Os sonetos completos de Anthero de Quental
Part 3
Pura essencia das lagrimas que chóro E sonho dos meus sonhos! se és verdade, Descobre-te, visão, ao céo ao menos!
LAMENTO
Um diluvio de luz cae da montanha: Eis o dia! eis o sol! o esposo amado! Onde ha por toda a terra um só cuidado Que não dissipe a luz que o mundo banha?
Flor a custo medrada em erma penha, Revolto mar ou golfo congelado, Aonde ha ser de Deus tão olvidado Para quem paz e alivio o céo não tenha?
Deus é Pae! Pae de toda a creatura: E a todo o ser o seu amor assiste: De seus filhos o mal sempre é lembrado...
Ah! se Deus a seus filhos dá ventura N'esta hora santa... e eu só posso ser triste... Serei filho, mas filho abandonado!
A M.C.
Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa: O que fada o poeta e o soldado Volveu a ti o olhar, de amor velado, E disse-te: «vae, filha, sê formosa!»
E tu, descendo na onda harmoniosa, Pousaste n'este solo angustiado, Estrella envolta n'um clarão sagrado, Do teu limpido olhar na luz radiosa...
Mas eu... posso eu acaso merecer-te? Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado, Anjo! Deu-te o Senhor um mundo á parte.
E a mim, a quem deu olhos para ver-te, Sem poder mais... a mim o que me ha dado? Voz, que te cante, e uma alma para amar-te!
A Santos Valente
Estreita é do prazer na vida a taça: Largo, como o oceano é largo e fundo, E como elle em venturas infecundo, O cális amargoso da desgraça.
E comtudo nossa alma, quando passa incerta peregrina, pelo mundo, Prazer só pede à vida, amor fecundo, É com essa esperança que se abraça.
É lei de Deus este aspirar immenso... E comtudo a illusão impoz à vida. E manda buscar luz e dá-nos treva!
Ah! se Deus accendeu um foco intenso De amor e dor em nós, na ardente lida, Porque a miragem cria... ou porque a leva?
Tormanto do Ideal
Conheci a Belleza que não morre E fiquei triste. Como quem da serra Mais alta que haja, olhando aos pés a terra E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre: Assim eu vi o mundo e o que elle encerra Perder a côr, bem como a nuvem que erra Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à fórma, em vão, a idea pura, Tropéço, em sombras, na materia dura. E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o baptismo dos poetas, E assentado entre as fórmas incompletas Para sempre fiquei pallido e triste.
ASPIRAÇÃO
Meus dias vão correndo vagarosos Sem prazer e sem dôr, e até parece Que o foco interior já desfallece E vacilla com raios duvidosos.
É bella a vida e os annos são formosos, E nunca ao peito amante o amor fallece... Mas, se a belleza aqui nos apparece, Logo outra lembra de mais puros gosos.
Minh'alma, ó Deus! a outros céos aspira: Se um momento a prendeu mortal belleza, É pela eterna patria que suspira...
Porém do presentir dá-me a certeza. Dá-ma! e sereno, embora a dôr me fira, Eu sempre bemdirei esta tristeza!
A FLORIDO TELLES
Se comparo poder ou ouro ou fama, Venturas que em si têm occulto o damno, Com aquele outro affecto soberano, Que amor se diz e é luz de pura chama,
Vejo que são bem como arteira dama, Que sob honesto riso esconde o engano, E o que as segue, como homem leviano Que por um vão prazer deixa quem ama.
Nasce do orgulho aquelle esteril goso E a gloria d'elle é cousa fraudulenta, Como quem na vaidade tem a palma:
Tem na paixão seu brilho mais formoso E das paixões tambem some-o a tormenta... Mas a gloria do amor... essa vem d'alma!
PSALMO
Esperemos em Deus! Elle ha tomado Em suas mãos a massa inerte e fria Da materia impotente e, n'um só dia, Luz, movimento, acção, tudo lhe ha dado.
Elle, ao mais pobre de alma, ha tributado Desvelo e amor: elle conduz á via Segura quem lhe foge e se extravia, Quem pela noite andava desgarrado.
E a mim, que aspiro a elle, a mim, que o amo, Que anceio por mais vida e maior brilho. Ha-de negar-me o termo d'este anceio?
Buscou quem o não quiz; e a mim, que o chamo, Ha-de fugir-me, como a ingrato filho? Ó Deus, meu pae e abrigo! espero!... eu creio!
A M.C.
No céo, se existe um céo para quem chora. Céo, para as magoas de quem soffre tanto... Se é lá do amor o foco, puro e santo, Chama que brilha, mas que não devora...
No céo, se uma alma n'esse espaço mora. Que a prece escuta e encharga o nosso pranto... Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto Do amor piedoso... que eu não sinto agora...
No céo, ó virgem! findarão meus males: Hei-de lá renascer, eu que pareço Aqui ter só nascido para dôres.
Ali, ó lyrio dos celestes valles! Tendo seu fim, terão o seu começo. Para não mais findar, nossos amores.
A João de Deus
Se é lei, que rege o escuro pensamento, Ser vã toda a pesquisa da verdade, Em vez da luz achar a escuridade, Ser uma queda nova cada invento;
É lei tambem, embora cru tormento, Buscar, sempre buscar a claridade, E só ter como certa realidade O que nos mostra claro o entendimento.
O que ha-de a alma escolher, em tanto engano? Se uma hora crê de fé, logo duvida: Se procura, só acha... o desatino!
Só Deus póde acudir em tanto damno: Esperemos a luz d'uma outra vida, Seja a terra degredo, o céo destino.
A Alberto Telles
Só!--Ao ermita sósinho na montanha Visita-o Deus e dá-lhe confiança: No mar, o nauta, que o tufão balança, Espera um sopro amigo que o céo tenha...
Só!--Mas quem se assentou em riba estranha, Longe dos seus, lá tem inda a lembrança: E Deus deixa-lhe ao menos a esperança Ao que á noite soluça em erma penha...
Só!--Não o é quem na dor, quem nos cançaços, Tem um laço que o prenda a este fadario. Uma crença, um desejo... e inda um cuidado...
Mas cruzar, com desdem, inertes braços, Mas passar, entre turbas, solitario, Isto é ser só, é ser abandonado!
A J. Felix dos Santos
Sempre o futuro, sempre! e o presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste, E só farte o desejo um bem ausente!
Ai! que importa o futuro, se inclemente Essa hora, em que a esperança nos consiste, Chega... é presente... e só á dor assiste?... Assim, qual é a esperança que não mente?
Desventura ou delirio?... O que procuro, Se me foge, é miragem enganosa, Se me espera, peor, espectro impuro...
Assim a vida passa vagarosa: O presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra mentirosa.
A M. C.
Porque descrês, mulher, do amor, da vida? Porque esse Hermon transformas em Calvario? Porque deixas que, aos poucos, do sudario Te aperte o seio a dobra humedecida?
Que visão te fugio, que assim perdida Buscas em vão n'este ermo solitario? Que signo obscuro de cruel fadario Te faz trazer a fronte ao chão pendida?
Nenhum! intacto o bem em ti assiste: Deus, em penhor, te deu a formosura; Bençãos te manda o céo em cada hora.
E descrês do viver?... E eu, pobre e triste, Que só no teu olhar leio a ventura, Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?
A Alberto Sampaio
Não me fales de gloria: é outro o altar Onde queimo piedoso o meu incenso, E animado de fogo mais intenso, De fé mais viva, vou sacrificar.
A gloria! pois que ha n'ella que adorar? Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso... Que vislumbre nos dá do amor immenso? Esse amor que ventura faz gosar?
Ha outro mais perfeito, unico eterno, Farol sobre ondas tormentosas firme, De immoto brilho, poderoso e terno...
Só esse hei-de buscar, e confundir-me Na essencia do amor puro, sempiterno... Quero só n'esse fogo consumir-me!
A Germano Meyrelles
Só males são reaes, só dor existe; Prazeres só os gera a phantasia; Em nada, um imaginar, o bem consiste, Anda o mal em cada hora e instante e dia.
Se buscamos o que é, o que devia Por natureza ser não nos assiste; Se fiamos n'um bem, que a mente cria, Que outro remedio ha ahi senão ser triste?
Oh! quem tanto pudera, que passasse A vida em sonhos só, e nada vira... Mas, no que se não vê, labor perdido!
Quem fôra tão ditoso que olvidasse... Mas nem seu mal com elle então dormira, Que sempre o mal peor é ter nascido!
A M. C.
Não busco n'esta vida gloria ou fama: Das turbas que me importa o vão ruído? Hoje, deus... e amanhã, já esquecido Como esquece o clarão de extincta chama!
Foco incerto, que a luz já mal derrama, Tal é essa ventura: eccho perdido, Quanto mais se chamou, mais escondido Ficou inerte e mudo á voz que o chama.
D'essa coroa é cada flor um engano, É miragem em nuvem illusoria, É mote vão de fabuloso arcano.
Mas coroa-me tu: na fronte ingloria Cinge-me tu o louro soberano... Verás, verás então se amo essa gloria!
AD AMICOS
Em vão luctamos. Como nevoa baça, A incerteza das cousas nos envolve. Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve, Nas suas proprias redes se embaraça.
O pensamento, que mil planos traça, É vapor que se esvae e se dissolve; E a vontade ambiciosa, que resolve, Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do Amor, nossa alma é como um hymno Á luz, á liberdade, ao bem fecundo, Prece e clamor d'um presentir divino;
Mas n'um deserto só, arido e fundo, Ecchoam nossas vozes, que o Destino Paira mudo e impassivel sobre o mundo.
A um crucifixo
Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente, O horizonte futuro e viste, em tua mente, Um alvor ideal banhar esses espaços!
Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos, E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente? Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente Arrojáras de nova á campa os membros lassos...
Agora, como então, na mesma terra erma, A mesma humanidade é sempre a mesma enferma, Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario...
E agora, como então, viras o mundo exangue, E ouviras perguntar--de que servio o sangue Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?--
Desesperança
Vae-te na aza negra da desgraça, Pensamento de amor, sombra d'uma hora, Que abracei com delirio, vae-te, embora, Como nuvem que o vento impelle... e passa.
Que arrojemos de nós quem mais se abraça, Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora D'essa alma o sangue, com que vigora, Como amigo commungue á mesma taça!
Que seja sonho apenas a esperança, Emquanto a dor eternamente assiste. E só engano nunca a desventura!
Se era silencio soffrer fôra vingança!.. Envolve-te em ti mesma, ó alma triste, Talvez sem esperança haja ventura!
BEATRICE
Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando, Se foi a nuvem d'ouro ideal que eu vira erguida: Depois que vi descer, baixar no céo da vida Cada estrella e fiquei nas trevas laborando:
Depois que sobre o peito os braços apertando Achei o vacuo só, e tive a luz sumida Sem ver já onde olhar, e em todo vi perdida A flor do meu jardim, que eu mais andei regando:
Retirei os meus pés da senda dos abrolhos, Virei-me a outro céo, nem ergo já meus olhos Senão á estrella ideal, que a luz d'amor contém...
Não temas pois--Oh vem! o céo é puro, e calma E silenciosa a terra, e doce o mar, e a alma... A alma! não vês tu? mulher, mulher! oh vem!
1862--1866
AMOR VIVO
Amar! mas d'um amor que tenha vida... Não sejam sempre timidos harpejos, Não sejam só delirios e desejos D'uma douda cabeça escandecida...
Amor que vive e brilhe! luz fundida Que penetre o meu ser--e não só beijos Dados no ar--delirios e desejos-- Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia Não virá dissipal-o nos meus braços Como nevoa da vaga phantasia...
Nem murchará do sol á chama erguida... Pois que podem os astros dos espaços Contra debeis amores... se têm vida?
VISITA
Adornou o meu quarto a flor do cardo, Perfumei-o de almiscar recendente; Vesti-me com a purpura fulgente, Ensaiando meus cantos, como um bardo;
Ungi as mãos e a face com o nardo Crescido nos jardins do Oriente, A receber com pompa, dignamente, Mysteriosa visita a quem aguardo.
Mas que filha de reis, que anjo ou que fada Era essa que assim a mim descia, Do meu casebre á humida pousada?...
Nem princezas, nem fadas. Era, flor, Era a tua lembrança que batia Ás portas de ouro e luz do meu amor!
PEQUENINA
Eu bem sei que te chamam _pequenina_ E tenue como o véo solto na dança, Que és no juizo apenas a _criança_, Pouco mais, nos vestidos, que a _menina_...
Que és o regato de agua mansa e fina, A folhinha do til que se balança, O peito que em correndo logo cança, A fronte que ao soffrer logo se inclina...
Mas, filha, lá nos montes onde andei, Tanto me enchi de angustia e de receio Ouvindo do infinito os fundos ecchos,
Que não quero imperar nem já ser rei Senão tendo meus reinos em teu seio E subditos, criança, em teus bonecos!
A SULAMISA
Ego dormio, et cor meum vigilat. CANTICO DOS CANTICOS.
Quem anda lá por fóra, pela vinha Na sombra do luar meio cacoberto, Sutil nos passos e espreitando incerto, Com brando respirar de criancinha?
Um sonho me accordou... não sei que tinha... Pareceu-me sentil-o aqui tão perto... Seja alta noite, seja n'um deserto, Quem ama até em sonhos adivinha...
Môças da minha terra, ao meu amado Correi, dizei-lhe que eu dormia agora, Mas que póde ir contente e descançado,
Pois se tão cedo adormeci, conforme É meu costume, olhae, dormia embora, Porque o meu coração é que não dorme...
Sonho oriental
Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha, Muito longe, nos mares do Oriente, Onde a noite é balsamica e fulgente E a lua cheia sobre as aguas brilha...
O aroma da magnolia e da baunilha Paira no ar diaphano e dormente... Lambe a orla dos bosques, vagamente, O mar com finas ondas de escumilha...
E emquanto eu na varanda de marfim Me encosto, absorto n'um scismar sem fim, Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras, Ou descanças debaixo das palmeiras, Tendo aos pés um leão familiar.
Quinze annos
Eu amo a vasta sombra das montanhas, Que estendem sobre os largos continentes Os seus braços de rocha negra, ingentes, Bem como braços colossaes aranhas.
D'ali o nosso olhar vê tão estranhas Cousas, por esse céo! e tão ardentes Visões, lá n'esse mar de ondas trementes! E ás estrellas, d'ali, vê-as tamanhas!
Amo a grandeza mysteriosa e vasta... A grande idea, como a flor e o viço Da arvore colossal que nos domina...
Mas tu, criança, sê tu boa... e basta: Sabe amar e sorrir... é pouco isso? Mas a ti só te quero pequenina!
IDYLLIO
Quando nós vamos ambos, de mãos dadas, Colher nos valles lyrios e boninas, E galgamos d'um folego as colinas Dos rocios da noite inda orvalhadas;
Ou, vendo o mar, das ermas cumiadas, Contemplamos as nuvens vespertinas, Que parecem phantasticas ruinas Ao longe, no horisonte, amontoadas:
Quantas vezes, de subito, emmudeces! Não sei que luz no teu olhar fluctua; Sinto tremer-te a mão, e empallideces...
O vento e o mar murmuram orações, E a poesia das cousas se insinua Lenta e amorosa em nossos corações.
NOCTURNO
Espirito que passas, quando o vento Adormece no mar e surge a lua, Filho esquivo da noite que fluctua, Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longinquo--triste e lento-- Que voga e sutilmente se insinua, Sobre o meu coração, que tumultua, Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva Um instincto de luz, rompendo a treva, Buscando, entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome, A febre de Ideal, que me consome, Tu só, Genio da Noite, e mais ninguem!
SONHO
Sonhei--nem sempre o sonho é cousa vã-- Que um vento me levava arrebatado, Atravez d'esse espaço constellado Onde uma aurora eterna ri louçã...
As estrellas, que guardam a manhã, Ao verem-me passar triste e calado, Olhavam-me e dixiam com cuidado: Onde está, pobre amigo, a nossa irmã?
Mas eu baixava os olhos, receoso Que trahissem as grandes magoas minhas, E passava furtivo e silencioso,
Nem ousava contar-lhes, ás estrellas, Contar ás tuas puras irmansinhas Quanto és falsa, meu bem, e indigna d'ellas!
AMARITUDO
Só por ti, astro ainda e sempre occulto, Sombra do Amor e sonho da Verdade, Divago eu pelo mundo e em anciedade Meu proprio coração em mim sepulto.
De templo em templo, em vão, levo o meu culto, Levo as flores d'uma intima piedade. Vejo os votos da minha mocidade Receberem sómente escarneo e insulto.
Á beira do caminho me assentei... Escutarei passar o agreste vento, Exclamando: assim passe quando amei!--
Oh minh'alma, que creste na virtude! O que será velhice e desalento, Se isto se chama aurora e juventude?
ABNEGAÇÃO
Chovam lyrios e rosas no teu collo! Chovam hymnos de gloria na tua alma! Hymnos de gloria e adoração e calma, Meu amor, minha pomba e meu consolo!
Dê-te estrellas o céo, flores o solo, Cantos e aroma o ar e sombra a palmar. E quando surge a lua e o mar se acalma, Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!
E nem sequer te lembres de que eu chóro... Esquece até, esquece, que te adoro... E ao passares por mim, sem que me olhes,
Possam das minhas lagrimas crueis Nascer sob os teus pés flores fieis, Que pises distrahida ou rindo esfolhes!
APPARIÇÃO
Um dia, meu amor (e talvez cedo, Que já sinto estalar-me o coração!) Recordarás com dor e compaixão As ternas juras que te fiz a medo...
Então, da casta alcova no segredo, Da lamparina ao tremulo clarão, Ante ti surgirei, espectro vão, Larva fugida ao sepulcral degredo...
E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos E afflictos ais, estenderás os braços Tentando segurar-te aos meus vestidos...
--«Ouve! espera!»--Mas eu, sem te escutar, Fugirei, como um sonho, aos teus abraços E como fumo sumir-me-hei no ar!
ACCORDANDO
Em sonho, ás vezes, se o sonhar quebranta Este meu vão soffrer; esta agonia, Como sobe cantando a cotovia, Para o céo a minh'alma sobe e canta.
Canta a luz, a alvorada, a estrella santa, Que ao mundo traz piedosa mais um dia... Canta o enlevo das cousas, a alegria Que as penetra de amor e as alevanta...
Mas, de repente, um vento humido e frio Sopra sobre o meu sonho: um calafrio Me accorda.--A noite é negra e muda: a dor
Cá vela, como d'antes, ao meu lado... Os meus cantos de luz, anjo adorado, São sonho só, e sonho o meu amor!
MÃE...
Mãe--que adormente este viver dorido, E me vele esta noite de tal frio, E com as mãos piedosas ate o fio Do meu pobre existir, meio partido...
Que me leve comsigo, adormecido, Ao passar pelo sitio mais sombrio... Me banhe e lave a alma lá no rio Da clara luz do seu olhar querido...
Eu dava o meu orgulho de homem--dava Minha esteril sciencia, sem receio, E em debil criancinha me tornava.
Descuidada, feliz, docil tambem, Se eu podesse dormir sobre o teu seio, Se tu fosses, querida, a minha mãe!
Na capella
Na capella, perdida entre a folhagem, O Christo, lá no fundo, agonisava... Oh! como intimamente se casava Com minha dor a dor d'aquella imagem!
Filhos ambos do amor, igual miragem Nos roçou pela fronte, que escaldava... Igual traição, que o affecto mascarava, Nos deu supplicio ás mãos da villanagem...
E agora, ali, em quanto da floresta A sombra se infiltrava lenta e mesta, Vencidos ambos, martyres do Fado,
Fitavamo-nos mudos--dor igual!-- Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual Mais pallido, mais triste e mais cançado...
Velut Umbra
Fumo e scismo. Os castellos do horizonte Erguem-se, á tarde, e crescem, de mil cores, E ora espalham no céo vivos ardores, Ora fumam, vulcões de estranho monte...
Depois, que formas vagas vêm defronte, Que parecem sonhar loucos amores? Almas que vão, por entre luz e horrores, Passando a barca d'esse aereo Acheronte...
Apago o meu charuto quando apagas Teu facho, oh sol... ficamos todos sós... É n'esta solidão que me consumo!
Oh nuvens do Occidente, oh cousas vagas, Bem vos entendo a cor, pois, como a vós, Belleza e altura se me vão em fumo!
MEA CULPA
Não duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia; Que o homem suba e vá da noite ao dia, E o homem vá subindo insecto o seixo.
Não chamo a Deus tyranno, nem me queixo, Nem chamo ao céo da vida noite fria; Não chamo á existencia hora sombria; Acaso, á ordem; nem á lei desleixo.
A Natureza é minha mãe ainda... É minha mãe... Ah, se eu á face linda Não sei sorrir: se estou desesperado;
Se nada ha que me aqueça esta frieza; Se estou cheio de fel e de tristeza... É de crer que só eu seja o culpado!
O Palacio da Ventura
Sonho que sou um cavalleiro andante. Por desertos, por sóes, por noite escura, Paladino do amor, busco anhelante O palacio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exhausto e vacillante. Quebrada a espada já, roda a armadura... E eis que subito o avisto, fulgurante Na sua pompa e aerea formosura!
Com grandes golpes bato á porta e brado: Eu sou o Vagabundo, o Desherdado... Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor... Mas dentro encontro só, cheio de dor, Silencio e escuridão--e nada mais!
JURA
Pelas rugas da fronte que medita... Pelo olhar que interroga--e não vê nada... Pela miseria e pela mão gelada Que apaga a estrella que nossa alma fita...
Pelo estertor da chama que crepita No ultimo arranco d'uma luz minguada... Pelo grito feroz da abandonada Que um momento de amante fez maldita...
Por quanto ha de fatal, que quanto ha mixto De sombra e de pavor sob uma lousa... Oh pomba meiga, pomba de esperança!
Eu t'o juro, menina, tenho visto Cousas terriveis--mas jamais vi cousa Mais feroz do que um riso de criança!
IDEAL
Aquella, que eu adoro, não é feita De lyrios nem de rosas purpurinas, Não tem as formas languidas, divinas Da antiga Venus de cintura estreita...
Não é a Circe, cuja mão suspeita Compõe filtros mortaes entre ruinas, Nem a Amazona, que se agarra ás crinas D'um corcel e combate satisfeita...
A mim mesmo pergunto, e não atino Com o nome que dê a essa visão, Que ora amostra ora esconde o meu destino...
É como uma miragem, que entrevejo, Ideal, que nasceu na solidão, Nuvem, sonho impalpavel do Desejo...
Emquanto outros combatem
Empunhasse eu a espada dos valentes! Impellisse-me a acção, embriagado, Por esses campos onde a Morte e o Fado Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!
Respirariam meus pulmões contentes O ar de fogo do circo ensanguentado... Ou cahira radioso, amortalhado Na fulva luz dos gladios reluzentes!
Já não veria dissipar-se a aurora De meus inuteis annos, sem uma hora Viver mais que de sonhos e anciedade!
Já não veria em minhas mãos piedosas Desfolhar-se, uma a uma, as tristes rosas D'esta pallida e esteril mocidade!
DESPONDENCY
Deixal-a ir, a ave, a quem roubaram Ninho e filhos e tudo, sem piedade... Que a leve o ar sem fim da soledade Onde as azas partidas a levaram...
Deixal-a ir, a vela, que arrojaram Os tufões pelo mar, na escuridade, Quando a noite surgio da immensidade, Quando os ventos do Sul levantaram...
Deixal-a ir, a alma lastimosa, Que perdeu fé e paz e confiança, Á morte queda, á morte silenciosa...
Deixal-a ir, a nota desprendida D'um canto extremo... e a ultima esperança... E a vida... e o amor... deixal-a ir, a vida!
Das Unnennbare
Oh chimera, que passas embalada Na onda de meus sonhos dolorosos, E roças co'os vestidos vaporosos A minha fronte pallida e cançada!
Leva-te o ar da noite socegada... Pergunto em vão, com olhos anciosos, Que nome é que te dão os venturosos No teu paiz, mysteriosa fada!
Mas que destino o meu! e que luz baça A d'esta aurora, igual á do sol posto, Quando só nuvem livida esvoaça!
Que nem a noite uma illusão consinta! Que só de longe e em sonhos te presinta... E nem em sonhos possa ver-te o rosto!
Metempsychose
Ausentes filhas do prazer: dizei-me! Vossos sonhos quaes são, depois da orgia? Acaso nunca a imagem fugidia Do que fostes, em vós se agita e freme?
N'outra vida e outra esphera, aonde geme Outro vento, e se accende um outro dia, Que corpo tinheis? que materia fria Vossa alma incendiou, com fogo estreme?
Vós fostes nas florestas bravas feras, Arrastando, leôas ou pantheras, De dentadas de amor um corpo exangue...
Mordei pois esta carne palpitante, Feras feitas de gaze fluctuante... Lobas! leôas! sim, bebei meu sangue!
UMA AMIGA
Aquelles, que eu amei, não sei que vento Os dispersou no mundo, que os não vejo... Estendo os braços e nas trevas beijo Visões que á noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento Que a saudade dos mortos... que eu invejo... Passam por mim, mas como que têm pejo Da minha soledade e abatimento!