrix

(A Bulhão Pato)

Na tua mão, sombrio cavalleiro, Cavalleiro vestido de armas pretas, Brilha uma espada feita de cometas, Que rasga a escuridão como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro, Todo involto na noite que projectas... Só o gladio de luz com fulvas betas Emerge do sinistro nevoeiro.

--«Se esta espada que empunho é coruscante, (Responde o negro cavalleiro-andante) É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo... Prostro e desbarato, Mas consólo... Subverto, mas resgato... E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

O Inconsciente

O Espectro familiar que anda commigo, Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto, Que umas vezes encaro com desgosto E outras muitas ancioso espreito e sigo.

É um espectro mudo, grave, antigo, Que parece a conversas mal disposto... Ante esse vulto, ascetico e composto Mil vezes abro a bocca... e nada digo.

Só uma vez ousei interrogal-o: Quem és (lhe perguntei com grande abalo) Phantasma a quem odeio e a quem amo?

Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos, Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos... Mas eu por mim não sei como me chamo...

MORS-AMOR

(A Luiz de Magalhães)

Esse negro corcel, cujas passadas Escuto em sonhos, quando a sombra desce, E, passando a galope, me apparece Da noite nas phantasticas estradas.

D'onde vem elle? Que regiões sagradas E terriveis cruzou, que assim parece Tenebroso e sublime, e lhe estremece Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavalleiro de expressão potente, Formidavel, mas placido, no porte, Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera extranha sem temor. E o corcel negro diz: «Eu sou a Morte!» Responde o cavalleiro: «Eu sou o Amor!»

ESTOICISMO

(A Manoel Duarte de Almeida)

Tu que não crês, nem amas, nem esperas, Espirito de eterna negação, Teu halito gelou-me o coração E destroçou-me da alma as primaveras...

Atravessando regiões austeras, Cheias de noite e cava escuridão, Como n'um sonho mau, só oiço um não, Que eternamente ecchoa entre as espheras...

--Porque suspiras, porque te lamentas, Cobarde coração? Debalde intentas Oppor á Sorte a queixa do egoismo...

Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores A esperança van, seus vãos fulgores... Sabe tu encarar sereno o abysmo!

ANIMA MEA

Estava a Morte alli, em pé, diante, Sim, diante de mim, como serpente Que dormisse na estrada e de repente Se erguesse sob os pés do caminhante.

Era de ver a funebre bacchante! Que torvo olhar! que gesto de demente! E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente, Loba faminta, pelo mundo errante?»

--Não temas, respondeu (e uma ironia Sinistramente estranha, atroz e calma, Lhe torceu cruelmente a bocca fria).

Eu não busco o teu corpo... Era um tropheu Glorioso de mais... Busco a tua alma-- Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»

Divina comedia

(Ao Dr. José Falcão)

Erguendo os braços para o céo distante E apostrophando os deuses invisiveis, Os homens clamam:--«Deuses impassiveis, A quem serve o destino triumphante,

Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inestinguiveis, Dor, peccado, illusão, luctas horriveis, N'um turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem:--«Homens! porque é que nos criastes?»

Espiritualismo

I

Como um vento de morte e de ruina, A Duvida soprou sobre o Universo. Fez-se noite de subito, immerso O mundo em densa e algida neblina.

Nem astro já reluz, nem ave trina, Nem flor sorri no seu aereo berço. Um veneno sutil, vago, disperso, Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa, Do silencio glacial, que paira e estende O seu sudario, d'onde a morte pende,

Só uma flor humilde, mysteriosa, Como um vago protesto da existencia, Desabroxa no fundo da Consciencia.

II

Dorme entre os gelos, flor immaculada! Lucta, pedindo um ultimo clarão Aos soes que ruem pela immensidão, Arrastando uma aureola apagada...

Em vão! Do abysmo a bocca escancarada Chama por ti na gélida amplidão... Sobe do poço eterno, em turbilhão, A treva primitiva conglobada...

Tu morrerás tambem. Um ai supremo, Na noite universal que envolve o mundo, Ha-de ecchoar, e teu perfume extremo

No vacuo eterno se esvahirá disperso, Como o alento final d'um moribundo, Como o ultimo suspiro do Universo.

O CONVERTIDO

(A Gonçalves Crespo)

Entre os filhos d'um seculo maldito Tomei tambem o logar na impia meza, Onde, sob o folgar, geme a tristeza D'uma ancia impotente de infinito.

Como os outros, cuspi no altar avito Um rir feito de fel e de impureza... Mas, um dia, abalou-se-me a firmeza, Deu-me rebate o coração contrito!

Erma, cheia de tedio e de quebranto, Rompendo os diques ao represo pranto, Virou-se para Deus minha alma triste!

Amortalhei na fé o pensamento, E achei a paz na inercia e esquecimento... Só me falta saber se Deus existe!

ESPECTROS

Espectros que velaes, emquanto a custo Adormeço um momento, e que inclinados Sobre os meus somnos curtos e cançados Me encheis as noites de agonia e susto!...

De que me vale a mim ser puro e justo, E entre combates sempre renovados Disputar dia a dia á mão dos Fados Uma parcella do saber augusto,

Se a minh'alma ha-de ver, sobre si fitos, Sempre esses olhos tragicos, malditos! Se até dormindo, com angustia immensa,

Bem os sinto verter sobre o meu leito, Uma a uma verter sobre o meu peito As lagrimas geladas da descrença!

Á Virgem Santissima

_Cheia de Graça, Mãe de Misericordia_

N'um sonho todo feito de incerteza, De nocturna e indizivel anciedade, É que eu vi teu olhar de piedade E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da belleza, Nem o ardor banal da mocidade... Era outra luz, era outra suavidade, Que até nem sei se as ha na natureza...

Um mystico soffrer... uma ventura Feita só do perdão, só da ternura E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa! Fita-me assim calada, assim chorosa... E deixa-me sonhar a vida inteira!

NOX

(A Fernando Leal)

Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, á luz cruel do dia, Tanto esteril luctar, tanta agonia, E inuteis tantos asperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exhalam da tragica enxovia... O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descança e esquece, alguns momentos...

Oh! antes tu tambem adormecesses Por uma vez, e eterna, inalteravel, Cahindo sobre o mundo, te esquecesses,

E elle, o mundo, sem mais luctar nem ver, Dormisse no teu seio inviolavel, Noite sem termo, noite do Não-ser!

EM VIAGEM

Pelo caminho estreito, aonde a custo Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte, Mas só bruta aridez de aspero monte E os soes e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto E sem susto encarei, vendo-os defronte, Phantasmas que surgiam do horizonte A accommetter meu coração robusto...

Quem sois vós, peregrinos singulares? Dor, Tedio, Desenganos e Pesares... Atraz d'elles a Morte espreita ainda...

Conheço-vos. Meus guias derradeiros Sereis vós. Silenciosos companheiros, Bemvindos, pois, e tu, Morte, bemvinda!

Quia aeternus

(A Joaquim de Araujo)

Não morreste, por mais que o brade á gente Uma orgulhosa e van philosophia... Não se sacode assim tão facilmente O jugo da divina tyrannia!

Clamam em vão, e esse triumpho ingente Com que a Razão--coitada!--se inebria, É nova forma, apenas, mais pungente, Da tua eterna, tragica ironia.

Não, não morreste, espectro! o Pensamento Como d'antes te encara, e és o tormento De quantos sobre os livros desfallecem.

E os que folgam na orgia impia e devassa Ai! quantas vezes ao erguer a taça, Param, e estremecendo, empallidecem!

No turbilhão

(A Jayme Batalha Reis)

No meu sonho desfilam as visões, Espectros dos meus proprios pensamentos, Como um bando levado pelos ventos, Arrebatado em vastos turbilhões...

N'uma espiral, de estranhas contorsões, E d'onde sáem gritos e lamentos, Vejo-os passar, em grupos nevoentos, Distingo-lhes, a espaços, as feições...

--Phantasmas de mim mesmo e da minha alma, Que me fitaes com formidavel calma, Levados na onda turva do escarceo,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes? Quem sois, visões miserrimas e atrozes? Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...

IGNOTUS

(A Salomão Sáragga)

Onde te escondes? Eis que em vão clamamos, Suspirando e erguendo as mãos em vão! Já a voz enrouquece e o coração Está cançado--e já desesperamos...

Por céo, por mar e terras procuramos O Espirito que enche a solidão, E só a propria voz na immensidão Fatigada nos volve... e não te achamos!

Céos e terra, clamai, aonde? aonde?-- Mas o Espirito antigo só responde, Em tom de grande tedio e de pezar:

--Não vos queixeis, ó filhos da anciedade, Que eu mesmo, desde toda a eternidade, Tambem me busco a mim... sem me encontrar!

NO CIRCO

(A João de Deus)

Muito longe d'aqui, nem eu sei quando, Nem onde era esse mundo, em que eu vivia... Mas tão longe... que até dizer podia Que emquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aereo e brando, E lucida a existencia amanhecia... E eu... leve como a luz... até que um dia Um vento me tomou, e vim rolando...

Cahi e achei-me, de repente, involto Em lucta bestial, na arena fera, Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n'essa hora, E achei-me de improviso feito fera... --É assim que rujo entre leões agora!

NIRVÂNA

(A Guerra Junqueiro)

Para além do Universo luminoso, Cheio de fórmas, de rumor, de lida, De forças, de desejos e de vida, Abre-se como um vacuo tenebroso.

A onda d'esse mar tumultuoso Vem ali expirar, esmaecida... N'uma immobilidade indefinida Termina ali o ser, inerte, ocioso...

E quando o pensamento, assim absorto, Emerge a custo d'esse mundo morto E torna a olhar as cousas naturaes,

Á bella luz da vida, ampla, infinita, Só vê com tedio, em tudo quanto fita, A illusão e o vasio universaes.

CONSULTA

(A Alberto Sampaio)

Chamei em volta do meu frio leito As memorias melhores de outra edade, Fórmas vagas, que ás noites, com piedade, Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito...

E disse-lhes:--No mundo immenso e estreito Valia a pena, acaso, em anciedade Ter nascido? dizei-mo com verdade, Pobres memorias que eu ao seio estreito...

Mas ellas perturbaram-se--coitadas! E empallideceram, contristadas, Ainda a mais feliz, a mais serena...

E cada uma d'ellas, lentamente, Com um sorriso morbido, pungente, Me respondeu:--Não, não valia a pena!

Divina comedia

(Ao Dr. José Falcão)

Erguendo os braços para o céo distante E apostrophando os deuses invisiveis, Os homens clamam:--«Deuses impassiveis, A quem serve o destino triumphante,

Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inestinguiveis, Dor, peccado, illusão, luctas horriveis, N'um turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem:--«Homens! porque é que nos criastes?»

VISÃO

(A J. M. Eça de Queiroz)

Eu vi o Amor--mas nos seus olhos baços Nada sorria já: só fixo e lento Morava agora ali um pensamento De dor sem tregoa e de intimos cançaços.